===== AVALIABILIDADE ===== [[lexico:w:weber|Weber]] distingue claramente entre conhecer e avaliar, entre juízos de [[lexico:f:fato|fato]] e juízos de [[lexico:v:valor|valor]], entre "[[lexico:o:o-que-e|o que é]]" e "o que deve [[lexico:s:ser|ser]]". Para ele, a [[lexico:c:ciencia|ciência]] [[lexico:s:social|social]] é avaliativa, no [[lexico:s:sentido|sentido]] de que procura a [[lexico:v:verdade|verdade]], ou seja, procura apurar como ocorreram os fatos e por que ocorreram assim e [[lexico:n:nao|não]] diferentemente. A ciência explica, não valora. Dentro do [[lexico:t:trabalho|trabalho]] de Weber, tal tomada de [[lexico:p:posicao|posição]] tem dois significados: um, epistemológico, consiste na defesa da [[lexico:l:liberdade|liberdade]] da ciência em [[lexico:r:relacao|relação]] a valorações ético-político-religiosas (uma [[lexico:t:teoria|teoria]] científica não é católica nem protestante, não é liberal nem marxista); o [[lexico:o:outro|outro]], ético-pedagógico, consistia na defesa da ciência em relação às deformações demagógicas dos chamados "socialistas de cátedra", que subordinavam o valor da verdade a valores ético-políticos, isto é, subordinavam a cátedra aos ideais políticos. Com base nisso, é oportuno fixar em alguns breves pontos as considerações de Weber sobre a [[lexico:q:questao|questão]] da avaliabilidade: a) O professor deve [[lexico:t:ter|ter]] claro quando faz ciência e, ao contrário, quando faz [[lexico:p:politica|política]]. b) [[lexico:d:dado|dado]] que o estudante, pelo menos naquela [[lexico:e:epoca|época]], não era [[lexico:i:interlocutor|interlocutor]], Weber pergunta-se se inculcar aos outros as próprias [[lexico:i:ideias|ideias]] políticas usando a cátedra (jogando com o fato de ser cientista e sem que se dê a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] do contraditório) não esconde efetivamente uma prepotência. c) Admitida a [[lexico:d:distincao|distinção]] entre ciência e política, Weber afirma que, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], o anarquista, que nega por [[lexico:p:principio|princípio]] a [[lexico:v:validade|validade]] das convenções e do [[lexico:d:direito|direito]], pode ser excelente professor de direito, precisamente porque a sua [[lexico:i:intuicao|intuição]] pode problematizar concepções que passam por "evidentes" aos olhos dos juristas. Por isso, Weber se opunha aos colegas que se recusavam a confiar uma cátedra universitária a professores socialistas ou marxistas. d) O que Weber não tolera é que se difunda como verdades científicas aquilo que, na verdade, [[lexico:n:nada|nada]] mais é do que opiniões pessoais ou subjetivas. e) Admitidas a especialização universitária e a liberdade de [[lexico:o:opiniao|opinião]], Weber não compreende como o estudioso sinta a [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de inculcar nos estudantes em aula, [[lexico:a:alem|além]] da [[lexico:m:materia|matéria]] específica que constitui o [[lexico:o:objeto|objeto]] do seu ensino, também uma concepção do [[lexico:m:mundo|mundo]], pois não existe especialização em "[[lexico:p:profecia|profecia]] pedagógica". f) O professor que põe no mesmo saco a [[lexico:a:analise|análise]] rigorosa e o [[lexico:j:juizo|juízo]] de valor [[lexico:p:pessoal|pessoal]] conquista [[lexico:s:sucesso|sucesso]] mortificando o auditório: com [[lexico:e:efeito|efeito]], é fácil brincar de reformador onde não se deve enfrentar as forças e as tensões efetivas a serem reformadas. g) Quando os estudantes são forçados ao [[lexico:s:silencio|silêncio]] (ou ao semi-silêncio, pelo medo do exame), se lhes está faltando com o [[lexico:r:respeito|respeito]] e a [[lexico:l:lealdade|lealdade]], ostentando as qualidades próprias e preferências pessoais. h) Dado que a cátedra não permite paridade aos interlocutores, a [[lexico:s:simples|simples]] honestidade exige que o professor que quer propagar os seus ideais sirva-se de meios que estão à [[lexico:d:disposicao|disposição]] de todos os cidadãos: reuniões públicas (onde não se está imune ao contraditório), adesão a uma organização, a um [[lexico:c:circulo|círculo]], a um partido, [[lexico:u:uso|uso]] da imprensa, manifestações de rua etc. i) Uma vez na cátedra, o professor deve [[lexico:e:estar|estar]] a serviço da verdade e não dos grupos de poder ou dos grupos de pressão. l) Se se pensasse que a sala de aula é [[lexico:l:lugar|lugar]] de debate ideológico, então seria preciso conceder o mesmo direito aos adversários, pois a sala de aula não é tribuna para um só interlocutor. m) Se, durante uma lição, o professor não pode se conter em produzir avaliações, então deveria ter a [[lexico:c:coragem|coragem]] e a probidade de indicar aos alunos o que é [[lexico:p:puro|puro]] [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] [[lexico:l:logico|lógico]] ou [[lexico:e:explicacao|explicação]] empírica e o que tem a [[lexico:v:ver|ver]] com apreciações pessoais e convicções subjetivas. n) Em [[lexico:e:essencia|essência]], o professor não deve se aproveitar de sua posição de professor para fazer propaganda de seus valores. Os deveres do professor são dois: primeiro, ser cientista e ensinar os outros [[lexico:a:a-se|a se]] tornarem [[lexico:c:cientistas|cientistas]]; segundo, ter a coragem de propor em [[lexico:d:discussao|discussão]] os seus valores pessoais, especialmente onde eles podem ser efetivamente discutidos e não onde se possa facilmente contrabandeá-los. Foi por isso que Weber, em sua [[lexico:v:vida|vida]] de professor, sempre desdenhou a fácil [[lexico:f:formacao|formação]] de grupelhos de amigos de professor, grupinhos de [[lexico:a:amizade|amizade]] que vão em detrimento da formação científica dos alunos e da discussão [[lexico:c:critica|crítica]] dos valores do professor. o) A ciência é distinta dos valores, mas não está separada deles: uma vez fixado o [[lexico:o:objetivo|objetivo]], a ciência pode nos dar os meios mais apropriados para alcançá-lo, pode prever quais serão as prováveis consequências do empreendimento, pode nos dizer qual é ou será o "custo" da realização do [[lexico:f:fim|fim]] a que nos propomos, pode nos mostrar que, dada uma [[lexico:s:situacao|situação]] de fato, certos fins são irrealizáveis ou momentaneamente irrealizáveis e pode nos dizer também que o fim desejado contrasta com outros valores. Mas, de qualquer [[lexico:m:modo|modo]], a ciência nunca nos dirá o que devemos fazer. O que devemos fazer? Como devemos [[lexico:v:viver|viver]]? Se propormos essas interrogações à ciência, nunca teremos resposta, porque teremos batido à porta errada. Cada um de nós deve buscar essas respostas em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], seguindo a sua inspiração ou a sua fraqueza. O médico pode até nos curar, mas, enquanto médico, não está em condições de estabelecer se vale ou não vale à [[lexico:p:pena|pena]] viver.