===== COSMOLOGIA ARISTOTÉLICA ===== O [[lexico:e:estudo|estudo]] da [[lexico:n:natureza|natureza]] ou do [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:f:fisico|físico]] constitui a [[lexico:p:parte|parte]] mais desenvolvida da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] de [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], a que certamente este trabalhador infatigável consagrou seu maior esfôrço. O [[lexico:p:progresso|progresso]] e a renovação das ciências foram tão grandes porém, que hoje se torna [[lexico:p:problema|problema]] extremamente difícil a pretensão de se manter fiel aos [[lexico:p:principios|princípios]] do peripatetismo. Eis os dados essenciais. A [[lexico:f:fisica|física]] constituía para Aristóteles a terceira parte da filosofia [[lexico:t:teoretica|teorética]]; as duas primeiras partes eram a [[lexico:m:metafisica|metafísica]] e as matemáticas. Esta diversificação do [[lexico:s:saber|saber]] [[lexico:t:teoretico|teorético]] tinha como [[lexico:f:fundamento|fundamento]] os graus de [[lexico:s:separacao|separação]] da [[lexico:m:materia|matéria]] sob os quais pode-se sucessivamente examinar o [[lexico:o:objeto|objeto]] de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]: o que mais [[lexico:t:tarde|Tarde]] se chamará os graus de [[lexico:a:abstracao|abstração]]. Assim o físico considera "o [[lexico:s:ser|ser]] da natureza" independentemente de seus [[lexico:c:caracteres|caracteres]] individuais, mas ainda dotado, sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], de suas [[lexico:q:qualidades-sensiveis|qualidades sensíveis]] comuns: o biologista, para retomar o [[lexico:e:exemplo|exemplo]] dos antigos, [[lexico:n:nao|não]] estudará "esta [[lexico:c:carne|carne]]" ou "êste osso" no que eles têm de [[lexico:p:particular|particular]], mas "a carne" ou "os ossos" em [[lexico:g:geral|geral]]. Mais tarde S. Tomás precisará que neste nível faz-se abstração da matéria individual, a materia individuali, conservando-se a matéria [[lexico:s:sensivel|sensível]] materia sensibilis. Sob seu [[lexico:a:aspecto|aspecto]] comum, as propriedades accessíveis aos sentidos - coloração, solidez, sonoridade, etc. - permanecerão, portanto, compreendidas nesta [[lexico:o:ordem|ordem]] do saber. Sobre tais bases metodológicas, Aristóteles havia constituído êste [[lexico:e:extraordinario|extraordinário]] [[lexico:s:sistema|sistema]] do mundo, tão poderoso em suas estruturas quanto engenhoso no [[lexico:a:arranjo|arranjo]] de seus detalhes, que devia dominar o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] dos vinte séculos seguintes. Sabe-se que a partir do século XVII, graças a uma [[lexico:e:experimentacao|experimentação]] renovada e à fecundidade dos processos matemáticos, construiu-se o edifício de. uma [[lexico:m:massa|massa]] de tal [[lexico:m:modo|modo]] grandiosa e de uma eficácia prática tão [[lexico:s:superior|superior]], que constitui o [[lexico:c:corpo|corpo]] das ciências físicas modernas. Como esta [[lexico:r:revolucao|revolução]] se operou como [[lexico:r:reacao|reação]] ao antigo sistema, e, pela utilização de métodos, pelo menos na [[lexico:a:aparencia|aparência]], inteiramente opostos, nós nos encontramos em [[lexico:p:presenca|presença]] de dois conjuntos coerentes que pretendem, cada um, nos fazer conhecer o mundo físico, mas que, efetivamente, no-lo mostram sob aspectos muito diferentes. Nestas condições, é [[lexico:p:possivel|possível]] um acôrdo entre as duas físicas em [[lexico:q:questao|questão]]? Julgamos que sim, se cada um desses conhecimentos se encontrar reconduzido às suas próprias possibilidades: se, em particular, a física peripatética se achar purificada de [[lexico:t:todo|todo]] um aparato científico evidentemente caduco e se, eventualmente, a física [[lexico:m:moderna|moderna]] abandonar certas pretensões de se erigir em [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] suprema, o que não é de sua alçada. Uma tal solução do conflito em seus princípios, repousa sôbre o [[lexico:f:fato|fato]] de se poder considerar os fenômenos da natureza sob dois pontos de vista diferentes: - ou limitando-se a determinar os caracteres ou as propriedades mais comuns, fundamentando-se para tanto sobre os mais [[lexico:s:simples|simples]] e mais imediatos dados experimentais; desta [[lexico:f:forma|forma]], procurar-se-á as condições [[lexico:u:universais|universais]] da [[lexico:m:mudanca|mudança]] como tal e a quais princípios últimos dever-se-á reconduzi-los (átomos, [[lexico:e:elementos|elementos]], [[lexico:m:materia-prima|matéria-prima]] etc.), e nesta direção poder-se-á conservar Aristóteles como guia para constituir uma [[lexico:f:filosofia-da-natureza|filosofia da natureza]] em seu [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:p:proprio|próprio]]; - ou restringindo-se à procura das condições especiais de tais fenômenos particulares ([[lexico:q:queda|Queda]] dos corpos, magnetismo, evaporação etc.), situando-se no mesmo nível da [[lexico:o:observacao|observação]] e mensuração desses fenômenos e, neste caso, será [[lexico:n:necessario|necessário]] reconhecer que se está no [[lexico:p:plano|plano]] da [[lexico:c:ciencia|Ciência]] da natureza, domínio no qual, evidentemente, os modernos se encontram em plano superior. Retomando a [[lexico:p:precisao|precisão]] trazida por J. [[lexico:m:maritain|Maritain]], dir-se-á que, em Filosofia da natureza, continuando a [[lexico:r:referencia|referência]] aos abjetos percebidos pelos sentidos (1 [[lexico:g:grau|grau]] de abstração), apela-se para os princípios de [[lexico:e:explicacao|explicação]] que são da alçada de uma [[lexico:o:ontologia|ontologia]] geral; enquanto que, com [[lexico:r:relacao|relação]] às Ciências da natureza, fica-se no plano das noções imediatamente controláveis pela [[lexico:e:experiencia|experiência]] e mensuráveis, e no [[lexico:m:momento|momento]] em que se recorre a um saber superior, chega-se à abstração [[lexico:m:matematica|matemática]]. Em face dos fenômenos físicos há, portanto, para nós, dois modos de determinar nossos [[lexico:c:conceitos|conceitos]]: segundo "uma solução ascendente em direção ao ser [[lexico:i:inteligivel|inteligível]], no qual o sensível permanece, porém, indiretamente a serviço do ser inteligível, como conotado por êle; e uma solução descendente em direção ao sensível e ao observável como tais, na qual, sem dúvida, não renunciamos absolutamente ao ser (sem o que não haveria mais pensamento), mas onde este passa [[lexico:a:a-se|a se]] colocar a serviço do próprio sensível, e antes de tudo do mensurável, não sendo mais que uma incógnita assegurando a constância de certas determinações sensíveis e de certas medidas, e permitindo traçar limites estáveis cercando o objeto dos sentidos. Tal é a [[lexico:l:lei|lei]] de solução dos conceitos nas ciências experimentais. Chamamos respectivamente [[lexico:o:ontologica|ontológica]] (no sentido mais geral da [[lexico:p:palavra|palavra]]) e empiriológica ou espaço-temporal a estes dois tipos de solução dos conceitos ou de exploração" (Les degrés du savoir, 1.r ed., pp. 287-288) . Com esta [[lexico:d:distincao|distinção]] a partir de um plano de explicação filosófica e um plano de explicação científica dos fenômenos da natureza, pode-se, com a [[lexico:v:vantagem|vantagem]] de deixar as ciências físicas se desenvolver de [[lexico:a:acordo|acordo]] com seus métodos próprios e em seus próprios níveis, conservar a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de [[lexico:r:raciocinar|raciocinar]] em filosofia na linha dos princípios aristotélicos. Pelo menos é o que parece poder-se dizer em um primeiro contato. Na [[lexico:r:realidade|realidade]], e para uma [[lexico:a:analise|análise]] mais próxima, a respectiva [[lexico:l:limitacao|limitação]] dos dois domínios de pensamento não é tão fácil de ser estabelecida como parece à primeira vista. Os resultados científicos não podem ser inteiramente ignorados pelo [[lexico:f:filosofo|filósofo]] da natureza, e suas determinações referentes a noções, tais como [[lexico:f:finalidade|finalidade]], [[lexico:a:acaso|acaso]], [[lexico:e:espaco|espaço]], [[lexico:t:tempo|tempo]] etc., não serão talvez [[lexico:i:indiferentes|indiferentes]] ao [[lexico:s:sabio|sábio]]. É necessário reconhecer, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, que a distinção precedente não é explícita em Aristóteles que, muito confiante nas possibilidades da [[lexico:d:deducao|dedução]] [[lexico:a:a-priori|a priori]], apresenta em um conjunto homogêneo o que acabamos de relacionar com processos metódicos diferentes. A própria [[lexico:o:obra|obra]], na qual temos que refletir, embora conservando o [[lexico:v:valor|valor]] filosófico, como poderemos verificar, deve ser, portanto, inteiramente revista. Aquele que hoje desejasse constituir uma cosmologia sob a inspiração do Estagirita deveria proceder em dois tempos: inicialmente, por uma [[lexico:c:critica|crítica]] contínua, separar na [[lexico:f:fisica-aristotelica|física aristotélica]] o que há de durável de tudo [[lexico:o:o-que-e|o que é]] cientificamente ultrapassado; e sobre esta base - que se iria sem dúvida ampliar, pelo menos do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista dos princípios matemáticos reconstruir um sistema puramente filosófico. Aqui, nossa ambição será mais modesta. Sem deixarmos de fazer algumas discriminações elementares e de nos referirmos, quando necessário, a teorias mais atuais, desejaríamos, antes de tudo, dar uma [[lexico:i:ideia|ideia]] objetiva do sistema do mundo, como o concebeu Aristóteles. E ademais como pretendemos permanecer no nível dos princípios, praticamente não passaremos [[lexico:a:alem|além]] da parte filosófica desse sistema, - a mais autenticamente válida e pouco teremos que nos inquietar com a renovação das [[lexico:i:ideias|ideias]] científicas.