===== CONTINGENTE ===== (lat. Contingens; in. Contingent; fr. Contingent; al. Kontingent; it. Contingente). 1. Os escolásticos latinos traduziram por [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:t:termo:start|termo]] o aristotélico [[lexico:g:grego:start|grego]] endekomenon em De int, 12, 20 b 35. [[lexico:b:boecio:start|Boécio]], a [[lexico:q:quem:start|quem]] se deve a [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] de boa [[lexico:p:parte:start|parte]] da [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]] filosófica latina, já observava que possibile e contingens significam a mesma [[lexico:c:coisa:start|coisa]], salvo talvez pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] de [[lexico:n:nao:start|não]] [[lexico:e:existir:start|existir]] o [[lexico:n:negativo:start|negativo]] de contingens, que deveria [[lexico:s:ser:start|ser]] incontingens, assim como existe o negativo de possibile, que é impossibile (De interpretatione, , V; P. L., 64s, col. 582-83). Todavia, na [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]], e sobretudo por [[lexico:i:influencia:start|influência]] da [[lexico:f:filosofia-arabe:start|filosofia árabe]], o termo contingente passou a [[lexico:t:ter:start|ter]] [[lexico:s:significado:start|significado]] específico, diferente do que se entende por "[[lexico:p:possivel:start|possível]]"; passou a significar aquilo que, embora sendo possível "em si", isto é, em seu [[lexico:c:conceito:start|conceito]], pode ser [[lexico:n:necessario:start|necessário]] em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a outra coisa, ou seja, àquilo que o faz ser. P. ex., um [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] qualquer do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] é contingente no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de que: 1) considerado de per si, poderia verificar-se ou não; 2) verifica-se necessariamente pela sua [[lexico:c:causa:start|causa]]. Desse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, enquanto o possível não só não é necessário em si, mas tampouco é necessariamente determinado a ser, o contingente é o possível que pode ser necessariamente determinado e, portanto, pode ser necessário. Por isso, a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de contingente é ambígua e pouco coerente, mas seu [[lexico:u:uso:start|uso]] na [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] antiga e [[lexico:m:moderna:start|moderna]] é [[lexico:b:bem:start|Bem]] grande. Esse uso foi introduzido pelo [[lexico:n:necessitarismo:start|necessitarismo]] árabe, especialmente por [[lexico:a:avicena:start|Avicena]]. "Se uma coisa não é necessária em relação a si mesma", dizia Avicena, "é preciso que seja possível em relação a si mesma, mas necessária em relação a uma coisa diferente" (Met., II, 1, 2). [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] possível permanece sempre possível em relação a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], mas pode ocorrer que seja de [[lexico:m:modo:start|modo]] necessário em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] de uma coisa diferente de si (Ibid., II, 2, 3). Desse modo, tudo o que existe, de [[lexico:d:deus:start|Deus]] à coisa [[lexico:n:natural:start|natural]] mais ínfima, existe necessariamente, segundo Avicena. Mas enquanto Deus e as realidades primeiras são necessárias em si, as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] finitas são necessárias "para outra coisa", já que em si mesmas são possíveis; e nesse sentido são contingentes. Essa noção não se alterou substancialmente em toda a filosofia escolástica nem na [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]], que, no entanto, utiliza-a muito menos. S. Tomás, que define o contingente como possível, isto é, como "o que pode ser ou não ser", reconhece que nele já podem ser encontrados [[lexico:e:elementos:start|elementos]] de [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] (S. Th., I, q. 86, a. 3). Duns Scot reproduz a noção de Avicena, defendendo-a da acusação de [[lexico:c:contradicao:start|contradição]] (Op. Ox., 1, d. 8, q. 5, a. 2, n. 7). Essa noção reaparece com a clareza desejável na doutrina de [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]]: segundo ele uma coisa só pode ser considerada por um defeito de nosso [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] (Et., I, 33, scol. 1), já que na [[lexico:r:realidade:start|realidade]], [[lexico:n:nada:start|nada]] há de contingente e tudo é determinado pela [[lexico:n:natureza:start|natureza]] divina para ser e para atuar de certo modo (Ibid., I, 29). A escolástica falava também de "verdades contingentes", que são as que se referem a eventos contingentes (p. ex., Ockham, In Sent., prol., q. 1. Z). [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] dizia que as verdades contingentes se distinguem das verdades necessárias assim como os números incomensuráveis se distinguem dos comensuráveis, isto é, no sentido de que, assim como é possível obter resolução dos números incomensuráveis à [[lexico:m:medida:start|medida]] comum, também é possível obter a [[lexico:r:reducao:start|redução]] das verdades necessárias a verdades idênticas. Isso, porém, exigiria um [[lexico:p:progresso:start|progresso]] [[lexico:i:infinito:start|infinito]] para as verdades contingentes (ou de fato), progresso que pode ser efetuado somente por Deus (Op., ed. Erdmann, p. 83). Em sentido [[lexico:a:analogo:start|análogo]], fala-se hoje de "[[lexico:c:contingencia:start|contingência]] [[lexico:l:logica:start|lógica]]", no sentido de que não se pode comprovar se as proposições empíricas são verdadeiras ou falsas a partir de qualquer de seus [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] lógicos: é o que faz C. I. Lewis (Analysis of Knowledge and Valuation, p. 340). Carnap no mesmo sentido usa esse termo (Meaning and Necessity, § 39) (v. [[lexico:m:modalidade:start|modalidade]]; possível). 2. Na filosofia contemporânea, sobretudo na francesa a partir da [[lexico:o:obra:start|obra]] de Boutroux, A contingência das leis da natureza (1874), o termo contingente passou a ser sinônimo de "não-determinado", isto é, de livre e imprevisível; designa especialmente o que de livre, nesse sentido, se encontra ou age no mundo natural. [[lexico:b:bergson:start|Bergson]] adota esse termo no mesmo sentido: "O papel da contingência é importante na [[lexico:e:evolucao:start|evolução]]. Contingente, o mais das vezes, são as formas adotadas, ou melhor, inventadas. Contingente, relativamente a obstáculos encontrados em tal [[lexico:l:lugar:start|lugar]] e em tal [[lexico:m:momento:start|momento]], é a dissociação da [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] primordial em diversas tendências complementares que produzem linhas divergentes de evolução. Contingente são as paradas e os retornos" (Évol. créatr., 11a ed., p. 277, 1911). Nesse sentido, contingência identifica-se com [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] e ambas se opõem a necessidade; ao passo que a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]], segundo Bergson, é só a [[lexico:i:imagem:start|imagem]] que a realidade, em sua autocriação contingente, isto é, "imprevisível e nova, projeta de si mesma em seu [[lexico:p:proprio:start|próprio]] passado" (La pensée et le mouvant, p. 128). O uso do termo "contingência" nesse significado caracteriza as correntes do [[lexico:c:chamado:start|chamado]] [[lexico:i:indeterminismo:start|indeterminismo]] contemporâneo: doutrinas filosóficas que interpretam a natureza em termos de liberdade e de [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]], isto é, em termos de [[lexico:e:espirito:start|espírito]]. A esse significado também se reporta o uso desse termo por [[lexico:s:sartre:start|Sartre]], para quem contingência é o fato, de a liberdade "não poder não existir". Contingência, portanto, é a liberdade na relação do [[lexico:h:homem:start|homem]] com o mundo (L’être et le néant, p. 567). O [[lexico:p:problema:start|problema]] da [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] da [[lexico:e:existencia:start|existência]] concreta, isto é, da existência deste ser que percebe pelos sentidos, está em íntima conexão com o problema do conhecimento do [[lexico:s:singular:start|singular]]. De uma parte, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], só o singular existe e, mais profundamente, o que obsta a [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]], tanto no existente como tal, quanto no singular, é a materialidade ou a potencialidade que o limita. De si o singular e o existente não são de modo algum ininteligíveis. São as condições nas quais se encontram implicados no mundo que nos cerca que velam o olhar do espírito. É importante notar que o conhecimento da existência, do qual se trata presentemente, não é a concepção [[lexico:u:universal:start|universal]] ou quididativa que a [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] pode formar desta noção. Assim, tenho a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] comum do que existe. Mais fundamentalmente, é preciso reconhecer que em sua primeira [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]], que é a do ser, o espírito se refere sempre à existência. O ser é, com efeito, o que existe ou pode existir. Em seu primeiro [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]], a inteligência envolve de algum modo a [[lexico:o:ordem:start|ordem]] do [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]] e a do [[lexico:c:concreto:start|concreto]] e é o que faz com que ela possa ir depois de um para [[lexico:o:outro:start|outro]]. Atualmente, porém, trata-se da apreensão de tal existência determinada. Lembremos que ainda aqui nós nos limitamos voluntariamente ao problema do conhecimento, pela inteligência humana, da realidade percebida pelos sentidos. A [[lexico:t:tese:start|tese]] comum do conhecimento do contingente. Esta [[lexico:q:questao:start|questão]] da apreensão pela inteligência humana do concreto existente, deve ser compreendida na tese mais [[lexico:g:geral:start|geral]] do conhecimento, por toda inteligência, do contingente (cf. Ia Pª, q. 86, a. 3). O ser contingente é aquele que não existe necessariamente ou que pode não existir. Como conseguiremos atingi-lo? Convém, antes de tudo, colocar de lado um primeiro conhecimento deste ser que se liga ao conhecimento quididativo Em [[lexico:t:todo:start|todo]] ser contingente, com efeito, há determinações necessárias que resultam de sua [[lexico:f:forma:start|forma]], ou da natureza das coisas, e que a inteligência pode evidentemente conceber. Assim direi que se [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]] se põe a correr, é necessário que se mova. Mas, como poderia reconhecer que Sócrates corre, sendo isto um fato contingente? Na resposta que dá aqui a esta questão, [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] recorre à mesma [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] que havia proposto para o singular: na realidade, os dois problemas se confundem, pois a [[lexico:s:singularidade:start|singularidade]] e a contingência têm semelhantemente sua [[lexico:r:raiz:start|raiz]] na [[lexico:m:materia:start|matéria]]. Como o singular, portanto, o contingente será captado de modo direto pelo sentido e indiretamente pela inteligência: "[[lexico:c:contingentia:start|contingentia]], prout sunt contingentia, cognoscuntur directe quidem sensu, indirecte autem intellectu". Consequentemente é na e pela [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] sobre as imagens que se atinge a existência concreta das coisas, a qual diretamente se refere só ao sentido. É possível precisar ainda o modo deste conhecimento concreto do existente? Conhecimento de [[lexico:v:visao:start|visão]] ou "per praesentiam". Tomás de Aquino explicou este ponto sobretudo a propósito de caso privilegiado do conhecimento que Deus tem do contingente existente (cf. I, q. 14, a. 2). Em Deus deve-se distinguir dois tipos fundamentais de [[lexico:s:saber:start|saber]]: - a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] da visão, que se relaciona ao que é concretamente existente (no passado, no presente ou no [[lexico:f:futuro:start|futuro]]); - a ciência de [[lexico:s:simples:start|simples]] inteligência, que concerne aos possíveis que jamais serão realizados. Aproximativamente, esta [[lexico:d:distincao:start|distinção]] corresponde à que se encontra em nosso caso do [[lexico:c:conhecimento-abstrativo:start|conhecimento abstrativo]] e da apreensão do concreto. Em que exatamente diferem os dois saberes considerados? João de Tomás de Aquino (cf. Logica, q. 23, a. 2) glosando certas passagens de Tomás de Aquino (em [[lexico:p:particular:start|particular]] De Veritate, q. 3, a. 3), concluiu que a ciência de visão se distingue da ciência de simples inteligência por lhe acrescentar uma [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] que está fora da ordem da [[lexico:r:representacao:start|representação]] e que é a [[lexico:p:presenca:start|presença]] da coisa: a coisa concebida de maneira abstrativa é vista como presente. Em [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] moderna fala-se antes de [[lexico:i:intuicao:start|intuição]]. Deve-se notar, em favor desta [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]], que o próprio Tomás de Aquino, desde que se trate do conhecimento [[lexico:a:atual:start|atual]] do contingente, [[lexico:f:fala:start|fala]] sempre da presença da coisa: a ciência de visão é assim formalmente um conhecimento "per praesentiam". O comentador que aqui seguimos aplica a precedente [[lexico:a:analise:start|análise]] ao caso do conhecimento. Que modificação deverá padecer o conhecimento abstrativo ou conceitual para atingir a existência como tal? A mesma que precedentemente: será preciso que o conceito seja referido à coisa vista como presente à nossa [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]], ou que nosso conhecimento termine nesta coisa, tendo-se especificado que a presença, de que aqui se trata, é concreta e não simplesmente representada: sei com efeito, que Deus está presente em toda parte e contudo não posso, por este fato, dizer que o vejo. Será conveniente precisar ainda que esta presença à nossa faculdade supõe a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] do [[lexico:o:objeto:start|objeto]] sobre a [[lexico:p:potencia:start|potência]] e funda-se sobre ela mesma. Em nós, a ordem do conhecimento concreto repousa, em última análise, sobre a ordem da eficácia causal. Conclusão: o [[lexico:j:juizo:start|juízo]] de existência. O juízo de existência concreta, "o que percebo atualmente existe", tão somente explica, no nível da [[lexico:o:operacao:start|operação]] perfectiva de espírito, o que se acha [[lexico:d:dado:start|dado]] na primeira apreensão, duplicada pela reflexão sobre o [[lexico:c:conhecimento-sensivel:start|conhecimento sensível]] que está em sua [[lexico:o:origem:start|origem]]. Um objeto apresenta-se aos meus sentidos. Por [[lexico:a:abstracao:start|abstração]] [[lexico:e:eu:start|eu]] o concebo intelectualmente como algo que é (noção confusa do ser material); mas simultaneamente esta concepção aparece-me ligada ao objeto que captei como presente. Se decomponho este dado [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]] segundo os dois aspectos que me oferece, de [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] determinado e de existência atual, vejo que a existência atual convém a este sujeito e eu lha atribuo; pronuncio então este juízo: "isto existe", no qual afirmo o [[lexico:c:carater:start|caráter]] concreto do ser percebido; ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] tomo [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] da [[lexico:v:verdade:start|verdade]] de meu [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] enquanto este se confronta com o objeto considerado. Assim termina o ciclo total da atividade intelectual, a qual visa atingir o ser até sua [[lexico:a:atualidade:start|atualidade]] última e perfectiva, a existência. Resta evidentemente efetuar, em uma outra linha, todo o [[lexico:p:processo:start|processo]], precedentemente descrito, pelo qual a inteligência procura adquirir um conhecimento distinto da [[lexico:e:essencia:start|essência]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}