===== BANALIDADE DO MAL ===== Por trás desta [[lexico:e:expressao|expressão]] [[lexico:n:nao|não]] procurei sustentar nenhuma [[lexico:t:tese|tese]] ou doutrina, muito embora estivesse vagamente [[lexico:c:consciente|consciente]] de que ela se opunha à nossa [[lexico:t:tradicao|tradição]] de [[lexico:p:pensamento|pensamento]] — literário, teológico ou filosófico — sobre o [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] do [[lexico:m:mal|mal]]. Aprendemos que o mal é algo [[lexico:d:demoniaco|demoníaco]]; sua [[lexico:e:encarnacao|encarnação]] é Satã, “um raio caído do [[lexico:c:ceu|céu]]” (Lucas 10:18), ou Lúcifer, o [[lexico:a:anjo|anjo]] decaído (“O [[lexico:d:demonio|demônio]] também é um anjo”, [[lexico:u:unamuno|Unamuno]]), cujo [[lexico:p:pecado|pecado]] é o [[lexico:o:orgulho|orgulho]] (“orgulhoso como Lúcifer”), isto é, aquela superbia de que só os melhores são capazes: eles não querem servir a [[lexico:d:deus|Deus]], mas [[lexico:s:ser|ser]] como Ele. Diz-se que os homens maus agem por inveja; e ela pode ser tanto [[lexico:r:ressentimento|ressentimento]] pelo insucesso, mesmo que não se tenha cometido nenhuma [[lexico:f:falta|falta]] (Ricardo III), quanto propriamente a inveja de Caim, que matou Abel porque “o Senhor teve estima por Abel e por sua oferenda, mas por Caim e sua oferenda ele não teve nenhuma estima”. Ou podem [[lexico:t:ter|ter]] sido movidos pela fraqueza (Macbeth). Ou ainda, ao contrário, pelo ódio poderoso que a [[lexico:m:maldade|maldade]] sente pela pura [[lexico:b:bondade|bondade]] (“Odeio o Mouro: o que me move é o [[lexico:c:coracao|coração]]”, de lago; o ódio de Claggart pela “bárbara” inocência de Billy Budd, um ódio que Melville considerou “uma depravação com [[lexico:r:relacao|relação]] à [[lexico:n:natureza-humana|natureza humana]]”); ou pela cobiça, “a [[lexico:r:raiz|raiz]] de [[lexico:t:todo|todo]] o mal” (Radix omnium malorum cupiditas). Aquilo com que me defrontei, entretanto, era inteiramente diferente e, no entanto, inegavelmente factual. O que me deixou aturdida foi que a conspicua superficialidade do [[lexico:a:agente|agente]] tornava [[lexico:i:impossivel|impossível]] retraçar o mal incontestável de seus atos, em suas raízes ou [[lexico:m:motivos|motivos]], em quaisquer níveis mais profundos. Os atos eram monstruosos, mas o agente — ao menos aquele que estava [[lexico:a:agora|agora]] em [[lexico:j:julgamento|julgamento]] — era bastante comum, banal, e não demoníaco ou monstruoso. Nele não se encontrava [[lexico:s:sinal|sinal]] de firmes convicções ideológicas ou de motivações especificamente más, e a única [[lexico:c:caracteristica|característica]] notória que se podia perceber tanto em seu [[lexico:c:comportamento|comportamento]] anterior quanto durante o [[lexico:p:proprio|próprio]] julgamento e o sumário de [[lexico:c:culpa|culpa]] que o antecedeu era algo de inteiramente [[lexico:n:negativo|negativo]]: não era estupidez, mas irreflexão. No âmbito dos procedimentos da prisão e da corte israelenses, ele funcionava como havia funcionado sob o [[lexico:r:regime|regime]] nazista; mas quando confrontado com situações para as quais não havia procedimentos de rotina, parecia indefeso e seus clichês produziam, na tribuna, como já haviam evidentemente produzido em sua [[lexico:v:vida|vida]] [[lexico:f:funcional|funcional]], uma [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:c:comedia|comédia]] macabra. Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e [[lexico:c:conduta|conduta]] convencionais e padronizados têm a [[lexico:f:funcao|função]] socialmente reconhecida de nos proteger da [[lexico:r:realidade|realidade]], ou seja, da exigência de [[lexico:a:atencao|atenção]] do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em [[lexico:v:virtude|virtude]] de sua mera [[lexico:e:existencia|existência]]. Se respondêssemos todo o [[lexico:t:tempo|tempo]] a esta exigência, logo estaríamos exaustos; Eichmann se distinguia do comum dos homens unicamente porque ele, como ficava evidente, nunca havia tomado [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] de tal exigência. [ArendtVE:5-6]