===== CORPO ===== [[lexico:s:soma|soma]] O [[lexico:c:conceito|conceito]] de corpo foi tratado de diversos pontos de vista, mas, na maior [[lexico:p:parte|parte]] dos casos, referiram-se ao que aparece como um [[lexico:m:modo|modo]] da [[lexico:e:extensao|extensão]]. Para [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], o corpo é uma [[lexico:r:realidade|realidade]] delimitada por uma superfície; o corpo tem, pois, efetivamente extensão: é um [[lexico:e:espaco|espaço]] e, na [[lexico:m:medida|medida]] em que for algo, uma [[lexico:s:substancia|substância]]. As discussões em torno da [[lexico:n:nocao|noção]] de corpo, na [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], referiram-se quase sempre à penetração ou [[lexico:n:nao|não]] penetração do corpo por uma [[lexico:f:forma|forma]]: enquanto Aristóteles se inclina a supor que há inevitavelmente em toda a corporidade uma [[lexico:f:formacao|formação]], algumas correntes platônicas e pitagóricas tendem, em contrapartida, a considerar o corpo como o sepulcro da [[lexico:a:alma|alma]] e, por conseguinte, a alma não está nele como um [[lexico:e:elemento|elemento]] informador, mas como um prisioneiro. A [[lexico:p:possivel|possível]] [[lexico:i:inteligibilidade|inteligibilidade]] ou espiritualidade do corpo acentua-se [[lexico:a:alem|além]] disso, dentro do cristianismo. Na [[lexico:e:epoca|época]] [[lexico:m:moderna|moderna]], trataram-se os problemas do corpo quando se tratou das questões relativas à [[lexico:m:materia|matéria]] como [[lexico:o:objeto|objeto]] da [[lexico:c:ciencia|ciência]] [[lexico:f:fisica|física]] e à extensão como [[lexico:p:problema|problema]] simultaneamente [[lexico:f:fisico|físico]] e metafísico. Para [[lexico:d:descartes|Descartes]], o corpo é, em última [[lexico:a:analise|análise]], espaço cheio (pois não existe o [[lexico:v:vazio|vazio]]) é [[lexico:c:coisa|coisa]] extensa que se carateriza pela [[lexico:s:simultaneidade|simultaneidade]] do [[lexico:m:movimento|movimento]] das suas partes. A caraterística geometrização das propriedades corporais mantém-se também em Espinosa. O corpo é, para ele, uma [[lexico:q:quantidade|quantidade]] de três dimensões que toma uma [[lexico:f:figura|figura]], isto é, um modo da extensão. [[lexico:l:leibniz|Leibniz]], em contrapartida, concebe o corpo físico como um conjunto ou soma de mónadas, donde o corpo físico é a [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] do corpo [[lexico:i:inteligivel|inteligível]]. O [[lexico:d:dinamismo|dinamismo]] e a [[lexico:t:teoria|teoria]] do ímpeto que reside no interior do corpo pode conduzir quer a uma renovação da doutrina do corpo inteligível, quer à [[lexico:s:suposicao|suposição]] de que o [[lexico:p:proprio|próprio]] corpo possui um poder ativo, uma [[lexico:f:faculdade|faculdade]], uma [[lexico:f:forca|força]]. [[lexico:k:kant|Kant]] separou, em contrapartida, o corpo em [[lexico:f:fenomenico|fenomênico]] e [[lexico:d:dinamico|dinâmico]]. O [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] das suas [[lexico:i:ideias|ideias]] levou-o a um [[lexico:p:primado|primado]] não explicitamente declarado do corpo enquanto dinâmico-inteligível sobre o corpo como pura extensão fenomênica. Desde então, a concepção do corpo depende da maior ou menor importância dada ao [[lexico:a:aspecto|aspecto]] interno do [[lexico:r:real|real]]. Enquanto nas tendências que tentaram reduzir toda a realidade ao [[lexico:e:exterior|exterior]] se se concebeu o corpo como pura extensão [[lexico:m:mecanica|mecânica]] ou como algo que possui por [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] uma força ou [[lexico:p:potencia|potência]] ativa, nas tendências que reconheceram a [[lexico:e:existencia|existência]] de uma realidade interior e até supuseram que tal realidade era a primeira, o corpo apareceu como uma resistência oposta à [[lexico:v:vontade|vontade]] do seu íntimo. As questões relativas à [[lexico:n:natureza|natureza]] do corpo voltaram a levantar, portanto, todos os problemas [[lexico:r:relativos|relativos]] à natureza da matéria e do espaço e, assim, à natureza em última análise [[lexico:m:metafisica|metafísica]] do real. Isso aconteceu em várias tendências recentes da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] que se ocuparam muito em [[lexico:p:particular|particular]] do problema do corpo sob a [[lexico:i:influencia|influência]] da [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] de [[lexico:h:husserl|Husserl]]. Jean-Paul [[lexico:s:sartre|Sartre]] elaborou uma minuciosa fenomenologia do corpo enquanto “o que o meu corpo é para mim” contrariamente à [[lexico:o:objetividade|objetividade]] e à alterabilidade, em [[lexico:p:principio|princípio]], de qualquer corpo como tal. O corpo aparece sob três dimensões ontológicas, na primeira, trata-se de “um corpo para mim”, de uma forma de [[lexico:s:ser|ser]] que permite enunciar “[[lexico:e:eu|eu]] existo o meu corpo”. Na segunda [[lexico:d:dimensao|dimensão]], o corpo é para [[lexico:o:outro|outro]] (ou então o outro é para o meu corpo); trata-se, então, de uma [[lexico:c:corporeidade|corporeidade]] radicalmente diferente da do meu corpo ou para mim. Neste caso, pode dizer-se que “o meu corpo é utilizado e conhecido por outro”. “mas enquanto eu sou para outro, o outro revela-se-me como um [[lexico:s:sujeito|sujeito]] para o qual sou objeto. Então eu existo para mim como conhecido pelo outro, em particular na sua própria fatuidade. Eu existo para mim como conhecido por outro sob forma de corpo”. É essa a terceira dimensão [[lexico:o:ontologica|ontológica]] do corpo dentro da fenomenologia ontológica do ser para outro e da existência dessa [[lexico:a:alteridade|alteridade]]. (I) Recebem o [[lexico:n:nome|nome]] de corpos as [[lexico:c:coisas|coisas]] que nos rodeiam e são perceptíveis sensorialmente. Características comuns de todos os corpos são a extensão (quantidade) e a ocupação de um espaço limitado. Enquanto a extensão condiciona a extraposição das partes de um corpo entre si, a [[lexico:i:impenetrabilidade|impenetrabilidade]] refere-se à exclusão de outros corpos, do espaço ocupado pelo primeiro; baseia-se ela em forças repelentes. A compenetração-de corpos significaria que vários corpos ocupam o mesmo espaço. Naturalmente ela não é possível, embora não implique [[lexico:c:contradicao|contradição]] interna. Não se dá compenetração (do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista filosófico) na solução, que contém, num [[lexico:m:meio|meio]] líquido solúvel,, uma matéria finamente diluída, como nem na [[lexico:m:mistura|mistura]] de corpos gaseiformes, A [[lexico:q:questao|questão]] da existência de um [[lexico:m:mundo|mundo]] corpóreo [[lexico:i:independente|independente]] da [[lexico:c:consciencia|consciência]] é posta na [[lexico:e:epistemologia|epistemologia]] ([[lexico:t:teoria-do-conhecimento|teoria do conhecimento]]). Tal existência é afirmada pelo [[lexico:r:realismo|realismo]] e negada pelo [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] e pelo [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] lismo. A questão da [[lexico:e:essencia|essência]] do [[lexico:e:ente|ente]] corpóreo é uma das questões basilares da [[lexico:f:filosofia-natural|filosofia natural]]. Antes de mais [[lexico:n:nada|nada]], compete a esta elucidar se a [[lexico:a:aparencia|aparência]] [[lexico:s:sensivel|sensível]], mais concretamente, a extensão e a impenetrabilidade, coincidem ou não com a essência do corpo. Segundo Descartes, a essência do corpo consiste na própria extensão. Segundo a concepção [[lexico:e:escolastica|escolástica]], à essência do corpo pertence unicamente a ordenação insuprimível do corpo para a extensão e impenetrabilidade real, não a extensão e a impenetrabilidade atuais. Ulteriores questões sobre a essência do corpo dizem [[lexico:r:respeito|respeito]] à [[lexico:r:relacao|relação]] de suas partes entre si e com o [[lexico:t:todo|todo]] ([[lexico:d:divisibilidade|divisibilidade]]): provém o corpo da composição de dadas partes ulteriormente indivisíveis (assim se exprime o [[lexico:a:atomismo|atomismo]]), ou existe o todo anteriormente às partes, sendo estas, por seu turno, susceptíveis de [[lexico:d:divisao|divisão]] ilimitada? Estão as partes separadamente no espaço, em [[lexico:v:virtude|virtude]] de sua mesma essência, ou só por [[lexico:i:influxo|influxo]] dinâmico [[lexico:r:reciproco|recíproco]] ( dinamismo) ? — Tanto a multiplicidade-unidade que se manifesta na divisibilidade do corpo, como o problema da mutabilidade ([[lexico:m:mudanca|mudança]]) conduzem à questão mais profunda, de [[lexico:s:saber|saber]] se a essência do ente corpóreo deriva de um ou de vários [[lexico:p:principios|princípios]] fundamentais. A última [[lexico:h:hipotese|hipótese]] é admitida pelo [[lexico:h:hilemorfismo|hilemorfismo]], na doutrina da composição [[lexico:e:essencial|essencial]] de [[lexico:m:materia-prima|matéria prima]] e forma [[lexico:s:substancial|substancial]]. Problemas peculiares sobre a essência dos corpos provêm do que a moderna [[lexico:c:ciencia-natural|ciência natural]] ensina acerca dos mesmos. A [[lexico:t:totalidade|totalidade]] do mundo corpóreo é construída com 92 [[lexico:s:substancias|substâncias]] fundamentais, às quais na química se dá o nome de [[lexico:e:elementos|elementos]]. Filosoficamente falando, um elemento é uma substância fundamental que não pode ser decomposta em substâncias qualitativamente diversas. Ignoramos se, tomando a [[lexico:p:palavra|palavra]] neste [[lexico:s:sentido|sentido]], já penetramos até aos elementos do ente corpóreo. Os elementos químicos mostram em suas propriedades múltiplas [[lexico:r:relacoes|relações]] que facultam uma ordenação [[lexico:s:sistematica|sistemática]] dos mesmos no [[lexico:c:chamado|chamado]] [[lexico:s:sistema|sistema]] periódico. As partes últimas em que um elemento pode ser dividido, sem prejuízo de sua essência, denominam-se átomos ( atomismo). As substâncias quimicamente compostas originam-se dos elementos, mediante a reunião de vários deles numa combinação química. O material básico de uma combinação é a molécula, para a [[lexico:c:constituicao|constituição]] da qual vários átomos, mediante forças químicas, se congregam. Em [[lexico:o:oposicao|oposição]] à combinação, um [[lexico:a:agregado|agregado]] é uma reunião menos coerente de vários corpos, sem que dela resulte uma nova substância unitária, — Surge [[lexico:a:agora|agora]], aqui, a questão da [[lexico:d:diversidade|diversidade]] dos corpos, a qual pode ser numérico e específica. A variedade numérica diz que existe uma [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]] de corpos e que o [[lexico:u:universo|universo]] inteiro não constitui, um só corpo, como o [[lexico:m:monismo|monismo]] ensina. Deve admitir-se uma variedade específica (em sentido científico-natural) entre as diversas substância» químicas, sejam elas elementos ou combinações. Tanto os elementos quanto as combinações são, em última [[lexico:i:instancia|instância]], constituídos peles mesmas partículas elementares: protões, neutrões e eletrões, dispostos de maneira diferente, variando apenas acidentalmente, de [[lexico:s:sorte|sorte]] a constituírem ura todo; mesmo assim, dão [[lexico:o:origem|origem]] a substâncias que com [[lexico:r:razao|razão]] se podem qualificar de especificamente distintas. Pelo contrário, a [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre corpos animados e inanimados é essencial, a ponto de não poder ser desfeita por nenhuma mudança acidental ([[lexico:v:vitalismo|vitalismo]]). Problema ulterior posto pela ciência [[lexico:n:natural|natural]] é o da relação ([[lexico:i:identidade|identidade]] ou diversidade) entre [[lexico:m:massa|massa]] e [[lexico:e:energia|energia]]. Enquanto a ciência e a filosofia da. natureza consideram corpos que se encontram nesta como [[lexico:c:coisas-reais|coisas reais]], a [[lexico:m:matematica|matemática]] trata de corpos como formas abstratas. Assim, o corpo geométrico abstrai de todas as propriedades corpóreas, com excepção da extensão tridimensional ou pluri-dimensional. Por corpo algébrico entende-se um conjunto, cujos elementos formam um todo clauso, de sorte que toda combinação de vários elementos, mediante operações racionais de [[lexico:c:calculo|cálculo]], produz um elemento que, por sua vez, pertence ao mesmo conjunto, p. ex,, o conjunto dos números racionais. (II). Entende-se também por corpo o componente [[lexico:s:somatico|somático]] animado do [[lexico:h:homem|homem]] e do [[lexico:a:animal|animal]]. Como corpo (Corpo I) ou ente corpóreo, é uma partícula do cosmos material; enquanto "animado", mostra a [[lexico:s:subordinacao|subordinação]] das leis dos processos meramente físico-químicos às leis da [[lexico:v:vida|vida]] orgânica. — O corpo [[lexico:h:humano|humano]] desempenha, relativamente à alma do homem, o [[lexico:m:multiplo|múltiplo]] papel de base, de [[lexico:c:campo|campo]] de [[lexico:e:expressao|expressão]] e de objeto especial de sua [[lexico:v:vivencia|vivência]]. Base: a [[lexico:a:atividade|atividade]] total da [[lexico:v:vida-sensitiva|vida sensitiva]] está tão intimamente ligada a processos somáticos que, juntamente com estes, constitui a "única" atividade vital animal e sem eles não pode [[lexico:e:existir|existir]]. Indiretamente, pela [[lexico:u:uniao|união]] com a vida sensitiva, a vida intelectual depende também do corpo de muitas maneiras. Recordemos, de modo especial, só a importância do cérebro e dos nervos, da composição do [[lexico:s:sangue|sangue]] e das excreções internas (hormônios), [[lexico:b:bem|Bem]] como da [[lexico:h:hereditariedade|hereditariedade]] para as vivências e atuação psíquicas. — "campo de expressão" (VIDE expressão): muitas vivências psíquicas não chegam a desenvolver-se integralmente, nem mesmo no íntimo da alma, se não lograrem traduzir-se em [[lexico:p:processo|processo]] somático. O olhar, a [[lexico:f:fisionomia|fisionomia]], a constituição, o porte, o movimento, as [[lexico:a:atividades|atividades]] orgânicas, manifestam, a cada passo, a peculiaridade e o [[lexico:r:ritmo|ritmo]] da vivência psíquica. O contato [[lexico:s:social|social]] de alma para alma realiza-se pela via da [[lexico:a:acao|ação]] somática ([[lexico:l:linguagem|linguagem]]). Unido à alma, o corpo constitui o mais elevado e importante "objeto"material de "vivência" daquela, estimulando ou retardando a [[lexico:v:vida-psiquica|vida psíquica]]. Por sua união com a alma espiritual e pela importância que tem para esta, o corpo humano adquire especial [[lexico:d:dignidade|dignidade]], da qual o homem incorrupto tem também espontaneamente consciência em sua [[lexico:r:repugnancia|repugnância]] natural ao envilecimento do corpo (pudor). O homem contrai, a respeito de seu corpo, uma [[lexico:r:responsabilidade|responsabilidade]] [[lexico:m:moral|moral]], que lhe impõe a [[lexico:o:obrigacao|obrigação]] de velar por ele por meio da alimentação, de cuidados e de exercício. De modo peculiar, assiste-lhe o [[lexico:d:dever|dever]] de aspirar a uma reta [[lexico:d:disposicao|disposição]] e subordinação das forças corporais. Para isso, requerem-se, entre outras coisas, a [[lexico:t:temperanca|temperança]] ([[lexico:v:virtudes-cardeais|virtudes cardeais]]) e a castidade (ordenação [[lexico:r:racional|racional]] da vida sexual, o abuso da qual é a desonestidade ou lascívia). O homem não possui o [[lexico:d:direito|direito]] de dispor da substância de seu corpo ([[lexico:s:suicidio|Suicídio]]). Uma das mais importantes tarefas da formação do homem integral é a de chegar a uma justa valorização do corpo, sem convertê-lo em [[lexico:i:idolo|ídolo]], nem professar por ele um ódio maniqueu. — I. Junk — II. Willwoll.