===== CRENÇA ===== [[lexico:t:termo|termo]] que pode designar: 1.° uma [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:o:opiniao|opinião]] [[lexico:p:provavel|provável]]; 2.° uma [[lexico:c:certeza|certeza]] [[lexico:s:sentimental|sentimental]]. No primeiro caso, a crença é o mais baixo [[lexico:g:grau|grau]] do [[lexico:s:saber|saber]] e se opõe à certeza científica. No segundo, apresenta-se [[lexico:c:como-se|como se]] fosse o mais alto grau do saber, [[lexico:s:superior|superior]] a [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] [[lexico:r:racional|racional]] (uma crença religiosa). O [[lexico:p:problema-filosofico|problema filosófico]] é o do [[lexico:v:valor|valor]] da crença: [[lexico:k:kant|Kant]] via nela, como todos os pós-kantianos, uma [[lexico:f:forma|forma]] de não-saber; ao contrário, [[lexico:j:jacobi|Jacobi]] nela vê a única maneira de o [[lexico:h:homem|homem]] [[lexico:a:apreender|apreender]] o [[lexico:i:infinito|infinito]], identificando-a ao [[lexico:s:sentimento|sentimento]] da [[lexico:r:realidade|realidade]]. Em [[lexico:m:materia|matéria]] religiosa, [[lexico:m:marx|Marx]] considera-a uma "[[lexico:a:alienacao|alienação]]" ou uma [[lexico:i:ilusao|ilusão]] de que se deve desconfiar: a crença num [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:m:mundo|mundo]] é apenas a ilusão de que se alimentam todos os pobres e ofendidos, incapazes de conceber uma melhoria de sua [[lexico:s:sorte|sorte]] e de sua [[lexico:c:condicao|condição]] aqui na [[lexico:t:terra|Terra]]. O [[lexico:p:problema|problema]] da [[lexico:n:natureza|natureza]] da crença suscitou, no decurso da [[lexico:h:historia|história]], múltiplas dificuldades. Por um lado, identificou-se a crença com a [[lexico:f:fe|fé]], e a opôs-se ao saber. Por outro lado, defendeu-se que todo o saber e, em [[lexico:g:geral|geral]], toda a [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] tem na sua base uma crença. É óbvio que, em cada caso, se entendeu por crença uma realidade diferente. As distinções estabelecidas parecem querer situar o problema da crença distinguindo-a [[lexico:n:nao|não]] só da fé, mas também da [[lexico:c:ciencia|ciência]] e da opinião. Na [[lexico:m:medida|medida]] em que se aproxime da fé, a crença designará sempre uma confiança manifestada num [[lexico:a:assentimento|assentimento]] subjectivo, mas não inteiramente baseada nele. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], no que se refere pelo menos à [[lexico:i:ideia|ideia]] de crença dentro do cristianismo, torna-se incompreensível se não se unir a ela a realidade do [[lexico:t:testemunho|testemunho]] e, precisamente, de um testemunho que tem a [[lexico:a:autoridade|autoridade]] suficiente para testemunhar. Em contrapartida, na medida em que se afaste da fé estrita, a crença gravitará sempre mais para o lado do assentimento subjectivo e eliminará toda a [[lexico:t:transcendencia|transcendência]] que é indispensável para a [[lexico:c:constituicao|constituição]] da fé. No [[lexico:s:sentido|sentido]] mais subjectivo da [[lexico:e:expressao|expressão]], a crença aparecerá, portanto, como algo oposto também oposto ao saber e, em certa medida, à opinião, mas ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] como algo que pode fundamentar, pelo menos de um [[lexico:m:modo|modo]] [[lexico:i:imanente|imanente]], todo o saber. Há que distinguir entre a crença como algo que transcende os atos mediante os quais se efetua o seu assentimento e a crença como um [[lexico:a:ato|ato]] imanente, embora dirigido para um [[lexico:o:objeto|objeto]]. Dentro desta última acepção, convém distinguir entre a crença como um ato por [[lexico:m:meio|meio]] do qual um [[lexico:s:sujeito|sujeito]] de conhecimento efetua uma [[lexico:a:assercao|asserção]], e um ato limitado à [[lexico:e:esfera|esfera]] das operações psíquicas, principalmente voluntária. E dentro desta última [[lexico:s:significacao|significação]], pode estabelecer-se uma [[lexico:d:distincao|distinção]] entre três sentidos da [[lexico:p:palavra|palavra]] 1: adesão a uma ideia, isto é, [[lexico:p:persuasao|persuasão]] de que a ideia é verdadeira. todo o [[lexico:j:juizo|juízo]] propõe então algo a título de [[lexico:v:verdade|verdade]]. 2: [[lexico:o:oposicao|oposição]] a certeza passional, como o [[lexico:c:corpo|corpo]] das crenças religiosas, metafísicas, morais, políticas; portanto, assentimento completo, com exclusão de [[lexico:d:duvida|dúvida]]. 3: simples [[lexico:p:probabilidade|probabilidade]], como na expressão “creio que vai chover”. (gr. pistis; lat. Credere, in. Belief; fr. Croyance, al. Fuerwahrhalten, Glaube, it. Credenza). No [[lexico:s:significado|significado]] mais geral, [[lexico:a:atitude|atitude]] de [[lexico:q:quem|quem]] reconhece como verdadeira uma [[lexico:p:proposicao|proposição]]: portanto, a adesão à [[lexico:v:validade|validade]] de uma [[lexico:n:nocao|noção]] qualquer. A crença não implica, [[lexico:p:por-si|por si]] só, a validade objetiva da noção à qual adere nem exclui essa validade. Tampouco tem, necessariamente, alcance [[lexico:r:religioso|religioso]], nem é, necessariamente, a verdade revelada, a fé; por outro lado, também não exclui essa [[lexico:d:determinacao|determinação]] e, nesse sentido, pode-se dizer que uma crença pode pertencer ao domínio da fé (v.). De per si, a crença implica apenas a adesão, a qualquer título [[lexico:d:dado|dado]] e para todos os efeitos possíveis, a uma noção qualquer. Portanto, podem [[lexico:s:ser|ser]] chamadas de crença as convicções científicas tanto quanto as confissões religiosas, o [[lexico:r:reconhecimento|reconhecimento]] de um [[lexico:p:principio|princípio]] evidente ou de uma [[lexico:d:demonstracao|demonstração]], [[lexico:b:bem|Bem]] como a aceitação de um preconceito ou de uma [[lexico:s:supersticao|superstição]]. Mas não se pode chamar de crença a dúvida, que suspende a adesão à validade de uma noção, nem a opinião, no caso de excluir as condições necessárias para uma adesão desse [[lexico:g:genero|gênero]]. [[lexico:p:platao|Platão]] chamou de crença a forma ou o grau de conhecimento que tem por objeto as [[lexico:c:coisas|coisas]] sensíveis, já que ela contém uma adesão à realidade dessas coisas, ao contrário da conjetura, que, tendo por objeto as imagens, as sombras, etc, não contém essa adesão (Rep., VI, 510 a). [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] julga que a crença não é eliminável da opinião: "Não é [[lexico:p:possivel|possível]]", diz ele, "que quem tenha uma opinião não creia no que pensa" (Dean., III, 428 a 20). Em sentido [[lexico:a:analogo|análogo]], mas com [[lexico:r:referencia|referência]] à fé, S. [[lexico:a:agostinho|Agostinho]] definiu a crença como "[[lexico:p:pensar|pensar]] com assentimento" (De Predest. Sanct., 2), [[lexico:d:definicao|definição]] que S. Tomás usa como [[lexico:f:fundamento|fundamento]] de sua [[lexico:a:analise|análise]] da fé. "[[lexico:e:esse|esse]] ato que é crer", diz S. Tomás, "contém a firme adesão a um dos lados e nisso é [[lexico:s:semelhante|semelhante]] ao ato de quem conhece e entende; todavia, o conhecimento de quem crê não é [[lexico:p:perfeito|perfeito]] pela sua [[lexico:e:evidencia|evidência]], e nisso a crença está próxima da dúvida, da suspeita e da opinião" (S. Th., II, 2, q. 2, a. 1). Na [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]], a partir de [[lexico:l:locke|Locke]], a [[lexico:l:limitacao|limitação]] [[lexico:c:critica|crítica]] do conhecimento levou a distinguir o conhecimento certo do provável, e no provável vários graus de adesão, dos quais a crença é o maior (Ensaio, IV, 16, 9). Mas foi o [[lexico:c:ceticismo|ceticismo]] de [[lexico:h:hume|Hume]] que generalizou a noção de crença, vendo nela a atitude que consiste em reconhecer a realidade de um objeto. "A crença", disse Hume, "é só uma concepção mais vivida, viva, eficaz, firme e sólida daquilo que a [[lexico:i:imaginacao|imaginação]] por si só nunca é capaz de obter." É "o ato da [[lexico:m:mente|mente]] que nos torna a realidade, ou [[lexico:o:o-que-e|o que é]] tomado por realidade, mais presente do que as ficções, fazendo-a pesar mais sobre o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] e aumentando sua [[lexico:i:influencia|influência]] sobre as emoções e a imaginação" (Inq. Conc. Underst., V, 2). Hume considerava a crença inexplicável, entendendo-a simplesmente como [[lexico:e:experiencia|experiência]] ou sentimento (feeling ou sentiment) [[lexico:n:natural|natural]] e irredutível. "Não podemos", disse ele, "ir [[lexico:a:alem|além]] da asserção de que a crença é uma experiência do [[lexico:e:espirito|espírito]] que faz a distinção entre [[lexico:i:ideias|ideias]] do juízo e ficções da imaginação". Mas um dos resultados dessa análise foi [[lexico:p:por|pôr]] em evidência o [[lexico:c:carater|caráter]] específico de adesão que o reconhecimento de uma realidade qualquer possui. Kant não fez mais do que aceitar e convalidar a [[lexico:g:generalizacao|generalização]] de Hume com os esclarecimentos metodológicos que aduziu na seção do [[lexico:c:canon|Cânon]] da [[lexico:r:razao-pura|Razão Pura]] (Crít. R. Pura, mas cf. também a Crít. do Juízo, § 90) que dedicou à opinião, à ciência e à fé. Entendeu por crença "a validade subjetiva do juízo", ou seja, a validade que o juízo possui "na [[lexico:a:alma|alma]] de quem julga". E reconheceu três graus de crença: opinião, que é uma crença insuficiente tanto subjetiva quanto objetivamente; fé, que é uma crença insuficiente objetivamente, mas considerada subjetivamente suficiente; e ciência, que é uma crença suficiente tanto subjetiva quanto objetivamente. Mas esses reparos e distinções, apesar do [[lexico:s:sucesso|sucesso]] que tiveram, são um tanto confusos. Com efeito, Kant considera a opinião como uma [[lexico:e:especie|espécie]] de crença, reconhecendo que carece de caráter de adesão. Além disso, julga que só a fé tem ou pode [[lexico:t:ter|ter]] influência sobre a [[lexico:a:acao|ação]], ao passo que, como vira Hume, essa é a [[lexico:c:caracteristica|característica]] própria da crença. O caráter específico da crença foi ressaltado pelos empiristas ingleses do séc. XIX, por [[lexico:b:brentano|Brentano]] e pelos pragmatistas. Stuart Mul identificou "juízo" e "crença". "É [[lexico:n:necessario|necessário]] fazer a distinção", disse ele, "entre a simples [[lexico:s:sugestao|sugestão]] ao espírito de certa [[lexico:o:ordem|ordem]] entre as sensações ou ideias — como, p. ex., a do [[lexico:a:alfabeto|alfabeto]] e a da [[lexico:t:tabua|tábua]] pitagórica — e a indicação de que essa ordem é um [[lexico:f:fato|fato]] [[lexico:r:real|real]] que está acontecendo, que aconteceu uma ou mais vezes ou que acontece sempre em certas circunstâncias: que são as coisas indicadas como verdadeiras por uma predicação afirmativa ou como falsas pela negativa" (Analysis of the Phenomena of the Human Mind de [[lexico:j:james|James]] [[lexico:m:mill|Mill]]], cap. IV, § 4, [[lexico:n:nota|nota]] 48; também System of Log., I, 5, 2). De resto, a [[lexico:t:tese|tese]] de que o juízo importa crença já fora defendida por [[lexico:h:hobbes|Hobbes]] (De corp., 3, § 8), para quem, no entanto, a crença consistia somente em considerar que sujeito e [[lexico:p:predicado|predicado]] são dois nomes de uma só [[lexico:c:coisa|coisa]]. [[lexico:s:stuart-mill|Stuart Mill]], criticando Hobbes nesse [[lexico:a:aspecto|aspecto]], pretende mostrar que a adesão implícita no juízo não é só verbal ou [[lexico:l:linguistica|linguística]], mas diz [[lexico:r:respeito|respeito]] ao objeto do [[lexico:p:proprio|próprio]] juízo, isto é, à realidade (Logic, I, 5, 4). Tese análoga foi sustentada por Franz Brentano do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista da [[lexico:i:intencionalidade|intencionalidade]] da [[lexico:c:consciencia|consciência]]. Brentano afirmou que todo objeto julgado existe na consciência em forma dupla: como objeto representado e como objeto reconhecido ou negado, ou seja, "crido". "Afirmamos", disse Brentano, "que, quando o objeto de uma [[lexico:r:representacao|representação]] se torna objeto de um juízo afirmativo ou [[lexico:n:negativo|negativo]], a consciência refere-se a ele numa espécie de [[lexico:r:relacao|relação]] completamente nova. O objeto está, então, duplamente presente para a consciência, como representado e como aceito ou negado, assim como, quando o [[lexico:d:desejo|desejo]] recai sobre um objeto, esse objeto está presente na consciência, ao mesmo tempo como representado e como desejado" (Von der Klassification der psychischen Phänomene, 1911, II, 1). Brentano, portanto, fazia a distinção entre juízo e representação como [[lexico:f:faculdades|faculdades]] psíquicas diferentes e considerava que o juízo era marcado pelo caráter de adesão da crença. [[lexico:h:husserl|Husserl]] chama esse mesmo caráter de "[[lexico:t:tetico|tético]]"; para ele, a crença é um ato que "põe" o ser: ao caráter "tético" da crença corresponde o caráter "real" de seu objeto (Ideen, I, § 103). As mesmas características são atribuídas à crença nas análises de Charles S. [[lexico:p:peirce|Peirce]], que, ademais, ressaltou na crença o caráter de [[lexico:c:compromisso|compromisso]] com a ação. Os [[lexico:c:caracteres|caracteres]] da crença, segundo Peirce, são os seguintes: 1) é algo de que tomamos consciência; 2) aquieta a irritação da dúvida; 3) implica estabelecimento de uma [[lexico:r:regra|regra]] de ação, de um [[lexico:h:habito|hábito]]. Desse [[lexico:c:conceito|conceito]] de crença, Peirce extraía a regra que foi depois assumida como princípio fundamental do [[lexico:p:pragmatismo|pragmatismo]]: "Para desenvolver o significado de uma coisa não devemos fazer mais do que determinar os hábitos que ela produz, pois aquilo que uma coisa significa é simplesmente o hábito que ela implica. A [[lexico:i:identidade|identidade]] de um hábito depende de como ele nos levará a agir, não só nas circunstâncias que provavelmente surgirão, mas nas circunstâncias que, embora improváveis, possam surgir" (Chance, Love and Logic, II, 2; Coll. Pap., 5. 397). Santayana elucidou a conexão da crença com a [[lexico:p:parte|parte]] ativa e prática do homem, ou seja, com a fome, o [[lexico:a:amor|amor]], a [[lexico:l:luta|luta]] ou, de modo geral, a espera do [[lexico:f:futuro|futuro]]. Aquilo em que se crê não é [[lexico:e:essencia|essência]] pura (que, como tal, é só objeto de [[lexico:i:intuicao|intuição]]), mas uma coisa existente, e as coisas existentes se dão somente na "experiência [[lexico:a:animal|animal]]", isto é, na relação de ação e [[lexico:r:reacao|reação]] do [[lexico:o:organismo|organismo]] com o mundo. Logo, segundo Santayana, a crença na [[lexico:e:existencia|existência]] é uma "[[lexico:f:fe-animal|fé animal]]" (Scepticism and Animal Faith, 1923, cap. 15-16). Enfim, outro caráter da crença foi evidenciado por James: a [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de [[lexico:p:provocar|provocar]], às vezes, sua própria [[lexico:c:confirmacao|confirmação]]. James enunciou essa tese a propósito de crença metafísicas, como, p. ex., das crença na ordem e na [[lexico:b:bondade|bondade]] final do mundo (The Will to Believe, 1897). Ele entendia que a [[lexico:v:vida|vida]] pode adquirir sentido e valor para quem acredita que ela os tem. Mas fora dessa esfera [[lexico:m:metafisica|metafísica]] o [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] da crença que se realiza a si mesma hoje é amplamente reconhecido e estudado nas [[lexico:c:ciencias-sociais|ciências sociais]], assim como se reconhece e estuda nessas mesmas ciências o fenômeno da "crença suicida", ou seja, da crença que se destrói a si mesma. Na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] contemporânea, a noção de crença é marcada pelas seguintes características: 1) crença é a atitude da adesão a uma noção qualquer; 2) essa adesão pode ser mais ou menos justificada pela validade objetiva da noção, ou não se justificar de modo algum; 3) a própria adesão transforma a noção em regra de [[lexico:c:comportamento|comportamento]] (o que Peirce chamava de "hábito de ação"); 4) como regra de comportamento, em alguns campos a crença pode produzir sua própria realização ou seu próprio desmentido.