===== CONHECIMENTO CIENTÍFICO ===== Ao contrário do que dão a entender a maioria dos livros de [[lexico:m:metodologia|metodologia]], o [[lexico:c:conhecimento-cientifico|conhecimento científico]] [[lexico:n:nao|não]] é algo pronto e acabado, indiscutível. Na [[lexico:v:verdade|verdade]], o século XX foi palco de uma apaixonada [[lexico:d:discussao|discussão]] sobre [[lexico:o:o-que-e|o que é]] [[lexico:c:ciencia|ciência]], quais são suas características e sua [[lexico:r:relacao|relação]] com os outros tipos de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]. Os pensadores que exploraram o [[lexico:t:tema|tema]] discordam entre si e há até aqueles que defendem que um [[lexico:m:metodo|método]] científico é [[lexico:i:impossivel|impossível]]. Outros têm denunciado a [[lexico:i:ideologia|ideologia]] por trás do método científico, tais como Edgar Morin e Hebert [[lexico:m:marcuse|Marcuse]], que acusam a ciência e a [[lexico:t:tecnologia|tecnologia]] de promoverem a [[lexico:t:transformacao|transformação]] do [[lexico:h:homem|homem]] em [[lexico:c:coisa|coisa]] e a compartimentação do [[lexico:s:saber|saber]]. Outros apresentam propostas que discordam completamente do que a maioria entende por ciência. [[lexico:e:exemplo|exemplo]] disso é a gonzologia, uma corrente de [[lexico:p:pensamento|pensamento]] influenciada pelo jornalismo gonzo. Para esses pensadores, a única metodologia [[lexico:p:possivel|possível]] dentro da ciência é a [[lexico:o:observacao|observação]] participante. Entretanto, a [[lexico:n:nocao|noção]] que se tem hoje do conhecimento científico é influenciada pelos pontos de vista do [[lexico:c:circulo-de-viena|Círculo de Viena]] e dos pensadores Karl [[lexico:p:popper|Popper]] e Thomas S. [[lexico:k:kuhn|Kuhn]] pela [[lexico:i:influencia|influência]] de suas propostas epistemológicas. O primeiro [[lexico:c:carater|caráter]] do conhecimento científico, reconhecido até por [[lexico:c:cientistas|cientistas]] e filósofos das mais diversas correntes, é a [[lexico:o:objetividade|objetividade]], no [[lexico:s:sentido|sentido]] de que a ciência intenta afastar do seu domínio [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:e:elemento|elemento]] [[lexico:a:afetivo|afetivo]] e [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]], deseja [[lexico:s:ser|ser]] plenamente [[lexico:i:independente|independente]] dos gostos e das tendências pessoais do [[lexico:s:sujeito|sujeito]] que a elabora. Numa [[lexico:p:palavra|palavra]], o conhecimento verdadeiramente científico deve ser um conhecimento válido para todos. A objetividade da ciência, por isso, pode ser também, e talvez melhor, chamada [[lexico:i:intersubjetividade|intersubjetividade]], até porque a [[lexico:e:evolucao|evolução]] recente da ciência, e especialmente da [[lexico:f:fisica|física]], mostrou a [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] de separar adequadamente o [[lexico:o:objeto|objeto]] do sujeito e de eliminar completamente o [[lexico:o:observador|observador]]. Este [[lexico:r:reconhecimento|reconhecimento]], que é [[lexico:e:essencial|essencial]] na [[lexico:t:teoria-da-relatividade|teoria da relatividade]] e na nova física quântica, torna o caráter da objetividade mais [[lexico:c:complexo|complexo]] e [[lexico:p:problematico|problemático]] do que podia parecer no século passado; todavia, não elimina de [[lexico:m:modo|modo]] algum da ciência o propósito radicalmente [[lexico:o:objetivo|objetivo]]. [[lexico:o:outro|outro]] caráter universalmente reconhecido é a positividade, no sentido de uma plena aderência aos fatos e de uma absoluta submissão à fiscalização da [[lexico:e:experiencia|experiência]]. [...] O [[lexico:c:conceito|conceito]] de positividade como recurso à experiência e adesão aos fatos era ainda muito [[lexico:v:vago|vago]] e nesse [[lexico:t:tempo|tempo]] demasiado restrito, não só em [[lexico:f:filosofia|Filosofia]], como na própria ciência; o que teria, por exemplo, excluído peremptória e definitivamente a astrofísica e toda a [[lexico:t:teoria|teoria]] atômica, das quais os cientistas tiveram de reconhecer a legitimidade. Só recentemente, por [[lexico:o:obra|obra]] de [[lexico:e:einstein|Einstein]] e, mais explicitamente, de Heisenberg, a positividade da ciência se precisou na operatividade dos [[lexico:c:conceitos|conceitos]] científicos, segundo a qual um conceito não tem [[lexico:d:direito|direito]] de cidadania em ciência se não for definido mediante uma [[lexico:s:serie|série]] de operações físicas, experiências e medidas ao menos idealmente possíveis. Tal [[lexico:p:precisao|precisão]] permite, por um lado, reconhecer claramente a não positividade de conceitos como o de [[lexico:e:espaco|espaço]] e de tempo absolutos e, por outro lado, admitir como positivos [[lexico:e:elementos|elementos]] não efetivamente experimentáveis, quando a não experimentabilidade é devida à impossibilidade prática, e não teórica, como a noção de ciclo perfeitamente [[lexico:r:reversivel|reversível]] e toda a astrofísica. Tal precisão, [[lexico:a:alem|além]] disso, permite [[lexico:c:compreender|compreender]] também a positividade da [[lexico:m:matematica|matemática]]. [...] Não no mesmo sentido das ciências experimentais. Introduzindo o conceito de operatividade, a positividade da matemática significa que as suas noções são implicitamente definidas pelo conjunto dos axiomas e postulados formulados na sua base e segundo os quais as noções são utilizáveis. Um [[lexico:t:terceiro|terceiro]] caráter do conhecimento científico reside na sua [[lexico:r:racionalidade|racionalidade]]. Não obstante a [[lexico:o:oposicao|oposição]] de toda a corrente empirista, a ciência [[lexico:m:moderna|moderna]] é essencialmente [[lexico:r:racional|racional]], isto é, não consta de meros elementos empíricos, mas é essencialmente uma construção do [[lexico:i:intelecto|intelecto]]. [...] A ciência pode ser definida como um [[lexico:e:esforco|esforço]] de [[lexico:r:racionalizacao|racionalização]] do [[lexico:r:real|real]]; partindo de dados empíricos, através de sínteses cada vez mais vastas, o cientista esforça-se por abraçar todo o domínio dos fatos que conhece num [[lexico:s:sistema|sistema]] racional, no qual de poucos [[lexico:p:principios|princípios]] [[lexico:s:simples|simples]] e [[lexico:u:universais|universais]] possam logicamente deduzir-se as leis experimentais mais particulares de campos à primeira vista aparentemente heterogêneos. [...] Além disto, os cientistas modernos verificam unanimemente no conhecimento científico um caráter muito alheio à [[lexico:m:mentalidade|mentalidade]] científica do século passado, o da revisibilidade. Não há, nem nas ciências experimentais, nem mesmo na matemática, posições definitivas e irreformáveis. Toda verdade científica aparece, em certo sentido, como provisória, susceptível de revisão, de aperfeiçoamento, às vezes mesmo de uma completa reposição em [[lexico:c:causa|causa]]. Todos os conhecimentos científicos são aproximados, quer pela imperfeição das observações experimentais em que se fundam, quer pela necessária [[lexico:a:abstracao|abstração]] e esquematização com que são tratados. Os conceitos de [[lexico:a:adequacao|adequação]] total e perfeita devem ser substituídos pelos de aproximação e validez limitada. Esta nova mentalidade científica, que deve ser mantida num são equilíbrio, é principalmente o fruto de numerosas crises e revoluções da ciência, que já assinalamos. [...] Finalmente, um [[lexico:u:ultimo|último]] caráter do conhecimento científico é a sua [[lexico:a:autonomia|autonomia]] relativamente à filosofia e à [[lexico:f:fe|fé]]. A ciência tem o seu [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:c:campo|campo]] de [[lexico:e:estudo|estudo]], o seu método próprio de [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]], uma [[lexico:f:fonte|fonte]] independente de informações, que é a [[lexico:n:natureza|natureza]]. [...] Isto não significa que a filosofia não possa e não deva levar a [[lexico:t:termo|termo]] uma [[lexico:i:indagacao|indagação]] [[lexico:c:critica|crítica]] sobre a natureza da ciência, sobre seus métodos e seus princípios, e que o cientista não possa tirar vantagens de um conhecimento reflexivo, filosófico e crítico da sua mesma [[lexico:a:atividade|atividade]] de cientista. [...] Mas em nenhum caso a ciência poderá dizer-se dependente de um [[lexico:s:sistema-filosofico|sistema filosófico]], ou poderá encontrar numa [[lexico:t:tese|tese]] filosófica uma barreira-limite que impeça [[lexico:a:a-priori|a priori]] a aplicação livre e integral do seu método de pesquisa. E o mesmo se dirá no que respeita à fé: ela poderá constituir uma [[lexico:n:norma|norma]] diretriz e prudencial para o cientista, enquanto homem e crente, mas nunca será uma norma positiva ou restritiva para a ciência enquanto tal. [F. Selvaggi, Enciclopédia Filosofica, Roma, 1957, vol. iv, pp. 444-445.]