===== COMPREENDER ===== (lat. Intelligere; in. Understanding; fr. Comprendre; al. Verstehen; it. Comprenderé). A [[lexico:n:nocao:start|noção]] do compreender como [[lexico:a:atividade:start|atividade]] cognoscitiva específica, diferente do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] [[lexico:r:racional:start|racional]] e de suas técnicas explicativas, pode [[lexico:s:ser:start|ser]] considerada em duas fases históricas diferentes, a primeira na [[lexico:f:filosofia-medieval:start|filosofia medieval]] ou na [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] em [[lexico:g:geral:start|geral]], a segunda na [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] contemporânea. 1. Toda a escolástica se funda no [[lexico:p:problema:start|problema]] de "compreender" a [[lexico:v:verdade:start|verdade]] revelada. Mas sobre o [[lexico:v:valor:start|valor]] desse compreender os próprios escolásticos [[lexico:n:nao:start|não]] estavam de [[lexico:a:acordo:start|acordo]]. Alguns identificaram o compreender com o conhecimento racional e com a sua [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] demonstrativa e, sob [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]], a compreen-sibilidade dos dogmas mostrou-se como a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de demonstrá-los, isto é, de equipará-los a verdades racionais. Anselmo e [[lexico:a:abelardo:start|Abelardo]] parecem [[lexico:e:estar:start|estar]] de acordo em entender assim o intelligere que julgam indispensável à própria [[lexico:f:fe:start|fé]]. É óbvio que, nesse caso, o intelligere não é absolutamente um compreender no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] específico do [[lexico:t:termo:start|termo]]. Uma [[lexico:e:esfera:start|esfera]] específica do intelligere como compreender, em sua [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] do conhecimento demonstrativo foi, porém, delineada por [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] na tentativa de determinar o papel da [[lexico:r:razao:start|razão]] em face da fé. Esse papel consiste: 1) em demonstrar os preâmbulos da fé; 2) em esclarecer, mediante similitudes, as verdades da fé; 3) em rebater as objeções que se fazem contra tais verdades (In Boet. De Trin., a. 3). Obviamente, a segunda e a terceira [[lexico:p:parte:start|parte]] dessa [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]], que não são de [[lexico:n:natureza:start|natureza]] demonstrativa, constituem a esfera do compreender. E com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], segundo Tomás de Aquino, as [[lexico:v:verdades-fundamentais:start|verdades fundamentais]] de fé, a [[lexico:t:trindade:start|trindade]], a [[lexico:e:encarnacao:start|Encarnação]], a [[lexico:c:criacao:start|Criação]], são compreensíveis nesse sentido: não são demonstráveis (nesse caso seriam [[lexico:v:verdades-de-razao:start|verdades de razão]]), mas podem ser esclarecidas por [[lexico:m:meio:start|meio]] de analogias e, especialmente, sustentadas contra as objeções. Essa [[lexico:p:posicao:start|posição]] tomista constitui a melhor e a mais difundida solução do problema do compreender que nasceu na escolástica. Era também defendida no séc. XVIII por [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] contra as objeções de [[lexico:b:bayle:start|Bayle]] e de Toland. Segundo Leibniz, o [[lexico:d:dogma:start|dogma]] é "incompreensível" só no sentido de que não se pode demonstrar, mas pode-se dizer que ele concorda com a razão no sentido de "que se pode mostrar, quando [[lexico:n:necessario:start|necessário]], que não há [[lexico:c:contradicao:start|contradição]] entre o dogma e a razão, refutando as objeções daqueles que pretendem que o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] dogma é um [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]]" (Théod., § 60). 2. Na filosofia contemporânea, a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre a esfera do compreender e a do conhecer racional nasceu da exigência de distinguir o procedimento [[lexico:e:explicativo:start|explicativo]] das ciências morais ou históricas do procedimento das ciências naturais. Essa exigência nasceu da dificuldade de aplicar a técnica causal, própria da [[lexico:c:ciencia-natural:start|ciência natural]] do séc. XIX, ao domínio dos eventos humanos, como são os fatos históricos, e, em geral, ao [[lexico:h:homem:start|homem]] e às [[lexico:r:relacoes:start|relações]] inter-humanas. Com base nessa técnica, considera-se "racionalmente explicado" aquilo cuja [[lexico:g:genese:start|gênese]] causal necessária pode ser mostrada, isto é, aquilo cuja [[lexico:o:ocorrencia:start|ocorrência]] se pode demonstrar necessária ou infalivel-mente previsível quando se dá a [[lexico:c:causa:start|causa]]. O [[lexico:c:carater:start|caráter]] necessário da gênese causal, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que se conforma a uma [[lexico:l:lei:start|lei]] imutável, e o caráter de uniformidade [[lexico:m:mecanica:start|mecânica]] que os eventos casualmente explicáveis assumem por efeito de tal lei tornam bastante difícil transferir esse [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] para o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] do homem, assim como tornam difícil [[lexico:e:explicar:start|explicar]] os fatos históricos e, em geral, qualquer [[lexico:f:fato:start|fato]] que consista em uma [[lexico:r:relacao:start|relação]] com o homem. A aplicação da técnica causal a tais fatos implicaria a sua [[lexico:r:reducao:start|redução]] a casos de uniformidade mecânica, devidos à [[lexico:a:acao:start|ação]] de leis necessitantes. De tal [[lexico:m:modo:start|modo]] que, quando nos últimos decênios do séc. XIX as ciências históricas, ou, como então se dizia, as "[[lexico:c:ciencias-do-espirito:start|ciências do espírito]]", que haviam atingido suficiente solidez metodológica e grande [[lexico:r:riqueza:start|riqueza]] de resultados, começaram a propor-se o problema do [[lexico:m:metodo:start|método]] e procuraram esclarecê-lo criticamente, surgiu com clareza a exigência de vincular esse método a técnicas e procedimentos diferentes dos usados nas ciências naturais. Nesse sentido, o "compreender" como procedimento próprio das ciências do [[lexico:e:espirito:start|espírito]], foi contraposto ao "explicar", baseado na [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]] e próprio das ciências naturais. O primeiro a formular claramente essa distinção foi [[lexico:d:dilthey:start|Dilthey]], em sua Introdução às ciências do espírito (1883). Dilthey observou que as nossas relações com a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] humana são de [[lexico:t:todo:start|todo]] diferentes das nossas relações com a natureza. A realidade humana, tal como aparece no mundo histórico-social, é tal que podemos compreendê-la de dentro, porque podemos representá-la sobre o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] dos nossos próprios estados. A natureza, ao contrário, é muda e permanece sempre como algo de [[lexico:e:externo:start|externo]]. Portanto, nas ciências do espírito, que têm por [[lexico:o:objeto:start|objeto]] a realidade humana, o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] não se encontra diante de uma realidade estranha, mas diante de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], porque homem é [[lexico:q:quem:start|quem]] indaga e homem é que é indagado. "O compreender", diz Dilthey, "é a [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] do [[lexico:e:eu:start|eu]] no tu... O sujeito do [[lexico:s:saber:start|saber]] é, aqui, [[lexico:i:identico:start|idêntico]] ao seu objeto e este é o mesmo em todos os graus de sua [[lexico:o:objetivacao:start|objetivação]]" (Gesammelte Schriften, VII, p. 191). Desse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, Dilthey apontou como [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] próprio do compreender a [[lexico:e:erlebnis:start|Erlebnis]], ou [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] vivida ou revivescente que permite [[lexico:a:apreender:start|apreender]] a realidade histórica na sua [[lexico:i:individualidade:start|individualidade]] viva e nos seus [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] específicos. Depois de Dilthey, na corrente do [[lexico:h:historicismo-alemao:start|historicismo alemão]] que continua a sua [[lexico:o:obra:start|obra]], o compreender permanece como o [[lexico:o:orgao:start|órgão]] do conhecimento [[lexico:h:historico:start|histórico]] e, em geral, do conhecimento interpessoal, enquanto não suscetível de explicação causal. Todavia, sobre a própria natureza do compreender não há acordo. [[lexico:r:rickert:start|Rickert]] entende por compreender o apreender "o sentido de um objeto, isto é, a relação do próprio objeto com um valor determinado" (Die Grenzen der naturwissenschaftlichen Begriffsbildung, 1896-1902). [[lexico:s:simmel:start|Simmel]] considera o compreender como algo que vise a reproduzir a [[lexico:v:vida-psiquica:start|vida psíquica]] de uma outra [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] e, portanto, como o [[lexico:a:ato:start|ato]] de [[lexico:p:projecao:start|projeção]] mediante o qual o sujeito cognoscente atribui um [[lexico:e:estado:start|Estado]] [[lexico:r:representativo:start|representativo]] ou volitivo seu a uma outra personalidade (Die Probleme der Geschichtsphilosophie, 1892, p. 17). Por sua vez, Max [[lexico:w:weber:start|Weber]], embora insistisse na diferença entre explicação histórica e explicação causal, quis preencher ou diminuir o [[lexico:a:abismo:start|abismo]] que se estava formando entre os dois procedimentos, afirmando que a própria explicação histórica é causal, mas uma explicação causal específica, que visa a reconhecer o [[lexico:n:nexo:start|nexo]] [[lexico:p:particular:start|particular]] e [[lexico:s:singular:start|singular]] entre determinados fenômenos e não a sua dependência de uma lei [[lexico:u:universal:start|universal]]. "Nossa [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] causal", escreve ele, "pode encontrar na [[lexico:a:analise:start|análise]] da [[lexico:a:atitude:start|atitude]] humana uma satisfação qualitativamente diferente, que implica, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], uma entonação qualitativamente diferente do [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]]. Para a sua [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]], podemos propor-nos, pelo menos como fundamento, o [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]], não só de tornar a atitude penetrável e [[lexico:p:possivel:start|possível]] em relação ao nosso saber nomológico, como também de compreendê-la, isto é, descobrir um [[lexico:m:motivo:start|motivo]] [[lexico:c:concreto:start|concreto]] que possa ser revivido interiormente e que verificamos com um [[lexico:g:grau:start|grau]] diferente de [[lexico:p:precisao:start|precisão]], segundo o material das fontes" (Gesammelte Aufsätze zur Wissenschaftslehre, 1951, p. 67). Todavia, o conceito de causalidade individual, em que Weber insistia, é pouco sólido, já que a causa, enquanto aquilo que torna o efeito infalivelmente previsível, tem com o próprio efeito uma relação necessária e constante, por isso essencialmente [[lexico:u:uniforme:start|uniforme]] e universal. A exigência, apresentada por Weber, de eliminar ou diminuir o contraste entre explicação científica e [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] histórica ou inter-humana, pôde ser satisfeita só depois que a própria [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] abandonou o conceito [[lexico:c:classico:start|clássico]] de causalidade. Entrementes, a exigência de uma técnica cognoscitiva que fosse diferente da técnica explicativa e causal era frequentemente reconhecida pela [[lexico:s:sociologia:start|sociologia]]. Znaniecki invocava um "coeficiente humanístico" na [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] sociológica e ressaltava a importância da experiência vicariante como [[lexico:f:fonte:start|fonte]] de dados sociológicos (Method of Sociology, 1934, p. 167). Sorokin reputava inaplicável o método causal de interpretação dos fenômenos culturais ([[lexico:s:social:start|social]] and Cultural Dynamic, 1937, p. 26). E MacIver, por sua vez, reconhecia a inaplicabilidade da [[lexico:f:formula:start|fórmula]] causal da mecânica clássica à [[lexico:c:conduta:start|conduta]] humana (Social Causation, 1942, p. 263). Os filósofos, por sua vez, não encontrando [[lexico:l:lugar:start|lugar]] para o compreender entre as [[lexico:a:atividades:start|atividades]] racionais que pareciam monopolizados pelas técnicas da explicação causal, acabaram vinculando-o à [[lexico:v:vida:start|vida]] emotiva. Assim fizeram, principalmente, [[lexico:s:scheler:start|Scheler]] e [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]], aos quais se devem, contudo, as mais importantes determinações da noção do compreender Para Scheler, essa noção serve para fundar as relações humanas — que são, de resto, aquelas pelas quais o eu reconhece o [[lexico:o:outro:start|outro]] eu —, não a partir de uma [[lexico:i:inferencia:start|inferência]] ou da projeção que o eu faça de suas experiências interiores no outro, mas a partir dos fenômenos expressivos. Assim, Scheler afirma que "a [[lexico:e:existencia:start|existência]] das experiências interiores, dos sentimentos íntimos dos outros, é-nos revelada pelos fenômenos de [[lexico:e:expressao:start|expressão]]: ou seja, não adquirimos [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] dela em decorrência do [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]], mas de modo [[lexico:i:imediato:start|imediato]], através de uma ‘[[lexico:p:percepcao:start|percepção]]’ originária e primitiva. Percebemos o pudor de alguém no seu rubor, a [[lexico:a:alegria:start|alegria]] no seu [[lexico:r:riso:start|riso]]" (Sympathie, I, cap. II). Portanto, não é verdade que conheçamos em primeiro lugar o [[lexico:c:corpo:start|corpo]] dos outros e que só a partir dele infiramos a existência de outros [[lexico:e:espiritos:start|espíritos]]. Só o médico e o naturalista conhecem tão-somente o corpo, porque abstraem, artificialmente, os fenômenos de expressão, que são a [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] primária e imediata dos outros espíritos, mas são esses fenômenos que estão na base da compreensão emotiva. Esta, segundo Scheler, deve ser distinguida da [[lexico:f:fusao:start|fusão]] emotiva porque implica a [[lexico:a:alteridade:start|alteridade]] dos sentimentos. P. ex., o [[lexico:s:sofrimento:start|sofrimento]] do meu [[lexico:p:proximo:start|próximo]] e a minha compreensão simpática são dois fatos diferentes e é justamente essa diferença que estabelece a possibilidade de compreensão: [[lexico:n:nada:start|nada]] tem a [[lexico:v:ver:start|ver]] com ela o fato de eu e o meu vizinho padecermos o mesmo [[lexico:m:mal:start|mal]]. As análises de Scheler contribuíram para fixar os seguintes pontos: 1) o compreender não implica a [[lexico:i:identidade:start|identidade]] das pessoas entre as quais ocorre a identidade dos estados de [[lexico:a:alma:start|alma]] ou dos sentimentos; implica, antes, a alteridade entre as pessoas e entre os seus respectivos estados; 2) a compreensão funda-se na relação [[lexico:s:simbolica:start|simbólica]] que existe entre as experiências internas e a sua expressão: relação que constitui uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de "[[lexico:g:gramatica:start|gramática]] universal", válida para todas as linguagens expressivas, e que fornece o [[lexico:c:criterio:start|critério]] [[lexico:u:ultimo:start|último]] da compreensão inter-humana. Como Scheler, Heidgger vincula o [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] da compreensão sobretudo à esfera emotiva, mas acrescenta à análise desse fenômeno uma [[lexico:o:observacao:start|observação]] de importância fundamental, ligando-o à noção de possibilidade. Heidegger, com efeiffo, considera a compreensão [[lexico:e:essencial:start|essencial]] à existência humana (ao [[lexico:s:ser-ai:start|ser-aí]]), já que ela significa que a existência é, essencialmente, possibilidade de ser, existência possível. "Usamos frequentemente a expressão ‘compreender [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]]’ no sentido de ‘ser capaz de encarar alguma [[lexico:c:coisa:start|coisa]]’, ‘ser capaz de’, ‘poder alguma coisa’... Na compreensão, está posto, essencialmente, o modo de ser do ser-aí enquanto puder ser. O ser-aí não é uma [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:p:presenca:start|presença]] que, adicionalmente, possua o requisito de poder algo, mas, ao contrário, é primariamente um ser possível". Portanto, "a compreensão tem em si a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] [[lexico:e:existencial:start|existencial]] que nós chamamos [[lexico:p:projeto:start|projeto]]" (Sein und Zeit, § 31). Como possibilidade e projeto, a existência humana possui uma [[lexico:t:transparencia:start|transparência]], a existência humana possui uma transparência para si mesma, que Heidegger chama de [[lexico:v:visao:start|visão]] e que é a primeira manifestação da compreensão. A [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] e o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] são, por sua vez, dois derivados distantes da própria compreensão (Ibid., § 31). Está [[lexico:b:bem:start|Bem]] claro que a [[lexico:r:referencia:start|referência]] do compreender à vida [[lexico:e:emocional:start|emocional]], feita por Scheler e Heidegger, era motivada pelo fato de a vida racional parecer-lhes ocupada por técnicas que pouco ou nada tinham que ver com o compreender. Os resultados obtidos por Scheler e Heidegger, contudo, são muito importantes: os primeiros negativamente, permitindo subtrair o compreender à esfera do imediato e do inexprimível, e os segundos positivamente, porque vinculam o compreender à noção de possibilidade. Na análise de Heidegger, o compreender não só foi generalizado, porque se tornou aplicável às [[lexico:c:coisas:start|coisas]], [[lexico:a:alem:start|além]] de às pessoas, como também, por isso mesmo, deixou de ser antagônico ao conceito de explicação. Compreensão e explicação podem ser identificadas pela noção de possibilidade e ser entendidas como declaração da "possibilidade de...", onde o que ficou pendente pode ser preenchido, nos diversos campos de [[lexico:i:indagacao:start|indagação]], por diversas espécies de projetos e de previsões. Mas essa aproximação entre explicação e compreensão e essa sua unificação no conceito de "possibilidade de..." eram sancionadas pelos próprios progressos das ciências naturais, que abandonavam a noção clássica de causalidade e, portanto, se desligavam da técnica explicativa causal. A [[lexico:f:fisica:start|física]] relativista e a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] quântica davam o passo decisivo para a eliminação da [[lexico:a:antitese:start|antítese]] entre explicação e compreensão. Como [[lexico:n:nota:start|nota]] Carnap, na mecânica quântica "compreender uma expressão, um [[lexico:e:enunciado:start|enunciado]], uma teoria significa a [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de usá-la para a [[lexico:d:descricao:start|descrição]] de fatos conhecidos ou para a [[lexico:p:previsao:start|previsão]] de fatos novos" (Foundations of Logic and Mathematics, 1939, § 25). A "capacidade de" é, portanto, o que exprime o [[lexico:s:significado:start|significado]] da compreensão na própria física. Mas a possibilidade da previsão [[lexico:p:provavel:start|provável]] também é tudo aquilo a que se reduz hoje a explicação científica (v. explicação). Desse modo, a diferença radical que parecia solidamente estabelecida pela [[lexico:m:metodologia:start|metodologia]] científica do séc. XIX, entre ciência do espírito e ciência da natureza, acabou por desaparecer. O que esses dois grupos de disciplinas procuram fazer, em relação a seus respectivos objetos, é no fundo a mesma coisa: determinar as possibilidades de descrever ou de antecipar (projeto, [[lexico:u:uso:start|uso]], [[lexico:f:fruicao:start|fruição]]) que seus objetos comportam. Designa-se, com este vocábulo, o modo de entender correspondente ao sentido objetivo (em todos os seus matizes). Trata-se, neste caso, de elucidar uma [[lexico:e:exteriorizacao:start|exteriorização]], [[lexico:p:por-si:start|por si]] incompreensível, desde seu fundamento interno. Três degraus levam pouco a pouco a maior profundidade. A compreensão [[lexico:s:semantica:start|semântica]] tem que se defrontar com sinais patentes, o sentido das quais ela apreende imediatamente ou só tira a limpo mediante uma interpretação (1). Reveste-se de especial importância a compreensão das [[lexico:p:palavras:start|palavras]] como sinais de nossos [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]]. Frequentemente haverá que compreender o sentido do conteúdo, que se manifesta através dos sinais. A compreensão teleológica ([[lexico:f:finalidade:start|finalidade]]), partindo dos fins correspondentes e dos valores primordiais, aclara a mobilidade [[lexico:d:dinamica:start|dinâmica]], a [[lexico:f:forma:start|forma]] ou a mera existência de alguma coisa (2). É sustentada pela compreensão [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]], que investiga a significabilidade do ser em geral, na medida em que este se justifica por si mesmo ou em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] de sua peculiarissima [[lexico:e:essencia:start|essência]] e fundamenta igualmente todos os valores e fins (3). Que a compreensão inclua diretamente o fundamento (ou razão) [[lexico:t:teleologico:start|teleológico]] e essencial, explica-se pela interna conexão entre o [[lexico:f:fim:start|fim]] e a essência; pois a essência assinala o fim e o fim é a [[lexico:a:antecipacao:start|antecipação]] da [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] acabada da essência. [[lexico:c:como-se:start|como se]] verifica já na compreensão dotada de compenetração ou projeção [[lexico:s:sentimental:start|sentimental]] (einfuhlendes Versiehen) tomada como apreciação convivente do ser e da ação de um eu-estranho, os três modos de compreensão reúnem-se especialmente no método das ciências do espírito. Via de [[lexico:r:regra:start|regra]], é neste método que geralmente hoje se pensa, ao [[lexico:f:falar:start|falar]] de compreensão, considerando-a então em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] a explicação (explicar). As ciências naturais explicam causalmente, isto é, reduzem as coisas ou os processos da natureza às [[lexico:c:causas:start|causas]] eficientes, aos [[lexico:e:elementos:start|elementos]] constitutivos e às leis gerais que os determinam univocamente. Tal modo de proceder não se coaduna com a vida espiritual nem com as criações da mesma, uma vez que a livre atividade criadora do espírito não se encontra sujeita à unívoca [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] causal; nem se explicam suas totalidades características só mediante elementos; nem, finalmente, leis [[lexico:u:universais:start|universais]] podem exaurir o concreto irrepetível da [[lexico:h:historia:start|história]]. A compreensão supera os limites da explicação, ao apreender a vida espiritual como realização de sentido e de valor. Assim, está sujeita a uma determinação supra-causal ou axiológica; suas totalidades, como "estruturas de sentido", devem sua peculiaridade a um valor ou [[lexico:h:hierarquia:start|hierarquia]] de valores; e o concreto (personalidade, [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]], [[lexico:p:produto:start|produto]]) entende-se a partir de seus valores primordiais, ou seja, como realização dos va Ires inscritos num núcleo [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]] ou num [[lexico:p:povo:start|povo]]. Mais exatamente, a compreensão parte de sinais (restos de uma [[lexico:e:epoca:start|época]], manifestações de uma personalidade) e avança, passando pelas estruturas de sentido, até aos valores supremos. Não se trata então meramente de entender, partindo dos valores, os fenômenos históricos, senão também de os apreciar. Utilizando a compreensão como método, as ciências do espírito fazem [[lexico:j:justica:start|justiça]] à Índole peculiar do espiritual; neste particular, apresentam-se como pioneiros principalmente os trabalhos de Dilthey. Convém todavia evitar os perigos do [[lexico:r:relativismo:start|relativismo]] e do [[lexico:i:irracionalismo:start|irracionalismo]] perceptíveis nele e noutros pensadores. Relativismo: os valores não são separados da [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] das formas culturais, porque não se repara que a compreensão, como método de uma ciência da experiência, nunca pode, em derradeira [[lexico:i:instancia:start|instância]], justificá-los, devendo, por tal motivo, fundamentar-se numa doutrina filosófica dos mesmos. Irracionalismo: subtrai-se demasiado a compreensão ao conceito racional, embora em sua íntegra profundidade e plenitude não seja um [[lexico:p:processo:start|processo]] meramente conceptual, mas exija uma imersão sentimental (einfuhlende Versenkung) do homem todo. Recentemente, na [[lexico:a:analitica:start|analítica]] existencial de Heidegger, a compreensão é um dos componentes do [[lexico:s:ser-no-mundo:start|ser-no-mundo]] e encontrou seu lugar entre o "[[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] da [[lexico:s:situacao:start|situação]] original" (Befindlichkeit) e a "discursividade" (Rede). Aqui, não significa meramente saber, mas, sobretudo, poder. O homem existente ([[lexico:d:dasein:start|Dasein]]) esboça-se neste compreender como poder-ser, ou seja, segundo suas possibilidades. — Lotz. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}