===== COMUNICAÇÃO ===== (in. Communication; fr. Communication; al. Kommunikation; it. Comunicazioné). Filósofos e sociólogos utilizam hoje [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:t:termo:start|termo]] para designar o [[lexico:c:carater:start|caráter]] específico das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] humanas que são ou podem [[lexico:s:ser:start|ser]] relações de [[lexico:p:participacao:start|participação]] recíproca ou de [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]]. Portanto, esse termo vem a ser sinônimo de "[[lexico:c:coexistencia:start|coexistência]]" ou de "[[lexico:v:vida:start|vida]] com os outros" e indica o conjunto dos modos específicos que a coexistência humana pode assumir, contanto que se trate de modos "humanos", isto é, nos quais reste certa [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de participação e de compreensão. Nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]], a comunicação [[lexico:n:nada:start|nada]] tem em comum com a coordenação e com a [[lexico:u:unidade:start|unidade]]. As peças de uma [[lexico:m:maquina:start|máquina]], observou [[lexico:d:dewey:start|Dewey]], estão estreitamente coordenadas e formam uma unidade, mas [[lexico:n:nao:start|não]] formam uma [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]]. Os homens formam uma comunidade porque se comunicam, isto é, porque podem participar reciprocamente dos seus modos de ser, que assim adquirem novos e imprevisíveis significados. Essa participação diz que uma relaçãp de comunicação não é um [[lexico:s:simples:start|simples]] contato [[lexico:f:fisico:start|físico]] ou um embate de forças. A [[lexico:r:relacao:start|relação]] entre o predador e sua presa, p. ex., não é uma relação de comunicação, ainda que às vezes isso possa ocorrer entre os homens. A comunicação enquanto [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] específica das relações humanas delimita a [[lexico:e:esfera:start|esfera]] dessas relações àquelas em que pode [[lexico:e:estar:start|estar]] presente certo [[lexico:g:grau:start|grau]] de livre participação. O destaque do [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de comunicação na [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] contemporânea deve-se: 1) ao [[lexico:a:abandono:start|abandono]] da [[lexico:n:nocao:start|noção]] de [[lexico:a:autoconsciencia:start|Autoconsciência]] infinita, [[lexico:e:espirito:start|Espírito]] [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] ou Superalma: noção que, implicando a [[lexico:i:identidade:start|identidade]] de todos os homens, torna, obviamente, inútil o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] conceito de comunicação inter-humana; 2) ao [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] de que as relações inter-humanas implicam a [[lexico:a:alteridade:start|alteridade]] entre os homens e são relações possíveis; 3) ao reconhecimento de que tais relações não se acrescentam, num segundo [[lexico:m:momento:start|momento]], à [[lexico:r:realidade:start|realidade]] já constituída das pessoas, mas entram a constituí-la como tal. Nesses termos, o conceito de comunicação faz [[lexico:p:parte:start|parte]] de filosofias díspares. Segundo [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]], o conceito de comunicação deve ser entendido "em sentido ontologicamente lato", isto é, como "comunicação [[lexico:e:existencial:start|existencial]]". "Nessa última constitui-se a articulação do ser-com que compreende. Ela realiza a partilha da [[lexico:s:situacao:start|situação]] emotiva comum e da compreensão do ser-com. comunicação não é a [[lexico:t:transferencia:start|transferência]] de experiências vividas (não importa quais, p. ex., opiniões e desejos) do interior de um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] para o interior de [[lexico:o:outro:start|outro]] sujeito. A co-presença está já essencialmente revelada na situação emotiva comum e na compreensão comum" (Sein und Zeit, § 34). Em outros termos, para Heidegger, comunicação é já coexistência porque a co-participação emotiva e a compreensão dos homens entre si fazem parte da própria realidade do [[lexico:h:homem:start|homem]], o ser do [[lexico:s:ser-ai:start|ser-aí]]. [[lexico:j:jaspers:start|Jaspers]], que está substancialmente de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com Heidegger, a partir daí passa a opor-se às ciências empíricas ([[lexico:p:psicologia:start|psicologia]], [[lexico:a:antropologia:start|antropologia]], [[lexico:s:sociologia:start|sociologia]]) que pretendem analisar as relações de comunicação. Segundo Jaspers, o defeito delas é que devem limitar-se à consideração das relações humanas e não das possíveis, ao passo que a comunicação é, precisamente, possibilidade de relações. Nesse sentido, só pode ser esclarecida pela filosofia (Phil, II, cap. III). Dewey, ao contrário, que compartilha com Heidegger e Jaspers o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista de que a comunicação constitui essencialmente a realidade humana, considera-a como uma [[lexico:f:forma:start|forma]] especial de [[lexico:a:acao-reciproca:start|ação recíproca]] da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] e acredita, portanto, que pode e deve ser estudada pela [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] empírica (Experience and Nature, cap. V). Se na filosofia oitocentista, com o predomínio das concepções absolutistas (o próprio [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]] falava da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] como de um [[lexico:t:todo:start|todo]]), eliminava-se a noção de comunicação, na filosofia dos sécs. XVII e XVIII essa noção fora elaborada, mas para responder a um [[lexico:p:problema:start|problema]] diferente: o da "[[lexico:c:comunicacao-das-substancias:start|comunicação das substâncias]]", isto é, da [[lexico:s:substancia:start|substância]] [[lexico:a:alma:start|alma]] com a substância [[lexico:c:corpo:start|corpo]], e reciprocamente, problema este nascido com o [[lexico:c:cartesianismo:start|cartesianismo]], que distinguira pela primeira vez, de [[lexico:m:modo:start|modo]] nítido, as duas espécies de substância. O próprio [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] admitira como válida a noção corrente de [[lexico:a:acao:start|ação]] recíproca entre as duas [[lexico:s:substancias:start|substâncias]], que, na sua [[lexico:o:opiniao:start|opinião]], tocavam-se na glândula pineal (Pass. de Vâme, I, 32). Por outro lado, os ocasionalistas consideraram [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] a ação de uma substância finita sobre a outra, porque nenhuma substância finita pode agir, isto é, ser [[lexico:c:causa:start|causa]]; e assim julgaram que [[lexico:d:deus:start|Deus]] mesmo intervém para estabelecer a relação entre a alma e o corpo, entre os vários corpos ou entre as várias almas, aproveitando a [[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] que se oferece com a [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] ocorrida numa substância para produzir mudanças nas outras substâncias. Era essa a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] das [[lexico:c:causas:start|causas]] ocasionais, sustentada, entre outros, por [[lexico:m:malebranche:start|Malebranche]] (Recherche de la vérité, III, II, 3). [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] considerou a primeira teoria impossível e a segunda, miraculosa; entendeu a comunicação como [[lexico:h:harmonia-preestabelecida:start|harmonia preestabelecida]], estendendo-a até entender a relação entre todas as partes do [[lexico:u:universo:start|universo]], isto é, entre todas as [[lexico:m:monadas:start|mônadas]] que o compõem: a [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]] é preestabelecida por Deus de tal modo que a cada [[lexico:e:estado:start|Estado]] de uma [[lexico:m:monada:start|mônada]] corresponde um estado das outras mônadas (Op., ed. Gerhardt, IV, pp. 500-501). Obviamente, a teoria de Leibniz não é a solução do problema da comunicação; tem, de resto, o [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] de tornar inútil a própria comunicação, assegurando a relação preordenada das mônadas entre si. O próprio Leibniz [[lexico:n:nota:start|nota]] que sua doutrina faz da alma uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de máquina imaterial (Ibid., p. 548). Esse traço revela quanto essa doutrina está distante da noção contemporânea de comunicação, que, como dissemos, nunca é automática e não pode [[lexico:s:subsistir:start|subsistir]] entre os autômatos ou entre as peças de um [[lexico:a:automato:start|autômato]]. A relação entre pessoas. — Essa relação realiza-se através da [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]]; porém a maioria dos homens considera a linguagem objetiva apenas um [[lexico:m:meio:start|meio]] imperfeito de realmente comunicar, e é [[lexico:b:bem:start|Bem]] certo que o [[lexico:d:discurso:start|discurso]] é sempre somente um "meio" de [[lexico:e:expressao:start|expressão]], a serviço de uma [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] irredutível ao que diz (eis porque dois seres jamais ter-se-ão [[lexico:d:dito:start|dito]] tudo, de uma vez por todas). Mas a linguagem é também o [[lexico:u:unico:start|único]] [[lexico:t:tipo:start|tipo]] objetivo de comunicação que respeita integralmente a personalidade de outrem e lhe concede pleno [[lexico:d:direito:start|direito]]: é preciso alto grau de [[lexico:c:cultura:start|cultura]] e longa iniciação para [[lexico:s:saber:start|saber]] que a linguagem é feita para conversar e trocar [[lexico:i:ideias:start|ideias]]. As filosofias da "comunicação" pesquisam as leis que regem as relações entre os homens; o problema fundamental dessas filosofias é o do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] do outro. Para [[lexico:p:platao:start|Platão]] (que, aliás, fêz uma [[lexico:a:analise:start|análise]] do [[lexico:a:amor:start|amor]]) como para Séneca, a "[[lexico:a:amizade:start|amizade]]" é que constitui a relação interpessoal mais pura. Para [[lexico:k:kant:start|Kant]], é o "[[lexico:r:respeito:start|respeito]]"; para Max [[lexico:s:scheler:start|Scheler]], a "[[lexico:s:simpatia:start|simpatia]]". As filosofias da comunicação são hoje representadas por M. Buber na Alemanha, E. [[lexico:l:levinas:start|Levinas]] na França. Psicólogos como Lagache fundamentam a comunicação na noção fundamental de "[[lexico:i:influencia:start|influência]]", que [[lexico:f:fichte:start|Fichte]], na sua Teoria do direito, definiu como "a ação de uma [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] sobre uma outra liberdade", no que ela se opõe tanto à [[lexico:v:violencia:start|violência]] quanto à indiferença. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}