===== BOSSUET ===== O [[lexico:c:cartesianismo|cartesianismo]] exerce na França uma profunda [[lexico:i:influencia|influência]] durante [[lexico:t:todo|todo]] o século XVII; e ao dominar a circunstância filosófica do [[lexico:m:momento|momento]], penetra no [[lexico:p:pensamento|pensamento]] católico enquanto tal, inclusive no dos teólogos mesmos, e determina o aparecimento de uma corrente intelectual, especialmente fecunda, que irá caracterizar a [[lexico:m:mentalidade|mentalidade]] francesa da [[lexico:e:epoca|época]] e que condicionará o [[lexico:d:destino|destino]] ulterior da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] na França. Em outros países, o pensamento teológico e ainda o dos filósofos adstritos rigorosamente à ortodoxia mantém-se apegado às formas escolásticas; assim, como já vimos, acontece entre os espanhóis, sobretudo em [[lexico:s:suarez|Suárez]]; por [[lexico:o:outro|outro]] lado, o pensamento [[lexico:m:moderno|moderno]] transcorre por caminhos diferentes, assinalados pela filosofia e pela [[lexico:f:fisica|física]] do [[lexico:r:renascimento|Renascimento]], e com frequência esquece toda a longa [[lexico:t:tradicao|tradição]] [[lexico:e:escolastica|escolástica]]. Os pensadores religiosos franceses, inseridos nesta tradição, articulada em dois pontos capitais — [[lexico:s:santo|santo]] [[lexico:a:agostinho|Agostinho]] e São Tomás —, incorporam a ela o mais vivo da filosofia cartesiana, especialmente em suas exigências metódicas. Desta [[lexico:s:sintese|síntese]] surge um [[lexico:m:modo|modo]] peculiar de pensamento, que se apoia fortemente no [[lexico:a:agostinismo|agostinismo]], conserva a [[lexico:a:arquitetura|arquitetura]] [[lexico:g:geral|geral]] da [[lexico:t:teologia|teologia]] tomista e, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], procede de [[lexico:a:acordo|acordo]] com os [[lexico:p:principios|princípios]] cartesianos e mobiliza-se intelectualmente em [[lexico:f:funcao|função]] das principais descobertas de [[lexico:d:descartes|Descartes]]. Deste modo, concilia-se toda a continuidade do pensamento antigo e medieval com as exigências da [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]], e isto permitiu ao pensamento católico francês manter uma [[lexico:v:vitalidade|vitalidade]] que, em outros [[lexico:l:lugares|lugares]], muito depressa perdeu. E também por isso, no momento de renovar, no século XIX, a tradição [[lexico:m:metafisica|metafísica]] em sua integridade, foi [[lexico:n:necessario|necessário]] apelar expressamente aos pensadores deste [[lexico:g:grupo|grupo]], como mostra, sobretudo, o [[lexico:e:exemplo|exemplo]] do Padre Gratry. Uma das figuras capitais dessa [[lexico:t:tendencia|tendência]] é Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704), bispo de Meaux, grande [[lexico:p:personagem|personagem]] de seu tempo, [[lexico:a:alma|alma]] da Igreja da França durante [[lexico:m:meio|meio]] século. É conhecida sua extraordinária [[lexico:a:atividade|atividade]] religiosa teológica e eclesiástica, e sua contribuição à filosofia, sobretudo com seu Discours sur l’histoire universelle, perspicaz tentativa de uma [[lexico:f:filosofia-da-historia|filosofia da história]], e seu tratado De la connaissance de Dieu et de soi-même, em que se formula — agostiniana-mente — o duplo [[lexico:p:problema-de-deus|problema de Deus]] e do [[lexico:h:homem|homem]], recolhendo as linhas gerais da [[lexico:a:antropologia|antropologia]] e ainda da [[lexico:f:fisiologia|fisiologia]] cartesiana. [[lexico:c:como-se|como se]] pode [[lexico:v:ver|ver]] nos trechos selecionados que seguem, Bossuet se defronta, a partir de pressupostos teológicos, com o [[lexico:d:dualismo|dualismo]] cartesiano e com o [[lexico:p:problema|problema]] da [[lexico:c:comunicacao-das-substancias|comunicação das substâncias]], e esta encruzilhada de duas tendências é sumamente eficaz para verter [[lexico:l:luz|luz]] sobre ambas e sobre sua [[lexico:p:possivel|possível]] conexão. [Julián Marías]