===== COISAS IDEAIS ===== Assim, pois, esta [[lexico:e:esfera|esfera]] das [[lexico:c:coisas-reais|coisas reais]] vê-se que é complexa no [[lexico:s:sentido|sentido]] das camadas sucessivas. Nessa [[lexico:s:serie|série]] das camadas do [[lexico:m:mundo|mundo]] das [[lexico:c:coisas|coisas]] reais passamos da [[lexico:c:coisa|coisa]] no mundo "à mão" ao [[lexico:p:problema|problema]], e do problema ao [[lexico:c:conceito|conceito]] da [[lexico:e:essencia|essência]]. Porém [[lexico:e:esse|esse]] conceito já [[lexico:n:nao|não]] é uma coisa no mundo das coisas reais; já a essência assim não é uma [[lexico:r:realidade|realidade]]; não está no [[lexico:t:tempo|tempo]] e não é mutável e perecível. Já ao chegar a esse fundo do mundo das coisas reais tropeçamos, sem solução de continuidade, com um dos [[lexico:e:elementos|elementos]] de que está constituído o [[lexico:o:outro|outro]] mundo, o das [[lexico:c:coisas-ideais|coisas ideais]]. Porque as [[lexico:e:essencias|essências]] assim são coisas ideais; elas constituem como que a segunda esfera dos seres e dos objetos. Coisas reais são cada um dos cavalos; porém a essência "cavalo" já não é [[lexico:r:real|real]]; é um [[lexico:o:objeto|objeto]] [[lexico:i:ideal|ideal]]. Chegamos, pois, ao segundo grande [[lexico:g:grupo|grupo]], ã segunda [[lexico:r:regiao|região]], que é a região dos objetos ideais. Quais são estes objetos ideais? Pois principalmente são três os que conhecemos [[lexico:a:agora|agora]] (pode [[lexico:s:ser|ser]] que haja mais, porém a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] até hoje não pode comprovar mais do que estes três grupos de objetos ideais). Primeiro, as [[lexico:r:relacoes|relações]], as relações entre coisas. Se [[lexico:e:eu|eu]] digo que duas coisas são iguais, a [[lexico:i:igualdade|igualdade]] não é uma coisa, mas algo que não se parece [[lexico:n:nada|nada]] com a coisa. É um objeto ideal. Se eu digo que duas coisas são semelhantes ou dessemelhantes, ou que uma é o dobro da outra, ou que é a metade da outra, o ser o dobro, a metade, ser [[lexico:s:semelhante|semelhante]] ou ser dessemelhante, todas essas relações são objetos ideais. As coisas são cada uma aquilo que são; porém somente por comparação pode-se dizer metaforicamente que uma coisa é a metade da outra; pois ser não é metade de nada. De [[lexico:m:modo|modo]] que, primeiro, temos as relações. Segundo, os objetos matemáticos. Os objetos matemáticos também são ideais. O [[lexico:p:ponto|ponto]], a linha, o [[lexico:c:circulo|círculo]], os números, as raízes, os duplos, os triplos, os quádruplos, as razões, as proporções, os quadrados, os cubos, as diferenciais, as integrais; todos esses objetos matemáticos são também objetos ideais. E, por [[lexico:u:ultimo|último]], as essências são objetos ideais. **Ser** Perguntemos agora: Qual é a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] ôntica, quais são as [[lexico:c:categorias|categorias]] ônticas dessa região que chamamos objetos reais? E temos que a primeira é comum a essa região com a anterior, e é o ser. Estes objetos são, têm ser. Que significa que têm ser? Pois significa que estão no meu mundo, estão aí; não no mundo das coisas reais; porém estão aí e eu saio a procurá-los, do mesmo modo que posso ir procurar um amigo pela rua. Ponho-me a procurá-las e as encontro. E quando as encontro, quando encontro um desses objetos, me encontro com um [[lexico:c:complexo|complexo]] e com os [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]] que eu tenho desse objeto. Os pensamentos que eu tenho que [[lexico:t:ter|ter]] acerca desse objeto não serão quaisquer uns ou caprichosos, antes serão aqueles que o objeto for. Eu, do círculo, não posso dizer o que quiser. Tenho que dizer que os pontos estão a igual distância do centro. Tenho que dizer que um hexágono regular inscrito dentro do círculo tem seus lados iguais ao raio. Não posso, pois, dizer o que quiser. Os objetos ideais são, e nesse sentido são independentes de mim. Não são fenômenos psíquicos, como veio acreditando meia [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]] até hoje. Não são fenômenos psíquicos nem são vivências. Necessitamos talvez vivências para apreendê-los, como o coxo necessita muletas para caminhar. Necessitaremos provavelmente vivências para ir a esses objetos ideais. Necessitaremos, entre outras vivências, [[lexico:s:simbolos|símbolos]]: escrever numa lousa uma letra V e um [[lexico:r:risco|risco]], e debaixo o numero três, que significa "[[lexico:r:raiz|raiz]] quadrada de três". Mas é esse o objeto ideal? Não, esse é o [[lexico:s:sinal|sinal]] com que eu designo esse objeto ideal. Necessitaremos talvez imagens para [[lexico:p:pensar|pensar]] nesses objetos ideais. Porém eles, pensados mediante essas imagens, são o [[lexico:t:termo|termo]] mencionado, o representado pelas imagens, mas não as imagens mesmas. As imagens são vivências, mas o objeto ideal representado pelas imagens é distinto das imagens que o representam. **Intemporalidade** Têm, pois, estes objetos ideais ser, do mesmo modo que os objetos reais; porém o ser desses objetos ideais não é a realidade; e não é a realidade, porque esses objetos ideais — e aqui vem seguidamente a [[lexico:c:categoria|categoria]] correspondente — são intemporais. Não nascem no tempo, nem perecem no tempo, nem se transformam ao longo do tempo. O [[lexico:t:triangulo|triângulo]] é fora do tempo, de qualquer tempo. Não começa a ser um [[lexico:b:belo|belo]] dia no sul da Itália, quando os Pitagóricos começam a pensar em [[lexico:g:geometria|geometria]]; não começa a ser então, mas quando então o descobriram os Pitagóricos, como Colombo descobriu a [[lexico:a:america|América]]. Descobriram o triângulo que não terminará de ser; mas se algum dia, por [[lexico:c:catastrofe|catástrofe]] miraculosa, deixasse de haver homens sobre a [[lexico:t:terra|Terra]], deixaria de haver [[lexico:q:quem|quem]] pensasse no triângulo, porém não deixaria de haver triângulo. Deixaria de haver quem pensasse nisso, porém nem por isso deixaria de haver triângulo. Da mesma [[lexico:f:forma|forma]], se se destruir a [[lexico:h:humanidade|humanidade]] e venha a surgir outra nova humanidade, que tenha esquecido por completo a nossa própria [[lexico:h:historia|história]], ninguém neste mundo saberá sequer que existiu um [[lexico:h:homem|homem]] [[lexico:c:chamado|chamado]] Péricles. E todavia, existiu. Assim é que a intemporalidade é [[lexico:c:caracteristica|característica]] -destes objetos ideais, que não estão no tempo, nem começam a ser num [[lexico:m:momento|momento]], nem deixam de ser noutro momento, antes são fora do tempo. Não digamos eternamente porque é um conceito, o da [[lexico:e:eternidade|Eternidade]], cheio de dificuldades. Digamos somente fora do tempo, intemporal. **[[lexico:i:idealidade|idealidade]]** Chegamos à terceira categoria deste grupo, que é a idealidade. O que se entende por idealidade? Pois entendemos por idealidade o contrário de [[lexico:c:causalidade|causalidade]]. [[lexico:c:como-se|como se]] explica, ou melhor dizendo,] em que consistem as variações temporais das coisas no mundo dos objetos reais? Consistem em que se empurram e sucedem umas às outras; os fatos de [[lexico:c:consciencia|consciência]] sucedem-se uns aos outros e a causalidade expressa, de um lado, o [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:o:ontico|ôntico]] dessa [[lexico:s:sucessao|sucessão]], e, de outra de suas fases, o caráter [[lexico:o:ontologico|ontológico]] da [[lexico:i:inteligibilidade|inteligibilidade]] dessa sucessão. Mas os objetos ideais não se causam uns aos outros; o ponto não [[lexico:c:causa|causa]] a linha, a linha não causa o triângulo, nem o círculo causa a esfera, antes esses objetos ideais são uns com [[lexico:r:relacao|relação]] aos outros numa conexão que não é a causai, mas é a de implicar-se idealmente, como a conclusão está implicada na [[lexico:p:premissa|premissa]] de um [[lexico:s:silogismo|silogismo]]. Essa [[lexico:i:implicacao|implicação]] é aquilo que chamamos idealidade. De maneira que para estudar os objetos matemáticos não serve para nada o conceito de causa; o que unicamente serve é intuir como cada objeto matemático é implicado ou implica outros objetos matemáticos na pureza de sua própria [[lexico:d:definicao|definição]] ideal. Isto é o que chamamos Idealidade, que se opõe à realidade. A realidade, que no [[lexico:c:comeco|começo]] nos resultou algo difícil de [[lexico:e:explicar|explicar]] e que expliquei dizendo que era a [[lexico:p:presenca|presença]] individual, a realidade está intimamente enlaçada com a causalidade. Porém aqui, onde não há causalidade, a conexão entre os indivíduos deste grupo de objetos ideais é uma conexão ideal. Por isso chamamos àqueles reais, e a estes ideais, porque tínhamos tomado para designá-los aquela categoria ôntica [[lexico:t:tipica|típica]] da região. Na região anterior era típica a categoria de presença individual., causai, efetiva, no pleno sentido da [[lexico:p:palavra|palavra]] "efetiva", e por isso os chamávamos objetos reais, de res, coisa. E a estes, tomando também a categoria mais típica e própria da região, temos que chamá-los objetos ideais, porque nesta região a terceira categoria deles, a idealidade, é propriamente a mais característica. Antes de prosseguir no [[lexico:e:estudo|estudo]] e exame ôntico das outras duas esferas ou regiões da [[lexico:o:objetividade|objetividade]], convém uns minutos de detenção sobre um problema que nesse momento se apresenta. **A [[lexico:u:unidade|unidade]] do ser** Um certo [[lexico:n:numero|número]] de filósofos censura gravemente esse [[lexico:t:tipo|tipo]] de [[lexico:o:ontologia|ontologia]] que está em [[lexico:f:formacao|formação]] na filosofia [[lexico:a:atual|atual]]. Está inacabado. É o conjunto dos problemas em que trabalham atualmente os filósofos. E censuram esta tentativa e a própria [[lexico:i:ideia|ideia]] de "categorias regionais" e de estruturas regionais do ser". Censuram-na acusando-a de que divide e [[lexico:p:parte|parte]] em dois, ou em três, ou em [[lexico:q:quatro|Quatro]], a fundamental unidade do ser. Dizem: essa ontologia é uma ontologia dualista ou pluralista; toma o ser e o parte em dois; de um lado, as que se chamam coisas reais, e de outro lado os objetos ideais. Porém isto não é assim, tem que haver uma unidade do ser. Esta censura é completamente injusta; esta [[lexico:c:critica|crítica]] é completamente infundada. Os que isto dizem, não têm a menor [[lexico:r:razao|razão]] e, sobretudo, não se inteiraram daquilo que a novíssima ontologia se propõe e pretende. Como se pode dizer que nossa ontologia destrói a unidade do ser, quando, pelo contrário, acabamos de [[lexico:v:ver|ver]] que a primeira coisa que fizemos, ao enumerar as categorias estruturais e ônticas de cada uma dessas duas regiões, foi começar pela mesma, o ser? De modo que encontramos a mesma categoria, o ser, como primeira categoria de objetos ideais. Aquilo que distingue uns de outros não é, pois, que uns sejam e os outros não sejam; os dois são; aí está a unidade do ser. Porém uns são reais e outros são ideais. Ou por [[lexico:a:acaso|acaso]] pretendem estes filósofos monistas ou identificistas que não haja mais do que um só modo de ser? Mas então tornaríamos a recair infalivelmente em todas as complicações e contradições do ultra-realismo e do ultra-idealismo. Porque a única unidade não pode ser uma unidade de [[lexico:i:identidade|identidade]], antes tem que ser uma unidade de [[lexico:a:analogia|analogia]], de conexão, de compenetração, que permita a [[lexico:d:diversidade|diversidade]]; porque o ser é, porém é ao mesmo tempo diverso. Mas não somente vimos que na nossa [[lexico:e:enumeracao|enumeração]] das categorias, nas duas regiões, a primeira das categorias, em ambas regiões, foi o ser, senão ademais, vimos que nossa chegada à região dos objetos ideais se deu porque a ela nos levou o aprofundamento na camada dos objetos reais. Quando descrevemos as camadas sucessivas do mundo dos objetos reais, passamos das coisas com que vivemos e manejamos, que temos à mão, a torná-las problemas: [[lexico:o:o-que-e|o que é]] isto? O problema era o anúncio de que havia uma essência por descobrir lá dentro. A [[lexico:c:ciencia|ciência]] vem depois descobrir essa essência, e isto que a ciência adquiriu, o que é? Pois isto é objeto ideal. Fomos conduzidos à segunda região pela [[lexico:s:simples|simples]] penetração na profundidade dentro da primeira, ao término da qual e sem solução de continuidade, nos encontramos já na segunda. Isto quer dizer que entre as duas regiões há uma [[lexico:h:homogeneidade|homogeneidade]]. Esse algo que já haviam visto [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] e os escolásticos quando falavam do "[[lexico:e:ente|ente]]"; que o termo "ser" não é como um [[lexico:g:genero|gênero]] que tenha espécies, senão que cada uma das espécies do ser está incluída no ser, não como a [[lexico:e:especie|espécie]] no gênero, mas por analogia entitativa. O [[lexico:u:unico|único]] momento um pouco difícil, ou dramático, vai ser quando cheguemos aos valores, a essa região [[lexico:o:ontologica|ontológica]] que chamamos valores. Porque aí vamos tropeçar com uma estrutura ôntica tão [[lexico:p:particular|particular]], que é a estrutura ôntica em que a categoria de ser não se dá. Os valores não são. De modo que essa categoria estrutural do ser, que é a primeira que enumeramos para os objetos reais e para os objetos ideais, vamos ter que negá-la aos valores, sem que isso queira dizer, como talvez presumam os monistas ou identidistas, que tais valores se reduzem ao "[[lexico:n:nao-ser|não-ser]]".