===== BUROCRACIA ===== Burocracia : Na [[lexico:l:linguagem|linguagem]] corrente, a [[lexico:p:palavra|palavra]] "burocracia" ganhou uma [[lexico:c:conotacao|conotação]] pejorativa. E sinônimo de lentidão, de processos inutilmente complicados e a burocratização designa então o [[lexico:p:processo|processo]] pelo qual uma [[lexico:a:atividade|atividade]] ou uma organização se tornam rígidas. Na [[lexico:v:visao|visão]] mais normativa do sociólogo, estes fenômenos são considerados como "disfunções burocráticas", isto é, como efeitos negativos [[lexico:n:nao|não]] previsíveis produzidos por um [[lexico:m:modo|modo]] de organização cada vez mais espalhado nas sociedades modernas. Com M. [[lexico:w:weber|Weber]] (1922a), poder-se-ia caracterizá-la pelos traços seguintes: pela continuidade (insere-se numa [[lexico:o:ordem|ordem]] legal que o detentor da [[lexico:a:autoridade|autoridade]] hierárquica não faz mais que aplicar), pelo predomínio do processo [[lexico:e:escrito|escrito]], pela [[lexico:e:existencia|existência]] de um [[lexico:c:corpo|corpo]] de regras impessoais que delimitam com [[lexico:p:precisao|precisão]] as esferas de competências e os direitos e deveres de cada um, por uma [[lexico:h:hierarquia|hierarquia]] das funções que cria laços de [[lexico:s:subordinacao|subordinação]] claros, pelo [[lexico:f:fato|fato]] de o [[lexico:a:acesso|acesso]] aos vários postos se fazer exclusivamente em [[lexico:f:funcao|função]] da qualificação publicamente constatada (exames ou concursos), finalmente pela [[lexico:s:separacao|separação]] entre as funções de direção e a [[lexico:p:posse|posse]] dos meios de produção. Para Weber, um tal modo de organização, que caracteriza, sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], as administrações públicas, mas também a maior [[lexico:p:parte|parte]] das organizações industriais e comerciais de uma certa [[lexico:d:dimensao|dimensão]], é [[lexico:s:superior|superior]] às organizações tradicionais, porque, graças à [[lexico:f:formalizacao|formalização]] e à estandardização das [[lexico:a:atividades|atividades]], permite um funcionamento regido por regras mais objetivas, e portanto mais regular e mais previsível. Está destinado a desenvolver-se justamente em [[lexico:v:virtude|virtude]] da sua maior eficácia. R. Merton (1949) e M. Crozier (1964) puseram em [[lexico:e:evidencia|evidência]] que as características organizacionais de [[lexico:f:formalismo|formalismo]] e de impersonalidade traziam consigo consequências "disfuncionais" sobre os comportamentos dos membros da organização que iam não apenas contra a eficácia desta mas que produziam, [[lexico:a:alem|além]] disso, círculos viciosos de burocratização (sendo estas consequências não previstas combatidas por uma acentuação dos traços organizativos de partida). Em segundo [[lexico:l:lugar|lugar]], mostraram que estas características preenchiam funções latentes para os membros da organização, ou seja, que permitiam reduzir as tensões interpessoais inerentes às necessidades da subordinação e do controlo nas atividades organizadas. A burocracia, longe de [[lexico:s:ser|ser]] uma [[lexico:f:fatalidade|fatalidade]] em virtude da sua eficácia, apresenta-se nesta [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] simplesmente como uma das soluções possíveis para o [[lexico:p:problema|problema]] da [[lexico:a:acao|ação]] coletiva, isto é, da organização de uma cooperação entre atores por certo interdependentes, mas ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] relativamente autônomos. E, como tal, ela é um [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] profundamente cultural, no [[lexico:s:sentido|sentido]] em que o seu [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] é condicionado pelas capacidades relacionais e organizacionais dos membros de uma [[lexico:s:sociedade|sociedade]]. Por isso pôde ligar-se o desenvolvimento da burocracia à francesa com os traços culturais profundos da sociedade francesa (Crozier 1964). Mas é também nesta perspectiva que se pode procurar [[lexico:c:compreender|compreender]] o desenvolvimento recente de modos de organização cada vez menos burocráticos num [[lexico:n:numero|número]] crescente de empresas industriais e comerciais, ou mesmo de serviços administrativos. É [[lexico:v:verdade|verdade]] que o [[lexico:g:governo|governo]] de um só [[lexico:h:homem|homem]], o governo monárquico, que os antigos diziam ser a [[lexico:f:forma|forma]] organizacional da [[lexico:f:familia|família]], é transformado na sociedade (como hoje a conhecemos, quando o topo da ordem [[lexico:s:social|social]] já não é constituído pela casa [[lexico:r:real|real]] de um governante [[lexico:a:absoluto|absoluto]]) em uma [[lexico:e:especie|espécie]] de governo de ninguém. Mas [[lexico:e:esse|esse]] ninguém, o [[lexico:s:suposto|suposto]] [[lexico:i:interesse|interesse]] [[lexico:u:unico|único]] da sociedade como um [[lexico:t:todo|todo]] em questões econômicas, assim como a suposta [[lexico:o:opiniao|opinião]] única da sociedade educada dos salões, não deixa de governar por [[lexico:t:ter|ter]] perdido sua [[lexico:p:personalidade|personalidade]]. Como verificamos pela forma mais social de governo, isto é, pela burocracia (o [[lexico:u:ultimo|último]] estágio do governo no Estado-nação, tal como o governo de um só homem constituía o primeiro estágio do despotismo benevolente e do [[lexico:a:absolutismo|absolutismo]]), o governo de ninguém não é necessariamente um não-governo; pode, de fato, em certas circunstâncias, vir a ser uma das suas mais cruéis e tirânicas versões. [ArendtCH, 6]