===== CIÊNCIAS EMPÍRICO-FORMAIS ===== As [[lexico:c:ciencias-empirico-formais:start|ciências empírico-formais]] ou as ciências da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] embora investiguem fenômenos materiais [[lexico:n:nao:start|não]] diferem essencialmente das [[lexico:c:ciencias-formais:start|ciências formais]] puras. As ciências empírico-formais estudam os fenômenos do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] material. Elas são chamadas de empíricas ou experimentais porque se fundamentam sobre a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]]. De [[lexico:f:fato:start|fato]], porém, elas utilizam, na [[lexico:a:analise-da-realidade:start|análise da realidade]] material, um aparelho [[lexico:t:teorico:start|teórico]] completamente formalizado, [[lexico:i:identico:start|idêntico]] ao das ciências lógico-matemáticas. A construção das ciências naturais se dá no seguinte roteiro: o [[lexico:h:homem:start|homem]] se sente no convívio com uma [[lexico:r:realidade:start|realidade]] estranha que o solicita ao [[lexico:q:questionamento:start|questionamento]]. As [[lexico:c:coisas:start|coisas]] aparecem revelando-se e ocultando-se. O [[lexico:e:espirito:start|espírito]] [[lexico:h:humano:start|humano]] está nessa constante provocação de [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]]: o que são e por que são as coisas assim como são? A [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] é uma [[lexico:f:forma:start|forma]] criada pelo homem que busca responder ao questionamento que surge de seu contacto com a realidade. A [[lexico:m:mente:start|mente]] assim provocada começa o [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]] com a realidade propondo-lhe [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]] explicativas. A [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] é um [[lexico:e:enunciado:start|enunciado]] (ou conjunto de enunciados) criado pela mente para dizer o [[lexico:r:real:start|real]]. «Chamamos de hipótese uma [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] provisória que tem por [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]] fazer [[lexico:c:compreender:start|compreender]] mais facilmente os fatos que fogem à [[lexico:p:prova:start|prova]] dos fatos» ([[lexico:m:mach:start|Mach]], Erkenntnis und Irrtum, cp. 14). Se a hipótese for comprovada pelo [[lexico:e:experimento:start|experimento]] passa a [[lexico:s:ser:start|ser]] considerada «[[lexico:l:lei:start|lei]]». Lei é um enunciado verificável. A [[lexico:l:lei-cientifica:start|lei científica]] está sempre inserida num contexto de teorias, que são o aparato confirmativo de sua [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]]. O aparato teórico das ciências contém axiomas, teoremas, provas desses teoremas, definições. Uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]] científica contém em [[lexico:g:geral:start|geral]] axiomas, teoremas, definições, hipóteses, «termos empíricos» que descrevem aspectos do real observáveis no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] usual, «termos abstratos» que se referem a entidades não ostensivamente observáveis como p. ex. [[lexico:c:campo:start|campo]] eletromagnético, intervalo de [[lexico:t:tempo:start|tempo]], [[lexico:m:massa:start|massa]], pressão, onda, carga elétrica, e assim por diante. Teorias, hipóteses, leis, [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] e sinais convenientemente congraçados perfazem o [[lexico:c:conhecimento-cientifico:start|conhecimento científico]]. Uma teoria empírico-formal é um conjunto de proposições que designam conceitos que se referem a objetos reais. Tomem-se por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] os termos da [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] «o calor dilata os metais». A lei contém dois termos «calor» e «metal». Os termos designam imediatamente dois conceitos. Nessa [[lexico:d:designacao:start|designação]] a lei é formalizada. Sua [[lexico:r:referencia:start|referência]] ao mundo [[lexico:f:fisico:start|físico]], onde se verifica a [[lexico:e:existencia:start|existência]] do calor e dos metais, é um passo não [[lexico:e:essencial:start|essencial]] na formulação da teoria. A [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] do mundo físico, oferecida por uma teoria, é por conseguinte anterior à experiência. A experiência como tal [[lexico:n:nada:start|nada]] acrescenta à compreensão dos conceitos, apenas diz se tais conceitos convêm ou não à realidade [[lexico:f:fisica:start|física]]. Uma teoria não é necessariamente a explicação do domínio dos fatos aos quais se refere, mas [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] de [[lexico:c:classificacao:start|classificação]] e [[lexico:p:previsao:start|previsão]]. A [[lexico:v:verdade:start|verdade]] de uma teoria científica está em sua [[lexico:v:validade:start|validade]]. A validade é a [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] que ela tem de cumprir as funções às quais é chamada. Os conceitos de uma teoria são aprendidos numa compreensão anterior ao experimento. Se ao depois os conceitos são referendados ao mundo dos objetos reais, nem por isso a referência faz crescer sua compreensão. Ela diz simplesmente que os objetos, aos quais os conceitos se referem, ressoam dentro da teoria. A [[lexico:o:observacao:start|observação]] empírica tem pois a [[lexico:f:funcao:start|função]] de ser um indicador e a teoria nesse caso pode ser comparada a um ressonador: a experiência empírica intervém para [[lexico:p:por:start|pôr]] a teoria à prova. Se resiste, ela se confirma como empírico-formal, se fracassa, ela continua existindo simplesmente como formal-pura. A compreensão, pois, que temos do mundo físico pelas ciências da natureza não é mais do que aquela oferecida pelo [[lexico:m:modelo:start|modelo]] das ciências formais. Qual é essa compreensão? É simplesmente operativa: a [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] compreende vendo como funcionam os termos do [[lexico:s:sistema:start|sistema]], vendo [[lexico:c:como-se:start|como se]] efetuam os liames dos diferentes termos entre si. Pelas ciências empírico-formais não [[lexico:b:bem:start|Bem]] deixamos o mundo físico ser o que ele «possa» ser; antecipamo-nos, o colocamos dentro de um sistema e nele dizemos «tudo» o que o mundo é e possa vir a ser. Por conseguinte, até as ciências empírico-formais (ciências da natureza), que à primeira vista parecem traduzir o mundo físico, são uma construção do espírito objetivante, que cria um campo operacional-teórico, mediante o qual se propõe compreender [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] os objetos da empiria. Parece que não temos [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:m:meio:start|meio]] de conhecer a realidade «cientificamente» senão reinventá-la teoricamente. «A teoria representa apenas um mundo [[lexico:p:possivel:start|possível]]. Mas trata-se de [[lexico:s:saber:start|saber]] o que há nela do mundo real. Para tanto é preciso fazer intervir o [[lexico:m:momento:start|momento]] [[lexico:e:empirico:start|empírico]], isto é, la mise à l’épreuve. Mas só podemos observar uma bem pequena [[lexico:p:parte:start|parte]] do imenso oceano dos fatos, não tocamos o continuum real senão em alguns pontos. Buscamos precisamente saber se há ressonância entre a realidade e o nosso aparelho conceptual. Se verificamos uma tal ressonância, temos [[lexico:d:direito:start|direito]] de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] que há chances de nossa teoria ser correta, ao menos para um determinado domínio. Mas, evidentemente, isso não passa jamais de uma [[lexico:p:presuncao:start|presunção]]. Em [[lexico:t:todo:start|todo]] o caso, a teoria não é uma [[lexico:i:imagem:start|imagem]] do mundo, é apenas uma reconstrução conjetural da realidade» (J. [[lexico:l:ladriere:start|Ladrière]], L’articulation du sens. Paris 1970, p. 39). Tocamos o continuum real em alguns pontos: imersos no [[lexico:c:continuo:start|contínuo]] da realidade, apenas conseguimos apreendê-la através de representações que são quais pontos, que entrelaçados formam uma rede discursiva. Nela vemos e dizemos o real. Tocamos em alguns pontos o real quando conseguimos colocá-lo na malha de nossas representações. «[[lexico:t:ter:start|ter]] ciência» é construir representações operativas da realidade. H20 toca a água em alguns pontos. [[lexico:e:esse:start|esse]] modelo de [[lexico:v:visualizar:start|visualizar]] a água é eficiente, opera, é válido, é certo, é [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]]. A verdade é aqui tão-só a [[lexico:c:certeza:start|certeza]] que com tal sistema o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] assegura a possibilidade de agir sobre a realidade, transformando-a, isto é, conduzindo-a a amoldar-se ao modelo proposto. As teorias que perfazem as ciências empírico-formais não são pois reveladoras da realidade como tal. Elas apenas nos oferecem uma [[lexico:s:serie:start|série]] de conceitos operacionais pelos quais podemos operar os dados do real. «O que podemos realmente atingir mediante as ciências particulares são todas as [[lexico:r:relacoes:start|relações]] e os diferentes modos de [[lexico:r:relacao:start|relação]] dos [[lexico:e:elementos:start|elementos]] entre si» (Mach, Erkenntnis und Irrtum). A ciência estuda pois as relações formais entre os elementos apreendidos em conceitos representados por sinais. [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] a relação que liga um [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] a outro, o cientista se defronta com outro [[lexico:p:problema:start|problema]]: a [[lexico:m:medida:start|medida]] dessa relação. A medida da relação é o que constitui a descoberta científica nas ciências empírico-formais. Enquanto não for medida essa relação, a explicação científica permanece incompleta, isto é, puramente [[lexico:f:formal:start|formal]]. Newton descobriu que todos os corpos se atraem (descoberta da relação) e formulou a medida: «na [[lexico:r:razao:start|razão]] direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias». Muitas vezes o espírito apreende a ligação dos fenômenos sem conseguir exprimir a medida da relação. A [[lexico:t:teoria-da-relatividade:start|teoria da relatividade]]. As leis das ciências não são meteoros dispersos no vasto campo dos fenômenos. Elas formam uma [[lexico:u:unidade:start|unidade]], um sistema coerente, logicamente concatenado em todos os seus pormenores. «A unidade [[lexico:s:sistematica:start|sistemática]], diz [[lexico:k:kant:start|Kant]], é o que antes de tudo faz do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] comum uma ciência, isto é, de um [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:a:agregado:start|agregado]], um sistema», e acrescentava que por sistema é preciso entender «a unidade de conhecimentos múltiplos recolhidos sob uma única [[lexico:i:ideia:start|ideia]]» ([[lexico:c:critica-da-razao-pura:start|Crítica da Razão Pura]], Doutrina do [[lexico:m:metodo:start|método]], cap. III). Essas rápidas considerações sobre as ciências empírico-formais nos mostram que sua [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] de saber não difere substancialmente das formais puras. O [[lexico:o:objeto:start|objeto]] das ciências empírico-formais, o mundo físico, é apreendido por conceitos formulados a priori, inter-relacionados num sistema lógico-formal considerado correto se nele ressoar funcionalmente o mundo físico. (Arcângelo [[lexico:b:buzzi:start|Buzzi]], "Introdução ao Pensar") {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}