===== CONHECIMENTO OBJETIVO ===== Vamos reencontrar essa [[lexico:i:ideia|ideia]] de [[lexico:o:objeto|objeto]] sob a [[lexico:f:forma|forma]] do [[lexico:c:criterio|critério]] ou do [[lexico:i:ideal|ideal]] de [[lexico:o:objetividade|objetividade]], considerado como [[lexico:c:caracteristico|característico]] da démarche científica. Um dos méritos essenciais que atribuímos ao [[lexico:c:conhecimento-cientifico|conhecimento científico]] é justamente o de constituir um [[lexico:c:conhecimento-objetivo|conhecimento objetivo]]. E muitos consideram que somente a [[lexico:a:atitude|atitude]] científica torna [[lexico:p:possivel|possível]] [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:tipo|tipo]] de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]. Mas [[lexico:o:o-que-e|o que é]] objetividade? Antes de tudo, um [[lexico:e:estado|Estado]] de [[lexico:s:separacao|separação]]. Um conhecimento é considerado [[lexico:o:objetivo|objetivo]], na [[lexico:m:medida|medida]] em que é [[lexico:i:independente|independente]] do [[lexico:m:modo|modo]] como ele foi obtido, dos instrumentos e dos procedimentos pelos quais um [[lexico:s:sujeito|sujeito]] pensante o elaborou. No domínio do "conhecimento objetivo", o resultado pode [[lexico:s:ser|ser]] totalmente separado do [[lexico:m:metodo|método]] que serviu para sua obtenção; uma vez [[lexico:a:adquirido|adquirido]] um novo conhecimento, podemos retirar todos os andaimes, só permanecendo a pura [[lexico:r:realidade|realidade]] "objetiva", colocada diante do sujeito. Portanto, "objetividade" implica separação, distanciamento, corte entre o sujeito e o objeto. Por isso mesmo, a objetividade é a colocação, entre [[lexico:p:parenteses|parênteses]], das [[lexico:s:significacoes|significações]] vividas e de tudo o que há de poético em nossa [[lexico:e:experiencia|experiência]] do [[lexico:m:mundo|mundo]]. Correlativamente, paralela a essa colocação entre parênteses, a "objetividade" implica uma [[lexico:t:transformacao|transformação]] interna do [[lexico:p:proprio|próprio]] objeto que se exprime pela [[lexico:d:distincao|distinção]] entre as qualidades primeiras e as [[lexico:q:qualidades-segundas|qualidades segundas]]. (...) Todavia, precisamos levar em conta os diversos questionamentos a que foi submetida a ideia de objetividade na [[lexico:e:epoca|época]] contemporânea. Foi, antes de tudo e fundamentalmente, no contexto das [[lexico:c:ciencias-humanas|ciências humanas]] que a ideia de conhecimento objetivo se viu contestada. [[lexico:n:nao|Não]] nos é possível evocar aqui, nem mesmo em termos gerais, os enormes problemas epistemológicos levantados pelas ciências humanas. Limitar-nos-emos a lembrar uma [[lexico:o:observacao|observação]] que se tornou bastante corrente: quando se trata de analisar os fatos humanos, individuais ou sociais, o pesquisador não pode colocar entre parênteses sua própria [[lexico:s:situacao|situação]], pois ele se encontra necessariamente implicado em seu objeto de [[lexico:e:estudo|estudo]]; ademais, no domínio dos fenômenos humanos, a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] dos fatos engaja necessariamente interpretações que sempre são feitas a partir de um [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista determinado e que, por conseguinte, num certo [[lexico:s:sentido|sentido]], encontram-se impregnadas de objetividade. Contudo, independentemente das questões epistemológicas próprias às ciências humanas, acontece que, mesmo na [[lexico:f:fisica|física]], vamos encontrar problemas graves concernentes à ideia de objetividade. Vamos nos contentar, aqui, em evocá-los rapidamente. Esses problemas foram colocados, sobretudo, no contexto da [[lexico:m:mecanica|mecânica]] quântica. Podemos interpretar os resultados obtidos nas experimentações realizadas no domínio [[lexico:q:quantico|quântico]], sem permitirmos a intervenção, senão do sujeito [[lexico:t:transcendental|transcendental]], pelo menos de uma [[lexico:i:instancia|instância]] [[lexico:e:exterior|exterior]] ao [[lexico:s:sistema|sistema]] estudado? Se respondermos de modo [[lexico:n:negativo|negativo]] a essa [[lexico:q:questao|questão]], seremos levados a fazer uma revisão bastante radical das concepções que se encontram na base da [[lexico:c:ciencia|ciência]] dita "clássica". Portanto, nos dias de hoje, há um certo estremecimento da ideia de objetividade. Não obstante, podemos constatar que muitos [[lexico:c:cientistas|cientistas]] importantes continuam a [[lexico:p:pensar|pensar]] que a objetividade constitui um [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:e:essencial|essencial]] da ciência. O [[lexico:e:exemplo|exemplo]] de Jacques Monod é particularmente [[lexico:r:representativo|representativo]] (Cf. Le hasard et la necessite, Paris, Seuil, 1970, notadamente o capítulo IX). Ele faz daquilo que chama de o [[lexico:p:postulado|postulado]] do conhecimento objetivo, não somente a mola da [[lexico:a:atividade|atividade]] científica, mas também a base daquilo que lhe parece constituir a única atitude [[lexico:e:etica|ética]] plenamente autêntica. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], para ele, há uma [[lexico:d:decisao|decisão]] é ética na base da ciência: esta decisão é, justamente, o [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] (parti-pris) da objetividade, a aceitação decidida do postulado do conhecimento objetivo. Praticamente, no domínio da [[lexico:b:biologia|biologia]], esta atitude se traduz pela ideia de que devemos abandonar toda [[lexico:e:especie|espécie]] de consideração finalista. Monod acredita que as considerações desse tipo são antropomórficas; portanto, dependentes de uma [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] subjetiva; enquanto tais, se opõem diametralmente ao ideal de objetividade. A busca da objetividade, mesmo que encontre certas dificuldades, como acabamos de assinalar, acarreta várias consequências metodológicas importantes. 1) Uma primeira [[lexico:c:consequencia|consequência]] é a [[lexico:a:analiticidade|analiticidade]]. 2) Este parti-pris em favor da analiticidade se faz acompanhar de um [[lexico:o:outro|outro]] em favor de [[lexico:c:causalidade|causalidade]] no sentido [[lexico:e:estrito|estrito]]. 3) Uma terceira consequência metodológica do postulado de objetividade é o [[lexico:r:reducionismo|reducionismo]]. 4) Enfim, a quarta consequência epistemológica do postulado de objetividade é a [[lexico:e:empiricidade|empiricidade]]. Estas são algumas características, estreitamente ligadas entre si, que parecem decorrer dos pressupostos da [[lexico:m:metafisica|metafísica]] da [[lexico:r:representacao|representação]]. E desempenham um papel particularmente decisivo no que se refere às ciências da [[lexico:v:vida|vida]]. Poderíamos ilustrar isso com um exemplo bastante [[lexico:t:tipico|típico]]: o [[lexico:p:problema|problema]] da [[lexico:e:emergencia|emergência]]. Quando passamos de estruturas menos complexas a estruturas mais complexas, novas propriedades aparecem; e podemos caracterizar essa novidade falando de emergência. Segundo o ponto de vista evocado acima, esforçamo-nos por [[lexico:e:explicar|explicar]] as qualidades emergentes por [[lexico:r:reducao|redução]], vale dizer, fazendo-as aparecerem como efeitos resultantes dos processos que ocorrem nas estruturas do nível imediatamente inferior. Claro que não temos mais hoje um reducionismo puramente mecanicista. Começamos a [[lexico:c:criar|criar]] instrumentos intelectuais apropriados para pensar a complexidade enquanto tal. Contudo, o [[lexico:e:esquema|esquema]] diretriz da compreensão permanece vinculado à ideia de objetividade. Em definitivo, encontramo-nos sempre e, de certa forma mais do que nunca, na metafísica da representação. (v. [[lexico:m:metafisica-heideggeriana|metafísica heideggeriana]]) [Ladrière]