===== CLASSE ===== I: [[lexico:c:conceito|conceito]] [[lexico:l:logico|LÓGICO]]: definiu-se por vezes a classe como uma [[lexico:s:serie|série]], [[lexico:g:grupo|grupo]], coleção, [[lexico:a:agregado|agregado]] ou conjunto de entidades (chamadas membros) que possuem pelo menos uma caraterística comum. Exemplos de classe podem [[lexico:s:ser|ser]]: a classe dos homens, a classe de objetos cuja temperatura em [[lexico:e:estado|Estado]] sólido é inferior a dez graus centígrados, a classe dos vocábulos que começam pela letra c nesta página. Confundiu-se, por vezes, a [[lexico:n:nocao|noção]] de classe com as noções de agregado ou de [[lexico:t:todo|todo]]. Deve evitar-se esta confusão, pois, de contrário, corre-se o [[lexico:r:risco|risco]] de equiparar uma [[lexico:e:entidade|entidade]] concreta a uma entidade abstrata. As classes são entidades abstratas, mesmo quando os membros de que se compõem são entidades concretas. II: CONCEITO SOCIOLÓGICO: em [[lexico:s:sentido|sentido]] sociológico, “classe” designa, em sentido lato, um agrupamento de indivíduos com o mesmo [[lexico:g:grau|grau]], ou a mesma [[lexico:q:qualidade|qualidade]] [[lexico:s:social|social]], ou o mesmo ofício. Em sentido restrito, dá-se, contudo, o [[lexico:n:nome|nome]] de classe só àqueles agrupamentos humanos que se caraterizam por certos constitutivos sociais. Estes podem ser os meios de [[lexico:r:riqueza|riqueza]], especialmente a [[lexico:p:posse|posse]] dos meios de produção, os modos de [[lexico:v:viver|viver]], a consideração social em que são tidos os seus membros, etc. [[lexico:r:regra|regra]] [[lexico:g:geral|geral]], reserva-se o nome de classe apenas para os agrupamentos que surgiram na [[lexico:e:epoca|época]] [[lexico:m:moderna|moderna]]. As discussões sobre o conceito de classe na época moderna referiram-se sobretudo a dois pontos: O primeiro é o [[lexico:p:proprio|próprio]] conceito de classe. O segundo é o de [[lexico:s:saber|saber]] se [[lexico:e:esse|esse]] conceito é [[lexico:o:objetivo|objetivo]] ou subjectivo. É compreensível que numa [[lexico:s:sociedade|sociedade]] onde os meios econômicos e as [[lexico:r:relacoes|relações]] econômicas foram adquirindo cada vez mais importância (como aconteceu na [[lexico:s:sociedade-moderna|sociedade moderna]]) se tenha sublinhado a importância do [[lexico:c:constitutivo|constitutivo]] econômico para a [[lexico:f:formacao|formação]] da classe. Muitos autores (marxistas e [[lexico:n:nao|não]] marxistas) são a favor disso; em [[lexico:p:parte|parte]], [[lexico:m:marx|Marx]] não fez mais que sistematizar e levar às suas últimas consequências essas [[lexico:i:ideias|ideias]] considerando as classes sociais como o tecido fundamental da [[lexico:h:historia|história]] e definindo esta como uma [[lexico:l:luta|luta]] de classes. A propósito do conceito, que corresponde à primeira [[lexico:o:operacao|operação]] da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], a [[lexico:l:logica|lógica]] tradicional distingue a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] da [[lexico:e:extensao|extensão]]. Todo conceito tem um conteúdo que significa, em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], o [[lexico:o:objeto|objeto]] ao qual o conceito se refere, e, em segundo, o conjunto das notas, ou atributos que, na inteligência, correspondem às notas constitutivas do objeto. No primeiro sentido, o conteúdo é puramente objetivo, é o próprio objeto mencionado pelo conceito. No segundo, o conteúdo é também [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]], na [[lexico:m:medida|medida]] em que consiste numa [[lexico:c:criacao|criação]] do [[lexico:s:sujeito|sujeito]], numa "[[lexico:r:reproducao|reprodução]]" do objeto por [[lexico:m:meio|meio]] de uma operação da inteligência. A compreensão é o conteúdo do conceito, o conjunto das notas que o constituem. Assim, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], o conteúdo do conceito [[lexico:h:homem|homem]] é ser vivo, [[lexico:a:animal|animal]] e [[lexico:r:racional|racional]]. Ao contrário da compreensão, a extensão corresponde ao [[lexico:n:numero|número]] de objetos incluídos no conceito ou por ele "compreendidos". O conceito de [[lexico:v:vida|vida]], por exemplo, inclui todos os seres vivos, quer sejam vegetais, animais ou humanos. A compreensão varia na [[lexico:r:razao|razão]] inversa da extensão. Quanto mais compreensivo é um conceito, menor é a sua extensão e, vice-versa, quanto maior é a sua extensão, menor é a sua compreensão. De todos os [[lexico:c:conceitos|conceitos]], o mais extenso e menos compreensivo é o [[lexico:c:conceito-de-ser|conceito de ser]], que se estende ou aplica à [[lexico:t:totalidade|totalidade]] dos seres, conceito totalmente [[lexico:i:indeterminado|indeterminado]], sem conteúdo algum, e por isso identificado, por [[lexico:h:hegel|Hegel]], com o [[lexico:n:nada|nada]]. Em contrapartida, o conceito de [[lexico:d:deus|Deus]] é, de todos, o mais compreensivo e o menos extenso, porque inclui a plenitude dos atributos ontológicos e convém apenas a um ser. A [[lexico:c:classificacao|classificação]] dos conceitos, que constitui um dos principais métodos de sistematização e de [[lexico:e:exposicao|exposição]], implica _ a utilização simultânea dessas duas propriedades ou funções do conceito, a de [[lexico:c:compreender|compreender]] ou [[lexico:a:apreender|apreender]] o objeto, e a de aplicar ou estender seu conteúdo aos objetos que, na [[lexico:r:realidade|realidade]], ou na [[lexico:i:idealidade|idealidade]], lhe são correspondentes. Consistindo em inclusões e exclusões, a classificação supõe que os conceitos possam variar nesse duplo [[lexico:a:aspecto|aspecto]], pois o que os determina, como pertencentes a esta ou aquela classe, é, precisamente, a [[lexico:r:relacao|relação]] que apresentam quanto à compreensão e à extensão. O conceito de homem, por exemplo, por ser mais compreensivo e menos extenso que o de animal, inclui-se nessa classe, e, o de animal, por sua vez, sendo mais compreensivo e menos extenso que o de ser vivo, inclui-se na classe dos vivos e assim por diante. Segundo [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], definir é indicar o [[lexico:g:genero|gênero]] [[lexico:p:proximo|próximo]] e a [[lexico:d:diferenca|diferença]] específica, quer dizer, indicar as duas classes às quais o definido pertence. Definir o homem como animal racional é apontar o gênero próximo, animal, e a diferença específica, ou a [[lexico:e:especie|espécie]], racional, de que o homem faz parte. Definir, consequentemente, é mostrar o [[lexico:f:fim|fim]], o [[lexico:l:limite|limite]] de um objeto, a sua fronteira [[lexico:o:ontologica|ontológica]], por assim dizer. Admitindo-se que a [[lexico:r:racionalidade|racionalidade]] coincida com a [[lexico:h:humanidade|humanidade]], a racionalidade seria o limite, a fronteira do [[lexico:h:humano|humano]]. Consistindo em limitar, ou circunscrever, a [[lexico:d:definicao|definição]] é, a rigor, uma [[lexico:m:modalidade|modalidade]] de classificação, pois qualquer delimitação implica não só o limitado mas também o limitante, o conceito mais amplo, ou mais extenso, que circunscreve o menos amplo ou menos extenso. Definir o Brasil do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista geográfico, por exemplo, é indicar as suas fronteiras, onde o Brasil termina e onde começam os outros países da [[lexico:a:america|América]] do Sul. Definir o nosso país é, portanto, incluí-lo no Continente, inserindo o mais compreensivo e menos extenso no menos compreensivo e mais extenso. Tal é o sentido da [[lexico:s:sentenca|sentença]] de [[lexico:s:spinoza|Spinoza]], segundo a qual omnis determinatio est negatio,, toda [[lexico:d:determinacao|determinação]] é uma [[lexico:n:negacao|negação]]. Em sentido amplo, portanto, a classe é um conceito que engloba ou compreende um conjunto ou coleção de objetos que apresentam, ao menos, um [[lexico:e:elemento|elemento]] comum. A classe do humano inclui todos os seres que apresentam a [[lexico:n:nota|nota]] comum da racionalidade, a classe dos vivos todos os seres dotados de [[lexico:v:vitalidade|vitalidade]], e assim por diante. A classe é, pois, o conceito que permite classificar, ordenar e distribuir os objetos de [[lexico:a:acordo|acordo]] com sua compreensão e sua extensão. A noção de classe se confunde, de certo [[lexico:m:modo|modo]], com a noção de totalidade, uma vez que a classe é o todo em relação aos objetos que nela se acham incluídos e da qual fazem parte. As classes, porém, são totalidades parciais que se incluem sucessivamente em totalidades que, embora sejam também parciais, são cada vez mais abrangentes, como a vida em relação à humanidade, ou o ser em relação à vida. O [[lexico:p:problema|problema]] da classificação revela-se, assim, como o problema da [[lexico:u:unidade|unidade]] e da variedade, tal como foi considerado pela [[lexico:t:tradicao|tradição]] filosófica. Os conceitos [[lexico:u:universais|universais]] (etimologicamente, a unidade que se verte na [[lexico:a:alteridade|alteridade]]) incluem o mesmo e o [[lexico:o:outro|outro]], não o [[lexico:p:particular|particular]] enquanto tal, mas o particular enquanto universalizável, quer dizer, redutível à unidade do conceito mais amplo no qual se incluem. A rigor, poder-se-ia dizer que conhecer é classificar, ou incluir em classes, pois se conhecer é definir, e definir, como já se observou, é delimitar os objetos, conhecer é indicar as classes que os circunscrevem. Em suas formas mais elementares, na [[lexico:p:percepcao|percepção]] [[lexico:s:sensivel|sensível]], por exemplo, conhecer é incluir em formas, [[lexico:c:categorias|categorias]] ou classes, pois todas as [[lexico:p:palavras|palavras]] de que se dispõe para mencionar as [[lexico:c:coisas|coisas]] são substantivos comuns, que não aludem apenas ao objeto percebido pelos sentidos, mas a todos os demais, pertencentes à mesma classe. Quando se diz, da flor que se percebe, que é uma rosa vermelha, emprega-se o conceito de rosa, que não convém apenas a esta flor, mas a toda e qualquer rosa, e o conceito de vermelho que também se aplica a todo e qualquer objeto vermelho. Dizer que se vê uma rosa vermelha é, pois, incluir o objeto particular que se percebe pelos sentidos, hic et nunc (aqui e [[lexico:a:agora|agora]]), esta rosa que fenecerá ao entardecer, na [[lexico:c:categoria|categoria]] ou na classe ([[lexico:u:universal|universal]]) das rosas vermelhas. Se conhecer é universalizar, uma vez que o particular é "[[lexico:i:inefavel|inefável]]", como dizia Aristóteles, conhecer é classificar, incluir e distribuir em classes. Lato sensu, todos os instrumentos de que se dispõe para conhecer são classes, desde as ideias de [[lexico:p:platao|Platão]] até as categorias do [[lexico:e:entendimento|entendimento]] de [[lexico:k:kant|Kant]]. Se conhecer é revelar ou desvelar o ser por meio do [[lexico:l:logos|Logos]] da [[lexico:p:palavra|palavra]], do [[lexico:e:enunciado|enunciado]] significativo, e se as palavras de que se dispõe são substantivos comuns, universais, todo nome próprio não passando de um pseudo-nome, conhecer é incluir o próprio no comum, o particular no universal, reduzindo a variedade sensível à unidade [[lexico:i:inteligivel|inteligível]]. Do ponto de vista lógico e matemático, a classe é um [[lexico:s:simbolo|símbolo]] [[lexico:r:representativo|representativo]] de coisas ou objetos que apresentam características comuns. Em 1854, Georges Boole (1815-1864), considerado o fundador da lógica [[lexico:s:simbolica|simbólica]], sistematizou o [[lexico:c:calculo|cálculo]] lógico das classes, tomando por base os [[lexico:s:simbolos|símbolos]] representativos das coisas. As leis que regem a formação e o funcionamento dos símbolos são leis do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] e não da realidade. Comutativos, como os da [[lexico:a:algebra|álgebra]], esses símbolos permitem construir uma álgebra de sinais que representam as coisas. A partir de 1890, Ernst Schröder (1841-1902) desenvolveu as descobertas de Boole, dando [[lexico:o:origem|origem]] ao que se convencionou chamar de álgebra de Boole-Schröder. De acordo com Schröder, as classes contêm, ou podem conter, qualquer [[lexico:t:tipo|tipo]] de objetos, inclusive os números. As classes correspondem às espécies e podem ser consideradas quanto à compreensão e quanto à extensão. As classes, que representam os indivíduos, são simbolizadas por letras, significando o que Schröder chama de "territórios", quer dizer, campos de aplicação do conceito. Na álgebra de Boole-Schröder, são pressupostas certas ideias básicas, admitidos vários postulados e formuladas algumas definições. As ideias básicas ou fundamentais são, por exemplo, as de [[lexico:i:identidade|identidade]], inclusão, [[lexico:s:soma|soma]], [[lexico:p:produto|produto]], complemento, etc. As definições incluem, verbi gratia, as de classe universal e classe nula, [[lexico:s:soma-logica|soma lógica]], etc. Dos postulados e definições são deduzidas as leis da álgebra ou cálculo de classes. A classe universal compreende ou inclui todos os membros do [[lexico:u:universo-do-discurso|universo do discurso]], ao passo que a classe nula, ou vazia, é a que exclui, ou não contém, membro algum desse [[lexico:u:universo|universo]]. A primeira é simbolizada por V, e definida pela seguinte [[lexico:f:formula|fórmula]]: V = def. x (x = x). A segunda, simbolizada por ‘A’, assim se define: A = def. x (x = x), o [[lexico:t:termo|termo]] da [[lexico:e:equacao|equação]] ‘x = x’ não sendo satisfeito, ou preenchido por [[lexico:c:coisa|coisa]] alguma. A [[lexico:r:representacao|representação]] gráfica das classes se’ faz por meio de diagramas nos quais um quadrado incluí círculos que incluem ort-tros círculos, ou círculos que se cortam na periferia ou compreendem símbolos, significando a inclusão de uma classe èíri outra, a soma, o produto ou a identidade’ de duas ou mais classes. As leis da álgebra de classe são formuladas por meio de letras e de números, tais como AC I, [[lexico:l:lei|lei]] de identidade, AC 2, lei de [[lexico:c:contradicao|contradição]], e AC 3, lei do [[lexico:t:terceiro|terceiro]] excluído. Em sua [[lexico:o:obra|obra]] conjunta, intitulada [[lexico:p:principia-mathematica|Principia Mathematica]], Bertrand [[lexico:r:russell|Russell]] (1872-1971) e Alfred North Whitehead (1861-1947) caracterizam ou definem a noção de classe pela [[lexico:f:funcao|função]] predicativa, observando que o conjunto das classes em que se pode incluir determinado termo é um conjunto legítimo, embora a totalidade das funções (predicativas), correspondentes ou não a determinado termo, não seja uma totalidade legítima. As classes em que se inclui determinado termo, a, são definidas pelas funções a; as classes definidas pelas funções predicativas a chamam-se classes a, formando uma totalidade legítima, decorrente das funções predicativas a. As condições ou exigências a que um símbolo deve satisfazer para operar como classe são as seguintes. 1) Toda função predicativa ([[lexico:a:atribuicao|atribuição]] do [[lexico:p:predicado|predicado]] ao sujeito no [[lexico:j:juizo|juízo]]) deve determinar uma classe que inclua todos os argumentos que exerçam a referida função. 2) Funções proposicionais equivalentes devem determinar a identidade da classe, e funções não equivalentes, a [[lexico:d:diversidade|diversidade]] das classes. 3) Deve ser [[lexico:p:possivel|possível]] definir não apenas classes que contêm indivíduos, mas classes que incluem classes, gêneros e espécies. 4) É [[lexico:i:irrelevante|irrelevante]], ou insignificante, admitir que uma classe seja ou não membro de si mesma. 5) Deve ser possível, em [[lexico:t:tese|tese]], formular juízos sobre todas as classes compostas de indivíduos, ou de qualquer espécie de objeto lógico. Aproximando-se do [[lexico:n:nominalismo|nominalismo]], Russell e Whitehead consideram as classes "ficções lógicas", ou "símbolos incompletos", os quais, ao substituir as classes, permitem identificar duas funções que apresentam a mesma extensão. Sem um símbolo que represente classes, não é possível inventariar as combinações que se fazem na base de determinada série de objetos. Segundo esses autores, a [[lexico:t:teoria|teoria]] das classes pode ser reduzida a um [[lexico:a:axioma|axioma]] e a uma definição. O axioma é o seguinte: há um tipo A, tal que, se B é uma função de determinado objeto, a, como [[lexico:a:argumento|argumento]], haverá uma função C, do tipo A, que será formalmente equivalente a B. A definição é enunciada nestes termos: se B é uma função possível de determinado objeto, a, como argumento, e A é o tipo mencionado no axioma anterior, dizer que a classe determinada por A apresenta a [[lexico:p:propriedade|propriedade]] F corresponde a dizer que há uma função do tipo A, formalmente equivalente a B, e que apresenta a propriedade f. Determinada classe, portanto, será constituída pela totalidade dos objetos que possuem certa propriedade isto é, a totalidade dos objetos em relação aos quais é válida a [[lexico:e:expressao|expressão]] ‘f (x)’. As classes que, desse ponto de vista, se distinguem da totalidade, são conceitos abstratos e universais, embora os objetos que nelas se incluam possam ser entidades sensíveis ou particulares. A noção de classe também tem sido relacionada com a noção de propriedade. Segundo Carnap, duas classes são idênticas quando incluem os mesmos [[lexico:e:elementos|elementos]], isto é, quando dois predicadores, A e B, (propriedades ou funções que se atribuem ao sujeito), a elas correspondentes, são logicamente equivalentes. A ‘[[lexico:i:intencao|intenção]]’, ou a compreensão, é o que se chama de propriedade A, entendendo-se por classe a sua extensão. Fundamental, como [[lexico:i:instrumento|instrumento]] operatório, nas ciências naturais e lógico-matemáticas, a noção de classe também desempenha função de [[lexico:c:capital|capital]] importância nas [[lexico:c:ciencias-sociais|ciências sociais]] e humanas. (in. Class; fr. Classe; al. Klasse; it. Classe). Em sentido sociológico, corresponde ao que os antigos chamavam de "parte da [[lexico:c:cidade|cidade]]" e designa um grupo de cidadãos definido pela [[lexico:n:natureza|natureza]] da função que exercem na vida social e pela parcela de vantagens que extraem de tal função. Platão admitia três classe, ou melhor, três partes da sua cidade [[lexico:i:ideal|ideal]]: a dos governantes ou filósofos, a dos guerreiros e a dos agricultores e artífices; confiava à primeira a [[lexico:t:tarefa|tarefa]] de distribuir os indivíduos entre as classes (Rep., III, 412 b ss.). Aristóteles enumera oito classe: agricultores, operários mecânicos, comerciantes, servos agrícolas, guerreiros, juizes, ricos e magistrados (Pol, IV, 4, 1290 b 37). Mas, levando-se em conta o que ele diz sobre o [[lexico:t:trabalho|trabalho]] manual (v. [[lexico:b:banausia|banausia]]), pode-se afirmar que, na realidade, para Aristóteles as classe são duas, [[lexico:a:alem|além]] da dos [[lexico:e:escravos|escravos]], que constituem os "instrumentos animados" (v. servo e patrão), ou seja: os que são forçados ao trabalho manual e os que se libertaram de tal [[lexico:n:necessidade|necessidade]]. "A melhor [[lexico:c:constituicao|constituição]]", diz Aristóteles, "jamais admitirá no rol dos cidadãos um operário [[lexico:m:mecanico|mecânico]]. Mas se este já é cidadão, então deveremos atribuir as [[lexico:v:virtudes|virtudes]] de cidadão não a todos indistintamente, [[lexico:c:como-se|como se]] bastasse a [[lexico:c:condicao|condição]] de homem livre, mas só aos que não estão forçados aos trabalhos necessários à vida cotidiana" (Ibid, III, 5, 1278 a 8). A noção de classe ficou muito acentuada no séc. XVIII, por obra da [[lexico:r:revolucao|Revolução]] Francesa e de todo o [[lexico:m:movimento|movimento]] cultural que a promoveu e a acompanhou. Em [[lexico:f:filosofia|Filosofia]], porém, ela só ganha destaque graças a Hegel, que considerava a [[lexico:d:divisao|divisão]] das classe como um ajustamento [[lexico:n:necessario|necessário]] da sociedade civil, devido a [[lexico:b:bens|bens]] privados, ou seja, ao capital, à [[lexico:a:aptidao|aptidão]] dos indivíduos que, em parte, é condicionada pelo capital, a circunstâncias contingentes devidas à diversidade das disposições e das necessidades físicas e espirituais (Fil. do dir., § 200). Hegel atribuiu às classe a função mediadora entre o [[lexico:g:governo|governo]] e o [[lexico:p:povo|povo]]; sua determinação exige nelas tanto o sentido e o [[lexico:s:sentimento|sentimento]] de Estado e governo, quanto o dos interesses dos grupos particulares e dos indivíduos (Ibid., § 302). O conceito de classe, assim elaborado por Hegel, foi usado por Marx como [[lexico:f:fundamento|fundamento]] da sua doutrina da luta de classes. Na [[lexico:v:verdade|verdade]], os economistas ingleses Malthus e Ricardo já tinham reconhecido a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de oposições entre as classe, como [[lexico:c:consequencia|consequência]] do funcionamento das leis econômicas. Desses economistas, Marx aceita o conceito do fundamento econômico da luta de classe e, de Hegel, o [[lexico:c:carater|caráter]] necessário (isto é, historicamente necessário, para qualquer sociedade não comunista) da divisão em classes. Numa carta de 1852, resumia seu pensamento da seguinte [[lexico:f:forma|forma]]: "1) A [[lexico:e:existencia|existência]] das classe está simplesmente ligada a determinadas fases históricas do [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] produtivo; 2) a luta de classes conduz inevitavelmente à ditadura do proletariado; 3) essa ditadura não constitui senão a passagem para a abolição de todas as classe e para a sociedade sem classes" (Marx-Engels Correspondence, p. 57). Para Marx, a classe tem aquela espécie de unidade [[lexico:s:substancial|substancial]] sólida que Hegel atribuía ao [[lexico:e:espirito|espírito]] de um povo (Volksgeist), isto é, ela age na história como uma unidade e subordina o [[lexico:i:individuo|indivíduo]], que conta apenas como membro da sua C, da qual derivam seus modos de [[lexico:p:pensar|pensar]] e de viver, seus sentimentos e suas ilusões. Essa rigidez do conceito de classe foi mantida pela [[lexico:i:ideologia|ideologia]] comunista e, mais que um conceito científico, é um instrumento de luta [[lexico:p:politica|política]]. Trata-se de um conceito que foi, ele mesmo, condicionado por uma [[lexico:s:situacao|situação]] histórica particular: a fase de formação do industrialismo, que parece dividir a humanidade em duas classe hostis, entre as quais o conflito é inevitável: a dos capitalistas, ou seja, dos proprietários dos meios de produção, e a dos proletários, obrigados a vender aos primeiros sua [[lexico:f:forca|força]] de trabalho. As análises contemporâneas mostraram uma [[lexico:e:estrutura|estrutura]] mais complexa e elástica da classe. Dahrendorf, p. ex., definiu as classe com base nas relações de [[lexico:a:autoridade|autoridade]] e não nas de trabalho; desse ponto de vista, as classe não são nem exclusiva nem predominantemente agrupamentos econômicos, mas estratificações sociais que, por sua vez, podem conter uma [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]] de estratos. "Cada vez mais, as relações sociais da indústria, inclusive os conflitos de trabalho, deixam de dominar a sociedade como um todo, para ficarem confinadas na [[lexico:e:esfera|esfera]] industrial, com suas formas e seus problemas. Na sociedade pós-capitalista, indústrias e conflitos de trabalho estão institucionalmente isolados, ou seja, confinados nos limites de seu próprio [[lexico:r:reino|reino]] e não exercem [[lexico:i:influencia|influência]] sobre as outras esferas da sociedade" (Class and Class Conflict in Industrial Society, Londres, 1959, p. 268). O sociólogo polonês Stanislav Ossowski identificou a existência de estratificações sociais mesmo nas sociedades comunistas contemporâneas: "Estamos [[lexico:b:bem|Bem]] distantes das classe concebidas como grupos que nascem das organizações de classe espontaneamente criadas. Em situações em que as autoridades políticas podem, aberta e efetivamente, mudar a estrutura de classe, em que os privilégios, essencialíssimos para a definição do [[lexico:s:status|status]] social, inclusive no que se refere a uma porcentagem maior da renda nacional, são conferidos por [[lexico:d:decisao|decisão]] das autoridades políticas, em que grande parte ou mesmo a maioria da população está incluída num tipo de estratificação que pode ser encontrado em hierarquias burocráticas, o conceito oitocentista de classe passa a ser mais ou menos anacrônico e os conflitos de classe dão lugar a outras formas de antagonismo social" (Class Structure in the Social Consciousness, Londres, 1963, p. 184). Desse ponto de vista, o conceito de classe não está mais ancorado exclusivamente na propriedade dos meios de produção e deve rever os elementos fundamentais da complexa organização que pode diferir, como de [[lexico:f:fato|fato]] difere, de uma sociedade para outra e de um [[lexico:m:momento|momento]] [[lexico:h:historico|histórico]] para outro (cf. T. B. Bottomore, Classes in Modem Society, Londres, 1965). (in. Class;fr. Classe; al. Klasse; it. Classe). Embora o conceito de "classe" já estivesse presente no pensamento lógico medieval, esse termo só começou a ser usado no séc. XIX, sobretudo por obra dos lógicos ingleses, como Hamilton, Jevons, Venn, etc, preocupados com o problema da [[lexico:q:quantificacao|quantificação]] da Lógica. Pode-se definir uma classe enumerando os membros que a compõem (definição extensiva) ou indicando a propriedade comum de todos os seus membros (definição intensiva), como quando se [[lexico:f:fala|fala]] do "gênero humano" ou dos "habitantes de Londres". Russell considerou fundamental a definição intensiva porque a extensiva pode ser reduzida a ela, sem que ocorra o inverso. Portanto, reduziu a classe a uma função proposicional, ou seja, a um predicado ou a um [[lexico:a:atributo|atributo]]. Nesse sentido, usou o conceito dos Principia Mathematica (cf. também Introduction to Mathematical Philosophy, 1919, cap. XVII). Quanto às relações entre o conceito de classe e o de conjunto, [[lexico:v:ver|ver]] este [[lexico:u:ultimo|último]] termo.