===== COISAS REAIS ===== Pois [[lexico:b:bem:start|Bem]]: se com essas prevenções (v. [[lexico:c:categorias-onticas-e-ontologicas:start|categorias ônticas e ontológicas]]) iniciamos o [[lexico:e:estudo:start|estudo]] da primeira [[lexico:r:regiao:start|região]] que delimitamos no vasto [[lexico:c:campo:start|campo]] da [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]], verificamos que as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que chamamos [[lexico:c:coisas-reais:start|coisas reais]] constituem um conjunto ao qual damos o [[lexico:n:nome:start|nome]] de [[lexico:m:mundo:start|mundo]]; constituem um conjunto que é o mundo das coisas reais (v. [[lexico:e:estar-no-mundo:start|estar no mundo]]). [[lexico:e:esse:start|esse]] mundo das coisas reais tem uma [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] ôntica. Qual é esta estrutura? O que de início encontramos nessa estrutura é, evidentemente, o [[lexico:s:ser:start|ser]]. Esse mundo de coisas reais é um mundo que é. E, que significa aqui ser? Significa uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] muito [[lexico:s:simples:start|simples]], muito evidente, muito imediata: significa aquilo que "há" na minha [[lexico:v:vida:start|vida]]. Está aí, na minha vida; tropeço com ele constantemente na minha vida; se fecho os olhos ao caminhar bato a cabeça no tronco de uma árvore. A árvore é, está aí, na minha vida. Existe. Nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]], esse mundo das coisas reais possui essa primeira estrutura [[lexico:c:caracteristica:start|característica]]: ser. Possui o ser. Porém essa estrutura [[lexico:n:nao:start|não]] será suficiente, nem de longe, para definir o conjunto das [[lexico:c:categorias:start|categorias]] ônticas deste mundo das coisas reais, visto que, [[lexico:a:alem:start|além]] disto, este ser é um ser [[lexico:r:real:start|real]]. Que significa real? Vamos tomar aqui a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] "real" no seu sentido [[lexico:e:estrito:start|estrito]]; seu sentido estrito é aquele que se deriva da [[lexico:v:voz:start|voz]] latina res, que significa coisa. Este mundo de objetos, que é o mundo que é, que tem que ser, é, ademais, real. Seu ser é desse [[lexico:t:tipo:start|tipo]] especial que chamamos ser real. Quer dizer que não somente está aí, mas que está aí de um [[lexico:m:modo:start|modo]] especial, à maneira como as coisas estão aí, como as res estão aí; [[lexico:i:independente:start|independente]] do meu [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]], perceba-as [[lexico:e:eu:start|eu]] ou não; está como está esta coisa, essa outra coisa, aquela outra coisa, todas as coisas. Está com uma [[lexico:i:individualidade:start|individualidade]] de [[lexico:p:presenca:start|presença]], da qual, quando a percebo, me aposso direta e imediatamente; com uma presença individual que é a que designamos com a palavra "real". Temos, pois, duas categorias ou determinações dessa primeira [[lexico:e:esfera:start|esfera]] de objetos: o ser e a [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. Podemos acrescentar outras duas, que são também categorias ônticas dessa região. Podemos acrescentar a [[lexico:d:duracao:start|duração]]. As coisas do mundo em que vivemos que são reais, que têm ser, e precisamente ser real, necessariamente são reais no [[lexico:t:tempo:start|tempo]]. Isto é, têm um ser que começa a ser, que está sendo e que deixa de ser; têm um ser inserido no tempo; é, pois, o [[lexico:e:estar:start|estar]] no tempo um dos [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] desse mundo que chamei de coisas reais. A duração limitada ou [[lexico:t:temporalidade:start|temporalidade]] é, pois, a terceira das estruturas ônticas desse mundo das coisas reais, entre as quais vivemos. À temporalidade acrescenta-se a [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]]. Nesse ser real no tempo, nesse ser que começa, que dura, que termina, que se transforma sucessivamente no tempo, todas essas transformações sucessivas acontecem numa [[lexico:f:forma:start|forma]] de [[lexico:s:sequencia:start|sequência]] pressupostamente [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]] que se chama causalidade. A [[lexico:c:categoria:start|categoria]] de causalidade está, por assim dizer, a cavalo entre as categorias ônticas e as ontológicas. De um lado, expressa a [[lexico:s:sucessao:start|sucessão]] das transformações dos entes reais no tempo. De [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, expressa já uma [[lexico:p:posicao:start|posição]] de [[lexico:p:possivel:start|possível]] [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]], por quanto manifesta que essa sucessão de transformações no tempo é inteligível, é redutível a leis, é cognoscível. Deste lado, a categoria de causalidade não é só ôntica, mas também [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]]. Temos, pois, em conjunto, [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] categorias ônticas fundamentais nas quais se expressa a estrutura dessa primeira região da [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]], que são: o ser, a realidade, a duração e a causalidade. **O [[lexico:f:fisico:start|físico]] e o [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]]** Está terminado com isto tudo o que podemos dizer ontologicamente deste mundo das coisas reais? Não, não terminou, este mundo dos objetos reais tem a particularidade ôntica de que não é um só mundo, mas pode encontrar-se nele, com suas quatro categorias estruturais e fundamentais, uma variedade e, ao mesmo tempo, uma superposição de camadas. Variedade, porquanto podemos, dentro dessas quatro categorias estruturais, dividir os objetos deste mundo em dois grandes grupos: os objetos físicos e os objetos psíquicos. Os objetos físicos são; são reais; são reais no tempo e se sucedem em causalidade. Os objetos psíquicos também são; também são reais; também são reais no tempo e também obedecem a uma [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] no campo de nossa [[lexico:c:consciencia:start|consciência]]. Todavia, existe entre eles uma [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] ôntica que percebemos intuitivamente. Em que consiste esta diferença de [[lexico:r:relacao:start|relação]]? Pois consiste simplesmente em que os objetos físicos são espaciais, enquanto que os objetos psíquicos não o são. Os objetos psíquicos não têm [[lexico:l:localizacao:start|localização]] no [[lexico:e:espaco:start|espaço]]. Respondem estritamente às quatro categorias ônticas fundamentais, enquanto que os objetos físicos têm ademais uma localização no espaço. O espaço é, pois, uma categoria regional do físico dentro do real. Dentro do real, o físico se distingue do psíquico por uma categoria ôntica regional que é o espaço; e até mesmo dentro do espaço, as divisões que fizermos entre objetos químicos, objetos físicos, objetos biológicos, terá cada uma delas sua categoria regional ôntica. Assim, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] físico, além de estar no espaço, é mensurável; o objeto biológico, além de estar no espaço, não é mensurável, mas tem [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]], algo intrínseca que rege seu [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]]. Atendendo somente às categorias ônticas estruturais de cada região, de cada sub-região, de cada sub-sub-região, até chegar, se se quiser, ao [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]], pode a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] aplicar os métodos congruentes e convenientes para o conhecimento do [[lexico:g:grupo:start|grupo]] [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]]. **Mundo à mão** Mas, além dessa [[lexico:d:divisao:start|divisão]] em sub-regiões, este mundo das coisas reais apresenta-nos camadas de profundidade. A primeira camada é aquela que chamaríamos o mundo "à mão". A palavra é esquisita. É um pouco esquisita; porém é talvez a maneira menos ruim de traduzir um [[lexico:t:termo:start|termo]] forjado por [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]], que é das zuhandene Welt, ou "o mundo que está à mão". O pastor, o empregado de Banco, o moço que passeia pela rua, o [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] enquanto não é filósofo, nas horas do dia em que não é filósofo (que são a maioria), o matemático enquanto não é matemático, mas [[lexico:h:homem:start|homem]] como [[lexico:t:todo:start|todo]] mundo, os homens no mergulho de sua própria vida, vivem num mundo "à mão"; quer dizer, para eles o mundo, o primeiro [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] deste mundo de objetos reais, é simplesmente uma enorme coleção de coisas que manejam, que têm "à mão", com as quais vão fazendo umas coisas ou outras: móveis, ruas, casas, passarinhos de papel, e até mesmo comendo-as. O homem fundamentalmente é isto; é aquele que vive nesse mundo que está à mão. Ninguém [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] por quê, ou que é isto, ou que é aquilo, enquanto está vivendo e manejando o mundo, é a relação vital, imediata, em que este mundo se nos oferece. Este mundo à mão constitui, pois, a primeira camada. **Mundo [[lexico:p:problematico:start|problemático]]** Mas este mundo de coisas com as quais vivemos apresenta às vezes resistência aos nossos desejos. Eu vou caminhando pela rua e me choco com algo; eu como uma fruta no bosque e resulta que me faz [[lexico:m:mal:start|mal]], causa-me [[lexico:d:dor:start|dor]]; e então esta resistência que o homem sente nesse mundo cria ao homem problemas; então, o homem diz: [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] isto? Tão logo o homem pronuncia estas [[lexico:p:palavras:start|palavras]]: o que é isto? desaparece a primeira camada deste mundo, do mundo que maneja, e então já não são coisas que há, mas pontos d [[lexico:i:interrogacao:start|interrogação]], problemas. Aparece outro mundo; esse mesmo de antes, o mesmo, porém [[lexico:a:agora:start|agora]] já problemático, em que cada coisa se tornou um [[lexico:p:problema:start|problema]]. O que é a árvore? O que é o fruto? O que é a pedra? O que é o [[lexico:a:ar:start|ar]]? O que é a [[lexico:l:luz:start|luz]]? Tudo se tornou um problema; e o homem então, nele, dá-se conta que procura aquilo que é cada uma dessas coisas, e cada uma dessas coisas apresenta agora duas faces: uma face. a de coisa no mundo "à mão"; mas outra face, a de isso que ela é, e que ainda não sei o que é, e que está oculta na coisa primária no mundo "à mão". Aí está a árvore; eu me refugio nela, eu como seus frutos. Porém agora me digo: O que é árvore? E então o ser da árvore, que não tenho e ando procurando, aparece-me como algo que está dentro da árvore; e eu tenho que ir lá, literalmente, a descobri-lo, [[lexico:c:como-se:start|como se]] as coisas do mundo à mão fossem outros tantos véus que, tão logo se faz a pergunta: que é? se levantassem, se descobrissem. E no fundo dessa [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] está a [[lexico:e:essencia:start|essência]]. Este segundo mundo de perguntas e de problemas poderíamos chamá-lo o mundo [[lexico:t:teoretico:start|teorético]], empregando a palavra no sentido contemplativo que tem em [[lexico:g:grego:start|grego]]; ou poderíamos chamá-lo o mundo problemático, o mundo dos problemas; ou então o mundo proposto à [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]], ao pensamento. **Mundo científico.** Porém com esta segunda camada não termina tudo, antes uma vez que descobri que as coisas têm um ser, uma essência, interessa-me descobrir essa essência que as coisas têm. Esse ser, no sentido de essência, que descobri que têm, quisera eu conhecê-lo. Então vêm os esforços seculares do homem para conhecer. E a terceira camada é o mundo científico. Para o pastor no campo a árvore é uma coisa que maneja, com a qual trabalha, com a qual convive. Mas para o biólogo é outra coisa. A [[lexico:b:biologia:start|biologia]] conhece a essência. A botânica conhece a essência da árvore; a [[lexico:f:fisica:start|física]], a essência de cada coisa, e assim temos a terceira camada, que é o mundo científico. Mundo de [[lexico:e:essencias:start|essências]] descobertas depois que as coisas se tornaram problemas e que tais problemas foram resolvidos. Essas essências podem chegar a ser sensivelmente distintas do mundo manejável [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]] (v. [[lexico:c:coisas-ideais:start|coisas ideais]]). Assim, por exemplo, do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista da física, este mundo, o mundo de que falamos, o mundo das coisas reais, temporais e causais, esse mundo não é mais do que um [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de números métricos; fórmulas matemáticas que expressam medidas e [[lexico:r:relacoes:start|relações]] entre medidas. Nem mais, nem menos. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}