===== ATOMISTAS ===== A última tentativa de responder aos problemas propostos pelo [[lexico:e:eleatismo:start|eleatismo]] permanecendo no âmbito da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] da [[lexico:p:physis:start|physis]] foi realizada por Leucipo e [[lexico:d:democrito:start|Demócrito]], com a [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] do [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de [[lexico:a:atomo:start|átomo]]. Nativo de Mileto, Leucipo foi para a Itália, indo para Eleia (onde conheceu a doutrina eleática), por volta de meados do século V a.C. De Eleia foi para Abdera, onde fundou a [[lexico:e:escola:start|escola]] que seria elevada ao seu mais alto nível por Demócrito, nascido nesta mesma [[lexico:c:cidade:start|cidade]]. Demócrito era um pouco mais jovem do que seu [[lexico:m:mestre:start|mestre]]: talvez tenha nascido em torno de 460 a.C. e morreu muito velho, alguns lustros depois de [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]]. Foram-lhe atribuídos numerosos escritos, mas, provavelmente;oconjunto dessas obras constituía o [[lexico:c:corpus:start|corpus]] da escola, para o qual confluíam as obras do mestre e de alguns discípulos. Realizou longas viagens e adquiriu uma vasta [[lexico:c:cultura:start|cultura]], em diversos campos, talvez a maior que até aquele [[lexico:m:momento:start|momento]] algum [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] houvesse alcançado. Os atomistas também reafirmam a [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] do [[lexico:n:nao-ser:start|não-ser]], sustentando que o nascer [[lexico:n:nada:start|nada]] mais é do que "um agregar-se de [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que já existem" e o morrer "um desagregar-se", ou melhor, um separar-se dessas coisas. Mas a concepção dessas realidades originárias é muito nova: trata-se de um "[[lexico:i:infinito:start|infinito]] [[lexico:n:numero:start|número]] de corpos, invisíveis pela pequenez e o volume". Tais corpos são indivisíveis, sendo por isso á-tomos (em [[lexico:g:grego:start|grego]], átomo significa o não-divisível) e, naturalmente, incriados, indestrutíveis e imutáveis. Em certo [[lexico:s:sentido:start|sentido]], esses "átomos" estão mais próximos do [[lexico:s:ser:start|ser]] eleático do que das [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] "raízes" ou [[lexico:e:elementos:start|elementos]] de [[lexico:e:empedocles:start|Empédocles]] ou das "[[lexico:s:sementes:start|sementes]]" ou [[lexico:h:homeomerias:start|homeomerias]] de [[lexico:a:anaxagoras:start|Anaxágoras]], porque são qualitativamente indiferenciados: todos eles são um ser-pleno do mesmo [[lexico:m:modo:start|modo]], sendo diferentes entre si somente na [[lexico:f:forma:start|forma]] ou [[lexico:f:figura:start|figura]] geométrica — e, como tais, mantêm ainda a [[lexico:i:igualdade:start|igualdade]] do ser eleático de si consigo mesmo (absoluta indiferença qualitativa). Os átomos dos abderitas, portanto, são a fragmentação do Ser-Uno eleático em infinitos seres-unos, que aspiram a manter o maior número [[lexico:p:possivel:start|possível]] de características do Ser-Uno eleático. Para o [[lexico:h:homem:start|homem]] [[lexico:m:moderno:start|moderno]], a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] "átomo" evoca inevitavelmente significados que o [[lexico:t:termo:start|termo]] adquiriu na [[lexico:f:fisica:start|física]] pós-Galileu. Nos abderitas, porém, o átomo levava o selo do modo de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] especificamente grego. Ele indica uma forma originária, sendo, portanto, átomo-forma, ou seja, forma indivisível. O átomo se diferencia dos outros átomos, [[lexico:a:alem:start|além]] da figura, também pela [[lexico:o:ordem:start|ordem]] e pela [[lexico:p:posicao:start|posição]]. E as formas, assim como a posição e a ordem, podem variar ao infinito. Naturalmente, o átomo [[lexico:n:nao:start|não]] é perceptível pelos sentidos, mas somente pela [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]]. O átomo, portanto, é a forma visível ao [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]]. É claro que, para ser pensado como "pleno" (de ser), o átomo pressupõe necessariamente o "[[lexico:v:vazio:start|vazio]]" (de ser; portanto, o não-ser). Assim, o vazio é tão [[lexico:n:necessario:start|necessário]] como o pleno: sem vazio, os átomos-formas não poderiam se diferenciar nem se mover. Átomos, vazio e [[lexico:m:movimento:start|movimento]] constituem a [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] de tudo. No entanto, está claro que os atomistas procuraram [[lexico:s:superar:start|superar]] a grande [[lexico:a:aporia:start|aporia]] eleática, buscando salvar ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] a "[[lexico:v:verdade:start|verdade]]" e a "[[lexico:o:opiniao:start|opinião]]", ou seja, os "fenômenos". A verdade é dada pelos átomos, que se diversificam entre si somente pelas diferentes determinações geométrico-mecânicas (figura, ordem e posição), [[lexico:b:bem:start|Bem]] como do vazio; os vários fenômenos ulteriores e suas diferenças derivam do diferente encontro dos átomos e do encontro posterior das coisas por eles produzidas com os nossos sentidos. Como escrevia Demócrito: "E opinião o frio e opinião o calor; verdade os átomos e o vazio." Certamente, essa foi a mais engenhosa tentativa de justificar a opinião (a [[lexico:d:doxa:start|doxa]], como a chamavam os gregos) que ocorreu no âmbito dos [[lexico:p:pre-socraticos:start|pré-socráticos]]. Mas é necessário [[lexico:o:outro:start|outro]] esclarecimento acerca do movimento. Os estudos modernos mostraram que é preciso distinguir três formas de movimento no [[lexico:a:atomismo:start|atomismo]] originário: a) o movimento primigênio dos átomos devia ser um movimento caótico, com os volteios em todas as direções dados pela poeira atmosférica que se vê nos raios de [[lexico:s:sol:start|sol]] que se filtram através da janela; b) desse movimento, deriva um movimento vertiginoso, que leva os átomos semelhantes a agregarem-se entre si e os diversos átomos a disporem-se de modos diversos, gerando o [[lexico:m:mundo:start|mundo]]; c) por [[lexico:f:fim:start|fim]], há um movimento dos átomos que se libertam de todas as coisas (que são compostos atômicos), formando os [[lexico:e:efluvios:start|eflúvios]] (um [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] [[lexico:t:tipico:start|típico]] é o dos perfumes). É evidente que, desde que que os átomos são infinitos, também são infinitos os [[lexico:m:mundos:start|mundos]] que deles derivam, diferentes uns dos outros (mas, por vezes, também idênticos, pois, na infinita [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de combinações, é possível verificar-se uma combinação idêntica). Todos os mundos nascem, se desenvolvem e depois se corrompem, para dar [[lexico:o:origem:start|origem]] a outros mundos, ciclicamente e sem fim. Os atomistas passaram à [[lexico:h:historia:start|história]] como aqueles que colocaram o mundo "ao sabor do [[lexico:a:acaso:start|acaso]]". Mas isso não quer dizer que eles não atribuem [[lexico:c:causas:start|causas]] ao nascer do mundo (causas que, de [[lexico:f:fato:start|fato]], são as já explicadas), mas sim que não estabelecem uma [[lexico:c:causa:start|causa]] inteligente, uma causa final. A ordem (o cosmos) é feito de um encontro [[lexico:m:mecanico:start|mecânico]] entre os átomos, não projetado e não produzido por uma inteligência. A própria inteligência segue-se e não precede o [[lexico:c:composto:start|composto]] [[lexico:a:atomico:start|atômico]]. Isso, porém, não impediu que os atomistas indicassem a [[lexico:e:existencia:start|existência]] de átomos em certo sentido privilegiados: lisos, esferiformes, de [[lexico:n:natureza:start|natureza]] ígnea, os constitutivos da [[lexico:a:alma:start|alma]] e da inteligência. E, segundo testemunhos precisos, Demócrito teria até mesmo considerado tais átomos como divinos. O [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] deriva dos eflúvios dos átomos que se desprendem de todas as coisas (como já dissemos), entrando em contato com os sentidos. Nesse contato, os átomos semelhantes fora de nós impressionam os semelhantes que estão em nós, de modo que o [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] conhece o semelhante, analogamente ao que já havia [[lexico:d:dito:start|dito]] Empédocles. Mas Demócrito insistiu também na [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre [[lexico:c:conhecimento-sensorial:start|conhecimento sensorial]] e conhecimento [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]]: o primeiro nos dá só a opinião, ao passo que o segundo nos dá a verdade, no sentido que já apontamos. Demócrito (que viveu na segunda metade do século V a.C.) foi o sistematizador do atomismo e a [[lexico:m:mente:start|mente]] mais [[lexico:u:universal:start|universal]] dos pré-socráticos. Demócrito também ficou famoso por suas esplêndidas [[lexico:s:sentencas:start|sentenças]] morais, que, no entanto, parecem provir mais da [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] da [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] grega do que de seus [[lexico:p:principios-ontologicos:start|princípios ontológicos]]. A [[lexico:i:ideia:start|ideia]] central dessa [[lexico:e:etica:start|ética]] é a de que "a alma é a morada da nossa [[lexico:s:sorte:start|sorte]]" e que é precisamente na alma e não nas coisas exteriores ou nos [[lexico:b:bens:start|bens]] do [[lexico:c:corpo:start|corpo]] que está a [[lexico:r:raiz:start|raiz]] da [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]] ou da infelicidade. Por fim, há uma [[lexico:m:maxima:start|máxima]] sua que mostra como já amadurecera nele uma [[lexico:v:visao:start|visão]] [[lexico:c:cosmopolita:start|cosmopolita]]: "[[lexico:t:todo:start|todo]] país da [[lexico:t:terra:start|Terra]] está [[lexico:a:aberto:start|aberto]] ao homem [[lexico:s:sabio:start|sábio]], porque a pátria do homem virtuoso é o [[lexico:u:universo:start|universo]] inteiro." {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}