===== CONSCIÊNCIA ===== Consciência, no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:e:estrito:start|estrito]], [[lexico:p:proprio:start|próprio]] da [[lexico:p:palavra:start|palavra]] (1), significa uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:s:saber:start|saber]] concomitante (con-scientia) acerca da [[lexico:e:existencia:start|existência]] psíquica própria e dos estados em que ela se encontra num [[lexico:d:dado:start|dado]] [[lexico:m:momento:start|momento]]. Ao contrário do [[lexico:v:vegetal:start|vegetal]], que "vive", mas tudo ignora de suas [[lexico:a:atividades:start|atividades]] vitais, o [[lexico:h:homem:start|homem]], mediante um saber que as acompanha, pode "vivê-las", pode tê-las na conta das "vivências" que lhe pertencem. A consciência reflexa perfeita projeta-se sobre os processos e estados psíquicos (consciência do [[lexico:a:ato:start|ato]]), sobre o "estar-dirigido" a um [[lexico:o:objeto:start|objeto]], que é próprio do ato (consciência do objeto), e também sobre o próprio [[lexico:e:eu:start|eu]], como o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] das vivências (consciência do sujeito, consciência do eu, [[lexico:a:autoconsciencia:start|autoconsciência]]). A consciência reflexa faz que possamos distinguir entre eu, ato e objeto; distanciar-nos, por assim dizer, deles e inquirir suas mútuas [[lexico:r:relacoes:start|relações]] e o [[lexico:v:valor:start|valor]] lógico-formal, epistemológico e ético dos atos e, por essa [[lexico:f:forma:start|forma]], chegar à [[lexico:c:cultura:start|cultura]] intelectual. Na consciência imperfeitamente reflexa da [[lexico:v:vida:start|vida]] cotidiana a [[lexico:a:atencao:start|atenção]] projeta-se, direta e principalmente sobre os objetos, mas de tal maneira que, por assim dizer, roça o próprio eu, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que este vive o objeto e simultaneamente o tem diante. (De contrário, [[lexico:n:nao:start|não]] nos seria [[lexico:p:possivel:start|possível]] recordar, mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]], como nossas, as vivências pretéritas). Estas formas da consciência reflexa são privativas do [[lexico:s:ser-espiritual:start|ser espiritual]], e a [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] para ela pertence à [[lexico:e:essencia:start|essência]] do [[lexico:e:espirito:start|espírito]] que "se auto-possui", que "existe consigo mesmo". Contudo, devemos também atribuir ao puramente [[lexico:a:animal:start|animal]] pelo menos uma consciência direta, graças à qual ele "vive" de algum [[lexico:m:modo:start|modo]] sua [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] para o objeto, embora sem refletir sobre o próprio eu e sobre o [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]] dos atos. Em sentido metafórico, o [[lexico:t:termo:start|termo]] "consciência" significa (2) muitas vezes um [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] de vivências não já pertencentes ao [[lexico:t:tempo:start|tempo]] [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]] presente (recordação); designa, [[lexico:a:alem:start|além]] disso (3), um saber acerca do valor ou desvalor da própria [[lexico:o:operacao:start|operação]] ("tem-se consciência" de uma boa [[lexico:a:acao:start|ação]]) ou do valor da maneira de [[lexico:s:ser:start|ser]] própria ("consciência de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]", entendida como [[lexico:o:orgulho:start|orgulho]]); e indica, por [[lexico:f:fim:start|fim]], (4) a capacidade de vivei conscientemente ("perde"-se a consciência). Para [[lexico:e:explicar:start|explicar]] o modo como os atos psíquicos se tornam conscientes, muitos escolásticos admitem, no caso da consciência sensitiva, a existência de atos especiais próprios de uma "[[lexico:f:faculdade:start|faculdade]]" sensitiva peculiar um "[[lexico:s:sensus:start|sensus]] intimus"; e, no caso da consciência reflexa intelectual, um ato cognoscitivo especial da [[lexico:m:mente:start|mente]]. Contudo, tratando-se da consciência em sentido estrito, ou seja, de [[lexico:v:viver:start|viver]] atos e estados presentes, parece não haver [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de um ato especial. Antes, é [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] do espírito o possuir-se também a si mesmo por [[lexico:m:meio:start|meio]] de seus atos, e é propriedade do ato espiritual o ser "[[lexico:c:consciente:start|consciente]]" [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmo. Algo de [[lexico:a:analogo:start|análogo]] ocorre (no que tange a este [[lexico:u:ultimo:start|último]] [[lexico:p:ponto:start|ponto]]) com o ato sensitivo consciente. O espírito, liberto das peias causadas pelo [[lexico:e:estado:start|Estado]] de [[lexico:u:uniao:start|união]] com o [[lexico:c:corpo:start|corpo]], contemplaria diretamente sua essência espiritual como tal, ao passo que, unido ao corpo, só por [[lexico:d:deducao:start|dedução]] pode apurá-la. As vivências singulares da consciência não estão isoladas e justapostas, mas unidas normalmente, sob duplo aspecto: por pertencerem a um [[lexico:u:unico:start|único]] e mesmo "eu", que continua sendo o mesmo no fluxo das mudanças vivenciais, e por sua mútua conexão que a [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] pode [[lexico:c:compreender:start|compreender]]. Daí, o poder-se também, em [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] metafórica, [[lexico:f:falar:start|falar]] de consciência como de um [[lexico:e:espaco:start|espaço]], onde se encontram as vivências como "conteúdos de consciência" , situados todavia em "diferentes escalões" da mesma, no [[lexico:r:referente:start|referente]] à clareza de sua consciencialização. Embora, num dado momento, o centro da consciência se encontre ocupado por um só conteúdo [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] (estreiteza da consciência), podem simultaneamente brilhar, na "margem da consciência", vários conteúdos notados de maneira mais ou menos frouxa. Em casos patológicos, pode uma [[lexico:s:serie:start|série]] de vivências, em si mesma todavia coerente, separar-se tão profundamente da conexão vivida e [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]] com as restantes séries vivenciais simultâneas ou anteriores, que se torne possível falar de uma "cisão" ou "desdobramento" da [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] psicológica. Contudo, em rigor de [[lexico:e:expressao:start|expressão]], não se pode falar de um "duplo eu". De igual maneira, complexos isolados de vivências ou resíduos destas, existentes na [[lexico:m:memoria:start|memória]], podem ser recalcados para o [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]], por uma forma gravemente nociva ao [[lexico:b:bom:start|Bom]] funcionamento das atividades psíquicas no curso da vida. Para a [[lexico:e:epistemologia:start|epistemologia]], o [[lexico:t:testemunho:start|testemunho]] [[lexico:i:imediato:start|imediato]] da consciência apresenta-se como sendo a primeira e mais segura [[lexico:f:fonte:start|fonte]] do saber certo. [[lexico:e:esse:start|esse]] testemunho « sua valorização constituem hoje, por uma ou por outra forma, o ponto de partida da epistemologia realista (VIDE [[lexico:t:teoria-do-conhecimento:start|teoria do conhecimento]]). — Willwoll. O termo “consciência” tem, em português, pelo menos dois sentidos, [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] ou [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] de algo, quer de algo [[lexico:e:exterior:start|exterior]], como um objeto, uma [[lexico:r:realidade:start|realidade]], uma [[lexico:s:situacao:start|situação]], etc, quer de algo interior, como as modificações sofridas pelo próprio eu; conhecimento do [[lexico:b:bem:start|Bem]] e do [[lexico:m:mal:start|mal]]. O sentido segundo expressa-se mais propriamente por meio da expressão [[lexico:c:consciencia-moral:start|consciência moral]], pelo que reservamos um artigo especial a este último [[lexico:c:conceito:start|conceito]]. Neste artigo, referir-nos-emos apenas ao sentido primeiro. O sentido primeiro pode desdobrar-se noutros sentidos: o [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]], o epistemológico ou gnoseológico, e o metafísico. Em sentido psicológico, a consciência é a [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] do eu por si mesmo, que por vezes também se chama [[lexico:a:apercepcao:start|apercepção]]. Em sentido epistemológico, a consciência é primeiramente o sujeito do conhecimento, falando-se então da [[lexico:r:relacao:start|relação]] consciência-objeto consciente [[lexico:c:como-se:start|como se]] equivalesse à relação [[lexico:s:sujeito-objeto:start|sujeito-objeto]]. Em sentido metafísico, chama-se muitas vezes à consciência o Eu. Trata-se, umas vezes de uma [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] da consciência psicológica ou gnoseológica e, outras vezes, de uma realidade que se supõe prévia a qualquer [[lexico:e:esfera:start|esfera]] psicológica ou gnoseológica. No decurso da [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]], houve muitas vezes confusões entre o sentido mencionado. A única [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que parece comum a estes três sentidos é o [[lexico:c:carater:start|caráter]] supostamente unificado e unificante da consciência. Dentro de cada um destes sentidos, e especialmente dentro dos dois primeiros, estabeleceram-se várias distinções. Falou-se, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], de consciência sensitiva e intelectiva, de consciência direta e de consciência reflexa, de consciência não [[lexico:i:intencional:start|intencional]] e de consciência intencional. Esta última [[lexico:d:divisao:start|divisão]] é, a nosso [[lexico:v:ver:start|ver]], fundamental. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], quase todas as concepções da consciência na [[lexico:h:historia:start|história]] da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] podem classificar-se nos que admitem a [[lexico:i:intencionalidade:start|intencionalidade]] e nos que a negam ou simplesmente não a supõem. Os filósofos que se inclinaram a conceber a consciência como uma coisa entre as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] negaram a intencionalidade ou não a tiveram em conta. A consciência é então descrita como uma faculdade com certas caraterísticas únicas. Em contrapartida, aqueles que propenderam para não considerar a consciência como uma coisa - nem sequer como uma coisa reflecionante - afirmaram ou supuseram, de algum modo, a intencionalidade da consciência. A consciência é então descrita como uma [[lexico:f:funcao:start|função]] ou conjunto de funções, como um foco de atividades ou, melhor dizendo, como um conjunto de atos orientados para algo: aquilo de que a consciência está consciente. Muitos filósofos gregos inclinaram-se para uma concepção não intencional e coisista da consciência. Muitos filósofos cristãos sublinharam o caráter intencional da consciência. Muitos filósofos modernos, como por exemplo, [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], inclinaram-se para uma concepção de [[lexico:n:natureza:start|natureza]] intencional e intimista. [[lexico:k:kant:start|Kant]] estabeleceu uma [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre a consciência empírica (psicológica) e a consciência [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]] (gnoseológica) [[lexico:c:critica-da-razao-pura:start|CRÍTICA DA RAZÃO PURA]]. A primeira pertence ao [[lexico:m:mundo:start|mundo]] fenoménico; a sua [[lexico:u:unidade:start|unidade]] só pode ser proporcionada pelas sínteses levadas a cabo mediante as intuições do espaço e do tempo e dos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] do [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]]. A segunda é a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] da unificação de qualquer consciência empírica e, portanto, da sua [[lexico:i:identidade:start|identidade]] - e, em última [[lexico:a:analise:start|análise]], - a possibilidade de [[lexico:t:todo:start|todo]] o conhecimento. Logo que exclui a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de coisa em si, a consciência pura ([[lexico:s:sensivel:start|sensível]]) kantiana passou de ser [[lexico:p:principio:start|princípio]] de unificação de um material [[lexico:e:empirico:start|empírico]] dado (embora não organizado) a princípio de realidade. isso aconteceu com os idealistas pós-kantianos. Em [[lexico:f:fichte:start|Fichte]] e [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], temos uma passagem da [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de consciência transcendental (gnoseológica) para a ideia de consciência [[lexico:m:metafisica:start|METAFÍSICA]]. Fichte faz da consciência o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] total e identifica-a com o Eu que se estabelece a si mesmo. Hegel descreve os graus ou figuras da consciência num [[lexico:p:processo:start|processo]] dialéctico no decurso do qual o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] da consciência se identifica com o desenvolvimento da realidade. Embora na [[lexico:f:fenomenologia-do-espirito:start|fenomenologia do espírito]] a consciência apareça como o primeiro [[lexico:e:estadio:start|estádio]], a autoconsciência como o segundo e o espírito, enquanto livre e [[lexico:c:concreto:start|concreto]], como o [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] (desenvolvendo-se em [[lexico:r:razao:start|razão]], espírito e [[lexico:r:religiao:start|religião]], e culminando no saber [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]), pode conceber-se a consciência como a “[[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] dos seus momentos”, e os momentos da noção do saber [[lexico:p:puro:start|puro]] “tomam a forma de figuras ou modos da consciência”. Em Hegel, a consciência abrange, pois, a realidade que se desenvolve a si mesma, transcendendo-se a si mesma e superando-se continuamente a si mesma. A maior atenção prestada depois do [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] à [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] e à irrupção do [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]] deram ao termo consciência um [[lexico:s:significado:start|significado]] mais propriamente psicológico girando, desde então, a [[lexico:d:discussao:start|discussão]] em torno do caráter ativo ou [[lexico:p:passivo:start|passivo]], dependente ou [[lexico:i:independente:start|independente]], [[lexico:a:atual:start|atual]] ou [[lexico:s:substancial:start|substancial]], da consciência. Cada uma destas concepções representa, por sua vez, um novo [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de psicologia, combinando-se, por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, a noção de [[lexico:a:atividade:start|atividade]] com as de independência e [[lexico:s:substancialidade:start|substancialidade]], ou a de passividade com a de [[lexico:a:atualidade:start|atualidade]] e dependência. [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] discute, nas [[lexico:i:investigacoes-logicas:start|INVESTIGAÇÕES LÓGICAS]], a [[lexico:s:significacao:start|significação]] da consciência entendida como: 1: a total [[lexico:c:consistencia:start|consistência]] fenomenológica [[lexico:r:real:start|real]] do eu empírico, como o entrelaçamento das vivências psíquicas na unidade do seu curso; 2: como percepção interna das vivências psíquicas próprias, e 3: como [[lexico:n:nome:start|nome]] colectivo para todas as espécies de atos psíquicos ou “[[lexico:v:vivencias-intencionais:start|vivências intencionais]]”, dando a maior amplitude à discussão da consciência como [[lexico:v:vivencia:start|vivência]] intencional. Através das fases ulteriores da [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]], a concepção husserliana da consciência sofre várias modificações, pois a mera [[lexico:s:sintese:start|síntese]] vivencial converte-se num ponto de [[lexico:r:referencia:start|referência]] e, finalmente, num [[lexico:e:eu-puro:start|eu puro]] cujo fundamento é constituído pela totalidade e pela [[lexico:h:historicidade:start|historicidade]]. Desta maneira, e particularmente ao distinguir os diversos modos da consciência, Husserl chega a uma concepção da mesma de ascendência cartesiana. Partindo também de Husserl, Jean Paul [[lexico:s:sartre:start|Sartre]] insistiu no caráter intencional da consciência, na [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] de a definir por meio de [[lexico:c:categorias:start|categorias]] pertencentes às coisas. Sendo a consciência um “dirigir-se a”, a sua relação com a realidade não é a relação que existe entre uma natureza e outra natureza. por isso, pode haver consciência do ausente ou até do inexistente. E por isso para compreender a relação entre a consciência e as coisas (existentes ou não existentes, presentes ou ausentes), há que excluir toda a ideia de relação causal. Não havendo, segundo Sartre, a relação causal, a consciência pode, pois, apresentar-se como [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]]. Independentemente de Husserl, mas numa direcção análoga, [[lexico:d:dilthey:start|Dilthey]] e [[lexico:b:bergson:start|Bergson]] coincidem na noção de consciência em vários pontos importantes. O eu puro de Husserl, que tem tempo e história, corresponde, em [[lexico:p:parte:start|parte]], ao conceito diltheyano da consciência como historicidade e totalidade, tal como ao conceito bergsoniano de memória pura, da [[lexico:d:duracao:start|duração]] pura e da pura [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]]. Em contrapartida, alguns filósofos de [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] fenomenista e empirista radical acabaram por dissolver a noção de consciência. Todavia, em muitos autores naturalistas do século XVII, a consciência sem ser negada, estava inteiramente subordinada à realidade - isto é, à natureza. [[lexico:m:marx:start|Marx]] afirmou que a realidade determina a consciência e não o contrário. Embora seja possível encontrar no [[lexico:m:marxismo:start|marxismo]] certa tendência para identificar - pelo menos no [[lexico:c:campo:start|campo]] [[lexico:h:historico:start|histórico]] - a [[lexico:r:realidade-social:start|realidade social]] com a consciência dessa realidade, muitos autores marxistas (por exemplo Lenine) defenderam uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]] do conhecimento fotográfico, segundo a qual a consciência se limita a reflectir o real. (1) (in. Awareness; it. Consapevolezzà). (2) (lat. [[lexico:c:conscientia:start|conscientia]]; in. Conscioussness - consciência teórica, conscience = consciência [[lexico:m:moral:start|moral]]; fr. conscience, al. Bewusstsein = consciência teórica, [[lexico:g:gewissen:start|Gewissen]] = consciência moral; it. Coscienza). No tocante ao conceito (1), em [[lexico:g:geral:start|geral]], a possibilidade de dar atenção aos próprios modos de ser e às próprias [[lexico:a:acoes:start|ações]], bem como de exprimi-los com a linguagem. Essa possibilidade é a única base de [[lexico:f:fato:start|fato]] sobre a qual foi edificada a noção filosófica de consciência. [[lexico:p:platao:start|Platão]] e [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], que não tiveram este segundo conceito, conheceram e descreveram o primeiro. No tocante ao conceito (2), o [[lexico:u:uso:start|uso]] filosófico desse termo tem pouco ou [[lexico:n:nada:start|nada]] a ver com o significado comum, de [[lexico:e:estar:start|estar]] ciente dos próprios estados, percepções, [[lexico:i:ideias:start|ideias]], sentimentos, volições, etc, quando se diz que um homem "está consciente" ou "tem consciência", se não está dormindo, desmaiado, nem afastado, por outros acontecimentos, da atenção a seus modos de ser e a suas ações. O significado que esse termo tem na [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]] e contemporânea, embora pressuponha genericamente essa acepção comum, é muito mais [[lexico:c:complexo:start|complexo]]: é o de uma relação da [[lexico:a:alma:start|alma]] consigo mesma, de uma relação intrínseca ao homem, "interior" ou "espiritual", pela qual ele pode conhecer-se de modo imediato e privilegiado e por isso julgar-se de forma segura e infalível. Trata-se, portanto, de uma noção em que o aspecto moral — a possibilidade de autojulgar-se — tem conexões estreitas com o aspecto [[lexico:t:teorico:start|teórico]], a possibilidade de conhecer-se de modo direto e infalível. Mesmo do ponto de vista histórico, os dois aspectos desse significado foram-se determinando paralelamente. Cristianismo e [[lexico:n:neoplatonismo:start|neoplatonismo]] elaboraram paripassu a noção da relação puramente privada do homem consigo mesmo, na qual o homem se desliga das coisas e dos outros e "retorna para si mesmo", testemunhando de si para si e criando uma [[lexico:i:indagacao:start|indagação]] puramente "interior", na qual possa conhecer-se com absoluta [[lexico:v:verdade:start|verdade]] e [[lexico:c:certeza:start|certeza]]. A [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] histórica do conceito de consciência, portanto, é correlativa à de esfera de [[lexico:i:interioridade:start|interioridade]], como um campo específico no qual seja possível realizar indagações ou buscas que digam [[lexico:r:respeito:start|respeito]] à realidade última do homem e, com muita frequência, ao que nela se revela, ou seja, [[lexico:d:deus:start|Deus]] mesmo ou um princípio [[lexico:d:divino:start|divino]]. Portanto, o termo consciência, nesse sentido, significa não só a qualidade de estar ciente de seus próprios conteúdos psíquicos (percepções externas ou atos autônomos do espírito), mas a [[lexico:a:atitude:start|atitude]] de "[[lexico:r:retorno:start|retorno]] para si mesmo", de indagação voltada para a esfera de interioridade. O uso filosófico da noção de consciência supõe o reconhecimento da realidade dessa esfera e da sua natureza privilegiada. É só por [[lexico:e:existir:start|existir]] uma esfera de interioridade, que é uma realidade privilegiada, de natureza [[lexico:s:superior:start|superior]] ou, de qualquer forma, acessível ou mais indubitável para o homem, que a consciência constitui um [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] importante de conhecimento e de orientação prática. *Ora, não parece que a filosofia clássica da [[lexico:g:grecia:start|Grécia]] tenha reconhecido a realidade privilegiada da interioridade espiritual. A noção que, na filosofia de Platão, mais se aproxima da relação da alma consigo mesma é a [[lexico:d:definicao:start|definição]] de [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] (ou [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] em geral) como "[[lexico:d:dialogo:start|diálogo]] interior da alma consigo mesma" (Teet., 189 e; Sof, 263 e), mas o mais notável nessa definição é o fato de utilizar a linguagem para definir o pensamento, mais precisamente a linguagem para perguntar e responder, isto é, como diálogo ou [[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]]. Portanto, o fato originário e privilegiado é a linguagem, não a interioridade da alma. Além disso, quando em [[lexico:f:filebo:start|Filebo]], Platão quer refutar a [[lexico:t:tese:start|tese]] de que o bem consiste no [[lexico:p:prazer:start|prazer]], argumentando que isso reduziria a vida humana a uma vida de molusco fechado em sua casca, enumera os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] ou os aspectos da vida que, nesse caso, faltariam ao homem: lembrança do prazer fruído; opinião verdadeira, que é saber que se está sentindo prazer; e [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]], que permite a [[lexico:p:previsao:start|previsão]] do prazer [[lexico:f:futuro:start|futuro]] (Fil., 21 c). Assim, segundo Platão, o que constitui aquilo que chamamos de consciência (no sentido de conhecimento dos nossos estados) nada mais é que lembrança, opinião e raciocínio, isto é, o conjunto das atividades cognitivas em geral. E é quase supérfluo observar que, quando Platão insiste no fato de que alguns processos (em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]] o [[lexico:j:juizo:start|juízo]], na medida em que se vale do "é" ou do "não é") não podem ser atribuídos a outro [[lexico:o:orgao:start|órgão]] que não a alma, que indaga por si só sobre o que há de comum nas sensações (Teet., 185 e ss.), não faz referência a uma esfera de interioridade, mas pretende insistir na independência dos processos racionais em relação aos dados sensíveis. "A alma só, por si" é contraposta à alma que sofre as impressões sensíveis e depende delas. Em Aristóteles, não se encontra uma noção sequer de interioridade espiritual. Por um lado, ele atribui a consciência, como o estar ciente das próprias percepções sensíveis, aos sentidos, de tal modo que, por ex., sentir que se vê pertence ao sentido da [[lexico:v:visao:start|visão]], assim como sentir que se ouve, ao sentido da [[lexico:a:audicao:start|audição]]. Não é possível que o estar cônscio de ver pertença a outro sentido que não o da visão, já que, nesse caso, haveria uma série infinita de órgãos sensíveis: o sentir que se sente que se sente... que se vê (De an., III, 2, 425 b 12). Por outro lado, a noção de "pensamento do pensamento", com que ele define a vida de Deus, nada tem a ver com a interioridade da consciência: exprime somente a exigência de que o pensamento, que, para o homem, pode [[lexico:t:ter:start|ter]] como objeto até as piores coisas, em Deus só tenha por objeto o que há de mais excelente, isto é, o próprio pensamento (Met., XII, 9, 1074 b 30 e ss.). O reconhecimento de uma realidade interior privilegiada só existe nas filosofias que assumem como [[lexico:t:tema:start|tema]] a [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] entre "interioridade" e "[[lexico:e:exterioridade:start|exterioridade]]", ou seja, que se chamam a si a [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] de afastar o homem das relações com as coisas e com os outros homens (isto é, com a natureza e com o mundo histórico-social) para torná-lo um "[[lexico:s:sabio:start|sábio]]", para [[lexico:q:quem:start|quem]] essa relação seja indiferente. Isso ocorre na filosofia pós-aristotélica, a partir do [[lexico:e:estoicismo:start|estoicismo]]. Sabemos que Crisipo já insistia na distinção entre o pensamento e a consciência do pensamento (Galeno, Hipp. et Plat. dogm., V, 215). Essa distinção, com a qual também começa o uso da palavra consciência em sentido específico, passa a ser lugar-comum da pregação moral do Estoicismo e depois se torna tema dominante e central da filosofia neoplatônica; esta acentuou a [[lexico:s:separacao:start|separação]] entre o homem e o mundo, elaborando, portanto, como fazia o Cristianismo paralelamente, a noção de testemunho interior privilegiado. Fílon utiliza a noção de consciência (De virtutibus, 124; De special legibus, II, 49) com o mesmo sentido moral que se observa em [[lexico:e:eclesiastes:start|Eclesiastes]] (10, 20) e nas Epístolas de São Paulo (Rom., 2, 15; 13, 15; II Cor, 4, 2; 5, 11). Nestas, significa testemunho moral autônomo, [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] direta da [[lexico:l:lei:start|lei]] ou de alguma verdade ao homem. Mas a elaboração decisiva da noção de consciência é [[lexico:o:obra:start|obra]] de [[lexico:p:plotino:start|Plotino]]. Nele, aparece claramente a [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] e, às vezes, a oposição entre o estar cônscio, como certa qualidade dos conteúdos psíquicos, que Plotino chama de co-sensação ou co-sequência, e o "retorno para si mesmo" ou o "retorno para a interioridade" ou a "[[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] sobre si mesmo", que constituem a consciência propriamente dita (Enn., V, 3, 1; IV, 7,10). Embora o mesmo termo às vezes seja empregado para as duas coisas (Enn., V, 8, 11, 23), Plotino deixa evidente a oposição entre os dois sentidos: um é a percepção do que se sente ou se faz e o outro é o [[lexico:a:acesso:start|acesso]] à realidade interior do homem. Afirma que há muitas atividades, visões e ações belíssimas que não são acompanhadas pelo "estar cônscio"; p. ex., quem lê não está necessariamente cônscio de que está lendo, sobretudo se lê com atenção; quem age com [[lexico:c:coragem:start|coragem]] não está cônscio de estar agindo corajosamente enquanto realiza a ação; e assim por diante. Aliás, esse tipo de consciência pode enfraquecer a atividade que acompanha: "Por si sós, essas atividades têm mais pureza, mais [[lexico:f:forca:start|força]] e mais vida; de tal modo que é sem estarem cônscios que aqueles que chegaram à [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] têm uma vida mais intensa, que não se dispersa em sensações, mas recolhe-se inteiramente em si mesma" (Ibid., I, 4, 10). Precisamente esse "recolher-se em si mesmo" é a consciência como atitude ou [[lexico:c:condicao:start|condição]] do sábio que prescinde do exterior (das coisas e dos outros homens) e só olha para o interior. Contra os estoicos que aconselham o recolhimento em si mesmos (Epicteto, Diss., III, 22, 38; I, 4, 18, etc), mas tomam as coisas exteriores como objeto de [[lexico:v:vontade:start|vontade]], Plotino diz que, depois de dirigir sua vontade para si mesmo, o sábio não pode buscar a [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]] nas manifestações exteriores nem procurar nas coisas exteriores o objeto de sua vontade (Enn., I, 4, 11). O que ele deve fazer é "olhar para dentro", e [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] isso? Plotino diz o que é quando trata da procura do [[lexico:b:belo:start|belo]] inteligível, atrás do qual está o próprio Bem, isto é, Deus. E preciso "retornar para si mesmo" e tornar-se aquilo que se quer olhar. "Jamais um olho verá o [[lexico:s:sol:start|sol]] sem tornar-se [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] ao sol, nem uma alma verá o Belo sem ser bela. Portanto, quem quer contemplar Deus e o Belo deve começar por tornar-se semelhante a Deus e belo" (Ibid., I, 6, 9). Nesse caso, a consciência identifica-se com a própria condição do sábio, "que extrai de si mesmo o que revela aos outros e olha para si mesmo, pois não somente tende a unificar-se e a isolar-se das coisas externas, como está voltado para si mesmo e encontra em si todas as coisas"(Ibid., III, 8, 6). *Essa atitude de auto-ausculatação interior que, para a filosofia paga, era privilégio do sábio, na [[lexico:f:filosofia-crista:start|filosofia cristã]] é acessível a qualquer homem como tal. S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]] é quem traduz para termos cristãos, isto é, universalistas, a atitude aristocrática do sábio. O homem espiritual de que falava S. Paulo (I Cor, II, 16) é o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] [[lexico:p:protagonista:start|protagonista]] de sua filosofia, cujo tema fundamental foi expresso pelas célebres [[lexico:p:palavras:start|palavras]]: "Não saias de ti, retorna para ti mesmo, no interior do homem habita a verdade e, se achares mutável a tua natureza, transcende-te a ti mesmo" (De vera rei, 39). S. Agostinho insiste justamente nessa [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]], que não se dirige ao exterior (as coisas, os homens), mas a Deus enquanto princípio, [[lexico:n:norma:start|norma]] e medida da própria realidade íntima do homem. Deus reflete-se no caráter auto-reflexivo da alma humana que, nas três [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]] — memória, [[lexico:i:inteligencia-e-vontade:start|inteligência e vontade]] — reflete a [[lexico:t:trindade:start|trindade]] divina. Agostinho diz (De Trin., X, 18): "Lembro que tenho memória, inteligência e vontade; entendo que entendo, quero e lembro e quero querer, lembrar e entender". De tal modo que não só a alma em seu todo, mas cada aspecto ou faculdade da alma olha para si e define-se em sua relação puramente intrínseca consigo. "A mente não conhece nada tão bem quanto aquilo que lhe é mais acessível e nada está tão [[lexico:p:proximo:start|próximo]] da mente quanto ela de si mesma" (Ibid., XIV, 7). Este estava destinado a ser um dos temas mais repetidos da [[lexico:f:filosofia-medieval:start|filosofia medieval]] e [[lexico:m:moderna:start|moderna]]: a certeza de sua própria existência que a alma, o pensamento, a razão haurem na consciência de si, dada a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] da consciência como relação intrínseca, direta e privilegiada que não pode ser perturbada, destruída ou falsificada por nada. Na Idade Média esse tema reaparece sobretudo na [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] agostiniana: é repetido por [[lexico:s:scotus-erigena:start|Scotus Erigena]] (De divis. nat, IV, 9), S. Anselmo (Mon., § 33) e outros. Contudo, sua importância é menor na corrente aristotélica, dado o seu caráter objetivista. A análise que S. Tomás faz do termo consciência visa a esclarecer sobretudo seu aspecto moral, em relação com o conceito de sindérese; fora desse significado, para S. Tomás a consciência é o [[lexico:s:simples:start|simples]] "estar cônscio". "O nome consciência", diz ele, "significa a aplicação da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] a [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]]; daí, conscire é como simul scire. Qualquer ciência pode ser aplicada a alguma coisa, por isso a consciência não indica um [[lexico:h:habito:start|hábito]] ou uma [[lexico:p:potencia:start|potência]] especial, mas o ato de aplicar um hábito ou uma noção a algum ato [[lexico:p:particular:start|particular]]. Ora, uma noção pode ser aplicada a um ato de dois modos: em primeiro lugar, para considerar se o ato é ou foi e, em segundo lugar, para considerar se o ato é lícito ou não o é. No primeiro modo, dizemos ter consciência de um ato quando sabemos que esse ato foi ou não realizado; assim, no uso linguístico comum se diz: ‘Eu não tinha consciência desse fato’, no sentido de que não sei se ele aconteceu ou não... No segundo modo, a ciência aplica-se a um ato para dirigi-lo, como quando dizemos que a consciência nos induz, nos obriga, ou para examinar o ato realizado, como quando dizemos que a consciência nos acusa, nos atormenta ao julgarmos que o ato realizado discorda da ciência com a qual é examinado, ou então, que a consciência nos defende ou nos desculpa ao julgarmos que a ação se conforma à ciência" (De ver., q. 17, a. 1). O que há de notável nessa análise de S. Tomás é que toda a noção de consciência, tanto no significado teórico de percepção de si quanto no significado [[lexico:p:pratico:start|prático]] de sindérese, ou consciência moral, reduz-se quanto à aplicação de conhecimentos objetivos ("ciência")- O caráter privilegiado da relação intrínseca da mente consigo mesma, todavia, é reconhecido por S. Tomás: "Nossa mente conhece-se a si mesma por si mesma enquanto conhece sua própria existência: com efeito, enquanto percebe sua própria atividade, percebe sua própria existência" (Contra Gent., III, 46). Essa certeza privilegiada, no entanto, limita-se ao simples fato da existência da alma, ao passo que a alma não tem nenhum conhecimento privilegiado de si mesma no que se refere à sua essência e aos seus modos de ser. *A relação da alma consigo mesma como condição da relação da alma com as coisas ou, em outros termos, a consciência imediata de si como condição da consciência das outras coisas, é doutrina defendida, nos primórdios da Idade Moderna, por Telésio e [[lexico:c:campanella:start|Campanella]]. Diz Telésio: "O sentido é a percepção das ações ou das coisas, dos impulsos do [[lexico:a:ar:start|ar]], tanto quanto das próprias afeições, das próprias modificações e dos próprios movimentos; sobretudo destes. O sentido percebe essas ações só quando percebe que é influenciado, modificado e comovido por elas" (Derer. nat., VII, 3). Campanella chama de "conhecimento [[lexico:i:inato:start|inato]] de si mesmo" (Met., VI, 8, a. 1)ou "[[lexico:s:sapiencia:start|sapiência]] inata" (Teol, 1,11, a. 1) o conhecimento originário de si que todas as coisas possuem e que serve de intermediário ou de condição para os conhecimentos que adquirem das outras coisas. Mas só com Descartes a noção de consciência é esclarecida com os [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] pelos quais deveria ser universalmente aceita na filosofia ocidental. O [[lexico:c:cogito:start|cogito]] ergo sum é a auto-evidência [[lexico:e:existencial:start|existencial]] do pensamento, isto é, a [[lexico:g:garantia:start|garantia]] que o pensamento (como consciência) tem de sua própria existência. Diz Descartes: "Com o nome de pensamento entendo todas as coisas que acontecem em nós com consciência, enquanto temos consciência delas. Assim não só entender, querer e imaginar, mas também sentir é o mesmo que [[lexico:p:pensar:start|pensar]]. Pois se digo: vejo ou ando, logo sou, e pretendo falar da visão e do andar que se faz com o corpo, a conclusão não é absolutamente certa; porque, como muitas vezes ocorre nos sonhos, posso achar que estou vendo ou andando, mas não abri os olhos nem saí do lugar e talvez nem tenha corpo algum. Mas se falo do próprio sentido, isto é, da consciência de ver ou de andar, a conclusão é certa porque então se refere à mente, que só sente ou pensa que vê ou anda" (Princ. phil, I, 9). As características fundamentais da doutrina cartesiana podem ser recapituladas do seguinte modo: 1) a consciência não é um [[lexico:e:evento:start|evento]] ou um [[lexico:g:grupo:start|grupo]] de eventos particulares, nem um aspecto particular ou uma atividade particular da alma, mas é toda a vida espiritual do homem em todas as suas manifestações, desde sentir até [[lexico:r:raciocinar:start|raciocinar]] e querer; 2) sua esfera, portanto, é a mesma do eu como sujeito ou [[lexico:s:substancia:start|substância]] pensante; 3) ela é auto-evidência existencial do eu ou, se preferir, o eu é, para ela, a [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] de sua própria existência; 4) a auto-evidência existencial do eu é o [[lexico:m:modelo:start|modelo]] e o fundamento de qualquer outra evidência, isto é, de todo conhecimeto válido; 5) a auto-evidência do eu torna [[lexico:p:problematica:start|problemática]] qualquer outra evidência, ainda que, por fim, consiga fundá-la. Esses pontos básicos serviram como ponto de partida para a filosofia moderna; e, entre eles, aquele que, de certo modo, resume todos os outros, ou seja, o 2o, determinou a corrente subjetivista dessa filosofia. Contudo, não se deve esquecer que a fecundidade da «filosofia cartesiana não consistiu tanto na única certeza que dava, isto é, no Cogito, mas nas muitas certezas que destruía, ou seja, no fato de que, do ponto de vista do Cogito, muitas realidades até então não discutidas (e a primeira delas, a do "mundo [[lexico:e:externo:start|externo]]") adquiriram caráter [[lexico:p:problematico:start|problemático]] e deram início a novos tipos ou correntes de indagação. De fato, mesmo o conceito de experiência elaborado por [[lexico:l:locke:start|Locke]] coincide grosso modo com o de consciência (Uma vez que todo homem está cônscio de que pensa e uma vez que aquilo que se encontra em seu espírito quando ele pensa são as ideias que o ocupam naquele momento, não há [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] de que os homens têm muitas ideias em seu espírito, etc.", Ensaio, n, 1,1.) É verdade que Locke restringe o uso da palavra consciência à certeza absoluta que o homem tem de sua própria existência ("Em todo ato de [[lexico:s:sensacao:start|sensação]], raciocínio e pensamento, estamos cônscios, diante de nós mesmos, do nosso ser, e nesse ponto não deixamos de haurir o mais alto [[lexico:g:grau:start|grau]] de certeza", Ibid., IV, 9, 3), e que a relação entre a alma e as suas próprias operações é o que ele chama de "reflexão" (Ibid, II, 1, 4), mas também é verdade que o que ele chama de experiência em geral nada mais é que a consciência no sentido cartesiano, pois a mesma relação com o objeto externo inclui-se inteiramente na esfera da consciência, que, por isso, não atinge nada além de "ideias". Dessa colocação nasce o [[lexico:p:problema:start|problema]] do IV livro do Ensaia justificar a "realidade" do conhecimento depois de tê-la definido como nada mais, nada menos que a percepção da concordância ou discordância entre as ideias. "É evidente", diz Locke, "que o espírito não conhece as coisas imediatamente, mas só mediante a intervenção das ideias que ele tem delas. Por isso, nosso conhecimento só é real quando há conformidade entre nossas ideias e a realidade das coisas. Mas qual será o, [[lexico:c:criterio:start|critério]]? Como poderá a mente, desde que não percebe nada além de suas próprias ideias, saber se estas concordam com as coisas?" (Ibid., IV, 4, 3). O fato mesmo de esse problema se apresentar (independente do modo como será resolvido) revela com toda clareza o fundamento consciencialista da filosofia de Locke, fundamento para o qual a filosofia nada mais é que a análise da consciência, não podendo ir nenhum passo além. É justamente essa expressão que [[lexico:h:hume:start|Hume]] emprega para negar qualquer "existência externa". Diz Hume: "Como nada está jamais presente na mente além das percepções, e como as ideias derivam daquilo que antes esteve presente na mente, conclui-se que nos é [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] [[lexico:r:representar:start|representar]] ou formar a ideia de algo que seja especificamente diferente das ideias ou das impressões. No entanto, se fixarmos o máximo possível nossa atenção fora de nós, se elevamos nossa [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]] até os céus e até os limites extremos do [[lexico:u:universo:start|universo]], na verdade não daremos sequer um passo além de nós mesmos, nem poderemos nunca imaginar espécie alguma de existência que não seja a das percepções que se apresentam em nosso pequeno [[lexico:c:circulo:start|círculo]]" (Treatise, I, 2, 6). Essa impossibilidade de ultrapassar o círculo da consciência é a primeira e mais importante [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] do uso da noção de consciência para delimitar a esfera de [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] filosófica. *As coisas não são diferentes para o [[lexico:r:racionalismo:start|racionalismo]] pós-cartesiano. [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] faz a distinção entre a consciência, que ele identifica com a apercepção, e percepção, de que se pode não estar claramente consciente (Monad, § 14); mas considera toda a vida da [[lexico:m:monada:start|mônada]], isto é, da [[lexico:s:substancia-espiritual:start|substância espiritual]], como puramente interior a ela e acessível só a partir do interior. As [[lexico:m:monadas:start|mônadas]] não têm janelas através das quais possa entrar e sair algo (Ibid., § 7); por isso "as mudanças naturais das mônadas vêm de um princípio interno, pois uma [[lexico:c:causa:start|causa]] externa não poderia influir em sua interioridade" (Ibid., § 11). Na vasta esfera das percepções da mônada, a reflexão recorta a esfera mais restrita das apercepções, que constituem o eu. "Com o conhecimento das verdades necessárias e com as suas abstrações, somos elevados aos atos [[lexico:r:reflexos:start|reflexos]] que nos fazem pensar no que se chama eu, e a considerar que isto ou aquilo está em nós; é assim que, pensando em nós, pensamos no ser, na substância, no simples, no [[lexico:c:composto:start|composto]], na [[lexico:i:imaterialidade:start|imaterialidade]] e em Deus mesmo, concebendo aquilo que é limitado em nós e sem limites nele. Esses atos reflexivos fornecem os objetos principais dos nossos raciocínios" (Ibid., § 31). essas palavras de Leibniz exprimem a tarefa que, a partir dele, toda a filosofia espiritualista assumiu. Kant distinguiu a consciência discursiva e a consciência [[lexico:i:intuitiva:start|intuitiva]], que são dois outros nomes para indicar, respectivamente, a apercepção pura e a apercepção empírica (v. Apercepção). A consciência discursiva é "o eu da reflexão", que não contém em si nenhum [[lexico:m:multiplo:start|múltiplo]] e é sempre o mesmo em todos os juízos porque implica só o lado [[lexico:f:formal:start|formal]] da consciência. A consciência intuitiva é, ao contrário, experiência interior, que inclui o material múltiplo da [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] empírica interior (Antr., I, § 7, Anotação). Mas, embora consciência pura ou discursiva e consciência empírica compreendam tudo o que o homem é ou pode atingir, Kant fez o [[lexico:e:esforco:start|esforço]] mais bem-sucedido para romper aquilo que, na filosofia moderna, se pode chamar de círculo mágico da consciência e para justificar a relação do homem com o mundo. À [[lexico:o:observacao:start|observação]] de que "Tenho somente consciência imediata do que está em mim, isto é, da minha [[lexico:r:representacao:start|representação]] das coisas externas" e, portanto, "ainda é preciso demonstrar que há ou não algo de correspondente fora de mim", Kant responde que "ter consciência de minha representação" significa "ter consciência empírica de minha existência", e isso significa "poder ser determinado só em relação a alguma coisa que, mesmo estando ligada à minha existência, está fora de mim". Logo, "a consciência de minha existência no tempo" é a "consciência de uma relação com alguma coisa fora de mim" (Crít. R. Pura, Pref. à 2a ed., [[lexico:n:nota:start|nota]] sobre a [[lexico:r:refutacao:start|refutação]] do idealismo). Paradoxalmente, em Kant o termo consciência indica uma relação não interior ou íntima no homem, mas entre o homem e algo de exterior. A apercepção pura ou transcendental (o Eu penso) não é senão a possibilidade da relação, constitutiva da consciência empírica, entre o eu empírico e o objeto: possibilidade que, como consciência, nada mais é que a inteligência como [[lexico:e:espontaneidade:start|espontaneidade]] (Ibid., § 25, nota 1). *É claro que, para ser efetiva e operante, a relação entre o eu e o que não é eu não deve incidir exclusivamente no próprio eu, isto é, na "consciência", porque nesse caso seria uma relação interior do eu ou da consciência, e não uma relação com uma realidade diferente. Em outros termos, para que subsista tal relação, a consciência não deve ser considerada como uma relação interior a si mesma, como uma relação entre a consciência e ela mesma (ou algum de seus fatos, operações ou feições), mas como uma relação da consciência com algo que não é consciência: segundo a [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]] em uso na filosofia contemporânea, deve ser uma relação de transcendência. Talvez isso possa ser visto, pelo menos de modo [[lexico:i:implicito:start|implícito]], na doutrina de Kant, mas só se torna [[lexico:e:explicito:start|explícito]] em algumas correntes da filosofia contemporânea. A filosofia pós-kantiana, especialmente o Idealismo romântico, centra-se na [[lexico:i:imanencia:start|imanência]] total da realidade da consciência. Para Hegel, a consciência constitui o ponto de partida da filosofia e fornece-lhe todo o conteúdo: a tarefa da filosofia é a elaboração conceituai desse conteúdo, graças à qual esse conteúdo adquire absoluta verdade e realidade, torna-se "Espírito" ou "Conceito". A Fenomenologia do espírito é, com efeito, o percurso da consciência ao espírito. "A experiência que a consciência tem de si não pode, segundo o conceito da própria experiência, compreender em si algo menos que todo o [[lexico:s:sistema:start|sistema]] da consciência, ou seja, o [[lexico:r:reino:start|reino]] todo do espírito... Arremetendo para sua existência verdadeira, a consciência chegará a um ponto em que se libertará da [[lexico:a:aparencia:start|aparência]] de estar invalidada por algo estranho, que lhe é alheio, ponto em que a aparência será igual à essência (Phänomen. des Geistes, I, Intr., ao final). Hegel censura a filosofia de Kant e a de Fichte por terem permanecido como "filosofias da consciência", por não terem transformado a consciência em ciência objetiva e absoluta. "A filosofia kantiana pode ser considerada mais determinante, por ter concebido o espírito como consciência e por conter somente determinações da fenomenologia, e não da [[lexico:f:filosofia-do-espirito:start|Filosofia do Espírito]]. Considera o eu como em relação com algo que está além, alguma coisa que, em sua determinação abstrata, chama-se [[lexico:c:coisa-em-si:start|coisa-em-si]] e concebe tanto a inteligência quanto a vontade segundo essa [[lexico:f:finitude:start|finitude]]... Por isso, deve ser considerada justa a [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] que [[lexico:r:reinhold:start|Reinhold]] faz dessa filosofia, concebendo-a como teoria da consciência sob o nome de faculdade representativa. A filosofia fichteana tem o mesmo ponto de vista e o [[lexico:n:nao-eu:start|não-eu]] é determinado só como objeto do eu, só na consciência. Ambas as filosofias mostram assim que não chegaram nem ao conceito nem ao espírito, da forma como ele é em si e por si, mas só ao espírito como ele é em relação com outra coisa" (Ene, § 415). Hegel quer dizer que a noção de consciência implica a relação da consciência com um objeto que, pelo menos à primeira vista, não é consciência, mas alguma outra coisa; e que a noção de conceito ou de espírito (autoconsciência) elimina essa [[lexico:a:alteridade:start|alteridade]]. Mas erra ao equiparar o ponto de vista de Kant ao de Fichte. Para Fichte o não-eu incide no interior do eu, e por isso a relação com ele é intrínseca ao eu (isto é, à consciência). Para Kant, porém, a relação se estabelece entre o eu e algo diferente do eu. Mas Fichte e Hegel têm em comum o conceito da Autoconsciência, isto é, um Princípio absoluto que, auto-criando-se, cria a própria realidade em sua totalidade. O que Hegel entende por espírito ou conceito é uma Autoconsciência infinita desse tipo. *A consciência e a autoconsciência tornam-se protagonistas de boa parte da filosofia do séc. XIX e dos primeiros decênios deste século. A [[lexico:a:alternativa:start|alternativa]] entre essas duas noções é a que existe entre [[lexico:e:espiritualismo:start|espiritualismo]] e Idealismo, isto é, entre a corrente que procura e acredita encontrar na consciência, considerada como finita e própria do homem, a manifestação, a [[lexico:r:revelacao:start|revelação]] ou pelo menos o [[lexico:s:sinal:start|sinal]] do [[lexico:i:infinito:start|infinito]], e a corrente que considera infinita a consciência porque idêntica, mediata ou imediatamente, ao Infinito. Todo o [[lexico:m:movimento:start|movimento]] romântico da "volta à tradição" lança mão, como único [[lexico:t:texto:start|texto]] e fundamento, da consciência como manifestação ou revelação imediata e infalível da Verdade ao homem. [[lexico:m:maine-de-biran:start|Maine de Biran]] e Lamennais, Galluppi e [[lexico:c:cousin:start|Cousin]], Martineau, Rosmini e Gioberti, todos consideram a consciência como ponto de partida e fundamento da filosofia e concebem-na como a manifestação e revelação imediata da verdade e da [[lexico:v:vontade-de-deus:start|vontade de Deus]] ao homem. Esse princípio não se altera substancialmente nas várias formas do Espiritualismo contemporâneo, podendo, aliás, ser considerado sua definição. Na mais importante dessas formas, a doutrina de Bergson, a consciência, como atitude de [[lexico:i:introspeccao:start|introspecção]] ou auscultação interior, de busca dos "dados imediatos", é a própria filosofia; e é também a realidade, a única realidade. "Em todo o reino animal", diz Bergson, "a consciência mostra-se proporcional à possibilidade de opção de que o ser vivo dispõe. Ela ilumina a zona de virtualidades que circundam o ato: mede o intervalo entre o que se faz e o que se poderia fazer. Olhando-a de fora, poder-se-ia tomá-la por um simples auxiliar da ação, por uma [[lexico:l:luz:start|luz]] que ilumina a ação, centelha fugidia que brotaria do atrito entre ação real e ações possíveis. Mas é preciso observar que as coisas se passariam do mesmo modo se a consciência, em vez de efeito, fosse causa" (Évol. créatr., 11a ed., 1911, pp. 194-195). E essa é, na realidade, segundo Bergson, a história verdadeira. "A vida, ou seja, a consciência lançada através da [[lexico:m:materia:start|matéria]], fixa a atenção em seu próprio movimento ou na matéria que atravessa, orientando-se assim no sentido da intuição ou no sentido da inteligência". Na primeira direção, a consciência encontrou-se comprimida por seu invólucro e limitou-se a ir da intuição ao [[lexico:i:instinto:start|instinto]]. Na segunda direção, determinando-se como inteligência, exterioriza-se de si mesma, mas justamente por se adotar aos objetos externos chega a circular entre eles, a contornar as barreiras que eles lhe opõem e a estender indefinidamente seu domínio. "Uma vez liberta, pode dobrar-se sobre si mesma e despertar as virtualidades de intuição que ainda dormitam nela" (Ibid., p. 197). A consciência é, portanto, o princípio criativo da realidade e ao mesmo tempo manifesta e revela imediatamente essa realidade no interior do homem. *Observações desse tipo são tão frequentes e repetidas na filosofia contemporânea que seria supérfluo reproduzi-las. Interessa aqui fixar as etapas relevantes do desenvolvimento dessa noção; na filosofia contemporânea, a etapa mais importante é constituída pela fenomenologia de Husserl. O ponto de partida e o ponto de chegada dessa fenomenologia são os mesmos do espiritualismo, identificam-se com a consciência tradicionalmente entendida como atitude de auto-auscultação. Husserl parte do cogito cartesiano, isto é, da consideração das vivências (Erlebnisse) "em toda a plenitude concreta com que se apresentam em sua conexão concreta — a corrente da consciência —, na qual se unificam graças à sua própria essência" (Ideen, I, § 34). Mas para esclarecer a natureza das vivências, isto é, da consciência em geral, Husserl vale-se da noção de intencionalidade, já utilizada por [[lexico:b:brentano:start|Brentano]] para definir o caráter dos fenômenos psíquicos (Psychologie vom empirischen Standpunkt, 1874). A intencionalidade é o referir-se ou o reportar-se do ato de consciência a outra coisa, a alguma coisa que não é o próprio ato de consciência. Para Husserl, essa noção (v. Intencionalidade) define a própria natureza da consciência em geral, que, por isso, é um transcender que constitui uma relação com o objeto "em [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]]" e não com uma [[lexico:i:imagem:start|imagem]] ou representação dele. Nesse sentido, a relação com o objeto não é "psicológica", não incide no círculo de uma realidade específica, a alma, mas é de natureza lógico-transcendental, é uma possibilidade que define o modo de ser da consciência. A consciência nesse sentido, para Husserl, é aquilo que era para Kant: uma relação com o objeto, mais precisamente, uma relação na qual o objeto se dá como tal. Todavia, para Husserl, a intencionalidade não exaure a essência da consciência, que é uma "corrente de vivências" (Erlebnisse) e apreende-se a si mesma de forma direta e privilegiada, que nada mais tem a ver com a intencionalidade. Nesse aspecto, Husserl distingue a percepção [[lexico:i:imanente:start|imanente]] da percepção [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]]. A percepção transcendente é a percepção da coisa no espaço, que nunca está presente à consciência em sua plena atualidade. Daí deriva o caráter em si do objeto transcendente, caráter que exprime a possibilidade da consciência de retornar ao objeto e de identificá-lo. Mas justamente por estar ligada a essa simples possibilidade a existência da coisa nunca é necessária, mas [[lexico:c:contingente:start|contingente]]; tudo o que da coisa é dado à percepção transcendente pode também não ser; a percepção transcendente é sempre duvidosa (Ideen, I, § 46). A percepção imanente, ao contrário, é a percepção do cogito cartesiano, que tem por objeto as mesmas vivências (recordar, imaginar, desejar, etc.) Estas não são dadas à consciência do mesmo modo como a coisa é dada aos fenômenos subjetivos, isto é, através de [[lexico:a:aparicoes:start|aparições]], sombreamentos, aproximações, que acenam para a unidade transcendente do objeto: ao contrário, caracteriza-se pela imediação e pela absolutidade. "A percepção da vivência", diz Husserl (Ibid., § 44), "é a visão direta de alguma coisa que se dá ou que pode dar-se na percepção como absoluta e não mais como a identidade das aparências que a sombreiam... Um [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] não aparece por sombreamentos. Se lanço o olhar sobre ele, tenho algo de absoluto, desprovido de aspectos que poderiam apresentar-se tanto de um modo como de outro". A percepção imanente é, portanto, a esfera da [[lexico:p:posicao:start|posição]] absoluta: implica a impossibilidade de negar sua existência. "Embora a minha corrente de consciência só seja apreendida de modo restrito, embora seja desconhecida nas partes já transatas ou ainda vindouras, se lanço o olhar sobre seu presente [[lexico:e:efetivo:start|efetivo]] e se me apreendo a mim mesmo como puro sujeito desta vida, afirmo necessariamente: sou, esse viver é, eu vivo: cogito" (Ibid., § 46). Daí deriva que, enquanto o ser imanente (isto é, o ser da consciência reflexa) é absoluto no sentido de que, para existir, não tem necessidade de nada, o ser transcendente (isto é, o mundo das coisas) é [[lexico:r:relativo:start|relativo]] à consciência. "Todo o mundo espácio-temporal ao qual o homem e o eu [[lexico:h:humano:start|humano]] pertencem como realidades singulares subordinadas é, segundo o seu sentido, um ser puramente intencional, na medida em que tem o sentido meramente secundário e relativo de um ser para uma consciência. É um ser que a consciência põe em suas experiências, que é visível e determinável só enquanto permanece [[lexico:i:identico:start|idêntico]] na [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] das aparições, mas fora disso é nada" (Ibid., § 49). Daí deriva o caráter absoluto ou "[[lexico:a:apoditico:start|apodítico]]" da [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]], do [[lexico:e:eu-transcendental:start|eu transcendental]], que é auto-suficiente no sentido de que "pertence à sua essência a possibilidade de auto-apreensão, de autopercepção" (Ideen, II, § 22); e daí deriva também a superioridade metafísica do espírito: "O espírito e só o espírito existe em si mesmo e por si mesmo: o espírito é autônomo e só nessa [[lexico:a:autonomia:start|autonomia]] pode ser tratado de forma verdadeiramente [[lexico:r:racional:start|racional]] e radicalmente científica" ([[lexico:k:krisis:start|krisis]], § 345). As concepções da consciência provenientes da fenomenologia podem ordenar-se segundo duas correntes opostas: a objetivista e a espiritualista. A espiritualista continua adotando como tema o cogito cartesiano e acentua a imanência da consciência. A corrente objetivista acentua o caráter objetivo da relação intencional e, por isso, considera o objeto como autenticamente transcendente: em última [[lexico:i:instancia:start|instância]], essa corrente tende a deixar de lado a noção de consciência. Vinculam-se à corrente espiritualista as doutrinas de [[lexico:j:jaspers:start|Jaspers]] e de Sartre. Para Jaspers, análise existencial é a analise da consciência. "Existir", diz Jaspers, "é consciência: eu existo como consciência e só como objetos de consciência as coisas existem para mim. Tudo o que existe para mim deve entrar na consciência" (Phil, I, p. 7). Sobre a consciência, Jaspers tem o conceito peculiar à fenomenologia: "A consciência não é um ser como o da coisa, mas é um ser cuja essência é estar voltado para significar o objeto. Esse [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] originário, tão miraculoso quanto em si mesmo compreensível, foi [[lexico:c:chamado:start|chamado]] intencionalidade". Mas a consciência não está voltada só para o objeto, reflete-se sobre si mesma e também é, portanto, autoconsciência. "O eu penso e o eu penso que penso andam juntos, de tal modo que um não fica sem o outro. O que parece contraditório do ponto de vista [[lexico:l:logico:start|lógico]] aqui é real: um não é um, mas dois, e todavia não se torna dois, mas, graças à sua [[lexico:s:singularidade:start|singularidade]], permanece um. Esse é o conceito do eu formal em geral" (Ibid., p. 8) Jaspers ressaltou assim o caráter não transcendível e quase [[lexico:m:mistico:start|místico]] da consciência, que, por isso, constitui todo o seu campo de [[lexico:e:especulacao:start|especulação]]. De modo análogo, Sartre declara explicitamente que o [[lexico:e:estudo:start|estudo]] da realidade humana deve começar pelo cogito (L’être et le néant, p. 127). A consciência é, em primeiro lugar, consciência de alguma coisa e de alguma coisa que não é consciência. Sartre chama esse alguma coisa de em si. O ser em si só pode ser [[lexico:d:designado:start|designado]] analiticamete, como "o ser que é o que é", expressão que designa sua opacidade, seu caráter maciço e [[lexico:e:estatico:start|estático]], pelo que não é nem possível nem [[lexico:n:necessario:start|necessário]]: é, simplesmente (Ibid., pp. 33-34). Diante desse ser em si, a consciência é o para si, a [[lexico:p:presenca:start|presença]] para si mesma (Ibid., p. 119). A presença para si mesma implica uma fissura, uma separação interna. Uma [[lexico:c:crenca:start|crença]], p. ex., é como tal sempre consciência da crença; mas para captá-la como crença é necessário separá-la da consciência para a qual está presente. Mas nada há ou pode haver que separe o sujeito de si mesmo. "A fissura intraconsciencial é um nada fora daquilo que ela nega e só pode ter ser na medida em que não se a vê. Esse [[lexico:n:negativo:start|negativo]], que é nada de ser e poder nadificante ao mesmo tempo, é o nada. Em nenhum lugar poderíamos apreendê-lo com semelhante pureza. Em todos os [[lexico:l:lugares:start|lugares]], de um modo ou de outro, é preciso conferir-lhe o ser-em-si enquanto nada" (Ibid., p. 120). Condicionando a estrutura da consciência, o nada é condição da totalidade do ser que é tal só para a consciência e na consciência. Mas ele define o ser da consciência que é expresso por Sartre desta forma: "O ser pelo qual o nada vem ao mundo deve ser o seu próprio nada" (Ibid., p. 59), o que significa que a consciência é o seu próprio nada na medida em que se determina a não ser o [[lexico:e:em-si:start|em-si]] a que se refere. Paradoxalmente, partindo da mesma [[lexico:p:premissa:start|premissa]] de Husserl, Sartre chega à conclusão simetricamente oposta. Para ele, assim como para Husserl, a consciência em sua percepção imanente, isto é, em seu ato de auto-reflexão, é tudo, é o absoluto. Mas por sua fissura interna como [[lexico:n:negacao:start|negação]] do em-si, ela é o próprio nada. Essa conclusão é tão pouco apta a exprimir ou a compreender os fenômenos [[lexico:r:relativos:start|relativos]] à consciência quanto a de Husserl. *Por outro lado, [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]] e [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] apresentam a alternativa objetivista da interpretação da consciência como intencionalidade. Hartmann julga que a noção de "consciência aberta", que penetre sem limites no mundo das coisas, é falsa. A consciência é essencialmente clausura e as coisas nunca entram nela, mas permanecem além dela, ainda quando conhecidas. "A consciência não tem coisas, mas representações, concepções, imagens das coisas; e estas podem coincidir ou não com as coisas, isto é, ser verdadeiras ou não verdadeiras. Daí resulta que o conhecimento não é simples ato de consciência, como representar ou pensar, mas um ato transcendente. Um ato semelhante prende-se ao sujeito apenas por um de seus lados e com o outro estende-se para fora dele; com este lado, prende-se ao existente que, por seu intermédio, passa a ser objeto. O conhecimento é relação entre um sujeito e um objeto existente. Nessa relação, o ato transcende a consciência" (Systematische Philosophie, § 11). Desse modo, a consciência perde a supremacia e o caráter de círculo encantado, do qual não é possível escapar. Para Hartmann, o conhecimento é, para todos os efeitos, a transcendência da consciência para um objeto que existe independentemente dela. A consciência também perde o caráter de infalibilidade e perde-o a consciência histórica, a consciência coletiva. Esta nunca é adequada a si mesma, como seria se fosse de um Espírito Absoluto. O espírito histórico revela, no mais das vezes, sua própria natureza quando já é passado. "Não se mostra mais à sua própria consciência, mas a outra. Para a sua esconde-se atrás daquilo ela sabe dele" (Ibid., § 19). Na mesma linha, porém mais radicalmente, Heidegger fez uma análise da existência humana que prescinde completamente do termo e da noção tradicional de consciência (Bewusstsein), mas utilizou e interpretou a noção de consciência moral (Gewissen), isto é, da "[[lexico:v:voz:start|voz]] da consciência". A eliminação da noção tradicional de consciência deve-se ao uso que Heidegger fez da noção de transcendência na análise da relação do homem com o mundo. A transcendência não é para o homem um [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] entre os outros possíveis, mas a própria essência de sua subjetividade; e o termo para o qual o homem transcende é o mundo, que nesse caso não designa a totalidade das coisas naturais ou a [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] dos homens, mas a estrutura relacionai que caracteriza a existência humana como transcendência. Transcender para o mundo significa fazer do mundo o [[lexico:p:projeto:start|projeto]] das atitudes possíveis ou das ações possíveis do homem; mas enquanto projeto, o mundo recompreende em si o homem que se acha "lançado" nele e submetido às suas limitações. "A transcendência", diz Heidegger, "exprime o projeto do mundo de tal modo que O-que-projeta é dominado pela realidade que ele transcende e já está conciliado com ela" (Vom [[lexico:w:wesen:start|Wesen]] des Grandes, III). Simultaneamente a transcendência também constitui o si mesmo do homem, isto é, a identidade do homem [[lexico:s:singular:start|singular]] existente. "Na transcendência e através dela é possível distinguir no interior do existente e decidir quem é e como se é Si-mesmo e o que não o é" (Ibid., II). A relação do homem consigo mesmo e com o mundo, descrita em termos de transcendência, deixa de ter os caracteres tradicionais da consciência trancamento em si mesma, imediação, auto-reflexão, etc), de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que Heidegger pode dispensar até mesmo o termo consciência. Em sentido mais tradicional, porém, é utilizada a noção de "voz da consciência". Esta é entendida como uma relação intrínseca do ser-ai do homem, mais precisamente uma relação pela qual o homem é revocado da existência anônima e banal do "diz-se", "faz-se", etc, para seu próprio e [[lexico:a:autentico:start|autêntico]] "poder-ser", isto é, para a sua possibilidade constitutiva última, o ser-para-a-morte. "Para o que o ser é revocado? Para o seu próprio Si-mesmo. Portanto, não para alguma coisa à qual o [[lexico:s:ser-ai:start|ser-aí]], na convivência pública, confira valor e urgência de possibilidade ou de [[lexico:f:fuga:start|fuga]], nem mesmo àquilo que ele tomou, a que se dedicou, de que se assenhoreou. O ser-aí, relacionado consigo mesmo e com os outros no quadro da mundanidade, é ultrapassado nessa conclamação" (Sein und Zeit, § 56). Portanto, o ser-aí que compreende essa conclamação "obedece à possibilidade mais própria de sua existência. Escolheu-se a si mesmo" (Ibid., § 58). Ainda aqui, portanto, onde deveríamos encontrar uma relação intra-consciencial, há uma relação de transcendência. *A análise existencial de Heidegger foi um duro golpe contra o [[lexico:p:primado:start|primado]] metafísico da consciência, tão tenazmente afirmada pela filosofia moderna e contemporânea. Não só essa análise deixa de utilizar o termo consciência ou a noção de consciência, como também a distinção entre "interior" e "exterior", entre o que está na e o que está fora da consciência deixa de ter sentido. Todavia, o caso de Heidegger não é o único na filosofia contemporânea. O [[lexico:n:naturalismo:start|naturalismo]] instrumentalista e o [[lexico:p:positivismo-logico:start|positivismo lógico]] chegam à mesma negação do conceito tradicional de consciência. [[lexico:d:dewey:start|Dewey]] chega a ignorar esse significado, que, como se viu, não é de uma qualidade psíquica, mas de uma atitude reflexiva, a atitude da volta para si mesmo ou da reflexão sobre si. Entende por consciência o simples estar cônscio de si: "o estar desperto, vigilante e atento ao significado dos acontecimentos presentes, passados ou futuros". Esse estar cônscio não é, como quer o [[lexico:r:realismo:start|realismo]], uma espécie de luz que ilumina ora uma ora outra parte de um campo dado, nem, como quer o idealismo, uma força que modifica os acontecimentos. E "aquela fase de um sistema de significados que, em dado tempo, sofre uma retificação de direção, uma [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] transitiva". O sistema dos significados é o que Dewey chama de espírito e é uma [[lexico:f:formacao:start|formação]] [[lexico:s:social:start|social]]. A consciência é o ponto focal em que esse sistema entra em crise ou sofre uma transformação. "O espírito é contextual porque existente; a consciência é focai e transitiva. O espírito é, por assim dizer, estrutural e substancial, é o fundo ou o primeiro [[lexico:p:plano:start|plano]] constante; a consciência é perceptiva, é um processo, uma série de aqui e de [[lexico:a:agora:start|agora]]. O espírito é uma constante luminosidade; a consciência é intermitente, uma série de jorros de luz de várias intensidades" (Experience and Nature, p. 260 e ss.). A condição da consciência é a dúvida, o sentido de situação indeterminada, suspensa, que urge a determinação e a readaptação. A ideia, que constitui o objeto da consciência, que, aliás, é a própria consciência em sua clareza e [[lexico:v:vivacidade:start|vivacidade]], nada mais é que a previsão e o anúncio da direção em que a [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] e a readaptação é possível; por isso, Dewey diz que num mundo que não tivesse [[lexico:i:instabilidade:start|instabilidade]] e incerteza, a chama vacilante da consciência se apagaria para sempre (Ibid., pp. 351 ss.). A consciência é assim reduzida à funcionalidade, isto é, ao surto de ideias e diretrizes que servem para retificar determinada situação. Desse modo, não está ligada à introspecção, à auscultação interna ou, de algum modo, a uma atitude de "retorno para si mesmo". Mas o [[lexico:d:destino:start|destino]] da consciência na filosofia contemporânea parece cumprir-se com a análise que Ryle fez dela, ou melhor, das expressões linguísticas em que o conceito recorre (The Concept of Mind, 1949). Segundo a tese de Ryle, nenhum dos usos que os termos "consciência" e "consciente" têm na linguagem comum autoriza a considerar a consciência como uma espécie de autoluminosidade ou fosforescência que acompanha certas operações do homem; portanto, a consciência entendida nesse sentido é um [[lexico:m:mito:start|mito]]. Tudo o que se pode dizer é que "habitualmente sabemos aquilo de que nos estamos ocupando, sem que, porém, seja necessário recorrer à história da fosforescência para explicar como o sabemos; que esse saber não implica um ato incessante de censura ou exame do fazer e do sentir, mas só uma [[lexico:p:propensao:start|propensão]] interalia a exprimi-los, se e quando nos ocorre fazê-lo; que esse saber não requer que devamos topar com algum evento de natureza espectral" (Ibid., trad. it., p. 164), isto é, com aquela realidade "alma" que se supõe imanente ao metanismo corpóreo (v. alma). A consciência não é um acesso privilegiado ao [[lexico:c:conhecimento-da-alma:start|conhecimento da alma]] ou ao conhecimento de si". "De mim mesmo posso descobrir as mesmas coisas que do próximo e com métodos não dessemelhantes. As diferenças existentes no fornecimento dos dados exigidos tornam diferente o grau dos meus conhecimentos, mas nem sempre em favor do conhecimento de si. Por alguns aspectos importantes, é mais fácil verificar as mesmas coisas de ti do que de mim mesmo; por outros, ocorre o contrário. Mas isso só na prática, porque em princípio Fulano acaba sabendo tanto de si quanto de Beltrano. Com a [[lexico:e:esperanca:start|esperança]] em um acesso privilegiado, vai embora também o isolacionismo teórico cognoscitivo, perdemos, ao mesmo tempo, a doçura e o amargor do [[lexico:s:solipsismo:start|solipsismo]]" (Ibid., trad, it., pp. 157-58). O fato principal aduzido para sustentar essa tese é que os erros são frequentes no juízo sobre os próprios estados mentais , o que seria obviamente impossível se a consciência fosse aquela relação imediata e infalível consigo mesma que se pretende ser. A conclusão é, evidentemente, a negação da consciência em favor de um "conhecimento de si" tão pouco privilegiado, direto e infalível quanto o conhecimento de; qualquer outra coisa. *O declínio da noção de consciência na filosofia contemporânea é um dos sinais mais evidentes de uma nova colocação do problema do homem; elaborada pela filosofia alexandrina, essa noção serviu de início para expressar o orgulhoso isolamento do sábio, que, como diz Plotino, extrai tudo de si mesmo e, assim, não tem necessidade das coisas nem dos outros homens para conhecer e viver. Para o sábio da era alexandrina, as relações com o mundo são acidentais e secundárias: ele encontra a verdade e a realidade em si mesmo. O Cristianismo valeu-se do mesmo conceito para ressaltar a independência do juízo moral em relação a toda circunstância externa e sua dependência só de um princípio ou realidade que nada recebe das coisas e dos homens, porque é Deus. A filosofia moderna lançou mão do mesmo princípio a partir de Descartes, usando-o como instrumento de dúvida e de [[lexico:l:libertacao:start|libertação]]. Dele extraiu também "testemunhos" de verdades primeiras, absolutas ou inderiváveis, bem como de "dados últimos" ou originários, usando-os para erigir pesados edifícios dogmáticos, cujo apoio era a fragílima base de uma noção histórica, mas assumida como estrutura real ou originária. Esse, porém, foi só o lado mais visível do uso da noção de consciência Não se deve esquecer que, a partir de Descartes, essa noção serviu para introduzir dúvidas, levantar problemas, suscitar oposições ou rebeliões a crenças ou a sistemas de crenças estabelecidos institucionalmente. O recurso à consciência serviu com muita frequência para apresentar ideais ou regras morais ainda não aceitos pela moral corrente e destinados a superá-la, para sustentar a insurreição e a [[lexico:l:luta:start|luta]] contra a [[lexico:a:autoridade:start|autoridade]] constituída, para mostrar o caráter incerto e problemático de muitas crenças e construções metafísicas. Em Descartes, serviu para [[lexico:p:por:start|pôr]] em discussão algumas certezas tradicionais, como p. ex. a da existência de um "mundo externo", e para iniciar pesquisas científicas e filosóficas de grande importância. O próprio [[lexico:c:ceticismo:start|ceticismo]] de Hume é um dos resultados a que conduziu a noção de consciência, já que nasceu do [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] de que o homem não dispõe de nada além de [[lexico:i:impressoes-e-ideias:start|impressões e ideias]], ou seja, de objetos imediatos de consciência, e que, por mais que arremeta com o pensamento, "nunca dará um passo além de si mesmo" (Treatise, I, 2, 6). Isso posto, o declínio da noção de consciência na filosofia contemporânea deve-se às seguintes condições: 1- a formação, em vários campos de [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]], de [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] de [[lexico:v:verificacao:start|verificação]] e controle, às quais, mais do que ao testemunho íntimo, são confiadas as instâncias negativas e limitativas da [[lexico:c:critica:start|crítica]]; 2- [[lexico:c:consequente:start|consequente]] desconfiança de certezas que se pretendem infalíveis e diretas, mas que são pessoais e incomunicáveis e muitas vezes apresentam oposições mútuas; 3- [[lexico:a:abandono:start|abandono]] definitivo do [[lexico:i:ideal:start|ideal]] de isolamento do homem em relação ao mundo, e da crença na estrutura solitária da realidade humana; portanto, [[lexico:r:renuncia:start|renúncia]] a compreender o homem em seus modos de ser e em seus comportamentos efetivos abstraindo suas relações com as coisas naturais e com os outros homens e considerando-o fechado em si mesmo pelo círculo intransponível da consciência. O importante é caracterizar como se apresenta a consciência ante a especulação da psicologia moderna. "O que há de mais geral numa atividade é, certamente, sua [[lexico:t:tensao:start|tensão]] para um fim... A tensão psíquica pode ser concentrada ou dispersada, mantida pelo sujeito ou abandonada por ele ao [[lexico:a:automatismo:start|automatismo]], e {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}