===== CONHECIMENTO E SOCIEDADE ===== De [[lexico:a:acordo|acordo]] com a [[lexico:s:sociologia|sociologia]] do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] (isto é, aquele ramo da sociologia da [[lexico:c:cultura|cultura]] que afirma, como [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida, que as maneiras de [[lexico:p:pensar|pensar]] e conhecer dependem, de algum [[lexico:m:modo|modo]], da [[lexico:r:realidade-social|realidade social]] em que se oferecem, ou seja, dos grupos sociais a que pertencem os indivíduos), a [[lexico:i:influencia|influência]] do [[lexico:m:meio|meio]] [[lexico:s:social|social]] — [[lexico:e:estrutura|estrutura]] e organização da [[lexico:s:sociedade|sociedade]] — revela-se na [[lexico:s:selecao|seleção]] dos problemas do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:h:humano|humano]], no modo de colocá-los e solucioná-los. Isto levou Karl Mannheim a afirmar que, por um lado, há processos sociais que dirigem, até certo ponto, o [[lexico:p:processo|processo]] do conhecimento; e, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, esses processos sociais são visíveis através da estruturação histórica da sociedade: pela [[lexico:o:obra|obra]] conhece-se o [[lexico:t:tempo|tempo]] em que foi [[lexico:p:possivel|possível]] criá-la. Assim, o pensamento deve [[lexico:s:ser|ser]] estudado [[lexico:n:nao|não]] [[lexico:c:como-se|como se]] apresenta nos tratados especulativos mas em seu funcionamento [[lexico:e:efetivo|efetivo]] na [[lexico:v:vida|vida]] humana, como [[lexico:i:instrumento|instrumento]] de [[lexico:a:acao|ação]] coletiva. Isto porque não só estamos condicionados pelos acontecimentos que ocorrem em nosso [[lexico:m:mundo|mundo]] e à nossa volta como, ao mesmo tempo, somos um instrumento para lhes dar [[lexico:f:forma|forma]] e, portanto, só se torna plenamente compreensível quando encarado em face da conexão existente entre o ser e o conhecer. Daí, vinculadas as formas de conhecimento ao ser social — porquanto deste promanam elas — o [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] do pensamento depende da [[lexico:r:realidade|realidade]] social e não de uma [[lexico:d:dialetica|dialética]] puramente [[lexico:i:imanente|imanente]]. Ou seja: o conhecimento não tem [[lexico:e:existencia|existência]] autônoma, não nasce nem se desenvolve num [[lexico:c:campo|campo]] intelectual autônomo no [[lexico:h:homem|homem]], mas se ajusta intimamente à [[lexico:s:situacao|situação]] total tanto do [[lexico:i:individuo|indivíduo]] como, particularmente, do [[lexico:p:povo|povo]] e das classes sociais. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], como reconhece Max Scheller, a realidade social "abre ou fecha as comportas" da corrente espiritual, elege ou torna possível, num [[lexico:m:momento|momento]] [[lexico:d:dado|dado]], a floração de uma determinada forma de [[lexico:s:saber|saber]]. Esta [[lexico:v:verificacao|verificação]] reitera a afirmativa de que o conhecimento está ligado à existência material, e a [[lexico:a:atitude|atitude]] intelectual depende da [[lexico:c:condicao|condição]] social do [[lexico:g:grupo|grupo]] a que pertence o indivíduo, cabendo sua [[lexico:a:analise|análise]], sob este [[lexico:a:aspecto|aspecto]], à sociologia do conhecimento que, como [[lexico:t:teoria|teoria]], procura investigar as [[lexico:r:relacoes|relações]] entre conhecimento e existência e, como [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] histórico-sociológica, busca a [[lexico:o:origem|origem]] das formas que essas relações têm assumido no desenvolvimento intelectual da [[lexico:h:humanidade|humanidade]], sendo sua [[lexico:t:tese|tese]] fundamental a existência de modos de pensamento incapazes de ser adequadamente compreendidos enquanto permanecerem obscuras as suas [[lexico:o:origens|origens]] sociais. Claro está que não há a menor [[lexico:d:duvida|dúvida]] de que só o indivíduo é capaz de pensar e conhecer, pois não existe essa [[lexico:e:entidade|entidade]] abstrata denominada ‘[[lexico:e:espirito|espírito]] grupai’, que pensa e conhece acima das cabeças dos indivíduos, ou cujas [[lexico:i:ideias|ideias]] estes se limitam a reproduzir. Mas nem por isso se deve concluir que todas as ideias e sentimentos que motivam o [[lexico:c:comportamento|comportamento]] de um indivíduo tenham exclusivamente nele suas origens e possam ser adequadamente explicadas apenas à [[lexico:l:luz|luz]] de sua própria [[lexico:e:experiencia|experiência]]. Ao contrário, é preciso [[lexico:c:compreender|compreender]] o pensamento dentro da moldura concreta de uma situação histórico-social, de que o pensamento individualmente diferenciado emerge gradualmente. Assim, não são os homens em [[lexico:g:geral|geral]] que pensam, nem mesmo os indivíduos isolados, mas os homens dentro de certos grupos que elaboram um [[lexico:e:estilo|estilo]] peculiar de pensamento graças a uma [[lexico:s:serie|série]] interminável de reações a certas situações típicas, características de sua [[lexico:p:posicao|posição]] comum. Por isso adverte Karl Mannheim que, estritamente falando, é incorreto dizer que o indivíduo isolado pense. Mais correto é afirmar que ele participa do processo levando avante o que os outros pensaram antes dele. Encontra-se dentro de uma situação herdada, com padrões de pensamento a ela apropriados, ou procura aperfeiçoar mais ainda os modos de [[lexico:r:reacao|reação]] herdados, ou substituí-los por outros, para enfrentar com armas mais adequadas as novas dificuldades provenientes das variações e mudanças da situação. Cada indivíduo é, portanto, num duplo [[lexico:s:sentido|sentido]], predeterminado pelo [[lexico:f:fato|fato]] de se [[lexico:t:ter|ter]] criado dentro de uma sociedade: por um lado, já encontra uma situação definida e, por outro, encontra, dentro dessa situação, padrões de comportamento e de pensamento estabelecidos. Deste modo, a [[lexico:h:historia|história]] do pensamento não se confina nos livros, pois deriva sua principal [[lexico:s:significacao|significação]] das experiências da vida cotidiana e, mesmo as mudanças principais nas avaliações de diferentes esferas da realidade, tal como se apresentam na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]], reportam-se, em última [[lexico:i:instancia|instância]], aos valores cambiantes do mundo cotidiano. Assim, é possível [[lexico:v:ver|ver]] claramente que existem diferenças nos [[lexico:m:modos-de-conhecimento|modos de conhecimento]], não só em diferentes períodos históricos como em diferentes culturas, como se pode verificar no fato de que não só o conteúdo do pensamento muda como também sua estrutura [[lexico:c:categorial|categorial]], isto é, no passado como no presente os modos [[lexico:d:dominantes|dominantes]] de pensamento são suplantados por novas [[lexico:c:categorias|categorias]] quando a base social do grupo, de que são características essas formas de pensamento, se desintegra ou se transforma sob a pressão da [[lexico:m:mudanca|mudança]] social. Esta teoria da [[lexico:d:determinacao|determinação]] social ou [[lexico:e:existencial|existencial]] do pensamento efetivo, em face de casos concretos, torna patente que toda formulação de um [[lexico:p:problema|problema]] só é possibilitada por uma experiência humana prévia e efetiva que envolve [[lexico:e:esse|esse]] problema; que na seleção dos dados múltiplos está implicado um [[lexico:a:ato|ato]] voluntário por [[lexico:p:parte|parte]] do [[lexico:s:sujeito|sujeito]] cognoscente; e que as forças surgidas da experiência vivida influem na direção que seguirá o tratamento do problema. Quer isto dizer que as forças vivas e as atitudes reais em que se alicerçam as atitudes teóricas não são, de maneira alguma, de [[lexico:n:natureza|natureza]] individual, isto é, não têm origem na [[lexico:t:tomada-de-consciencia|tomada de consciência]] de seus interesses, por parte do indivíduo, durante o processo do pensamento. Nascem, antes, dos propósitos coletivos de um grupo que estão subjacentes ao pensamento individual e de cujo ponto de vista prescrito por ele se limita a participar. Nessa conexão torna-se claro que grande parte do pensamento e do conhecimento não pode ser compreendida de maneira adequada enquanto não forem levadas em consideração as suas relações com a existência ou com as inferências sociais da vida humana. Assim sendo, a [[lexico:p:presenca|presença]] da realidade social na [[lexico:g:genese|gênese]] do conhecer se manifesta, antes de tudo, no [[lexico:p:proprio|próprio]] ato da formulação do problema do qual ela deriva, já que este problema não se apresenta no [[lexico:v:vacuo|vácuo]] mas ligado a uma circunstância concreta, a uma peculiar situação vital; depois, na [[lexico:e:escolha|escolha]] dos materiais, aspectos ou fenômenos, que se acreditam importantes para a solução do problema, o qual depende de um ato de [[lexico:v:vontade|vontade]], de um querer, que alimenta uma vida; e, finalmente, porque no modo de desenvolver o problema vão envolvidas determinadas tendências e interesses vitais. Ora, a vida que impulsiona o ato voluntário e que complica a consideração do problema, não é puramente a individual, mas a coletiva, do grupo em que participa, com mais ou menos [[lexico:i:intensidade|intensidade]], o indivíduo que pensa. Por isso, atrás do ato cognoscitivo individual está gravitando nele, com [[lexico:f:forca|força]] maior ou menor, a existência de um grupo com todos seus desejos, interesses e escopos. Consequentemente, a focalização especial de seu pensar está orientada para os problemas desse grupo e que são, afinal de contas, no dizer de [[lexico:o:ortega-y-gasset|Ortega y Gasset]], os problemas de sua vida.