===== CONHECIMENTO DA ALMA ===== Até [[lexico:a:agora:start|agora]] elaboramos nossa [[lexico:t:teoria:start|teoria]] da [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] em [[lexico:f:funcao:start|função]] do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] materiais. Mas é certo que se encontra em nós um conhecimento privilegiado de um [[lexico:s:ser:start|ser]] que [[lexico:n:nao:start|não]] é puramente material: o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] que pensa. Na [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]] este domínio do psiquismo foi [[lexico:o:objeto:start|objeto]] de uma [[lexico:a:atencao:start|atenção]] toda [[lexico:p:particular:start|particular]] e o conhecimento do "[[lexico:e:eu:start|eu]]" tomou assim uma importância crescente. Para só considerar o [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] metafísico desta [[lexico:q:questao:start|questão]], pode-se perguntar, com diversos filósofos de nossa [[lexico:e:epoca:start|época]], se a [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] deste "eu" não seria o [[lexico:p:principio:start|princípio]] mesmo do [[lexico:s:saber:start|saber]]. Princípio, aliás, concebido de [[lexico:m:modo:start|modo]] tão diferente por um [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], que nele vê uma [[lexico:s:substancia-espiritual:start|substância espiritual]], por um [[lexico:m:maine-de-biran:start|Maine de Biran]], que o identifica com o esfôrço motor voluntário, por um [[lexico:b:bergson:start|Bergson]], que o confunde com a [[lexico:d:duracao:start|duração]], por um [[lexico:f:fichte:start|Fichte]], que dele faz dura [[lexico:a:atividade:start|atividade]] [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] e absoluta enquanto que, em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]], [[lexico:k:kant:start|Kant]] afirma que, ontologicamente considerado, o "eu" pertence ao [[lexico:m:mundo:start|mundo]] inatingível do [[lexico:n:numero:start|número]]. Teremos [[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] de voltar a estas posições para as apreciar segundo nosso [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista. Nossa [[lexico:i:intencao:start|intenção]] presentemente é expor a doutrina de [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] na linha mesma de sua [[lexico:p:problematica:start|problemática]] e de seu [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] original. E só depois poderá ser verdadeiramente frutuoso um confronto corri outros [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]]. **O [[lexico:p:problema:start|problema]] colocado a Tomás de Aquino** O problema do [[lexico:c:conhecimento-da-alma:start|conhecimento da alma]] e de sua atividade ocupa um [[lexico:l:lugar:start|lugar]] secundário na [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] de [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]]. Esta é manifestamente dominada pela [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] de valorizar, em [[lexico:r:reacao:start|reação]] contra o [[lexico:e:espiritualismo:start|espiritualismo]] platônico, o [[lexico:p:primado:start|primado]] do conhecimento das coisas materiais. Uma só questão neste domínio parece reter um pouco a atenção do [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]], a da [[lexico:i:inteligibilidade:start|inteligibilidade]] das [[lexico:p:potencias-da-alma:start|potências da alma]]. Se é [[lexico:v:verdade:start|verdade]] que [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]] é só o que está em [[lexico:a:ato:start|ato]], como será [[lexico:p:possivel:start|possível]] [[lexico:f:falar:start|falar]] de um conhecimento direto das potências? Responde Aristóteles que efetivamente só atingimos as potências por intermédio de seus atos. É o que aparece no livro II do [[lexico:d:de-anima:start|De anima]] (c. 4, 415 a 14-22), onde está [[lexico:d:dito:start|dito]] que a [[lexico:o:ordem:start|ordem]] da [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] psicológica é a seguinte: conhecimento dos objetos, dos atos que os especificam e, por [[lexico:m:meio:start|meio]] deles, das potências que estão no seu princípio. E igualmente o que se conclui da [[lexico:e:exegese:start|exegese]] de uma passagem embaraçada do livro III (c. 4, 429 b 27-430 a 9), de onde Tomás de Aquino tira que só conhecemos nosso [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] porque temos a percepção de nosso ato de [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]]: "non enim cognoscimus intellectum nostrum nisi per hoc [[lexico:q:quod:start|quod]] intelligimus intelligere". [[lexico:a:a-fortiori:start|a fortiori]] concluir-se-á que só temos do "eu" um conhecimento indireto na e pela sua atividade. As elaborações pessoais de Tomás de Aquino vão se situar na linha das preocupações precedentes, isto é, face ao problema metafísico da inteligibilidade das potências e ulteriormente da [[lexico:a:alma:start|alma]] intelectiva: problema abarcado por este adágio e de cuja [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] estará dependendo: "uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] é cognoscível na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que está em ato e não na medida em que está em [[lexico:p:potencia:start|potência]]... unumquodque cognoscibile est secundum quod est in [[lexico:a:actu:start|actu]] et non se, cundum quod est in potentia" (Ia Pa, q. 87, a. 1). Sobre esta questão, todavia, o Doutor angélico devia também levar em conta um [[lexico:o:outro:start|outro]] modo de [[lexico:v:ver:start|ver]] que remontava à [[lexico:a:autoridade:start|autoridade]] maior de S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]]. Para este, sabe-se, a [[lexico:v:vida-psiquica:start|vida psíquica]] aparecia [[lexico:b:bem:start|Bem]] menos tributária da percepção [[lexico:s:sensivel:start|sensível]]. Assim, a alma se conhece diretamente [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesma: "[[lexico:m:mens:start|mens]] seipsam per seipsam novit" (De Trinitate, l. 9, c. 3) . Neste [[lexico:t:texto:start|texto]], diversas vezes retomado por Tomás de Aquino, encontra-se uma [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] espiritual aparentemente oposta ao [[lexico:i:intelectualismo:start|intelectualismo]] sensualista de Aristóteles. Será preciso optar entre as duas atitudes, a menos que se revele possível uma conciliação [[lexico:s:superior:start|superior]] das duas teses. Advinha-se sem custo que nesta [[lexico:d:discussao:start|discussão]] vai entrar em [[lexico:j:jogo:start|jogo]] a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] profunda ou a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] do ser [[lexico:h:humano:start|humano]]. É ele só um [[lexico:e:espirito:start|espírito]] encarnado? Não teria, ao menos em [[lexico:e:estado:start|Estado]] [[lexico:l:latente:start|latente]], as virtualidades de um espírito [[lexico:p:puro:start|puro]]? Toda a [[lexico:s:significacao:start|significação]] do [[lexico:h:homem:start|homem]] está aqui engajada. Tomás de Aquino que, desde o início aqui se colocara na dependência do peripatetismo, parece [[lexico:t:ter:start|ter]] hesitado ao tocar as doutrinas da tradição cristã. Mais acolhedor em seus primeiros escritos, será mais reservado na Summa. Vamos segui-lo nestas tomadas de posições sucessivas marcadas pelos textos maiores do De Veritate (q. 10, a. 8) e da Ia Pa (q. 87, a. 1) . A solução trazida ao problema do conhecimento da alma separada por si mesma (Ia Pa, q. 89, a. 1) acabará por nos fixar em suas vistas profundas. O [[lexico:e:estudo:start|estudo]] [[lexico:c:comparativo:start|comparativo]] assim empreendido, terá o [[lexico:i:interesse:start|interesse]] suplementar de nos fazer captar, em um caso [[lexico:c:concreto:start|concreto]], [[lexico:c:como-se:start|como se]] comporta nosso Doutor quando Aristóteles e S. Agostinho parecem se opor. **A exegese de Tomás de Aquino** Trata-se de se saber se a alma intelectiva (mens) se conhece diretamente pela sua [[lexico:e:essencia:start|essência]] ou por intermédio de "[[lexico:s:species:start|species]]" abstraídas das imagens que a atuaram: "Utrum mens se ipsam per essentiam cognoscat vel per aliquam speciem?" Duas séries de objeções colocam o problema em toda sua acuidade: uma [[lexico:s:serie:start|série]] de 16 objeções em favor da [[lexico:t:tese:start|tese]] aristotélica do conhecimento indireto "per speciem" e outra de 11, no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] da tese agostiniana do conhecimento "per essentiam" (De Verit., q. 10, a. 8). No [[lexico:c:corpo:start|corpo]] do artigo, começa Tomás de Aquino por distinguir dois tipos de conhecimento da alma por si mesma: um, pelo qual a alma se conhece naquilo que tem de [[lexico:p:proprio:start|próprio]] (conhecimento individual e concreto); outro, pelo qual a alma se conhece naquilo que tem de comum com as outras almas (conhecimento [[lexico:u:universal:start|universal]] e [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]]). Deixemos de lado este [[lexico:u:ultimo:start|último]] conhecimento, que interessa às técnicas elaboradas da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], para ficarmos com a percepção primitiva e [[lexico:e:experimental:start|experimental]] da alma. Aqui ainda devemos distinguir o caso do conhecimento [[lexico:a:atual:start|atual]], no qual a alma se conhece por meio de seus atos, como o quer Aristóteles, e o caso do conhecimento habitual conforme o qual convém afirmar com S. Agostinho que a alma se conhece por sua essência. Precisemos estes dois pontos. - Conhecimento atual da alma por si mesma. "É nisto que cada um percebe que tem uma alma, vive ou existe: porque sente, faz ato de inteligência, ou exerce atos vitais desta ordem". Para Aristóteles há incontestavelmente nisto um [[lexico:d:dado:start|dado]] [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]]. É em e por meio de minha atividade psíquica que me conheço. Vindo a cessar esta atividade, a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] do "eu" encontra-se, por este [[lexico:f:fato:start|fato]] mesmo, abolida. Mas isto justifica-se igualmente a priori pela teoria da inteligibilidade precedentemente proposta: uma coisa é inteligível na medida em que está em ato. Ora, a inteligência, antes da recepção da ,(species", está em potência na ordem dos inteligíveis. Ora, só será inteligível por si mesma e só se tornará tal quando atuada por uma "species". Dever-se-á concluir que é por intermédio desta que a alma se conhece atualmente. - Conhecimento habitual da alma por si mesma. Aqui não se requer a [[lexico:m:mediacao:start|mediação]] de nenhuma "species": basta a [[lexico:p:presenca:start|presença]] da alma a si mesma: "pelo fato de a sua essência lhe [[lexico:e:estar:start|estar]] presente, a alma tem a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de passar ao conhecimento de si". Assim como aquele que tem o [[lexico:h:habito:start|hábito]] de uma ciência, o matemático, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], pode imediatamente e por meio de seus recursos próprios passar ao exercício do seu saber, assim também a alma pode produzir o conhecimento de si. Qual é exatamente a [[lexico:d:dimensao:start|dimensão]] desta [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]]? Apressemo-nos em afastar uma [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] que seria errada. O conhecimento habitual, de que aqui se trata, não é de modo algum atual, nem [[lexico:c:consciente:start|consciente]]. [[lexico:n:nada:start|nada]] tem a ver com esta percepção surda e contínua de si que acompanha toda a nossa [[lexico:v:vida:start|vida]] psíquica. Estamos presentemente ao nível das estruturas profundas da alma. Aqui não se duvida que o Doutor angélico tenha querido aproximar o conhecimento humano do conhecimento dos [[lexico:e:espiritos:start|espíritos]] puros. De si a alma espiritual é inteligível; por outro lado, está evidentemente presente a si mesma enquanto inteligente; há, pois, radicalmente tudo [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] preciso para justificar um ato de conhecimento de si mesma. Mas as necessidades preliminares do [[lexico:c:conhecimento-abstrativo:start|conhecimento abstrativo]] fazem [[lexico:o:obstaculo:start|obstáculo]] à realização atual, imediata e permanente, deste estado latente de conhecimento de si. Existe, na presente [[lexico:c:condicao:start|condição]] de [[lexico:u:uniao:start|união]] com um corpo, uma atuação possível deste conhecimento habitual? Ou se deve reconhecer que o conhecimento atual, do qual anteriormente se falou, não é senão uma atuação parcial e derivada do dito conhecimento habitual? Tomás de Aquino não é [[lexico:e:explicito:start|explícito]] sobre estes pontos. As respostas a várias dificuldades do artigo (notadamente: ad 1 in contrarium) sugerem-nos, contudo, que o conhecimento atual, embora só [[lexico:r:relativo:start|relativo]] à [[lexico:e:existencia:start|existência]] e não à [[lexico:e:essencia-da-alma:start|essência da alma]], está no prolongamento do conhecimento habitual: "a alma intelectiva conhece-se a si mesma pelo fato de [[lexico:e:existir:start|existir]] nesta alma o que é preciso para que possa passar ao ato de se conhecer atualmente, percebendo que existe". Na Summa Theologica vê-se, de modo claro, um certo enrijecimento de Tomás de Aquino no sentido de uma aplicação mais estrita dos [[lexico:p:principios:start|princípios]] do peripatetismo (Ia, Pa, q. 87. a.1). O corpo do artigo conclui só pelo conhecimento da alma pelo seu ato: "non ergo per essentiam suam sed per actum suum se cognoscit intellectus noster". A [[lexico:r:razao:start|razão]] desta afirmação nos é conhecida: uma coisa é inteligível na medida em que está em ato; ora, na ordem das coisas inteligíveis, nossa inteligência é pura potência. Como o faz no De Veritate, Tomás de Aquino distingue, em seguida, para a alma, um conhecimento particular (experimental) e um conhecimento universal (científico). Lendo estes textos, não podemos nos furtar de perguntar se o conhecimento habitual e direto da alma teria sido aqui positivamente eliminado. Parece que se deva responder negativamente. Se, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], pesarmos bem os termos com os quais o nosso Doutor caracteriza presentemente o conhecimento particular da alma, constataremos que a razão que o fundamenta é, como antes, a [[lexico:s:simples:start|simples]] presença da alma a si mesma: "ad primam cognitionem de [[lexico:m:mente:start|mente]] habendam, sufficit ipsa mentis praesentia". Por outra [[lexico:p:parte:start|parte]], o [[lexico:t:termo:start|termo]] deste conhecimento é aqui também a existência da alma e de nossas [[lexico:a:atividades:start|atividades]] e não sua natureza. O [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] particular percebe que tem uma alma intelectiva pelo fato de que toma consciência de sua atividade intelectual: "percipit se habere animam intellectivam ex hoc quod percipit se intelligere". A intervenção do ato [[lexico:m:mediador:start|mediador]] é exigida, mas a razão última da consciência de si parece ser esta presença inteligível da alma a si mesma, significada pela [[lexico:n:nocao:start|noção]] do conhecimento habitual. O caso da alma separada (cf. S. Th. Ia Pa, q. 89, a. 1). Considerando que, em nossa condição presente de união a estrutura profunda da alma intelectiva se encontra de certo modo velada, seria evidentemente desejável poder [[lexico:r:representar:start|representar]] o estado da alma quando separada do corpo. Tomás de Aquino, com sua ousadia de metafísico, esforçou-se por realizar teoricamente esta [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] (cf. Ia Pa, q. 89). O que disse a [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:r:respeito:start|respeito]] vai nos permitir melhor [[lexico:c:compreender:start|compreender]] a natureza de nossa vida intelectiva. Num primeiro [[lexico:i:instante:start|instante]], encontramo-nos frente a um [[lexico:d:dilema:start|dilema]]. Ou a alma, como querem os platônicos, une-se ao corpo apenas de maneira acidental, reencontrando assim, quando separada do corpo, sua condição de espírito puro imediatamente adaptado aos inteligíveis; mas nesta [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] não se vê qual a razão da união, que aparece como desvantajosa à alma; ou, então, a união é [[lexico:n:natural:start|natural]] e, neste caso, parece [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] reconhecer-lhe qualquer atividade cognoscitiva depois da [[lexico:m:morte:start|morte]]. Tomás de Aquino escapa desta dificuldade admitindo para a alma dois tipos de atividade intelectual, correspondendo a seus dois modos diferentes de existir, o de união a um corpo e o de [[lexico:s:separacao:start|separação]] do mesmo. Unida ao corpo, a alma intelectiva conhece por [[lexico:c:conversao:start|conversão]] às imagens. Separada dele, conhece à maneira dos espíritos, por conversão aos objetos que de si são inteligíveis. Mas, precisa nosso autor, e é o que dá toda a dimensão de sua doutrina, o modo de conhecer como o de existir do primeiro [[lexico:t:tipo:start|tipo]] são naturais à alma, enquanto que o modo de conhecer e o modo de existir do segundo devem ser chamados preternaturais: "modus intelligendi per conversionem ad phantasmata est animae naturalis sicut et corpori uniri, sed esse separatum a corpore est praeter rationem suae naturae, et similiter intelligere sine conversione ad phantasmata est ei praeter naturam". O estado de união e a vida que lhe corresponde seriam definitivamente a condição melhor para o homem. Uma [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] subsiste porém. Como pode a alma, que é radicalmente capaz de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] à maneira dos espíritos puros, tirar proveito de um modo inferior de conhecer? Porque a alma, explica Tomás de Aquino, que é a última das [[lexico:s:substancias:start|substâncias]] intelectuais, não atingiria, só pelo modo de intelecção próprio às substâncias espirituais, conhecimentos suficientemente distintos e precisos. E assim, conclui, é [[lexico:b:bom:start|Bom]] para ela estar unida a um corpo e encontrar seu objeto comum à sombra das imagens. Resta-lhe, porém, que lhe é possível existir no estado de separação e ter então um outro modo de atividade intelectual. Tal é, parece, a última [[lexico:p:palavra:start|palavra]] da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] de Tomás de Aquino sobre o problema da união da alma e do corpo e das consequências que daí decorrem quanto à atividade do homem. **Conclusões e corolários** Nossa vida presente é, portanto, naturalmente, a vida de um espírito encarnado, mas de um espírito cujas estruturas profundas são as de um espírito puro. Enquanto espírito encarnado, nossa alma se conhece por meio de seus atos, isto é, "per species". Mas em sua complexão de puro espírito, encontra-se objetivamente e, de maneira imediata, presente à nossa potência intelectual: é o conhecimento habitual de que [[lexico:f:fala:start|fala]] o De Veritate. Basta que se produza um ato de conhecimento abstrativo, e nossa alma inteligente capta-se imediatamente, não em sua natureza mas em sua existência, como princípio do conhecimento considerado. Tudo leva a crer que assistimos a uma atuação parcial desta [[lexico:a:aptidao:start|aptidão]] fundamental de se captar a si mesma que o conhecimento habitual revela: "percipit [[lexico:a:anima:start|anima]] se intelligere". Radicalmente, seria, pois, enquanto espírito que a alma toma consciência de si. Rompido os elos que a ligam ao corpo, perceber-se-á diretamente como objeto, e sua estrutura preternatural, mas efetiva, de espírito separado manifestar-se-á plenamente. Tais são as perspectivas de conjunto nas quais convém interpretar a doutrina de Tomás de Aquino sobre o conhecimento da alma por si mesma. Até onde se estende este conhecimento de si? Com nossa existência captamos, evidentemente, nossa atividade interior, mas podemos dizer que atingimos nossas [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]]? Tomás de Aquino (q. 87, a. 2) precisa que só sua existência pode ser diretamente captada: tenho consciência de pensar ou de querer, mas as naturezas da inteligência e da [[lexico:v:vontade:start|vontade]], como a da alma, permanecem-me escondidas. Convém estender à atividade sensível esta consciência de si? Os atos de nossos sentidos não estão evidentemente presentes à nossa alma espiritual do mesmo modo como os da inteligência ou da vontade. É certo porém, Tomás de Aquino o reconhece, que nos percebemos como princípio de nossa [[lexico:v:vida-sensitiva:start|vida sensitiva]]: "percipit anima se sentire". Nosso psiquismo inferior está assim ligado ao mesmo "eu" ao qual se liga nosso psiquismo superior espiritual: o "eu" que sente é o mesmo que pensa. Se, pois, a natureza de nossa vida sensitiva não é diretamente percebida, deve-se contudo manter que a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] e o princípio desta vida são atingidos por [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] intelectual. A bem dizer, só existe o "eu" para uma tal consciência e é em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a ela que [[lexico:t:todo:start|todo]] o resto de nosso psiquismo torna-se propriamente nosso. Algumas aproximações com as concepções mais modernas permitem-nos melhor apreciar a [[lexico:p:posicao:start|posição]] precedente. Com Descartes, e a partir dele, a [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] mais constante foi a de se dar o primado ao conhecimento reflexivo e, por conseguinte, de fazer do "eu", e de suas atividades, o objeto privilegiado do espírito humano, ficando assim o objeto [[lexico:e:exterior:start|exterior]] atingido apenas em segundo lugar e terminando mesmo por se confundir com a consciência. Convergem, neste ponto, os três grandes sistemas da [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] francesa acima evocados: [[lexico:i:ideia:start|ideia]] clara e distinta por [[lexico:e:excelencia:start|excelência]] (Descartes), o fato primitivo (Maine de Biran) e os dados imediatos (Bergson): o "eu" é [[lexico:s:substancia:start|substância]] pensante no primeiro caso, esfôrço motor voluntário no segundo e duração no [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]]. Em todos esses sistemas, a [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] para em um objeto interior à consciência. No [[lexico:i:idealismo-alemao:start|idealismo alemão]], o princípio primeiro é ainda o "eu" captado reflexivamente, mas este "eu" perde aqui toda [[lexico:c:consistencia:start|consistência]] [[lexico:s:substancial:start|substancial]], mesmo aquela suposta por um sujeito fluente e transitório, para não reter outra realidade [[lexico:a:alem:start|além]] da posição primária e incondicionada de um ato de espírito. Com o [[lexico:a:aristotelismo:start|aristotelismo]] tomista, ao contrário, o objeto próprio da inteligência humana é a coisa material, exterior ao espírito. Doutrina mais modesta que as precedentes e que tem o encargo de [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a [[lexico:a:assimilacao:start|assimilação]] pelo espírito de um dado que lhe é estranho, mas tendo a inapreciável [[lexico:v:vantagem:start|vantagem]] de ser mais conforme os fatos. Assim a vida do espírito é antes [[lexico:e:exterioridade:start|exterioridade]]. Mas o espírito humano é também capaz de uma certa [[lexico:i:interioridade:start|interioridade]]. A atividade intelectual é [[lexico:i:imanente:start|imanente]] e é reflexiva. Mais profundamente, existe em nós com que fundar uma vida pura de espírito, tornando-se o "eu", para o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]], seu objeto [[lexico:i:imediato:start|imediato]]. Em nossa condição atual, esta última vida realiza-se só de maneira muito reduzida. Na condição de alma separada, será total, mesmo permanecendo sempre imperfeita. A metafísica da consciência primitiva e privilegiada do "eu" não é sem [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]], mas a de Tomás de Aquino, mais modesta, é também mais objetiva e mais compreensível. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}