===== CAMPANELLA ===== Campanella é decididamente um [[lexico:h:homem:start|homem]] dos novos tempos, em sua [[lexico:a:atitude:start|atitude]] filosófica e em seu [[lexico:c:conceito:start|conceito]] do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida do filosofar. Como [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], vê na [[lexico:c:certeza:start|certeza]] subjetiva do homem, no [[lexico:s:sensus:start|sensus]] sui, no [[lexico:c:cogito:start|cogito]], a [[lexico:r:raiz:start|raiz]] de [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]. Toda a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] do [[lexico:o:objeto:start|objeto]] é, no fundo, para ele, uma [[lexico:a:autoconsciencia:start|autoconsciência]]. Distinguem-se, portanto, dois [[lexico:m:mundos:start|mundos]]: o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] interno da [[lexico:m:mente:start|mente]] e o mundo [[lexico:e:externo:start|externo]] ou [[lexico:n:natural:start|natural]] da [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]]. O que caracterizava, porém, o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] de Campanella, relativamente ao de Descartes e ao de seus seguidores, é o [[lexico:f:fato:start|fato]] de [[lexico:t:ter:start|ter]] ele concebido a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] como um todo animado, como um [[lexico:s:sistema:start|sistema]] pampsiquista e [[lexico:n:nao:start|não]] como um [[lexico:a:agregado:start|agregado]] [[lexico:m:mecanico:start|mecânico]] de partes, à maneira cartesiana. Campanella concebia a natureza como [[lexico:n:natura-naturans:start|natura naturans]], como [[lexico:v:vida:start|vida]], e não como natura naturata, isto é, como [[lexico:c:coisa:start|coisa]] passiva e morta. Eis por que o homem, no intento de assenhorar-se de seu contorno, deve apoiar-se – segundo ele – não nas técnicas das ciências físico-matemáticas, mas sim nas formulações mágicas da [[lexico:a:astrologia:start|astrologia]] e no conhecimento filosófico da [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. No centro de uma vasta planície, sobre uma colina, ergue-se a imaginária [[lexico:c:cidade:start|cidade]] do [[lexico:s:sol:start|sol]]. A cidade é cercada por sete muralhas concêntricas, tendo cada um dos sete recintos o [[lexico:n:nome:start|nome]] de um dos sete planetas então conhecidos. No centro desse sistema encontra-se o [[lexico:t:templo:start|templo]] de Heliópolis, [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] edifício celeste, em cuja abóbada e paredes são representadas todas as estrelas e as diferentes partes da [[lexico:t:terra:start|Terra]]. Três versículos expõem a [[lexico:i:influencia:start|influência]] das estrelas nos destinos da terra. Afirma Campanella que os habitantes da Cidade do Sol não acreditam que a [[lexico:r:religiao:start|religião]] possa proibir a astrologia, a não [[lexico:s:ser:start|ser]] aos que dela abusam para adivinhar os atos livres ou os acontecimentos sobrenaturais. Argumenta ele que o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:s:santo:start|santo]] [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] e a [[lexico:a:autoridade:start|autoridade]] do papa permitem o [[lexico:u:uso:start|uso]] da astrologia, em sua aplicação à medicina, à agricultura e à náutica. Assim justifica Campanella o uso da astrologia: “[[lexico:d:deus:start|Deus]] consignou a cada [[lexico:e:efeito:start|efeito]] [[lexico:f:futuro:start|futuro]] [[lexico:c:causas:start|causas]] [[lexico:u:universais:start|universais]] e particulares, de tal maneira que as particulares não podem atuar, se antes não atuam as universais. Uma planta não floresce se o sol não aquece de perto. As épocas procedem das causas universais, isto é, das causas celestes. Por isso, ao atuarmos, estamos sob o [[lexico:i:influxo:start|influxo]] do [[lexico:c:ceu:start|céu]] (...). As estrelas são unicamente signos das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] sobrenaturais e causas universais das naturais e, em [[lexico:r:relacao:start|relação]] às causas voluntárias, vêm a ser somente ocasiões, convites ou inclinações. O sol, ao sair, obriga-nos a levantar da cama. Somente nos convida a isso e nos oferece comodidades, do mesmo [[lexico:m:modo:start|modo]] que a noite nos apresenta incomodidades para levantar-nos e comodidades para dormir. E posto que as causas atuam sobre o [[lexico:l:livre-arbitrio:start|livre arbítrio]] unicamente de [[lexico:f:forma:start|forma]] indireta e acidental, agindo sobre o [[lexico:c:corpo:start|corpo]] e sobre os sentidos corpóreos anexos aos órgãos, os sentidos estimulam a mente ao [[lexico:a:amor:start|amor]], ao ódio, à ira e às demais paixões. Porém, ainda nesse caso o homem se vê obrigado a seguir a excitação passional. As heresias, as guerras e a fome, prefiguradas pelas estrelas, se cumprem com frequência porque amiúde os homens deixam levar-se pelo [[lexico:a:apetite:start|apetite]] sensual, mais do que pela [[lexico:r:razao:start|razão]] e agem irracionalmente.” Vemos, pois, que Campanella concebe a realidade como uma trama simpatética de influências e repulsões, na qual reina uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] suscetível de ser conhecida a até certo ponto controlada pelo homem. Já o ocultista [[lexico:a:agrippa:start|Agrippa]] von Nettesheim havia afirmado que a [[lexico:m:magia:start|magia]] está intimamente vinculada à astrologia. A própria influência dos fenômenos entre si já é uma espécie de magia natural, sendo o [[lexico:u:universo:start|universo]] um sistema de operações mágicas. É assim que Campanella afirma terem os habitantes de Heliópolis descoberto a [[lexico:a:arte:start|arte]] de voar e o segredo de outras artes, a partir da [[lexico:c:constituicao:start|constituição]] da Lua e de Mercúrio, pois essas estrelas – segundo ele – influem sobre a atmosfera terrestre. Todas as grandes invenções daquele século – a [[lexico:i:invencao:start|invenção]] da imprensa, da bússola e da pólvora – “tiveram [[lexico:l:lugar:start|lugar]] por [[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] das grandes conjunções no [[lexico:t:triangulo:start|triângulo]] de Câncer e no [[lexico:m:momento:start|momento]] em que – ainda segundo afirma Campanella – a ábside de Mercúrio ultrapassa Escorpião, sob a influência da Lua e de Marte”. [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:n:nexo:start|nexo]] de influências e determinações mágico-astrológicas não transformam o homem, entretanto, no joguete de um [[lexico:d:determinismo:start|determinismo]] inexorável. Existe uma [[lexico:e:equacao:start|equação]] entre a [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] e a necessidade, podendo o homem com o auxílio dos conhecimentos astrológicos e mágicos esquivar-se aos [[lexico:i:imperativos:start|imperativos]] estelares e telúricos. Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, a astrologia não redunda para Campanella numa astrolatria, isto é, numa adoração dos astros. Como diz ele, “honram, mas não adoram o Sol e as estrelas, considerando-as como seres viventes, estátuas de Deus e templos e altares animados do céu”. Adoram unicamente a Deus, cuja [[lexico:i:imagem:start|imagem]] veem no Sol, que é [[lexico:c:chamado:start|chamado]] “rosto excelso da divindade, [[lexico:e:estatua:start|estátua]] viva, e [[lexico:f:fonte:start|fonte]] de toda [[lexico:l:luz:start|luz]], calor e vida, [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] de que Deus se serve para transmitir seus dons às coisas inferiores”. Sem essa [[lexico:r:restricao:start|restrição]], que transforma os entes telúricos em [[lexico:s:simbolos:start|símbolos]] de uma [[lexico:a:atividade:start|atividade]] divina [[lexico:s:superior:start|superior]], Campanella teria aderido a um [[lexico:p:politeismo:start|politeísmo]], admitindo uma [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] de centros numinosos independentes. Todas as coisas em Heliópolis são regidas, entretanto, pela configuração e cursos das coisas cósmicas. A estação das festas, o momento da procriação, a [[lexico:e:epoca:start|época]] das sementeiras e da vindima, tudo isso é determinado pelo conhecimento de sua oportunidade sideral. Do ponto de vista filosófico, admitem que a realidade deriva da [[lexico:m:mistura:start|mistura]] de dois [[lexico:p:principios:start|princípios]]: o [[lexico:p:principio:start|princípio]] do Ser e o do [[lexico:n:nao-ser:start|Não-Ser]] ou [[lexico:n:nada:start|nada]]. Todas as coisas derivam de uma combinação do Ser e do Não-Ser, pois segundo Campanella só pode produzir-se o que ainda não existia e, portanto, a própria [[lexico:c:criacao:start|criação]] supõe o não-ser e o Nada. Deus ou o Ser se expressam de três maneiras diversas: como poder, como [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] e como amor. Dessas três potências divinas derivam os três poderes existentes em Heliópolis, isto é, os três governantes da Cidade do Sol. As suas funções, no contexto da vida da cidade, derivam dos aspectos metafísicos de Deus, aos quais estão subordinados. No entanto, como esses aspectos do poder, da sabedoria e do amor são faces do Deus [[lexico:u:unico:start|único]], há em Heliópolis, acima dos triúnviros, um chefe supremo, um Rei-Sacerdote denominado Hoh, isto é, o Metafísico. Ao triúnviro do poder cabe a administração de tudo que é [[lexico:r:relativo:start|relativo]] à arte militar, à construção de fortificações e máquinas de [[lexico:g:guerra:start|guerra]], à organização dos exercícios e tudo que diz [[lexico:r:respeito:start|respeito]] à [[lexico:f:forca:start|força]] e ao poder. Ao triúnviro da sabedoria está consignado tudo que diz respeito às ciências, às artes liberais e mecânicas e a todo aparato educacional. Sob as ordens deste triúnviro há uma estranha galeria de magistrados: o Astrólogo, o Cosmógrafo, o Aritmético, o Geômetra, o [[lexico:l:logico:start|Lógico]], o [[lexico:f:filosofo:start|Filósofo]], [[lexico:o:o-politico:start|O Político]] e o Moralista. O triúnviro da Sabedoria fez adornar todas as paredes do Templo e os muros circulares da Cidade com pinturas nas quais estão representadas todas as Ciências. Figuras geométricas, com suas respectivas definições e proposições, representações geográficas e históricas, geológicas, botânicas e zoológicas, tudo isso se acha figurado nos vários círculos, num delírio pedagógico verdadeiramente bizarro. Ao triúnviro do Amor cabe, finalmente, a [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] do que diz respeito à procriação, para que os homens e [[lexico:m:mulheres:start|mulheres]] se unam em condições ótimas, a [[lexico:f:fim:start|fim]] de engendrar uma prole perfeita. É curioso, entretanto, que a essa [[lexico:a:atribuicao:start|atribuição]] se agregue tudo que diz respeito à [[lexico:e:economia:start|economia]], qual seja a agricultura, a pecuária, a farmacopeia, a arte culinária, a indumentária e enfim as coisas referentes ao [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] vegetativo da vida. No [[lexico:c:circulo:start|círculo]] de [[lexico:a:afrodite:start|Afrodite]], encontra-se de fato incluído o conjunto do que diz respeito ao crescimento da vida, à fecundidade dos homens e das terras, à germinação das plantas e à multiplicidade dos animais. Sob as ordens do triúnviro do Amor existe grande [[lexico:n:numero:start|número]] de Mestres e de Mestras, inclusive o Grão-Magistrado da procriação que deve controlar toda a [[lexico:e:etica:start|ética]] [[lexico:e:erotica:start|erótica]] de Heliópolis. Na Cidade do Sol, todas as coisas são comuns, não havendo [[lexico:p:propriedade-privada:start|propriedade privada]] quer no [[lexico:r:referente:start|referente]] a coisas, quer no referente a pessoas. Campanella, em seu [[lexico:i:impulso:start|impulso]] de regulamentação do todo [[lexico:s:social:start|social]] em vista de um [[lexico:m:modelo:start|modelo]] arquetípico de [[lexico:e:existencia:start|existência]], aceita com [[lexico:p:platao:start|Platão]] a [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] das mulheres e dos filhos, devendo ambos pertencer à coletividade. Afirmam os heliopolitanos que “a [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]], em qualquer de suas formas, nasce e se fomenta pelo fato de que cada um possui a título exclusivo casa, filhos e mulheres. Daí deriva o [[lexico:a:amor-proprio:start|amor próprio]], pois cada qual aspira enriquecer seus filhos, elevá-los aos mais altos postos e convertê-los em herdeiros de numerosos [[lexico:b:bens:start|bens]]. Para consegui-lo, os poderosos e os descendentes de nobre linhagem defraudam o erário [[lexico:p:publico:start|público]]; os débeis, os pobres e os de [[lexico:o:origem:start|origem]] humilde tornavam-se avaros, intrigantes e hipócritas. Pelo contrário, uma vez anulado o amor próprio, subsiste somente o amor à coletividade.” Pensava Campanella que uma vez desobstruído o [[lexico:c:caminho:start|caminho]] dos óbices interpostos pelo [[lexico:e:egoismo:start|egoísmo]] da propriedade estaria o homem em condições de realizar todas as suas potencialidades positivas, atingindo uma [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]] incorruptível. Para isso, entretanto, era [[lexico:n:necessario:start|necessário]] instituir uma [[lexico:r:republica:start|República]] [[lexico:m:metafisica:start|Metafísica]], que correspondesse aos estatutos arquetípicos e ideais, existentes na mente divina. O conhecimento deveria, pois, preceder a vida e daí o delírio pedagógico que animava os habitantes dessa estranha Cidade. Se em Campanella o conhecimento [[lexico:a:adequado:start|adequado]] a essa atividade político-administrativa é encontrado nas harmonias cósmicas, em nossos dias igual intento de [[lexico:r:racionalizacao:start|racionalização]] da vida humana é encontrado no empreendimento das ciências e da técnicas. Nos dois casos, trata-se da empresa prometeica de assenhoramento das coisas, através de uma [[lexico:v:vontade:start|vontade]] ordenatória. Poderíamos [[lexico:f:falar:start|falar]] numa [[lexico:l:loucura:start|loucura]] da sistematização e da [[lexico:o:ordem:start|ordem]], cujas últimas consequências estamos longe de prever totalmente. O [[lexico:p:pampsiquismo:start|pampsiquismo]] de Campanella, para [[lexico:q:quem:start|quem]] o mundo era um grande [[lexico:a:animal:start|animal]] [[lexico:d:divino:start|divino]], o preservava desta fúria de [[lexico:d:destruicao:start|destruição]] e de desolação que ora conturba a consciência do homem contemporâneo. Para nós, o mundo é um [[lexico:n:nao-eu:start|não-eu]] material e mecânico, passível das manipulações infinitas da [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] e da indústria. O próprio homem é inserido nesse [[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]] atritante e sem [[lexico:a:alma:start|alma]], que ora circunscreve a terra. As florestas são destruídas impiedosamente, os rios canalizados e contaminados pelos detritos das fábricas e das cidades, as almas são contaminadas pelos venenos da propaganda e do [[lexico:c:condicionamento:start|condicionamento]] [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]] infracultural. Os mais altos gênios de nosso século, diante do [[lexico:e:espetaculo:start|espetáculo]] [[lexico:t:tragico:start|trágico]] que assumiu a nossa [[lexico:c:civilizacao:start|civilização]], já não esperam mais nada da providencialidade das medidas humanas. A [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:t:tomada-de-consciencia:start|tomada de consciência]] do [[lexico:d:drama:start|drama]] não se transforma numa [[lexico:f:formula:start|fórmula]] de [[lexico:s:salvacao:start|salvação]] para as coisas sociais e culturais. Há muitos, como Gide, que se refugiam na [[lexico:c:crenca:start|crença]] de que só pequenos núcleos de vida [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]] sobrelevarão o preamar da [[lexico:b:barbarie:start|barbárie]] [[lexico:m:moderna:start|moderna]]. Outros, como [[lexico:b:bergson:start|Bergson]], aludindo a uma pretensa [[lexico:l:lei:start|lei]] do “duplo frenesi”, acreditam num [[lexico:r:retorno:start|retorno]] cíclico que nos levará da [[lexico:m:maxima:start|máxima]] [[lexico:a:abjecao:start|abjeção]] ao máximo triunfo da vida do [[lexico:e:espirito:start|espírito]]. Outros, entretanto, acreditam mesmo no esgotamento total da civilização racionalista e antropocêntrica, vendo na vacuidade crescente da forma humana a antevéspera prenunciadora de uma nova idade dos [[lexico:d:deuses:start|deuses]]. [VFSTM:209-214] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}