===== BIOS POLITIKOS ===== A principal [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre o emprego aristotélico e o posterior emprego medieval do [[lexico:t:termo|termo]] é que o [[lexico:b:bios-politikos|bios politikos]] denotava explicitamente somente o domínio dos assuntos humanos, com ênfase na [[lexico:a:acao|ação]], práxis, necessária para estabelecê-lo e mantê-lo. Nem o [[lexico:t:trabalho|trabalho]] nem a [[lexico:o:obra|obra]] eram tidos como suficientemente dignos para constituir um bios, um [[lexico:m:modo|modo]] de [[lexico:v:vida|vida]] autônomo e autenticamente [[lexico:h:humano|humano]]; uma vez que serviam e produziam o que era [[lexico:n:necessario|necessário]] e [[lexico:u:util|útil]], [[lexico:n:nao|não]] podiam [[lexico:s:ser|ser]] livres e independentes das necessidades e carências humanas. Se o modo de vida [[lexico:p:politico|político]] escapou a [[lexico:e:esse|esse]] veredicto, isso se deveu à [[lexico:c:compreensao|compreensão]] grega da vida na pólis, que, para eles, denotava uma [[lexico:f:forma|forma]] de organização [[lexico:p:politica|política]] muito especial e livremente escolhida, e de modo algum apenas uma forma de ação necessária para manter os homens juntos de um modo ordeiro. Não que os gregos ou [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] ignorassem o [[lexico:f:fato|fato]] de que a vida humana sempre exige alguma forma de organização política, e que o [[lexico:g:governo|governo]] dos súditos pode constituir um modo de vida à [[lexico:p:parte|parte]]; mas o modo de vida do déspota, pelo fato de ser “meramente” uma [[lexico:n:necessidade|necessidade]], não podia ser considerado livre e [[lexico:n:nada|nada]] tinha a [[lexico:v:ver|ver]] com o bios politikos. [Cf. Política, 1277b8, para a distinção entre governo despótico e política. Quanto ao argumento de que a vida do déspota não é igual à vida de um homem livre, uma vez que o primeiro está preocupado com “coisas necessárias”, conferir, 1325a24.] [ArendtCH, 2] Segundo o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:g:grego|grego]], a [[lexico:c:capacidade|capacidade]] humana de organização política não apenas é diferente dessa [[lexico:a:associacao|associação]] [[lexico:n:natural|natural]] cujo centro é o [[lexico:l:lar|lar]] ([[lexico:o:oikia|oikia]]) e a [[lexico:f:familia|família]], mas encontra-se em [[lexico:o:oposicao|oposição]] direta a ela. O surgimento da cidade-Estado significou que o [[lexico:h:homem|homem]] recebera, “[[lexico:a:alem|além]] de sua vida privada, uma [[lexico:e:especie|espécie]] de segunda vida, o seu bios politikos. [[lexico:a:agora|agora]] cada cidadão pertence a duas ordens de [[lexico:e:existencia|existência]]; e há uma nítida diferença em sua vida entre aquilo que lhe é [[lexico:p:proprio|próprio]] ([[lexico:i:idion|idion]]) e [[lexico:o:o-que-e|o que é]] comum (koinon)” . Não se tratava de mera [[lexico:o:opiniao|opinião]] ou [[lexico:t:teoria|teoria]] de Aristóteles, mas de [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:f:fato-historico|fato histórico]] que a fundação da pólis foi precedida pela [[lexico:d:destruicao|destruição]] de todas as unidades organizadas à base do parentesco, tais como a phratria e a phyle. [v. lar] De todas as [[lexico:a:atividades|atividades]] necessárias e presentes nas comunidades humanas, somente duas eram consideradas políticas e constituíam o que Aristóteles chamava de bios politikos: a ação ([[lexico:p:praxis|praxis]]) e o [[lexico:d:discurso|discurso]] (lexis), das quais surge o domínio dos assuntos humanos (ta ton anthropon [[lexico:p:pragmata|pragmata]], como chamava [[lexico:p:platao|Platão]]), de onde está estritamente excluído tudo o que é apenas necessário ou útil. [ArendtCH, 4]