===== CIÊNCIAS HERMENÊUTICAS ===== As [[lexico:c:ciencias-hermeneuticas|ciências hermenêuticas]] são as [[lexico:c:ciencias-humanas|ciências humanas]] ou as [[lexico:c:ciencias-do-espirito|ciências do espírito]] (em alemão: Geisteswissenschaften). [[lexico:h:hermeneutica|Hermenêutica]] procede da [[lexico:p:palavra|palavra]] indo-germânica Herm, que significa o que envia. [[lexico:h:hermes|Hermes]] é o [[lexico:d:deus|Deus]] da [[lexico:m:mensagem|mensagem]]. Daí vem verbum, word, wort. As [[lexico:c:coisas|coisas]] que aparecem são enviadas, estão no envio de herm, do verbum, da palavra. Auscultar o [[lexico:s:sentido|sentido]] do envio é fazer a hermenêutica da palavra. Pertencem ao [[lexico:g:grupo|grupo]] de ciências humanas, entre outras, a [[lexico:p:psicologia|psicologia]], a [[lexico:h:historia|história]], a [[lexico:e:economia|economia]], a politica, a [[lexico:s:sociologia|sociologia]]. Há um grande debate em torno dessas ciências. São ou [[lexico:n:nao|não]] são ciências? São elas redutíveis às [[lexico:c:ciencias-empirico-formais|ciências empírico-formais]]? Tomam elas como [[lexico:m:modelo|modelo]] as [[lexico:c:ciencias-formais|ciências formais]] puras? A resposta prévia, que servirá de roteiro às subsequentes considerações, é a seguinte: as ciências hermenêuticas não diferem substancialmente das ciências formais puras, precisamente por ambicionarem [[lexico:s:ser|ser]] «ciências», isto é, por adotarem uma [[lexico:m:metodologia|metodologia]] de [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] de [[lexico:c:carater|caráter]] formal-operativo. Há um só modelo de [[lexico:c:ciencia|ciência]]: o modelo formal-puro, exemplificado nas matemáticas. Conhecer «cientificamente» é conhecer formalizando, matematizando o [[lexico:r:real|real]]. Que [[lexico:r:realidade|realidade]] pretendem conhecer as ciências hermenêuticas? Elas estudam as diversas [[lexico:a:atividades|atividades]] individuais ou coletivas do [[lexico:h:homem|homem]] considerado como ser dotado de [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] e de [[lexico:v:vontade|vontade]]. Há, no [[lexico:o:objeto|objeto]] dessas ciências, [[lexico:e:elementos|elementos]] redutíveis a descrições de [[lexico:n:natureza|natureza]] quantificada. Por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], na demografia a população pode ser estudada a partir de um [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista estatístico. Se as ciências humanas não pretendessem mais que traduzir esses elementos quantitativos elas não se distinguiriam das ciências empírico-formais. Mas ousam mais. O domínio da realidade que elas visam contém elementos não quantificáveis, elementos que escapam a um [[lexico:s:sistema-formal|sistema formal]] [[lexico:p:puro|puro]]. Esses elementos incluem a [[lexico:p:presenca|presença]] de [[lexico:s:significacoes|significações]] ou de valores. A [[lexico:s:significacao|significação]] não é jamais proposta, isto é, não é objetivada, não pode ser claramente representada. A significação de um [[lexico:d:dado|dado]], de um [[lexico:e:elemento|elemento]], de um [[lexico:e:evento|evento]] não é pois passível de ser «cientificada». A significação se revela através de um [[lexico:p:processo|processo]] de [[lexico:i:interpretacao|interpretação]]. Hermenêutica é pois a ciência da interpretação. As ciências humanas por incluírem no objeto que estudam elementos significativos, que se revelam compreensivos quando adequadamente interpretados, são por isso chamadas de hermenêuticas. O objeto das ciências humanas é sempre cultural, é um [[lexico:v:valor|valor]] (Kulturgut). [[lexico:c:como-se|como se]] institui um tal objeto? A partir da [[lexico:a:acao|ação]] humana que é vontade que ambiciona alcançar um [[lexico:f:fim|fim]]. O objeto é então a própria ação humana prenhe de sentido (sinnhaft), carregada de valor (wertbezogen). A ciência, porém, enquanto puro conhecer, busca a neutralidade axiológica (Wertfreiheit). As ciências humanas nesse caso deveriam [[lexico:e:explicar|explicar]] os fatos culturais, os objetos de valor, tratando-os por um [[lexico:m:metodo|método]] isento de valor (wertfrei). Os sinais, os [[lexico:c:conceitos|conceitos]] das ciências humanas visam pois nos conduzir à presença de um [[lexico:m:mundo|mundo]] significativo. De [[lexico:f:fato|fato]], porém, os sinais e os conceitos das ciências humanas não nos põem imediatamente numa tal presença significativa, não nos dão automaticamente o sentido invisível nele [[lexico:l:latente|latente]]. O sentido invisível só pode ser evocado. A [[lexico:e:evocacao|evocação]], porém, é incompatível com a [[lexico:e:essencia-do-conhecimento|essência do conhecimento]] científico, pois é da [[lexico:e:estrutura|estrutura]] das ciências o não-evocar, mas o dizer o que a [[lexico:c:coisa|coisa]] é mediante conceitos formais claramente representados e relacionados entre si pelo [[lexico:p:principio|princípio]] [[lexico:c:constitutivo|constitutivo]] de [[lexico:c:causa-e-efeito|causa e efeito]]. Para descrever essa [[lexico:s:situacao|situação]] anômala das ciências evoquemos o exemplo da história. A história busca reconstituir os acontecimentos passados a partir de documentos presentes e tenciona, num segundo [[lexico:m:momento|momento]], sua [[lexico:c:compreensao|compreensão]]. A primeira etapa é fácil: passar dos documentos aos acontecimentos. A segunda etapa é mais difícil: explicar os acontecimentos. Os acontecimentos são as intenções e as [[lexico:a:acoes|ações]] de atores consignadas, conservadas e transmitidas através do [[lexico:t:tempo|tempo]]. «César passou o Rubicão». Por que passou César o Rubicão?! A história para se constituir em «ciência» deve poder elaborar uma «[[lexico:t:teoria|teoria]] objetiva» mediante a qual nos é [[lexico:p:possivel|possível]] [[lexico:v:ver|ver]] nos sinais (documentos) as ações e intenções de seus atores. Se conseguirmos evocar a significação dos acontecimentos teremos compreendido o documento. Na elaboração de uma tal «teoria objetiva» que explique as ações e intenções dos atores, as ciências humanas se valem em [[lexico:g:geral|geral]] de dois modelos: o modelo [[lexico:e:explicativo|explicativo]] em termos de projetos e o modelo explicativo em termos de sistemas. No modelo explicativo em termos de projetos consideram-se as ações como vividas por atores individuais. Nesse caso é preciso imaginar tipos de projetos possíveis, que são quais [[lexico:h:hipoteses|hipóteses]] provisórias, e elaborar uma teoria que mostre os liames entre as situações e os projetos. Por exemplo, César passou o Rubicão para satisfazer uma ambição [[lexico:p:pessoal|pessoal]]. O que aconteceu nesse procedimento? César é visto numa elaboração [[lexico:i:ideal|ideal]] (Ideal-type). [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:tipo-ideal|tipo ideal]] é forjado pelo meu [[lexico:e:espirito|espírito]]. César, porém, em sua concreteza, não é esse [[lexico:t:tipo|tipo]] ideal. Recrio, portanto, César idealmente para poder movimentar a compreensão do César [[lexico:c:concreto|concreto]]. O tipo ideal que forjei é a [[lexico:m:medida|medida]] que me possibilita [[lexico:c:compreender|compreender]] as ações de César. Mas trata-se nesse caso da compreensão de qual história? de César? ou não será antes a compreensão de minha história-presente? O tipo ideal, mediante o qual «compreendo» César, é a compreensão de mim ou de César ele mesmo? A compreensão é induzida a César a partir de mim. O passado é compreendido a partir do presente. Compreender a história é sempre um [[lexico:p:projeto|projeto]] do presente. Se é um projeto do presente, então a história é sempre [[lexico:p:politica|política]]. O método do «tipo ideal» ou de «projeto» é uma estratégia ou tática de dominar o presente relendo o passado. Não há uma [[lexico:e:explicacao|explicação]] da história, apenas unia compreensão possível. Há no «projeto» aspectos que não se deixam captar, motivações inconscientes inacessíveis à [[lexico:r:reflexao|reflexão]]. No modelo explicativo em termos de sistemas consideram-se totalidades, configurações que envolvem numerosas ações. O [[lexico:i:individuo|indivíduo]] em sua ação é compreendido a partir do [[lexico:t:todo|todo]]. No quadro mental elaborado (Abbild) são compreendidos os fatos. A história é por assim dizer «dobrada», vista na [[lexico:i:imagem|imagem]] do [[lexico:s:sistema|sistema]]. Nesse caso é preciso elaborar uma teoria relativa à [[lexico:e:evolucao|evolução]] dos sistemas. Em geral recorre-se a teorias próprias aos sistemas físicos ou biológicos ou então a teorias de caráter não científico como, por exemplo, os sistemas onde a evolução é explicada à base da [[lexico:d:dialetica|dialética]]. Um sistema interpretativo é avaliado no mais das vezes a partir de critérios meramente pragmatistas. A teoria adequada ou certa é considerada aquela que melhor analisa as ações em termos meramente operativos, funcionais. Basta lembrar as teorias econômicas, políticas, psicológicas. A explicação está sempre fundamentada num [[lexico:e:esquema|esquema]] operativo-funcional [[lexico:p:pratico|prático]]. A funcionalidade operativa é o [[lexico:u:ultimo|último]] [[lexico:c:criterio|critério]] de sua validez. O [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] significativo, porém, é, em geral, destituído de validez operativa. Não pode ser finalizado. É [[lexico:a:absoluto|absoluto]] em si. É como o olhar de criança: [[lexico:b:belo|belo]], simplesmente belo e não [[lexico:u:util|útil]], não se aprisiona em nenhum sistema operativo-formal. Por conseguinte as ciências hermenêuticas não diferem substancialmente das ciências formais. Elas se alicerçam sempre numa teoria [[lexico:f:formal|formal]], que explicita a [[lexico:l:logica|lógica]] [[lexico:i:imanente|imanente]] da ação objetivada num sistema, cujos componentes (conceitos e sinais) operam até certo ponto por conta própria, independentes da ação. As ciências hermenêuticas permanecem assim no [[lexico:c:circulo|círculo]] das ciências formais. O real que elas visam é abordado a partir dos instrumentos da inteligência objetivante, que constrói modelos [[lexico:a:a-priori|a priori]] de abordagem, e a realidade passa a ser apreendida e significada em modelos formais-operativos. [BUZZI, A. Introdução ao pensar. Petrópolis: Vozes, 1973.]