===== CLASSE OPERÁRIA ===== Todas as histórias da [[lexico:c:classe-operaria|classe operária]], isto é, uma [[lexico:c:classe|classe]] de pessoas completamente destituídas de [[lexico:p:propriedade|propriedade]] e que vivem somente da [[lexico:o:obra|obra]] de suas [[lexico:m:maos|mãos]], comportam o mesmo ingênuo [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] de que sempre existiu tal classe. Contudo, como vimos, nem mesmo os [[lexico:e:escravos|escravos]] eram destituídos de propriedade na [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], e geralmente se verifica que os chamados trabalhadores livres da Antiguidade [[lexico:n:nao|não]] passavam de “vendeiros, negociantes e artífices livres” (Barrow, Slavery in the Roman Empire, p. 126). M. E. Park (The plebs urbana in Cicero’s day ) conclui, portanto, que não existiam trabalhadores livres, visto que o [[lexico:h:homem|homem]] livre parecia [[lexico:s:ser|ser]] sempre algum [[lexico:t:tipo|tipo]] de proprietário. W. J. Ashley resume a [[lexico:s:situacao|situação]] na Idade Média até o século XV: “Não existia ainda uma grande classe de assalariados, uma ‘classe operária’ no [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:m:moderno|moderno]] da [[lexico:e:expressao|expressão]]. Chamamos hoje de ‘operários’ a um [[lexico:g:grupo|grupo]] de homens entre os quais alguns indivíduos podem, realmente, ser promovidos a mestres, mas cuja maioria jamais pode esperar galgar uma [[lexico:p:posicao|posição]] mais alta. No século XIV, porém, trabalhar alguns anos como diarista era apenas um estágio pelo qual os homens mais pobres tinham que passar, enquanto a maioria provavelmente se estabelecia como mestre-artífice assim que terminava o aprendizado” (An introduction to English economic history and theory, p. 93-94). Assim, a classe operária da Antiguidade não era nem livre nem destituída de propriedade; se, por [[lexico:m:meio|meio]] da alforria, o [[lexico:e:escravo|escravo]] ganhava a [[lexico:l:liberdade|liberdade]] (em Roma) ou a comprava (em Atenas), não se tornava um trabalhador livre, mas tornava-se imediatamente um comerciante ou um artífice [[lexico:i:independente|independente]]. (“Aparentemente, a maioria dos escravos, ao se tornarem livres, levavam consigo certo [[lexico:c:capital|capital]] [[lexico:p:proprio|próprio]]” que lhes permitia estabelecer-se no comércio ou na indústria [Barrow, Slavery in the Roman Empire, p. 103]). E, na Idade Média, ser um operário no sentido moderno do [[lexico:t:termo|termo]] era um estágio [[lexico:t:temporario|temporário]] na [[lexico:v:vida|vida]] de uma [[lexico:p:pessoa|pessoa]], uma preparação para a maestria e para a vida adulta. Na Idade Média, o [[lexico:t:trabalho|trabalho]] arrendado era uma [[lexico:e:excecao|exceção]], e os trabalhadores diaristas da Alemanha (os Tagelöhner, na [[lexico:t:traducao|tradução]] luterana da Bíblia) ou os manoeuvres franceses viviam fora das comunidades estabelecidas e eram idênticos aos pobres, os “labouring poor” da Inglaterra (cf. Pierre Brizon, Histoire du travail et des travailleurs , p. 40). [[lexico:a:alem|Além]] disso, o [[lexico:f:fato|fato]] de nenhum [[lexico:c:codigo|código]] legal antes do Code Napoléon tratar de trabalhadores livres (cf. W. Endemann, Die Behandlung der Arbeit im Privatrecht , p. 49 e 53) demonstra, de maneira conclusiva, quão recente é a [[lexico:e:existencia|existência]] de uma classe operária. [ArendtCH, 8]