===== AUTONOMIA ===== (in. Autonomy; fr. Autonomie; al. Autonomie; it. Autonomia). [[lexico:t:termo:start|termo]] introduzido por [[lexico:k:kant:start|Kant]] para designar a independência da [[lexico:v:vontade:start|vontade]] em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a qualquer [[lexico:d:desejo:start|desejo]] ou [[lexico:o:objeto:start|objeto]] de desejo e a sua [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de determinar-se em conformidade com uma [[lexico:l:lei:start|lei]] própria, que é a da [[lexico:r:razao:start|razão]]. Kant contrapõe a autonomia à [[lexico:h:heteronomia:start|heteronomia]], em que a vontade é determinada pelos objetos da [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] de desejar. Os ideais morais de [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]] ou [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] supõem a heteronomia da vontade porque supõem que ela seja determinada pelo desejo de alcançá-los e [[lexico:n:nao:start|não]] por uma lei sua. A independência da vontade em relação a qualquer objeto desejado é a [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:n:negativo:start|negativo]], ao passo que a sua legislação própria (como "[[lexico:r:razao-pratica:start|razão prática]]") é a liberdade no sentido [[lexico:p:positivo:start|positivo]]. "A [[lexico:l:lei-moral:start|lei moral]] não exprime [[lexico:n:nada:start|nada]] mais do que a autonomia da [[lexico:r:razao-pura:start|razão pura]] prática, isto é, da liberdade" (Crít. R. Prática, I, § 8). Em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] de tal autonomia, "[[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:s:ser:start|ser]] [[lexico:r:racional:start|racional]] deve considerar-se fundador de uma legislação [[lexico:u:universal:start|universal]]" (Grundlegungzur Met. der Sitten, II, B A 77). [[lexico:e:esse:start|esse]] ficou sendo o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] [[lexico:c:classico:start|clássico]] da autonomia Mais genericamente, fala-se hoje, p. ex., de "[[lexico:p:principio:start|princípio]] autônomo" no sentido de um princípio que tenha em si, ou ponha por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], a sua [[lexico:v:validade:start|validade]] ou a [[lexico:r:regra:start|regra]] da sua [[lexico:a:acao:start|ação]]. Do [[lexico:g:grego:start|grego]] autos = mesmo, e [[lexico:n:nomos:start|nomos]] = lei A vontade toma seus [[lexico:m:motivos:start|motivos]] da [[lexico:r:realidade:start|realidade]] globalmente considerada. Motivos de [[lexico:o:ordem:start|ordem]] [[lexico:m:moral:start|moral]], religiosa e profana determinam comumente a atuação concreta. A moral autônoma ou [[lexico:i:independente:start|independente]] (Kant e outros) desfaz esta conexão e defende uma [[lexico:l:legalidade:start|legalidade]] peculiar do moral, que, explicitando-se, serve não só para aclarar [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]], como também leva à [[lexico:s:separacao:start|separação]] [[lexico:r:real:start|real]]. Somente o [[lexico:b:bem:start|Bem]] ou, melhor, só a [[lexico:o:obrigacao:start|obrigação]] deve constituir os únicos motivos da ação moral, uma vez que os restantes motivos — transcendentes e também imanentes: [[lexico:i:interesse:start|interesse]] e inclinação, [[lexico:u:utilidade:start|utilidade]] e prejuízo, prêmio e castigo, felicidade subjetiva e [[lexico:b:bem-comum:start|bem comum]] [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]], [[lexico:a:autoridade:start|autoridade]] divina e humana, em [[lexico:g:geral:start|geral]] qualquer laço que nos prenda a [[lexico:d:deus:start|Deus]], incluindo o do [[lexico:a:amor:start|amor]] — perturbam a boa e "pura vontade". Perante as múltiplas e cambiantes formas do [[lexico:p:pragmatismo:start|pragmatismo]] ético, que, na melhor das [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]], garante a correção [[lexico:e:exterior:start|exterior]], a autonomia situa, com razão, a [[lexico:m:moralidade:start|moralidade]] na [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] interna. A [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] da [[lexico:t:teoria:start|teoria]] começa já, para [[lexico:q:quem:start|quem]] considere as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] dentro do âmbito do intra-mundano, no [[lexico:p:ponto:start|ponto]] em que ela, pondo de [[lexico:p:parte:start|parte]] o [[lexico:m:motivo:start|motivo]] ético principal (ordem, lei, [[lexico:v:virtudes:start|virtudes]]), descarta todos os restantes motivos terrenos que decerto facilitam a execução da ação, mas que não devem ser tomados em consideração, quando se trata de fundamentar moralmente a mesma ação. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], uma vez que a moralidade aumenta com a vinculação crescente aos valores éticos, e não devendo esta vinculação coincidir sempre e em toda a parte com a exclusão de outros motivos, podem tais motivos não suprimir a [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] moral do [[lexico:a:ato:start|ato]], desde que permaneçam subordinados ao [[lexico:v:valor:start|valor]] moral. A [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] entre autonomia como legalidade própria e heteronomia como legalidade estranha surge com toda a acuidade na [[lexico:q:questao:start|questão]] da fundamentação e [[lexico:m:motivacao:start|motivação]] extramundana da moralidade. A moral autônoma descarta geralmente a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] e, em parte, até a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de tal questão. Seu ardor em separar a moralidade da [[lexico:r:religiao:start|religião]] brota de uma concepção laica da [[lexico:v:vida:start|vida]], incapaz de [[lexico:c:compreender:start|compreender]] a [[lexico:a:analogia-do-ser:start|analogia do ser]] com a sua separação e [[lexico:u:uniao:start|união]] de Deus e do [[lexico:h:homem:start|homem]] à base da [[lexico:c:criacao:start|criação]]. A [[lexico:d:distincao:start|distinção]] [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]] entre Criador e criatura justifica e exige a heteronomia: a liberdade do homem está ligada à ordem e ao mandado de Deus. Uma autonomia que na moralidade vê, não só o valor subtraído acima da humana arbitrariedade, mas simplesmente o valor [[lexico:u:ultimo:start|último]], esquece a [[lexico:c:condicao:start|condição]] de criatura que o homem é e a exigência de [[lexico:s:soberania:start|soberania]] por parte de Deus. A religião relativiza a moralidade inserindo-a nesta [[lexico:s:superior:start|superior]] conexão. Não obstante, esta heteronomia não exclui uma certa autonomia relativa, uma vez que, mercê da [[lexico:a:analogia:start|analogia]] como relação ontológica, os preceitos divinos coincidem, quanto ao conteúdo, com as leis da humana [[lexico:n:natureza:start|natureza]], e a vontade moral deve fazer suas estas leis na [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] e ditá-las a si mesma, para que tenham valor para ela. VIDE [[lexico:i:imperativo-categorico:start|imperativo categórico]]; para o conceito de autonomia [[lexico:p:politica:start|política]] VIDE [[lexico:p:povo:start|povo]]. — Bolkovac. a) Etimologicamente, do grego autos, [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmo, e nomos, [[lexico:n:norma:start|norma]], regra, lei. Significa a [[lexico:a:autodeterminacao:start|autodeterminação]], a independência de constrangimento [[lexico:e:externo:start|externo]], também liberdade no sentido de exercício (liberdade de exercício). b) Para Kant, é a sujeição do querer a sua própria lei ([[lexico:i:imperativo:start|imperativo]] [[lexico:c:categorico:start|categórico]]). O oposto à heteronomia, que consiste na sujeição de normas determinadas por [[lexico:o:outro:start|outro]]. No caso de Kant, seria de leis, ou fins dados por uma outra vontade. Kant dá um sentido preciso ao termo "autonomia da vontade" que é o [[lexico:c:carater:start|caráter]] da vontade pura de determinar-se, só em virtude da sua própria [[lexico:e:essencia:start|essência]], quer dizer, pela única [[lexico:f:forma:start|forma]] universal da lei moral, com exclusão de todo motivo [[lexico:s:sensivel:start|sensível]]. Kant distingue entre o «[[lexico:e:eu:start|eu]]» [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] ou racional, e o «eu» [[lexico:n:natural:start|natural]], que inclui os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] sensuais e de desejo. No «eu» verdadeiro coincidem a razão prática e a vontade, que é idêntica com ela, e tem, como essência, a lei moral, pela qual se determina a si mesmo. c) Na [[lexico:s:sociologia:start|sociologia]], autonomia significa a [[lexico:p:potencia:start|potência]] de um [[lexico:g:grupo:start|grupo]], particularmente de um grupo [[lexico:p:politico:start|político]], de organizar e administrar a si mesmo. Essa potência pode ser absoluta ou limitada. Se é absoluta, chama-se geralmente soberania. Chama-se assim ao [[lexico:f:fato:start|fato]] de uma realidade se reger por uma lei própria, distinta de outras leis mas não forçosamente incompatível com elas. No vocabulário filosófico, o termo “autonomia” costuma empregar-se em dois sentidos principais. I. SENTIDO [[lexico:o:ontologico:start|ONTOLÓGICO]]: Segundo este, supõe-se que certas esferas da realidade são autônomas em relação outras. Assim, quando se postula que a [[lexico:e:esfera:start|esfera]] da realidade orgânica se rege por leis distintas das da esfera da realidade inorgânica, diz-se que a primeira é autônoma relativamente à segunda. Essa autonomia não implica que uma esfera determinada não se reja também pelas leis de outra esfera considerada como mais fundamental. II. SENTIDO ÉTICO: Segundo ele, afirma-se que uma lei é autônoma quando tem em si mesma o seu [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] e a razão própria da sua legalidade. Este sentido foi elaborado especialmente por Kant. O eixo da autonomia da lei moral não constitui, segundo Kant, autonomia da vontade, pela qual se torna [[lexico:p:possivel:start|possível]] o imperativo categórico. Na sua FUNDAMENTAÇÃO DA [[lexico:m:metafisica:start|METAFÍSICA]] DOS [[lexico:c:costumes:start|costumes]], por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], Kant indica que a autonomia da vontade é a [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] mediante a qual a vontade constitui uma lei por si mesma (independentemente de qualquer propriedade dos objetos do querer). O princípio de autonomia diz: “escolher sempre de tal [[lexico:m:modo:start|modo]] que a própria volição abarque as máximas da nossa [[lexico:e:escolha:start|escolha]] como lei universal”. Se um ato é determinado por algo alheio à vontade, é atribuído, consequentemente, a uma [[lexico:c:coacao:start|coação]] externa e não é concebido como moral. Em contrapartida, a heteronomia da vontade constitui, no entender do [[lexico:d:dito:start|dito]] autor, a [[lexico:o:origem:start|origem]] dos [[lexico:p:principios:start|princípios]] inautênticos da moral. Enquanto os defensores da heteronomia pensam que não há possibilidade moral efetiva sem um fundamento alheio à vontade (quer na natureza, quer no [[lexico:r:reino:start|reino]] [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]], quer no reino dos valores absolutos, quer em Deus), Kant considera que todos os princípios da heteronomia, quer empíricos (ou derivados do princípio da felicidade e baseados em sentimentos físicos ou morais), quer racionais (ou derivados do princípio de perfeição, que pode ser ontológico ou teológico), disfarçam o [[lexico:p:problema:start|problema]] da [[lexico:l:liberdade-da-vontade:start|liberdade da vontade]] e, portanto, da moralidade autêntica dos próprios atos. Algumas destas concepções, diz Kant, são melhores que outras - por exemplo, a concepção ontológica de perfeição que se apresenta dentro dos princípios racionais é, a seu [[lexico:v:ver:start|ver]], melhor que a concepção teológica, que deriva a moralidade de uma vontade divina absolutamente perfeita. Os partidários desta última derivação costumam chamar-se aderentes a uma moral teonoma. O fato de dar-se a si mesmo a própria lei. — A autonomia se opõe portanto à [[lexico:a:anarquia:start|anarquia]], caracterizada pela rejeição de qualquer lei. A autonomia é a [[lexico:n:nocao:start|noção]] fundamental da moral de Kant: quando um [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] age sem princípios é porque não possui qualquer [[lexico:e:escrupulo:start|escrúpulo]] (anarquia moral). Quando a lei lhe é imposta de fora, a reta [[lexico:c:conduta:start|conduta]] não apresenta nenhum valor moral; o indivíduo não faz senão obedecer ("heteronomia": lei que vem de outrem). Somente quando o indivíduo impõe a si [[lexico:p:proprio:start|próprio]] uma lei é que age moralmente; [[lexico:a:alem:start|além]] disso, ele assim realiza sua liberdade, que não pode se realizar no [[lexico:v:vazio:start|vazio]], mas apenas "por intermédio de uma lei". No [[lexico:p:plano:start|plano]] [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]] pode-se dizer que a verdadeira liberdade consiste não em não trabalhar, mas em fazer o [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] que se quer. A autarcia é um caso [[lexico:p:particular:start|particular]] da autonomia no nível dos Estados: consiste em se dar a si mesmo a lei de sua [[lexico:e:economia:start|economia]], o que supõe uma "economia fechada". {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}