===== CÁLCULO DOS PROBLEMAS ===== O [[lexico:s:sentido:start|sentido]] está no [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:p:problema:start|problema]]. O sentido é constituído no [[lexico:t:tema:start|tema]] [[lexico:c:complexo:start|complexo]], mas o tema complexo é o conjunto de problema e de questões em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a que as proposições servem de [[lexico:e:elementos:start|elementos]] de resposta e de casos de solução. Todavia, esta [[lexico:d:definicao:start|definição]] exige que nos desembaracemos de uma [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]] própria da [[lexico:i:imagem:start|imagem]] dogmática do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]]: é preciso parar de decalcar os problemas e as questões sobre proposições correspondentes, que servem ou podem servir de respostas. Nós sabemos qual é o [[lexico:a:agente:start|agente]] da ilusão; é a [[lexico:i:interrogacao:start|interrogação]], que, nos quadros de uma [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]], desmembra os problemas e as questões e os reconstituem de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com proposições da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] comum empírica, isto é, de acordo com verossimilhanças de uma [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:d:doxa:start|doxa]]. Com isto, encontra-se comprometido o grande [[lexico:s:sonho:start|sonho]] [[lexico:l:logico:start|lógico]] de um [[lexico:c:calculo-dos-problemas:start|cálculo dos problemas]] ou de uma combinatória. Acreditou-se que o problema e a [[lexico:q:questao:start|questão]] eram apenas a [[lexico:n:neutralizacao:start|neutralização]] de uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] correspondente. Como [[lexico:n:nao:start|não]] acreditar, por conseguinte, que o tema ou o sentido é somente um duplo ineficaz, calcado sobre o [[lexico:t:tipo:start|tipo]] das proposições que ele subsume, ou mesmo sobre um [[lexico:e:elemento:start|elemento]] que se presume [[lexico:s:ser:start|ser]] comum a toda proposição (a tese indicativa)? Por não [[lexico:v:ver:start|ver]] que o sentido ou o problema é extra-proposicional, que ele difere, por [[lexico:n:natureza:start|natureza]], de toda proposição, perde-se o [[lexico:e:essencial:start|essencial]], a [[lexico:g:genese:start|gênese]] do [[lexico:a:ato:start|ato]] de [[lexico:p:pensar:start|pensar]], o [[lexico:u:uso:start|uso]] das [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]]. A [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] é a [[lexico:a:arte:start|arte]] dos problemas e das questões, e a combinatória é o [[lexico:c:calculo:start|cálculo]] dos problemas enquanto tais. Mas a dialética perde seu poder próprio — e, então, começa a [[lexico:h:historia:start|história]] de sua longa desnaturação, que faz com que ela caia sob a [[lexico:p:potencia:start|potência]] do [[lexico:n:negativo:start|negativo]] — quando ela se contenta em decalcar os problemas sobre as proposições. [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] escreve: “Se se diz, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]]: Animal-pedestre-bípede é a definição de [[lexico:h:homem:start|homem]], não é? ou [[lexico:a:animal:start|animal]] é o [[lexico:g:genero:start|gênero]] do homem, não é?, obtém-se uma proposição; se se diz, em compensação: Animal-pedestre-bípede é ou não a definição do homem?, eis aí um problema. E o mesmo acontece para as outras noções. Disto resulta, bastante naturalmente, que os problemas e as proposições são em [[lexico:n:numero:start|número]] igual, pois é [[lexico:p:possivel:start|possível]] fazer de toda proposição um problema, mudando-se simplesmente a construção da [[lexico:f:frase:start|frase]]”. (Até nos lógicos contemporâneos encontra-se a marcha da ilusão. O cálculo dos problemas é apresentado como extra-matemático; [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] [[lexico:v:verdade:start|verdade]], pois ele é essencialmente lógico, isto é, dialético; mas ele é inferido de um simples cálculo das proposições, sempre copiado, decalcado sobre as próprias proposições [[Cf. ARISTÓTELES, Tópicos, I, 4, 101 b, 30-35. — A mesma ilusão continua na Lógica moderna: o cálculo dos problemas, tal como é definido, notadamente por KOLMOGOROFF, encontra-se ainda calcado sobre um cálculo das proposições, em “isomorfismo” com ele (cf. Paulette DESTOUCHES-FÉVRIER, Rapports entre le calcul des problèmes et le calcul des propositions, Comptes rendus des séances de l’Académie des Sciences, avril 1945). Veremos que um empreendimento de “matemática sem negação”, como o de G. F. C. Griss, só encontra seu limite em função desta falsa concepção da categoria de problema. LEIBNIZ, ao contrário, pressente a distância variável, mas sempre profunda, entre os problemas ou os temas e as proposições: “Pode-se mesmo dizer que há temas que são intermediários entre uma ideia e uma proposição. São as questões, dentre as quais existe as que apenas exigem sim e não, que são as mais próximas das proposições. Mas há também as que exigem o como e as circunstâncias etc., nas quais há mais a ser substituído para delas se fazer proposições” (Novos ensaios sobre o entendimento humano, IV, cap. I, § 2).]].) [DeleuzeDR:257-258] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}