===== COISA-EM-SI ===== A [[lexico:e:expressao|expressão]] "[[lexico:c:coisa-em-si|coisa-em-si]]" (Ding-an-sich), posta em circulação por [[lexico:k:kant|Kant]], designa a [[lexico:c:coisa|coisa]], o [[lexico:e:ente|ente]], tal como existe independentemente de nosso [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]; portanto, o ente [[lexico:r:real|real]], em [[lexico:o:oposicao|oposição]] ao [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]], que [[lexico:n:nao|não]] existe "em si", mas tão-somente "para nós". Kant chama a coisa em si também [[lexico:n:numeno|númeno]], em oposição ao fenômeno, isto é, [[lexico:o:objeto|objeto]] do [[lexico:e:entendimento|entendimento]] em oposição ao objeto dos sentidos, porque só pode [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:d:dado|dado]] a uma [[lexico:i:intuicao-intelectual|intuição intelectual]], e não a uma [[lexico:i:intuicao-sensivel|intuição sensível]]. Segundo Kant, a coisa em si pode ser por nós pensada de maneira indeterminada; não pode porém ser "conhecida", isto é, ser determinada em sua [[lexico:e:essencia|essência]] (em seu "ser tal"). Por isso, em oposição ao [[lexico:r:realismo|realismo]], o [[lexico:c:criticismo|criticismo]] de Kant é [[lexico:f:fenomenalismo|fenomenalismo]]. — De Vries. Kant chamou “[[lexico:c:coisas-em-si|coisas-em-si]]” às realidades que não se podem conhecer por se encontrarem fora dos limites da [[lexico:e:experiencia|experiência]] [[lexico:p:possivel|possível]], isto é, que transcendem as possibilidades do conhecimento, tal como foram delineadas na [[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]]. As coisas-em-si podem ser pensadas - melhor ainda, pode pensar-se o [[lexico:c:conceito|conceito]] de uma coisa-em-si enquanto é possível, ou não envolve [[lexico:c:contradicao|contradição]] - mas não ser conhecidas. Uma coisa é [[lexico:p:pensar|pensar]] um conceito, outra coisa é dar ao mesmo [[lexico:v:validade|validade]] objetiva, isto é, [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] real e não meramente [[lexico:l:logica|lógica]]. As coisas-em-si opõem-se às aparências, no [[lexico:s:sentido|sentido]] kantiano de [[lexico:a:aparencia|aparência]]. Kant mostra que nem o [[lexico:e:espaco|espaço]] nem o [[lexico:t:tempo|tempo]] são propriedades de coisas-em-si. Mostra também que os [[lexico:c:conceitos|conceitos]] do entendimento são também [[lexico:t:transcendentais|transcendentais]] e não estruturas ontológicas próprias de uma [[lexico:r:realidade|realidade]] em si. A [[lexico:n:natureza|natureza]] e [[lexico:f:funcao|função]] do conceito de coisa-em-si na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] [[lexico:c:critica|crítica]] de Kant foi objeto de muitos debates, alguns deles provocados pelo [[lexico:c:carater|caráter]] vacilante do vocabulário kantiano. Umas vezes, Kant distingue entre coisa-em-si e objeto [[lexico:t:transcendental|transcendental]]. outras vezes identifica-os ou deixa simplesmente de [[lexico:f:falar|falar]] no [[lexico:u:ultimo|último]]. Umas vezes, a [[lexico:n:nocao|noção]] de coisa-em-si parece distinta da de númeno; outras vezes, é praticamente idêntica. (in. Thing in itself; fr. Chose en soi; al. Ding an sich; it. Cosa in se). O que a coisa-em-si é, independentemente da sua [[lexico:r:relacao|relação]] com o [[lexico:h:homem|homem]], para o qual é um objeto de conhecimento. Nem a expressão, nem a noção são próprias e originárias de Kant, como comumente se crê, mas representam "a [[lexico:c:conviccao|convicção]] dominante de toda a filosofia do séc. XVIII" ([[lexico:c:cassirer|Cassirer]], Erkenntnissproblem, VII, 3; trad. it., II, pp. 470 ss.). A [[lexico:o:origem|origem]] dessa noção pode [[lexico:e:estar|estar]] em [[lexico:d:descartes|Descartes]], que, em [[lexico:p:principios|Princípios]] de filosofia (II, 3), assim se exprime: "Será suficiente observar que as percepções dos sentidos referem-se apenas à [[lexico:u:uniao|união]] do [[lexico:c:corpo|corpo]] [[lexico:h:humano|humano]] com o [[lexico:e:espirito|espírito]] e que, enquanto de ordinário nos mostram aquilo que nos possa prejudicar ou ajudar nos corpos externos, não nos ensinam absolutamente, mas só ocasional e acidentalmente, o que tais corpos são em si mesmos". Essa [[lexico:d:distincao|distinção]] entre as "coisas-em-si mesmas" e as "[[lexico:c:coisas|coisas]] em relação a nós", isto é, como objetos de nossas [[lexico:f:faculdades|faculdades]] sensíveis, torna-se lugar-comum na filosofia do [[lexico:i:iluminismo|Iluminismo]]. D’Alembert Élém. de phil., § 19), [[lexico:c:condillac|Condillac]] (Logique, 5), Bonnet (Essai analytique, § 242) repetem-na quase com as mesmas [[lexico:p:palavras|palavras]], e Maupertuis (Lettres, IV) a expressa em termos tais que [[lexico:s:schopenhauer|Schopenhauer]] teve a [[lexico:i:impressao|impressão]] de que Kant o plagiara. "Desde que estejamos convencidos", diz Maupertuis, "de que entre nossas percepções e os objetos externos não subsiste nenhuma [[lexico:s:semelhanca|semelhança]] nem nenhuma relação necessária, deveremos admitir também que tais percepções não passam de [[lexico:s:simples|simples]] aparência. A [[lexico:e:extensao|extensão]], que costumamos considerar como o [[lexico:f:fundamento|fundamento]] de todas as outras propriedades, e que parece constituir sua [[lexico:v:verdade|verdade]] íntima, em si mesma [[lexico:n:nada|nada]] mais é do que fenômeno" (Cf. Schopenhauer, Die Welt, II, p. 57). Nesse [[lexico:p:ponto|ponto]], como em muitos outros, Kant não fez senão inspirar-se na [[lexico:o:orientacao|orientação]] [[lexico:g:geral|geral]] do Iluminismo. Todavia, em sua doutrina, como, aliás no Iluminismo, o conceito de coisa-em-si não permanece um simples lembrete da [[lexico:l:limitacao|limitação]] do conhecimento humano e uma advertência para afastar o homem das especulações metafísicas. Aclara-se, mais precisamente, como um [[lexico:i:instrumento|instrumento]] técnico para circunscrever os limites do conhecimento humano. Do [[lexico:c:comeco|começo]] ao [[lexico:f:fim|fim]] de Crítica da [[lexico:r:razao-pura|Razão Pura]], Kant repete que o conhecimento humano é conhecimento de fenômenos, não de coisa-em-si, já que ele não se baseia na [[lexico:i:intuicao|intuição]] intelectual (para a qual [[lexico:t:ter|ter]] as coisas presentes significaria criá-las), mas na intuição [[lexico:s:sensivel|sensível]], para a qual as coisas são dadas sob certas condições (espaço e tempo). De [[lexico:a:acordo|acordo]] com essa diretriz fundamental, Kant, após haver estabelecido a possibilidade do conceito de coisa-em-si (ou númeno), passa a distinguir uma doutrina positiva e uma doutrina negativa dos númenos. "O conceito de um númeno, isto é, de uma coisa que deve ser pensada não como objeto dos sentidos, mas como coisa-em-si (unicamente para o [[lexico:i:intelecto|intelecto]] [[lexico:p:puro|puro]]), não é em nada contraditório, já que não se pode afirmar que a [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]] seja o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:m:modo|modo]] de intuição". Isso posto, se entendermos por númeno "o objeto de uma intuição não sensível", isto é, criadora ou divina, teremos o conceito de númeno em sentido [[lexico:p:positivo|positivo]]. Mas na realidade [[lexico:e:esse|esse]] conceito é [[lexico:v:vazio|vazio]], porque nosso intelecto não pode estender-se [[lexico:a:alem|além]] da experiência senão problematicamente, isto é, não com a intuição nem com o conceito de uma intuição possível. Portanto, "o conceito de [[lexico:n:numero|número]] é só um conceito-limite (Grezbegriff), para circunscrever as pretensões da sensibilidade, portanto de [[lexico:u:uso|uso]] puramente [[lexico:n:negativo|negativo]]" (Crít. R. Pura, [[lexico:a:analitica|Analítica]] dos princípios, cap. III). Essa função puramente negativa da coisa-em-si permaneceu como um dos princípios da doutrina kantiana do conhecimento, porque garante, nela, o caráter [[lexico:f:finito|finito]] (isto é, não-criativo) do conhecimento humano. Entretanto, a filosofia pós-kantiana assinala a rápida [[lexico:d:destruicao|destruição]] desse conceito. Já as Cartas sobre a filosofia kantiana (1786-87) de [[lexico:r:reinhold|Reinhold]], que faziam uma [[lexico:e:exposicao|exposição]] do criticismo que, durante muito tempo, serviu de [[lexico:m:modelo|modelo]] para a [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] do [[lexico:p:proprio|próprio]] criticismo, reduzindo o fenômeno a [[lexico:r:representacao|representação]], tornavam dúbia ou [[lexico:p:problematica|problemática]] a função da coisa-em-si; depois, esta era explicitamente negada, por Schulze e Maimon, com base em sua incognoscibilidade. Mas [[lexico:q:quem|quem]] começou a extrair consequências dessa [[lexico:n:negacao|negação]] foi [[lexico:f:fichte|Fichte]]: este viu que, eliminada a [[lexico:c:condicao|condição]] limitativa, constituída pela coisa-em-si, o conhecimento humano tornava-se criador não só da [[lexico:f:forma|forma]], mas também do conteúdo da realidade que constitui seu objeto, transformando-se naquela "intuição intelectual" que Kant atribuía somente a [[lexico:d:deus|Deus]], fazendo do [[lexico:s:sujeito|sujeito]] dela, isto é, do [[lexico:e:eu|eu]], um [[lexico:p:principio|princípio]] [[lexico:i:infinito|infinito]] (Wissenschaftslehre, 1794, § 4). Essas transformações marcam a transição do criticismo, que é filosofia de [[lexico:t:tipo|tipo]] iluminista, ao [[lexico:r:romantismo|Romantismo]], que é uma filosofia do inifinito. O romantismo assinalava o crepúsculo definitivo da doutrina da coisa-em-si, que fora a insígnia do iluminismo porque servira para exprimir a limitação fundamental do conhecimento humano. A noção de [[lexico:i:incognoscivel|incognoscível]], que o [[lexico:p:positivismo|positivismo]] evolucionista às vezes comparou com a coisa-em-si, na realidade é completamente diferente. Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], tem função oposta à da coisa-em-si: serve para oferecer à [[lexico:m:metafisica|metafísica]] e à [[lexico:r:religiao|religião]] um domínio de competência específica, em vez de restringir as pretensões do [[lexico:c:conhecimento-cientifico|conhecimento científico]]. Em segundo lugar, o Incognoscível é mais definido positivamente pela [[lexico:e:esfera|esfera]] de problemas que a [[lexico:c:ciencia|ciência]] não resolve do que negativamente pelos limites intrínsecos da própria ciência. A filosofia contemporânea, que restabeleceu e continua restabelecendo a doutrina do [[lexico:l:limite|limite]] do conhecimento, entende que ele é demarcado pelo alcance dos métodos ou dos critérios que presidem à validade do conhecimento; portanto, já não precisa da iluminista "coisa-em-si" para impor moderação às pretensões cognitivas do homem.