===== CHORO ===== Weinen Aqui também é o [[lexico:l:lugar|lugar]] para a elucidação de uma peculiaridade das mais notáveis da [[lexico:n:natureza-humana|natureza humana]], a [[lexico:s:saber|saber]], o CHORO, que, como o [[lexico:r:riso|riso]], pertence às exteriorizações que distinguem o [[lexico:h:humano|humano]] do [[lexico:a:animal|animal]]. O choro de [[lexico:m:modo|modo]] algum é [[lexico:e:expressao|expressão]] direta de [[lexico:d:dor|dor]], pois ocorre até mesmo onde as dores são mínimas. Do meu [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, inclusive, nunca se [[lexico:c:chora|chora]] imediatamente em [[lexico:v:virtude|virtude]] de uma dor sentida, mas somente devido à sua [[lexico:r:repeticao|repetição]] na [[lexico:r:reflexao|reflexão]]. A [[lexico:p:pessoa|pessoa]] passa de uma dor sentida, mesmo que ela seja corpórea, para uma mera [[lexico:r:representacao|representação]] da mesma, e acha então o [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:e:estado|Estado]] tão digno de [[lexico:c:compaixao|compaixão]] que, se outrem fosse o sofredor, estaria firme e sinceramente convencida a ajudá-lo com plena compaixão e [[lexico:a:amor|amor]]: entretanto, Somos nós mesmos o [[lexico:o:objeto|objeto]] da compaixão: com a [[lexico:d:disposicao|disposição]] de [[lexico:c:carater|caráter]] mais caridosa, precisamos nós mesmos de ajuda; sentimos que suportamos mais do que poderíamos [[lexico:v:ver|ver]] outrem suportar. Nessa notável e complexa disposição, na qual o [[lexico:s:sofrimento|sofrimento]] imediatamente [[lexico:s:sentido|sentido]] só chega à [[lexico:p:percepcao|percepção]] através de um duplo [[lexico:d:desvio|desvio]], vale dizer, o sofrimento é representado como alheio, e como tal objeto de compaixão, e depois subitamente percebido imediatamente como nosso de novo – a [[lexico:n:natureza|natureza]] logra alívio ao servir-se dessa curiosa convulsão [[lexico:f:fisica|física]] chamada choro. – O CHORO é, por conseguinte, COMPAIXÃO CONSIGO MESMO ou a compaixão que retorna ao seu ponto de partida. É, pois, condicionado tanto pela [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de amar e compadecer-se quanto pela [[lexico:f:fantasia|fantasia]]: eis por que pessoas duras de [[lexico:c:coracao|coração]] ou sem fantasia [[lexico:n:nao|não]] choram facilmente, e o choro é sempre visto como [[lexico:s:signo|signo]] de certo [[lexico:g:grau|grau]] de [[lexico:b:bondade|bondade]] de caráter, e desarma a cólera, pois sente-se que [[lexico:q:quem|quem]] ainda pode chorar também tem de [[lexico:s:ser|ser]] necessariamente capaz de amor, ou seja, de compaixão pelo [[lexico:o:outro|outro]], justamente porque a compaixão, conforme descrito, passa a fazer [[lexico:p:parte|parte]] daquela disposição que produz o choro. – Em total concordância com a explanação aqui feita é a [[lexico:d:descricao|descrição]] que [[lexico:p:petrarca|Petrarca]], ao expressar de maneira ingênua e verdadeira seu [[lexico:s:sentimento|sentimento]], faz da [[lexico:o:origem|origem]] de suas lágrimas: I vo pensando: e nel [[lexico:p:pensar|pensar]] massale Una pietà si forte di me stesso, Che mi conduce spesso, Ad alto lagrimar, chi non soleva. [“Enquanto ando cheio de pensamentos / Assalta-me uma compaixão tão forte para comigo mesmo, / Que com frequência tenho de chorar alto, / Algo que do contrário não estou acostumado.” (N. T.)] O que dissemos também confirma-se no [[lexico:f:fato|fato]] de crianças, ao sofrerem um ferimento, só chorarem, na [[lexico:m:maioria-das-vezes|maioria das vezes]], quando se lastima o seu [[lexico:a:acidente|acidente]], logo, choram não em virtude da dor, mas da representação dela. – Quando nos comovemos e choramos não por sofrimentos próprios, mas alheios, isso ocorre devido ao fato de na fantasia nos colocarmos vivamente no lugar do sofredor, ou, também, mirarmos em seu [[lexico:d:destino|destino]] a [[lexico:s:sorte|sorte]] de toda a [[lexico:h:humanidade|humanidade]], consequentemente antes de tudo a nossa; portanto, por um longo desvio, sempre choramos de novo por nós mesmos, somos nosso próprio objeto de compaixão. [[lexico:e:esse|esse]] também parece ser um [[lexico:f:fundamento|fundamento]] [[lexico:c:capital|capital]] do choro [[lexico:u:universal|universal]], portanto [[lexico:n:natural|natural]], nos casos de [[lexico:m:morte|morte]]. Não é uma [[lexico:p:perda|perda]] o que chora o enlutado: tais lágrimas egoístas antes o envergonhariam; ao contrário, às vezes o que envergonha em tais ocasiões é não chorar. Em [[lexico:v:verdade|verdade]], o enlutado sem [[lexico:d:duvida|dúvida]] chora primeiramente a sorte do morto; contudo, também chora quando para este, após um longo, duro e incurável sofrimento, a morte foi uma desejável [[lexico:s:salvacao|salvação]]. De fato, em [[lexico:r:realidade|realidade]] assalta-lhe compaixão pela sorte da humanidade inteira, entregue à [[lexico:f:finitude|finitude]], devido à qual toda [[lexico:v:vida|vida]], por mais esforçada e rica em atos que seja, tem de extinguir-se e tornar-se [[lexico:n:nada|nada]]: nessa sorte da humanidade, entretanto, o enlutado mira antes de tudo a própria sorte e em verdade tanto mais quanto mais [[lexico:p:proximo|próximo]] dele estava o morto, por conseguinte acima de tudo a morte do próprio pai. Embora a idade e a [[lexico:d:doenca|doença]] tivessem transformado a vida do pai num tormento e, através do desamparo, um fardo pesado para o [[lexico:f:filho|filho]], ainda assim a sua morte é chorada intensamente: tudo isso conforme o fundamento acima apresentado. [Schopenhauer, MVR1:478-480]