===== CRIAÇÃO ===== O [[lexico:t:termo|termo]] criação pode entender-se, filosoficamente, em [[lexico:q:quatro|Quatro]] sentidos: 1: produção humana de algo a partir de alguma [[lexico:r:realidade|realidade]] preexistente, mas de tal [[lexico:f:forma|forma]] que o produzido [[lexico:n:nao|não]] esteja necessariamente nessa realidade; 2: produção [[lexico:n:natural|natural]] de algo a partir de algo preexistente, mas sem que o [[lexico:e:efeito|efeito]] esteja excluído na [[lexico:c:causa|causa]], ou sem que haja estrita [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de tal efeito; 3: produção divina de algo a partir de uma realidade preexistente, resultando uma [[lexico:o:ordem|ordem]] ou um cosmos de um [[lexico:c:caos|caos]] anterior. 4: produção divina de algo a partir do [[lexico:n:nada|nada]]. O [[lexico:s:sentido|sentido]] 1 é o que se dá usualmente à produção humana de [[lexico:b:bens|bens]] culturais, e muito em [[lexico:p:particular|particular]] à produção ou [[lexico:c:criacao-artistica|criação artística]]. O sentido 2 foi usado especialmente por autores que deram certas interpretações à [[lexico:e:evolucao|evolução]] do [[lexico:m:mundo|mundo]] e especialmente das espécies biológicas. É o que acontece com a [[lexico:n:nocao|noção]] de [[lexico:e:evolucao-criadora|evolução criadora]], [[lexico:b:bergson|Bergson]]. O sentido 3 é o que se dá à criação quando se interpreta sob a forma de um [[lexico:d:demiurgo|demiurgo]] de [[lexico:t:tipo|tipo]] platônico. Também se pode incluir neste sentido a noção de [[lexico:e:emanacao|emanação]], mas então há que introduzir modificações substanciais. Quanto ao sentido 4, é o que foi considerado mais [[lexico:p:proprio|próprio]] da [[lexico:t:tradicao|tradição]] hebraico-cristã. A criação no sentido de uma produção original de algo, mas à base de alguma realidade preexistente, foi amplamente tratada pelos gregos. Estes não podiam admitir nem conceber outra forma de criação. A essa produção chamaram os gregos [[lexico:p:poesia|poesia]], [[lexico:o:obra|obra]], produção. Podia [[lexico:t:ter|ter]] [[lexico:l:lugar|lugar]] sob diversas formas e em diversas realidades. Quando a produção tinha lugar no [[lexico:p:pensamento|pensamento]], deparavam-se-lhe certas dificuldades: produzir um pensamento não parece [[lexico:s:ser|ser]] a mesma [[lexico:c:coisa|coisa]] que produzir um [[lexico:o:objeto|objeto]]. Contudo, os gregos procuraram entender um [[lexico:m:modo-de-producao|modo de produção]] a partir do [[lexico:o:outro|outro]]. Uns epicuristas em [[lexico:p:parte|parte]] estoicos - procuraram [[lexico:e:explicar|explicar]] a produção do pensamento por [[lexico:a:analogia|analogia]] com a produção de [[lexico:c:coisas|coisas]]. Outros - principalmente os neoplatônicos - seguiram o [[lexico:c:caminho|caminho]] inverso. Esta última concepção estendeu-se rapidamente no final do mundo antigo, a tal [[lexico:p:ponto|ponto]] que, por vezes, foi considerada a tipicamente helênica. Basta notar que o pensamento [[lexico:g:grego|grego]], particularmente na sua última [[lexico:e:epoca|época]], realizou muitos esforços para explicar a produção metafisicamente, mas sem chegar nunca à [[lexico:i:ideia|ideia]] hebraico-cristã de criação a partir do nada. Esta última ideia não é, em [[lexico:a:absoluto|absoluto]], tributária do pensamento grego, embora se tenha depois utilizado amplamente este com o [[lexico:f:fim|fim]] da explicitar. Em contrapartida, na tradição hebraico-cristã, é central a ideia de criação como criação do nada. Já está expressa em parte nas Escrituras. A noção de criação, tal como foi proposta dentro do judaísmo e tal como atingiu a maturidade intelectual dentro do mundo cristão, admite uma [[lexico:c:causalidade|causalidade]] eficiente de [[lexico:n:natureza|natureza]] absoluta e divina. O [[lexico:m:modo|modo]] de criação por produção aparece como próprio e exclusivo de um [[lexico:a:agente|agente]] que, em vez de extrair de si uma [[lexico:s:substancia|substância]] parecida e, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], separada, ou em vez de fazer emergir de si um modo de ser novo e distinto, leva fora de si à [[lexico:e:existencia|existência]] algo não preexistente. S. Tomás frisou que o nada do qual se extrai o algo que se leva a existência (e, certamente, o extrair é aqui apenas uma [[lexico:m:metafora|metáfora]]) não é compreensível por analogia com nenhuma das realidades que podem servir para entender uma produção não criadora; não é, com efeito, uma [[lexico:m:materia|matéria]], mas também não é um [[lexico:i:instrumento|instrumento]] e menos ainda uma causa. Por isso diz S. Tomás que, na criação a partir do nada, o do expressa unicamente ordem de [[lexico:s:sucessao|sucessão]] e não causa material. [[lexico:a:alem|Além]] disso, só assim se pode admitir a ideia de criação contínua, que foi afirmada pela maior parte dos filósofos cristãos, desde S. Tomás a [[lexico:d:descartes|Descartes]] e [[lexico:l:leibniz|Leibniz]]. Segundo este [[lexico:u:ultimo|último]], a criatura depende continuamente da criação divina de modo que não continuaria a [[lexico:e:existir|existir]] se [[lexico:d:deus|Deus]] não continuasse a operar ([[lexico:t:teodiceia|Teodiceia]]). S. Tomás defendia já que a [[lexico:c:conversao|conversão]] das coisas por Deus não se efetua mediante nenhuma nova [[lexico:a:acao|ação]], mas pela continuação da ação que dá o ser ([[lexico:s:suma-teologica|Suma Teológica]]). E Descartes proclamava ([[lexico:m:meditacoes-metafisicas|MEDITAÇÕES METAFÍSICAS]]) a momentaneidade [[lexico:e:essencial|essencial]] de cada [[lexico:i:instante|instante]] do tempo e do mundo, defendidos sempre pela incessante [[lexico:o:operacao|operação]] divina. Se voltarmos ao [[lexico:p:problema|problema]] da [[lexico:c:compreensao|compreensão]] intelectual da criação paralelamente à clássica [[lexico:o:oposicao|oposição]] entre o “do nada não surge nada” e o “do nada surge [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:e:ente|ente]] enquanto ente”, encontramos várias opiniões, que vamos compendiar nas seguintes posições: 1: a daqueles que, ao verificarem a [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] de um tratamento conceptual da [[lexico:q:questao|questão]] a:, a relegaram para um artigo de [[lexico:f:fe|fé]] (cisão do [[lexico:s:saber|saber]] e da criação); b: a negaram formalmente como incompatível com o saber [[lexico:r:racional|racional]] ou [[lexico:e:empirico|empírico]] (eliminação da criação pelo saber); ou c: a consideraram como uma questão [[lexico:m:metafisica|metafísica]] que a [[lexico:r:razao|razão]] não pode solucionar, mas que nunca deixará de aguçar o [[lexico:e:espirito|espírito]] [[lexico:h:humano|humano]] e que talvez possa resolver-se pelo [[lexico:p:primado|primado]] de ação da [[lexico:r:razao-pratica|razão prática]]. 2: A daqueles que tentaram atacar o problema de um modo radical. Esta última [[lexico:p:posicao|posição]] juntou-se frequentemente à daqueles que conceberam a questão como algo que transcende da [[lexico:r:razao-pura|razão pura]] e pode ser viável por outras vias. Em rigor, toda a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] ocidental, muito particularmente a partir do cristianismo, poderia conceber-se como uma tentativa para saltar o [[lexico:o:obstaculo|obstáculo]] levantado por [[lexico:p:parmenides|Parmênides]]. Ora, [[lexico:e:esse|esse]] obstáculo só se pode saltar quando se ampliar de alguma maneira o marco do [[lexico:p:principio-de-identidade|princípio de identidade]] para dar lugar a toda uma diferente [[lexico:s:serie|série]] de [[lexico:p:principios|princípios]], desde os que procuram, partindo do próprio [[lexico:p:principio|princípio]] de [[lexico:i:identidade|identidade]], uma compreensão do [[lexico:r:real|real]], até aos que pretendem ir “[[lexico:a:as-proprias-coisas|às próprias coisas]]”. A ampliação do marco da [[lexico:l:logica|lógica]] da identidade numa lógica do [[lexico:d:devir|devir]], numa lógica da [[lexico:v:vida|vida]], etc., é o resultado de um [[lexico:e:esforco|esforço]] que alcança em [[lexico:h:hegel|Hegel]], uma altura decisiva. Possivelmente o [[lexico:p:processo|processo]] filosófico, de [[lexico:s:santo|santo]] [[lexico:a:agostinho|Agostinho]] a Hegel, é uma mesma caminhada para um pensamento cristão, isto é, para um pensamento daquilo que adveio com o cristianismo: a passagem da [[lexico:f:formula|fórmula]] que mais se aproxima da identidade - do nada não surge nada - para aquela que mais se afasta dela - do nada surge o ser - criado; o mundo surgiu por um [[lexico:a:ato|ato]] de pura e radical criação. Considerando [[lexico:a:agora|agora]] de novo a noção de criação tal como foi tratada por filósofos e teólogos, e referindo-nos especialmente à questão da [[lexico:r:relacao|relação]] entre uma criação divina e uma criação humana, entre criação e produção, pensamos que estas duas noções mantém uma relação que poderia chamar-se dialéctica. Logo que tentamos [[lexico:c:compreender|compreender]] uma, caímos facilmente na outra. De certo modo, a criação humana só pode compreender-se quando há nela algo daquilo que pode considerar-se como criação divina, isto é, quando consideramos que algo realmente se cria em vez de se plasmar ou transformar. A criação artística proporciona o melhor [[lexico:e:exemplo|exemplo]] desta relação. Ao mesmo tempo, que não parece entender-se [[lexico:b:bem|Bem]] a criação divina do nada se não a considerarmos ao mesmo tempo do ponto de vista de uma plasmação ou produção. Por conseguinte, parece legítimo ir da noção de produção para a criação e vice-versa para entender qualquer uma delas. Significa, em primeiro lugar (1), o criado (Mundo) e, em segundo lugar (2) o [[lexico:c:criar|criar]], ou seja, a livre produção de uma coisa globalmente considerada. Criação (2) neste sentido (teísta) é criação a partir do nada, o que não quer dizer que o nada deva ter precedido cronologicamente o criado, nem que o nada seja uma [[lexico:e:especie|espécie]] de matéria da qual houvesse sido produzido o criado, nem que nenhuma causa eficiente intervenha na produção; significa tão-somente que o criado não foi produzido de qualquer matéria preexistente. Toda produção diferente da criação é [[lexico:a:atividade|atividade]] exercida sobre [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] já preexistente e que, por esse modo, sofreu [[lexico:m:mudanca|mudança]]. Mas a criação efetua-se sem mudança propriamente dita. Pelo que, não é um processo [[lexico:t:temporal|temporal]], embora com ela possa começar um tempo. Considerada como atividade de Deus, é seu ato interno de [[lexico:v:vontade|vontade]], que não se distingue de sua [[lexico:e:essencia|essência]], e cujo poder [[lexico:a:ad-extra|ad extra]] tem como efeito o mundo, mas de tal maneira que, sem, [[lexico:m:mutacao|mutação]] interna, poderia também não surtir esse efeito. Por criação (3) em sentido neutro, nem teísta nem panteísta, entende-se a [[lexico:o:origem|origem]] do mundo, dependentemente do Absoluto, sem que se indique em pormenor qual a espécie de dependência. No [[lexico:p:panteismo|panteísmo]], o termo criação designa ou um desdobramento do Absoluto em formas finitas (desdobramento em certo modo [[lexico:i:identico|idêntico]], por natureza, ao Absoluto), mantendo tais formas a identidade [[lexico:s:substancial|substancial]] com [[lexico:d:dito|dito]] Absoluto (Criação 4), ou uma autêntica mas necessária piodução do ser do [[lexico:u:universo|universo]] (Criação 5). Mercê de tal necessidade, Deus e o universo são pulos oposto» que reciprocamente se exigem. Ambas concepções destroem a verdadeira infinidade ([[lexico:i:infinito|infinito]]) e [[lexico:t:transcendencia|transcendência]] de Deus. Que Deus tenha produzido o mundo por criação (2), infere-se da [[lexico:c:contingencia|contingência]] do mesmo mundo. O ato criativo compete só a Deus, [[lexico:c:causa-primeira|causa primeira]] ( Causa), pois que procede do poder sobre o ser em [[lexico:g:geral|geral]], não do poder sobre este ou aquele ser. O ente criado não pode intervir na criação de uma coisa, nem como causa principal coordenada, nem como [[lexico:c:causa-instrumental|causa instrumental]] subordinada. Não pode intervir como causa principal coordenada, porque a criação refere-se essencialmente ao ser global do que deve ser criado; nem como causa instrumental subordinada, porque a criação é produção a partir do nada, e a causa instrumental ou prepara algo já preexistente para a ação da causa principal, ou transmite ao preexistente a ação da causa principal. — Daqui se infere que entra em consideração um demiurgo (= um formador do universo, em dependência de Deus) ao [[lexico:s:sumo|sumo]] como ordenador do universo, não como criador do mesmo. Contudo não há [[lexico:m:motivo|motivo]] para admitir tal ordenador do universo, distinto de Deus. Conservação do mundo: Da dependência essencial da criatura no primeiro [[lexico:m:momento|momento]] de sua existência relativamente à atividade onipotente de Deus, infere-se necessariamente sua dependência igual e imediata para a continuação no ser, visto esta não modificar por forma alguma a essência das coisas. Portanto, a aniquilação do universo consistiria na mera cessação do [[lexico:i:influxo|influxo]] conservador da existência; uma atividade não poderia aniquilar o universo, uma vez que o nada não pode ser o termo de uma atuação. O [[lexico:f:fato|fato]] de Deus não ter motivo algum para aniquilar totalmente o universo está intimamente relacionado com a necessária ordenação deste (Mundo) ao [[lexico:s:ser-espiritual|ser espiritual]] e com a [[lexico:i:imortalidade|imortalidade]] de dito ser. O fim. da criação pode ser encarado do lado da criatura ou do lado de Deus. O mundo ou criação (1) tem seu fim em Deus, na [[lexico:m:medida|medida]] em que no primeiro se manifesta de modo [[lexico:f:finito|finito]] a infinita plenitude Mitológica do segundo (= [[lexico:g:glorificacao|glorificação]] de Deus). [[lexico:d:dado|dado]] que tal [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] careceria de sentido sem um espírito finito capaz de percebê-la, seria [[lexico:i:impossivel|impossível]] uma criação privada de seres racionais criados. Portanto os seres irracionais são (em sua [[lexico:t:totalidade|totalidade]]) ordenados a Deus só por [[lexico:m:meio|meio]] dos racionais; e estes, imediatamente. — Deus, em [[lexico:v:virtude|virtude]] de sua [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] infinita, não pode pretender alcançar para si um bem, mediante a criação (2). O [[lexico:o:objetivo|objetivo]] da criação é a infinita perfeição já existente de Deus, enquanto Ele a quer comunicar por meio de uma [[lexico:i:imitacao|imitação]] finita. Tal objetivo confere, sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], pleno sentido à vontade criadora de Deus, mas não necessariamente. Não se pode [[lexico:f:falar|falar]] de [[lexico:m:motivacao|motivação]] propriamente dita em Deus, pois que Deus cria o mundo, permanecendo imóvel em seu ser ([[lexico:i:imutabilidade|imutabilidade]]). Em sentido metafórico, dá-se o [[lexico:n:nome|nome]] de criação (6) a toda e qualquer produção, em que se manifesta algo de novo, não totalmente deduzível dos [[lexico:e:elementos|elementos]] incluídos. Nesta acepção, merece ser caracterizada como criadora a atividade peculiar da vida intelectual. — Neumann (gr. genesis; lat. Creatio; in. Creation; fr. Création; al. Schoepfung; it. Creazione). Em todas as línguas, essa [[lexico:p:palavra|palavra]] tem sentido muito genérico, indicando qualquer forma de causalidade produtiva: do artífice, do [[lexico:a:artista|artista]] ou de Deus. Seu [[lexico:s:significado|significado]] específico, porém, como forma particular de causação, é caracterizado: 1) pela [[lexico:a:ausencia|ausência]] de necessidade do efeito em relação à causa que o produz; 2) pela ausência de realidade pressuposta no efeito criado, além da realidade da causa criadora (e nesse sentido diz-se que a criação é "do nada"); 3) pelo menor [[lexico:v:valor|valor]] do efeito em relação à causa; e eventualmente 4) pela [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de que um dos termos da relação, ou ambos, estejam fora do tempo. A 1a e a 2a características diferenciam a criação da emanação além de diferenciá-la das formas ordinárias de causação. A 3a [[lexico:c:caracteristica|característica]] é comum à criação e à emanação e diferencia ambas das formas ordinárias da causação. A 4a característica, quando se verifica, aproxima a criação da emanação (que é eterna porque necessária), mas nem sempre se verifica. Considera-se, em geral, que a criação é uma noção de origem bíblica, mas na realidade não é [[lexico:p:possivel|possível]] colher na Bíblia as determinações acima expostas, que a definem e que são fruto da elaboração a que o pensamento cristão submeteu esse [[lexico:c:conceito|conceito]], pondo-o em relação positiva ou negativa com doutrinas próprias da [[lexico:f:filosofia-grega|filosofia grega]]. Assim, na Bíblia, diz-se claramente que Deus criou o [[lexico:c:ceu|céu]] e a [[lexico:t:terra|Terra]] (Gen., I, 1; Ps. 32, 6; 135, 5; Ecl., 18; Act., 14, 14; 17, 24; etc), mas não fica tão claro que essa criação é do nada; aliás, o livro da [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] (XI, 18) [[lexico:f:fala|fala]] da criação do orbe da terra a partir de "uma matéria invisível". Por outro lado, na filosofia grega encontrava-se certo conceito de criação que não se mostrou compatível com o conceito de Deus peculiar aos cristãos. O conceito de criação dado por [[lexico:p:platao|Platão]] em [[lexico:t:timeu|Timeu]] ajusta-se às condições 1a e 3a, mas contradiz a 2a. A criação, para o Deus-artífice, é um ato voluntário de [[lexico:b:bondade|bondade]] que quer a multiplicação do bem (Tim., 29 E), o que significa que o mundo não é [[lexico:n:necessario|necessário]] em relação à sua causa. Mas a ação criadora do Demiurgo é limitada: le pelas estruturas do ser, isto é, pelas [[lexico:i:ideias|ideias]] ou [[lexico:s:substancias|substâncias]] que ele assume da sua obra como modelos; 2a pela matriz material que, com sua necessidade, limita a própria obra. Por isso, sua criação não é ex nihilo. Por sua vez o Deus de [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], como [[lexico:p:primeiro-motor|primeiro motor]] imóvel do mundo, é causa do [[lexico:m:movimento|movimento]], ou seja, do devir e da ordem do mundo, mas não de seu ser substancial, que é tão [[lexico:e:eterno|eterno]] quanto o próprio Deus (Met., XII, 6, 1071 b 3 ss.). Quanto ao Deus dos neoplatônicos e de [[lexico:p:plotino|Plotino]], sua ação criadora é a da emanação, caracterizada pela necessidade do processo criativo (v. emanação). Nesses modelos clássicos, o conceito de criação choca-se com os atributos do Deus judaico e cristão, que não é causa necessária, mas cria o mundo por um ato livre e gratuito, e é infinito e onipotente, não podendo, portanto, encontrar limites à sua ação criadora numa [[lexico:e:estrutura|estrutura]] substancial ou numa matéria que seja [[lexico:i:independente|independente]] dele. Em vista dessas exigências, a primeira elaboração da noção de criação foi feita por Fílon de [[lexico:a:alexandria|Alexandria]] (séc. I). Embora Fílon continue chamando Deus de "Demiurgo" ou de "[[lexico:a:alma-do-mundo|alma do mundo]]", anuncia (se bem que com certa incerteza) a noção de criação afirmando que "Deus, criando todas as coisas, não só as trouxe à [[lexico:l:luz|luz]], mas criou o que antes não havia: não só construtor, mas na [[lexico:v:verdade|verdade]] fundador" (De somniis, I, 13). No mesmo sentido, a noção de criação foi elaborada pela [[lexico:p:patristica|Patrística]] e pela [[lexico:e:escolastica|Escolástica]]. A elaboração patrística tem mais afinidades com os modelos clássicos. Irineu reivindicava contra os gnósticos o [[lexico:c:carater|caráter]] total (ex nihilo) da criação, sem o qual se atribuiria a Deus a impotência de realizar seus projetos (Adv. haeres, II, 1, 1). Mas é sobretudo nos padres da igreja oriental que se sente a [[lexico:i:influencia|influência]] do [[lexico:m:modelo|modelo]] emanacionista, evidente em Orígenes (Deprinc, I, 2,10) e, nos primórdios da escolástica, em [[lexico:s:scotus-erigena|Scotus Erigena]] (De divis. nat., IV, 7); este julga insolúvel a conciliação entre a [[lexico:e:eternidade|Eternidade]] do mundo e a criação deste por parte de Deus. A Escolástica árabe, com [[lexico:a:avicena|Avicena]] e Averróis, insistira na necessidade e na eternidade do mundo, negando (Averróis) a criação, ou reduzindo-a (Avicena) à mera anterioridade do ser necessário ao ser [[lexico:c:contingente|contingente]] (Met, VI, 2). E nesse [[lexico:a:aspecto|aspecto]] foram de pouca serventia as críticas de [[lexico:m:maimonides|Maimônides]], que defendera a "novidade" do mundo, insistindo nos seus [[lexico:c:caracteres|caracteres]] arbitrários (Guide des égarés, II, 19). A primeira [[lexico:e:exposicao|exposição]] lúcida do conceito de criação deveu-se a S. Anselmo. "As coisas feitas pela substância criadora", diz ele, "foram feitas do nada, assim como sói dizer-se que alguém que era pobre ficou rico, e outro, que era doente ficou são" (Monologion, 8). Logo, nada antecede à obra criadora, exceto Deus: "Aquilo que antes não era agora é" (Ibid., 8). Com igual [[lexico:l:lucidez|lucidez]], S. Tomás recapitulava as características que essa noção viera adquirindo na Escolástica latina. A criação é "a emanação de todo ente a partir da causa [[lexico:u:universal|universal]], que é Deus". Ela não pressupõe nenhuma realidade, pois então haveria uma realidade não causada por Deus; e nesse sentido é ex nihilo. Ex não significa a causa material, [[lexico:c:como-se|como se]] o nada fosse a matéria de que o mundo é [[lexico:c:composto|composto]], mas somente a ordem de sucessão, pela qual o ser criado do mundo segue-se ao não ser do próprio mundo (S. Th., I, q. 45, a. 1-2). Com isso e com o [[lexico:r:reconhecimento|reconhecimento]] de que "não é necessário que Deus queira algo que não ele mesmo" (Ibid., q. 46, a. 1), que implica o caráter voluntário e gratuito da criação, estavam fixadas as características do conceito. S. Tomás, porém, não julgava que o conceito implicasse necessariamente o início do mundo no tempo. A criação, como causação do mundo por parte de Deus, poderia muito bem ser eterna, no sentido atribuído por S. Agostinho ao dizer: "Se um pé sempre existiu no pó, desde a eternidade, sob ele sempre terá existido a pegada, indubitavelmente produzida pelo pé que calcava; do mesmo modo, o mundo sempre existiu porque sempre existiu [[lexico:q:quem|quem]] o criou" (De civ. Dei, X, 3D. Nesse caso, obviamente, permaneceriam inalteradas as características fundamentais 1a, 2a e 3a da noção: S. Tomás, portanto, admite que o início do mundo no tempo é pura matéria de fé (S. Th., I, q. 46, a. 2). Essa doutrina seria reproduzida, sem variantes notáveis, por [[lexico:d:duns-scotus|Duns Scotus]] (Rep. Par., II, d. 1, q. 3, n° 8). É esse o [[lexico:p:paradigma|paradigma]] do [[lexico:u:uso|uso]] dessa noção pela [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]] e contemporânea. Frequentemente, os filósofos que se serviram dessa noção deram maior ênfase a uma ou a outra de suas características, ou acrescentaram alguma característica que equivale à sua [[lexico:n:negacao|negação]]. Descartes insistiu na continuidade da criação, observando que, se Deus parasse de criar, o mundo deixaria de existir (Discours, IV; Princ.phil, I, § 21): [[lexico:o:observacao|observação]] que não é nova (acha-se em Fílon, Ali. leg., I, 5) e reaparece com frequência na Idade [[lexico:m:moderna|moderna]]. Outros, porém, como Hegel, insistem na necessidade da criação, com o que, porém, o conceito é implicitamente negado (Philosophie der Religion, ed. Glockner, II, p. 51 ss.). Mas Hegel e, em geral, o [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] romântico substituíram a noção de criação por outro conceito elaborado por [[lexico:s:spinoza|Spinoza]]: a derivação racional e necessária das coisas, como momentos lógicos, de seu princípio, derivação que Spinoza identificara com a [[lexico:i:inferencia|inferência]] pela qual "da natureza do [[lexico:t:triangulo|triângulo]] segue-se que os três ângulos são iguais a dois ângulos retos", ou seja, com a necessidade geométrica (Et, I, 17, scol.). Desde o início do séc. XIX, através do idealismo romântico e, depois, do [[lexico:p:positivismo|positivismo]] evolucionista, desenvolve-se outra [[lexico:h:hipotese|hipótese]] a [[lexico:r:respeito|respeito]] da origem do mundo, muito diferente da hipótese da criação Seu [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] é a noção de [[lexico:p:progresso|progresso]] que o [[lexico:i:iluminismo|Iluminismo]] setecentista elaborara em relação ao mundo humano e que o séc. XIX estende ao mundo natural. Essa noção deu ensejo à noção de [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] dialético, por um lado, e à de evolução ou desenvolvimento natural, por outro. A primeira foi utilizada pelo idealismo romântico; a segunda, pelo positivismo. Ambas substituem o fiat criador instantâneo pela [[lexico:f:formacao|formação]] gradual e progressiva. Ambas levam a considerar como "mítica" a própria noção de criação. Na realidade, estão em [[lexico:a:antitese|antítese]] direta com as características fundamentais dessa noção. Desenvolvimento (dialético) e evolução significam causação necessária, me-diata, progressiva e, se não temporal, pelo menos coincidente com a sucessão temporal. A criação continuou constituindo a [[lexico:a:alternativa|alternativa]] "mítica", "metafísica" ou "religiosa" da [[lexico:e:explicacao|explicação]] do mundo, embora muitas vezes a hipótese de evolução e de desenvolvimento se mostrasse tão "mítica" ou "metafísica" quanto a da criação. Apesar de tudo, a noção de criação não foi abandonada. Reaparece sempre que se apresenta uma concepção teísta ou deísta do mundo, como muitas vezes acontece, por obra do [[lexico:e:espiritualismo|espiritualismo]] [[lexico:m:moderno|moderno]] (p. ex., com Whitehead, que insiste no caráter finalista da vida . Também na [[lexico:c:ciencia|ciência]], nestes últimos tempos, às vezes é apresentada como "fato", independentemente de qualquer [[lexico:c:crenca|crença]] metafísica ou religiosa. Alguns astrônomos modernos julgam que a expansão do universo (cujo [[lexico:s:sinal|sinal]] é o deslocamento do espectro das galáxias para o vermelho) exige, para que o [[lexico:e:estado|Estado]] do universo permaneça [[lexico:u:uniforme|uniforme]], a criação contínua de nova matéria. Chegou-se a calcular que a proporção de matéria criada é grosso modo equivalente à [[lexico:m:massa|massa]] de um [[lexico:a:atomo|átomo]] de hidrogênio para cada litro de volume e para cada bilhão de anos (Bondi, Cosmology, 1952; cf. M. K. Munitz, Space, Time and Creation, 1957, pp. 154 ss.). É certo que se pode [[lexico:p:por|pôr]] em dúvida a oportunidade científica do uso desse conceito nesse caso (v. cosmologia): de qualquer forma, está claro que o significado dele não tem aqui as características específicas que o identificam como forma de causação, pois não faz [[lexico:r:referencia|referência]] a uma causa, isto é, a um criador. Pela forma como esse termo é usado por esses cosmólogos, significa apenas "aparição sem causa". Em sentido igualmente genérico, emprega-se essa palavra muito mais frequentemente para corrigir ou retificar o conceito de evolução e para introduzir nesta os caracteres da imprevisibilidade, [[lexico:l:liberdade|liberdade]] e novidade. Nesse sentido, Bergson falou de "evolução criadora", para ressaltar a [[lexico:d:diferenca|diferença]] e a complexidade das linhas evolutivas e das formas orgânicas, bem como "a [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] quase infinita de análises e sínteses entrelaçadas" que pressupõem: diferença e multiplicidade que o [[lexico:h:homem|homem]] pode captar diretamente em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], na [[lexico:e:experiencia|experiência]] da ação. "Que a ação cresce avançando, que ela cria à medida que progride, cada um de nós pode constatar quando se vê agindo" Cá»/, créatr, IP ed., 1911, pp. 270-71). Outros falaram, em sentido [[lexico:a:analogo|análogo]], de "evolução emergente" (p. ex., criação Lloyd Morgan em Emergent Evolution, 1923). Esse sentido da palavra, que dá ênfase às novidades e à imprevisibilidade do resultado de um processo, está [[lexico:i:implicito|implícito]] nos usos dessa palavra que a relacionam com [[lexico:a:atividades|atividades]] humanas, como quando se fala, p. ex., de criação "artística", "literária" ou "científica". Embora S. Tomás excluísse a criação dos processos da natureza e da [[lexico:a:arte|arte]] (S. Th., I, q. 45, a. 8), o uso desse termo para qualificar esses processos tornou-se comum tanto em [[lexico:l:linguagem|linguagem]] filosófica quanto corrente. Mas tudo o que esse uso implica é, precisamente, a acentuação do caráter de novidade imprevisível que têm alguns produtos das atividades humanas ou mesmo dos processos naturais, sem que, obviamente, com esse uso o termo faça qualquer referência à [[lexico:s:significacao|significação]] precisa elaborada pela [[lexico:f:filosofia-medieval|filosofia medieval]].