===== CIÊNCIA HISTÓRICA ===== Vemos em que direção se comprometia [[lexico:a:aron|Aron]]: ele representa satisfatoriamente aquilo que chamaremos a ala direita da [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] e, apesar de seu [[lexico:t:trabalho|trabalho]] [[lexico:n:nao|não]] poder comparar-se ao livro de Monnerot já citado, ele impunha à [[lexico:h:historia|história]] a mesma emasculação que aquele fazia à [[lexico:s:sociologia|sociologia]]. Ele era fortemente influenciado pelo [[lexico:d:dilthey|Dilthey]] da [[lexico:w:weltanschauung|Weltanschauung]]. É evidente que uma [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] mecanicista da História deve [[lexico:s:ser|ser]] rejeitada; mas, é igualmente evidente que um [[lexico:m:metodo|método]] compreensivo não se prolonga necessariamente num [[lexico:s:sistema-filosofico|sistema filosófico]]. Certamente a [[lexico:a:ausencia|ausência]] dos homens que habitavam [[lexico:e:esse|esse]] Mitsein para o qual o historiador se volta torna sua [[lexico:t:tarefa|tarefa]] mais complexa ainda que a do etnólogo; mas nem por isso esse sincronismo, que foi a "[[lexico:e:epoca|época]]" histórica considerada, oculta um [[lexico:s:sentido|sentido]] a ser compreendido, sem o que não seria história humana. É [[lexico:n:necessario|necessário]] que esse sentido nos atraia, que haja portanto dessa época até a nossa e até nós mesmos uma [[lexico:c:comunicacao|comunicação]] originária, uma cumplicidade; esta garante em [[lexico:p:principio|princípio]] a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de uma [[lexico:c:compreensao|compreensão]] desse passado. Em [[lexico:s:suma|suma]] Aron insistia, posteriormente a Dilthey na descontinuidade do [[lexico:d:devir|devir]], a tal [[lexico:p:ponto|ponto]] que, ao final, de um período a [[lexico:o:outro|outro]] a passagem do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] compreensivo se obstruía e era preciso que o historiador fizesse [[lexico:u:uso|uso]] de um conjunto de [[lexico:c:conceitos|conceitos]] que ele projetava cegamente no passado, esperando, como um químico empirista, a [[lexico:r:reacao|reação]]; mas essa descontinuidade não existe, uma história, isto é, justamente uma retomada incessante de seu passado pelos homens e uma [[lexico:p:protensao|protensão]] para o [[lexico:f:futuro|futuro]]; suprimir a continuidade histórica é negar que haja sentido no devir; ora, é necessário que haja um sentido no devir, não porque os homens pensam esse sentido ou fabricam sistemas do sentido da história, mas porque os homens vivendo, e vivendo juntos, segregam um sentido. Este é ambíguo na [[lexico:m:medida|medida]] em que está precisamente em devir. Do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] que não existe uma [[lexico:s:significacao|significação]] pela qual se possa qualificar sem apelação uma [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]], porque esta é lançada para um futuro em que as possíveis são abertos e a definirão um pouco mais, assim também o sentido (a direção) de uma conjuntura histórica total não é atribuível uma vez por todas, pois a [[lexico:s:sociedade|sociedade]] global que se encontra afetada por ele não pode ser cerceada como uma [[lexico:c:coisa|coisa]] que evolui segundo as leis da [[lexico:m:mecanica|mecânica]] e porque, numa etapa desse [[lexico:c:complexo|complexo]] [[lexico:s:sistema|sistema]], não sucede uma etapa, mas um leque de eventualidades. Os possíveis não são inumeráveis e é por isso que existe um sentido na história, mas são vários e por isso não é sem dificuldade que se consegue ler esse sentido. Enfim, esse futuro [[lexico:a:aberto|aberto]] pertence, enquanto aberto, à própria conjuntura presente, não lhe é superposto; é ela que se prolonga nele como na sua própria [[lexico:e:essencia|essência]]; uma greve [[lexico:g:geral|geral]] não é apenas o que ela é, também e não menos aquilo em que ela se vai tornar; se termina por um fracasso e o recuo da [[lexico:c:classe-operaria|classe operária]], ela será compreendida como um sobressalto reprimido, como um combate de retaguarda, ou como uma advertência, segundo a [[lexico:n:natureza|natureza]] da etapa seguinte, ou então, convertendo-se em greve [[lexico:p:politica|política]], toma um sentido explicitamente revolucionário; em todos os casos seu sentido definitivo é adiado progressivamente ao longo do [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] [[lexico:h:historico|histórico]], [[lexico:m:motivo|motivo]] pelo qual ela não tem propriamente um sentido definitivo, uma vez que esse desenvolvimento não termina. O [[lexico:e:erro|erro]] de Aron é, evidentemente, [[lexico:t:ter|ter]] tomado o sentido da história no nível do pensamento desse sentido e não no nível desse sentido vivenciado, tal como a sociologia nos revelava ainda há pouco. Assim também as dificuldades encontradas pelo historiador para restaurar o núcleo significante de um período, essa "[[lexico:c:cultura|cultura]] culturante" a partir da qual a "[[lexico:l:logica|lógica]]" do devir dos homens transparece claramente através dos acontecimentos e os organiza num [[lexico:m:movimento|movimento]], não são essas dificuldades as mesmas de um etnólogo? É claro que na medida em que o historiador se aplica a sociedades "históricas" cabe-lhe revelar ademais a [[lexico:r:razao|razão]] do movimento, revelar a [[lexico:e:evolucao|evolução]] de uma cultura, reunir-lhe os possíveis abertos a cada uma de suas etapas. Do mesmo modo, como era preciso "[[lexico:c:compreender|compreender]] por uma [[lexico:t:transposicao|transposição]] imaginária como a sociedade primitiva se fecha em seu futuro, torna-se sem ter [[lexico:c:consciencia|consciência]] de sua [[lexico:t:transformacao|transformação]] e de certa [[lexico:f:forma|forma]] se constitui em [[lexico:f:funcao|função]] de sua estagnação", assim também é necessário "situar-se no curso da sociedade progressiva para [[lexico:a:apreender|apreender]] o movimento do sentido, a [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]] dos possíveis, o debate ainda aberto" (Lefort). Não é portanto porque o historiador está preso à história e porque seu pensamento é por sua vez um [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] que a história, que ele constrói, fica invalidada nem que esse pensamento não possa ser [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] deva satisfazer-se em exprimir uma Weltanschctuung transitória. Quando [[lexico:h:husserl|Husserl]] protesta contra a doutrina historicista e exige da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] que ela seja uma [[lexico:c:ciencia|ciência]] rigorosa, não procura definir uma [[lexico:v:verdade|verdade]] [[lexico:e:exterior|exterior]] à história, permanece, ao contrário, no centro de sua compreensão da verdade: esta não é um [[lexico:o:objeto|objeto]] intemporal e [[lexico:t:transcendente|transcendente]], é vivenciada no fluxo do devir, será corrigida indefinidamente por outras vivências; é pois "omni-temporali", em vias de realização, e pode-se dizer dela aquilo que dizia [[lexico:h:hegel|Hegel]]: ela é um resultado — com a nuance porém de que sabemos que a história não tem [[lexico:f:fim|fim]]. A [[lexico:h:historicidade|historicidade]] do historiador e seu engrenamento numa [[lexico:c:coexistencia|coexistência]] [[lexico:s:social|social]] não impedem que a [[lexico:c:ciencia-historica|ciência histórica]] seja feita, são ao contrário condições de sua possibilidade. E quando Aron conclui que "a possibilidade de uma [[lexico:f:filosofia-da-historia|filosofia da história]] se confunde finalmente com a possibilidade de uma filosofia a despeito da história" (op. cit., 320-321), admite implicitamente uma [[lexico:d:definicao|definição]] dogmática da verdade intemporal e imutável. Esta se encontra com [[lexico:e:efeito|efeito]] no centro de [[lexico:t:todo|todo]] pensamento, ela compromete todo um sistema filosófico [[lexico:l:latente|latente]], e demonstra ser radicalmente contraditória à [[lexico:a:apreensao|apreensão]] da verdade em movimento, que Husserl, em seus últimos escritos, exprime com ênfase. A fenomenologia não propõe portanto uma filosofia da história, mas responde afirmativamente à [[lexico:p:pergunta|pergunta]] que fizemos no [[lexico:c:comeco|começo]] deste capítulo, se não quisermos pelo menos reduzir o sentido da [[lexico:p:palavra|palavra]] ciência a [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]], e se levarmos em consideração a revisão metodológica que foi esboçada a propósito da sociologia. Ela propõe uma retomada reflexiva dos dados da ciência histórica, uma [[lexico:a:analise|análise]] [[lexico:i:intencional|intencional]] da cultura e do período definidos por essa ciência e a reconstituição da [[lexico:l:lebenswelt|Lebenswelt]] histórica concreta graças ao qual o sentido dessa cultura e desse período transparece. Esse sentido não pode em caso algum ser [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] e a história não se lê através de tal "fator", seja ele [[lexico:p:politico|político]], econômico, racial; o sentido é latente porque originário, deve ser reconquistado sem pressuposto, se nos deixamos guiar pelas "próprias [[lexico:c:coisas|coisas]]". Essa possibilidade de apreender outra vez a significação de uma cultura e de seu devir funda-se em princípio na historicidade do historiador. O [[lexico:f:fato|fato]] de que a fenomenologia se situa por sua vez na história e que, com Husserl, seja identificada como uma oportunidade de salvaguardar a razão que define o [[lexico:h:homem|homem]], que tenha tentado introduzir-se não só por uma [[lexico:m:meditacao|meditação]] lógica pura mas por uma [[lexico:r:reflexao|reflexão]] sobre a história presente, demonstra que ela não se compreendeu a si mesma — como uma filosofia exterior ao [[lexico:t:tempo|tempo]] ou como um [[lexico:s:saber|saber]] [[lexico:a:absoluto|absoluto]] que resume uma história terminada. Ela aparece a si mesma como um [[lexico:m:momento|momento]] no devir de uma cultura e não vê sua verdade em [[lexico:c:contradicao|contradição]] com sua historicidade, pois.faz dessa historicidade uma porta sobre sua verdade. Essa significação histórica que a fenomenologia avoca a si é precisamente contestada pelo [[lexico:m:marxismo|marxismo]] que lhe atribui outro, bastante diferente.