===== COGITO ===== A [[lexico:p:proposicao|proposição]] usualmente conhecida pela [[lexico:e:expressao|expressão]] cogito ergo sum, e muitas vezes pelo [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:t:termo|termo]] cogito, é uma das teses centrais de [[lexico:d:descartes|Descartes]]. NO [[lexico:d:discurso|discurso]] DO [[lexico:m:metodo|MÉTODO]] (IV) escreve, com [[lexico:e:efeito|efeito]]: “e observando que esta [[lexico:v:verdade|verdade]] - [[lexico:e:eu|eu]] penso, logo existo - era tão firme e estava tão [[lexico:b:bem|Bem]] segura, que [[lexico:n:nao|não]] podiam abalá-la as mais extravagantes suposições dos cépticos, julguei que podia admiti-la sem [[lexico:e:escrupulo|escrúpulo]] como primeiro [[lexico:p:principio|princípio]] da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] que procurava”. Já na [[lexico:e:epoca|época]] de Descartes se fez notar ao [[lexico:f:filosofo|filósofo]] que a proposição em [[lexico:q:questao|questão]] tinha inúmeros antecedentes. O que teve mais repercussões, foi o de [[lexico:s:santo|santo]] [[lexico:a:agostinho|Agostinho]], que vários correspondentes irão apontar a Descartes. Em diferentes respostas a estas observações, Descartes não disse se já tinha encontrado essas passagens antes das suas próprias investigações, mas limitou-se a [[lexico:p:por|pôr]] em relevo que enquanto Santo Agostinho se serve dos seus argumentos para provar a [[lexico:c:certeza|certeza]] do nosso [[lexico:s:ser|ser]], ele, Descartes, serve-se dos seus para dar a entender que o eu que pensa “é uma [[lexico:s:substancia|substância]] imaterial”, “o que acrescenta ele - são duas [[lexico:c:coisas|coisas]] diferentes”. Quanto ao [[lexico:s:significado|significado]] do cogito, a [[lexico:o:opiniao|opinião]] do [[lexico:p:proprio|próprio]] Descartes a [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:r:respeito|respeito]] é que não se trata de encontrar apenas uma proposição apodíctica que sirva de firme rochedo ao edifício da filosofia, mas também de provar “a [[lexico:d:distincao|distinção]] [[lexico:r:real|real]] entre a [[lexico:a:alma|alma]] e o [[lexico:c:corpo|corpo]]”. Pode entender-se o cogito como o [[lexico:a:ato|ato]] de duvidar pelo qual se põem em [[lexico:d:duvida|dúvida]] todos os conteúdos, atuais e possíveis, da minha [[lexico:e:experiencia|experiência]], excluindo-se da dúvida o próprio cogito. É este o significado principal e aquele a que a [[lexico:t:tradicao|tradição]] sobretudo sublinhou. Deve mencionar-se a distinção entre os diversos sentidos do pensar-se a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]. No [[lexico:e:espirito|espírito]] de Descartes - e na [[lexico:r:raiz|raiz]] etimológica do vocábulo - cogitar significa qualquer ato [[lexico:p:psicologico|psicológico]], desde que pertença de um [[lexico:m:modo|modo]] direto à [[lexico:r:realidade|realidade]] do íntimo, como diferente da realidade das [[lexico:s:substancias|substâncias]] externas. São múltiplas as objecções levantadas pelo princípio cartesiano. Os escolásticos argumentavam que o cogito não pode ser um primeiro princípio no [[lexico:s:sentido|sentido]] em que o pode ser o [[lexico:p:principio-de-contradicao|princípio de contradição]], sobretudo à [[lexico:l:luz|luz]] de uma das pretensões do princípio cartesiano: o ser apodíctico. Outros assinalavam que há uma falha no [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] de Descartes: a supressão da [[lexico:p:premissa|premissa]] maior: “tudo o que pensa, existe”, à qual deveria seguir-se a premissa menor, “eu penso”, e a conclusão, “logo, existo”. O próprio Descartes já respondeu às duas objecções, as quais são de [[lexico:n:natureza|natureza]] [[lexico:f:formal|formal]], e que os escolásticos continuam a usar. Outra objecção sustenta que não é legítimo passar da [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] “eu penso” à afirmação “logo eu sou uma [[lexico:c:coisa|coisa]] pensante”, isto é, de um ato a uma substância. O [[lexico:m:motivo|motivo]] dessa passagem foi atribuído ao [[lexico:s:suposto|suposto]] substancialista da filosofia de Descartes. Abrevia-se nessa [[lexico:p:palavra|palavra]] a expressão cartesiana " cogito ergo sum" (Discours, IV; Méd., II, 6), que exprime a auto-evidência [[lexico:e:existencial|existencial]] do [[lexico:s:sujeito|sujeito]] pensante, isto é, a certeza que o sujeito pensante tem da sua [[lexico:e:existencia|existência]] enquanto tal. Trata-se de uma [[lexico:t:tendencia|tendência]] de [[lexico:p:pensamento|pensamento]] que reaparece várias vezes na [[lexico:h:historia|história]], ainda que com fins diversos. S. Agostinho valeu-se dele para refutar o [[lexico:c:ceticismo|ceticismo]] acadêmico, isto é, para demonstrar que não se pode permanecer firme na dúvida ou na suspensão do [[lexico:a:assentimento|assentimento]]. [[lexico:q:quem|quem]] duvida da verdade tem certeza de que duvida, logo de que vive e pensa; portanto, na própria dúvida está a certeza que a leva à verdade (Contra Acad., III, 11; De Trin., X, 10; Solil, II, 1). De S. Agostinho, o mesmo [[lexico:t:tipo|tipo]] de pensamento passa para alguns escolásticos; p. ex., em [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]]: "Ninguém pode [[lexico:p:pensar|pensar]] com assentimento (isto é, crer) que não é; já que, porquanto pensa [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]], percebe que é" ([[lexico:d:dever|dever]]., q. 10, a. 12, ad. "0. Na mesma época de Descartes, esse princípio é retomado por [[lexico:c:campanella|Campanella]] (Mel, I, 2, 1). Embora esse tipo de pensamento tenha servido a fins diferentes (S. Agostinho utiliza-o para demonstrar a [[lexico:t:transcendencia|transcendência]] da Verdade — que é [[lexico:d:deus|Deus]] mesmo — e a sua [[lexico:p:presenca|presença]] na alma humana; Campanella utiliza-o para demonstrar a [[lexico:p:prioridade|prioridade]] de uma "[[lexico:n:nocao|noção]] inata de si" sobre qualquer outra [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]; e Descartes para justificar o seu método da [[lexico:e:evidencia|evidência]]) e seu significado preciso seja, portanto, diferente em um ou [[lexico:o:outro|outro]] filósofo, poucas vezes se duvidou de sua [[lexico:v:validade|validade]] [[lexico:g:geral|geral]]. Para toda filosofia que recorra à [[lexico:c:consciencia|consciência]] como [[lexico:i:instrumento|instrumento]] da [[lexico:i:indagacao|indagação]] filosófica, o cogito deve mostrar-se indubitável, pois na realidade não é senão a formulação do [[lexico:p:postulado|postulado]] metodológico de tal filosofia. Mas mesmo as filosofias que não reconhecem tal postulado fazem [[lexico:u:uso|uso]] do cogito e consideram-no válido. Assim fazem, p. ex., [[lexico:l:locke|Locke]], que vê nele "o mais alto [[lexico:g:grau|grau]] de certeza" (Ensaio, IV, 9, 3), e [[lexico:k:kant|Kant]], que vê nele a própria [[lexico:a:apercepcao|apercepção]] pura ou consciência reflexiva. Na filosofia contemporânea, Hus-serl assume explicitamente o cogito como [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida da sua filosofia (Ideen, I, § 46; Cart. Med., § 1) e recorre a ele continuamente ao longo de suas análises, considerando-o como a própria [[lexico:e:estrutura|estrutura]] da experiência vivida (Erlebniss) ou consciência. O próprio [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] não põe em dúvida a validade do cogito, embora reprove em Kant o [[lexico:f:fato|fato]] de, com ele, [[lexico:t:ter|ter]] restringido o eu a um "sujeito [[lexico:l:logico|lógico]]", isolado, "sujeito que acompanha as representações de uma [[lexico:f:forma|forma]] ontologicamente de [[lexico:t:todo|todo]] indeterminada" (Sein und Zeit, § 64). Diante de aceitação tão ampla, as críticas foram muito escassas. Pode-se pensar na [[lexico:c:critica|crítica]] de Viço, mas é fácil de [[lexico:v:ver|ver]] que ela, na verdade, é uma crítica do Cogito. Viço nega que a "consciência" do próprio ser possa constituir a sua "[[lexico:c:ciencia|ciência]]", ou pelo menos o princípio dessa ciência. A ciência, de fato, é conhecimento de [[lexico:c:causa|causa]] e o cogito cartesiano seria princípio de ciência só no caso de a consciência ser a causa da existência (De antiquissima italorum sapientia, I, 3). Mas com isso Viço não nega que o cogito constituía uma certeza válida, apenas se preocupa em corrigi-lo afirmando que Descartes não deveria ter [[lexico:d:dito|dito]] "penso, logo existo" (Prima risposta al Giornale dei letterati, § 3). A crítica de [[lexico:k:kierkegaard|Kierkegaard]] visa mais ao alcance do que à validade do cogito cartesiano: "O princípio de Descartes ‘penso, logo sou’, à luz da [[lexico:l:logica|lógica]], é um [[lexico:j:jogo-de-palavras|jogo de palavras]], pois aquele ‘sou’ outra coisa não significa, do ponto de vista lógico, senão ‘sou pensante’ ou ‘penso’" (Diário, V, A, 30). Em outros termos, segundo Kierkegaard, a proposição cartesiana é puramente tautológica, já que seu [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] é a [[lexico:i:identidade|identidade]] da existência com o pensamento. Uma tatulogia, porém, ainda é uma proposição válida. Em 1868, [[lexico:p:peirce|Peirce]] respondia negativamente à [[lexico:p:pergunta|pergunta]] "temos [[lexico:a:autoconsciencia|autoconsciência]] [[lexico:i:intuitiva|intuitiva]]?", na qual a palavra autoconsciência estava por conhecimento da própria existência. Peirce não contestava validade do cogito, mas, com provas psicológicas e históricas, acreditava poder concluir que "não há [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de supor uma autoconsciência intuitiva, desde que a autoconsciência pode facilmente ser resultado de [[lexico:i:inferencia|inferência]]" (Coll. Pap., 5.263). A rigor, nem mesmo essa é uma crítica ao cogito. A crítica mais simples e decisiva essa noção pode ser considerada a de [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]]: ‘"Pensa-se, logo há alguma coisa que pensa’: eis a que se reduz a [[lexico:a:argumentacao|argumentação]] de Descartes. Mas isso significa somente considerar verdadeira apriori a nossa [[lexico:c:crenca|crença]] na [[lexico:i:ideia-de-substancia|ideia de substância]]. Dizer que, quando se pensa, é preciso que haja alguma coisa ‘que pense’ é apenas a formulação do [[lexico:h:habito|hábito]] gramatical de acrescentar um [[lexico:a:agente|agente]] à [[lexico:a:acao|ação]]. Em resumo, aqui não se faz mais do que formular um postulado lógico-metafísico, em vez de contentar-se em constatá-lo... Se reduzirmos a proposição a isto: ‘Pensa-se, logo há [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]]’, daí resultará uma simples [[lexico:t:tautologia|tautologia]] e a ‘realidade do pensamento’ não é questionada de tal modo que se é levado a reconhecer a ‘[[lexico:a:aparencia|aparência]]’ do pensamento. Mas Descartes queria que o pensamento não fosse uma realidade [[lexico:a:aparente|aparente]], mas fosse um ‘em si’" (Wille zur Macht, ed. 1901, § 260). Essas considerações de Nietzsche constituem uma crítica ao princípio do cogito que muitos filósofos contemporâneos aceitariam. Com efeito, Carnap refere-se a ela explicitamente, repetindo-a. "A existência do eu", diz ele, "não é um [[lexico:e:estado|Estado]] de fato [[lexico:p:primitivo|primitivo]] do [[lexico:d:dado|dado]]. Do cogito não resulta o sum; de sou [[lexico:c:consciente|consciente]] não se segue que sou, mas apenas que há uma experiência consciente (Erlebniss). O eu não pertence à expressão das experiências fundamentais vividas, mas constitui-se mais [[lexico:t:tarde|Tarde]], essencialmente com o [[lexico:f:fim|fim]] de delimitar seu âmbito pelo âmbito do outro... Em [[lexico:l:lugar|lugar]] da expressão de Descartes, seria [[lexico:n:necessario|necessário]] colocar esta outra: ‘Esta experiência é consciente; logo, há uma experiência consciente’; mas certamente isso seria pura tautologia" (Der logische Aufbau der Welt, 1928, § 163). No entanto essa crítica está longe de ser compartilhada pelos próprios empiristas lógicos e [[lexico:a:ayer|Ayer]], p. ex., reafirma, substancialmente, a validade do princípio cartesiano como [[lexico:v:verdade-logica|verdade lógica]], mesmo limitando seu alcance. "Se alguém pretende [[lexico:s:saber|saber]] que existe ou que é consciente, sua pretensão deve ser válida simplesmente porque o seu ser válida é uma [[lexico:c:condicao|condição]] do seu ser feita" (The Problem of Knowledge, 1956, p. 53). A [[lexico:p:posicao|posição]] de Nietzsche sobre esse ponto era mais radical e, provavelmente, mais correta (v. consciência).