===== ATO E POTÊNCIA ===== Os [[lexico:q:quatro|Quatro]] principais axiomas sobre o [[lexico:a:ato|ato]] e a [[lexico:p:potencia|potência]], estabelecidos pela [[lexico:e:escolastica|escolástica]], são os seguintes: 1) O da [[lexico:l:limitacao|limitação]] do ato pela potência, que serve para [[lexico:e:explicar|explicar]] a [[lexico:f:finitude|finitude]] dos seres; 2) o [[lexico:a:axioma|axioma]] da multiplicação do ato, que serve para explicar a [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] dos seres de uma mesma [[lexico:e:especie|espécie]]; 3) o axioma da [[lexico:u:unidade|unidade]] do ato, que serve para explicar a verdadeira unidade dos seres, cuja [[lexico:n:natureza|natureza]] se compõe de dois [[lexico:p:principios|princípios]] substanciais: [[lexico:m:materia-e-forma|matéria e forma]]. É o [[lexico:p:problema|problema]] da [[lexico:u:unicidade|unicidade]] da [[lexico:f:forma|forma]] [[lexico:s:substancial|substancial]]; 4) o axioma do trânsito da potência ao ato, muitas vezes considerado como a mais profunda [[lexico:e:expressao|expressão]] do [[lexico:p:principio-de-causalidade|princípio de causalidade]], e que serve de base para a [[lexico:p:prova|prova]] da [[lexico:e:existencia-de-deus|existência de Deus]] como [[lexico:a:atualidade|atualidade]] pura ([[lexico:p:primus-motor|primus motor]] immobilis), e de sua contínua cooperação com as criaturas. Para os tomistas, [[lexico:a:ato-e-potencia|ato e potência]] pertencem à [[lexico:o:ordem|ordem]] [[lexico:r:real|real]], em [[lexico:c:contraposicao|contraposição]] à ordem [[lexico:l:logica|lógica]]. Estão na [[lexico:r:relacao|relação]] mútua de determinante e de determinável, e sustentam eles haver uma [[lexico:d:distincao|distinção]] real. Os escotistas, adversários dos primeiros, consideram apenas como gradus metaphysici à [[lexico:s:semelhanca|semelhança]] das formalidades, como “[[lexico:v:vida|vida]], heceidade”, etc. e distintas ex natura rei. Tal afirmativa leva aos tomistas a chamá-los de realistas exagerados. Cabe [[lexico:a:agora|agora]] [[lexico:s:saber|saber]] o que entendem por real. Ora, tal [[lexico:t:termo|termo]], em toda a escolástica, é de um [[lexico:s:sentido|sentido]] ambíguo. (Vide real). Segundo Gredt, há distinções entre ato e potência. O ato é separável da potência (actus realiter est separabilis a potência. . . potentiam ab [[lexico:a:actu|actu]] realiter distingui ex eo [[lexico:q:quod|quod]] potentia est id quod est determinabile, actus [[lexico:v:vero|vero]] id quod est determinans: iam vero determinans et determinabile realiter distinguntur oportet) (Elementa II 5,39). O que se pode separar é [[lexico:o:o-que-e|o que é]] realmente distinto. [[lexico:a:alem|Além]] disso, o que determina e o que é determinado [[lexico:n:nao|não]] podem [[lexico:s:ser|ser]] a mesma [[lexico:c:coisa|coisa]], e se o ato determina a potência, e esta é determinada por aquele, a distinção é então efetiva. Do contrário, seriam o determinante e o determinado apenas aspectos, sobre os quais nosso funcionamento especificamente intelectual estabelece os [[lexico:c:conceitos|conceitos]] de ato e de potência. Por [[lexico:a:acaso|acaso]] tudo quanto distingue ele conceitualmente pode ser afirmado com distinção real, no sentido que os tomistas empregam? Nesse caso, tudo o que fosse realmente [[lexico:i:identico|idêntico]] teria que ser conceitualmente idêntico. Se é assim, a [[lexico:a:atividade|atividade]] abstrativa de nossa intelectualidade estaria negada, e teríamos então estabelecido um paralelismo entre a ordem do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] e a ordem do ser, o que é, na escolástica, o [[lexico:f:fundamento|fundamento]] epistemológico da distinção [[lexico:f:formal|formal]] escotística, e que, no problema dos [[lexico:u:universais|universais]], conduz a um [[lexico:r:realismo|realismo]] conceptual [[lexico:e:extremo|extremo]], como pensam muitos. Os escotistas afirmam que há apenas uma distinctio formalis. Os tomistas respondem que os argumentos não procedem, porque ato e potência são realmente distintos, portanto distintos na [[lexico:m:mente|mente]] como nas [[lexico:c:coisas|coisas]]. Não são meros aspectos, mas realidades separáveis. Suarez, como [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]], acusava de [[lexico:e:erro|erro]] aqueles que pretendem medir a distinção das coisas pela distinção dos conceitos. Não há nenhuma [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de que a meramente conceptual corresponda, como fundamento, a uma distinção real. Mas, para Tomás de Aquino e os tomistas, quanto a ato e potência, há essa distinctio realis ex natura rei. Qual o [[lexico:s:significado|significado]] do termo real para os escolásticos ? Real refere-se à ordem da [[lexico:e:existencia|existência]]. Significa o contrário do [[lexico:n:nada|nada]] «real», que também chamam de nada [[lexico:f:fisico|físico]], em contraste com o nada [[lexico:a:absoluto|absoluto]] ou metafísico. Ao [[lexico:m:mundo|mundo]] da [[lexico:m:metafisica|metafísica]] [[lexico:g:geral|geral]] pertencem as [[lexico:e:essencias|essências]]. Todos os objetos, que pertencem à ordem metafísica se denominam de reais, embora não existam actu (Fuetscher). A ordem metafísica é uma ordem real. É [[lexico:a:antitese|antítese]] do [[lexico:s:simples|simples]] nada, ou nada absoluto. As essências, embora constem de uma [[lexico:d:determinacao|determinação]], ou de várias, têm verdadeira unidade, e, como tais, são capazes de receber a existência, pensam os escolásticos. Temos, assim, um real-físico e um real-metafísico. «[[lexico:e:essencia|Essência]] significa a [[lexico:s:soma|soma]] das determinações de um [[lexico:o:objeto|objeto]], o [[lexico:c:conceito|conceito]] [[lexico:e:essencial|essencial]], que contém todas aquelas notas que são comuns aos indivíduos de uma mesma [[lexico:c:classe|classe]] de ser, e só aquelas que constituem precisamente essa classe com [[lexico:d:diferenca|diferença]] de todas as outras. . . Uma essência, enquanto é comum a vários seres e constitui por isso mesmo conceito essencial dos mesmos, só pode achar-se, enquanto tal, num [[lexico:s:sujeito|sujeito]] cognoscente; não pode ser um “objeto” do mundo físico. . . Pertence, necessariamente, à ordem lógica... E se considerarmos a essência puramente em si, em absoluto, ou enquanto é capaz de receber a existência, então tal essência pertencerá à ordem real. Estará «objetivada», será um «objeto» da ordem “metafísica”, um «objeto» do [[lexico:r:reino|reino]] das possibilidades, do qual pode ser transladado para a existência pela [[lexico:a:acao|ação]] de uma [[lexico:c:causa|causa]] eficiente, e convertido, desse [[lexico:m:modo|modo]], num objeto da ordem «[[lexico:f:fisica|física]]» . . . Os conceitos, nós os concebemos como «criações» da ordem “lógica” (Fuetscher). Daí, a base tomista da distinção real de ato e potência fica assegurada, mas não sabemos qual espécie de real, se o real-físico ou o real-metafísico. Se se admitir um paralelismo [[lexico:p:perfeito|perfeito]] entre a ordem metafísica e a real, então tudo quanto se distingue real-metafisicamente será distinto real-fisicamente, isto é, o que pertence à ordem da [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] e o que pertence à ordem da existência. Os objetos metafísicos prescindem, portanto, da existência. Se não existe o paralelismo, então, neste caso, os objetos de ordem metafísica, distintos real-metafisicamente, podem não [[lexico:t:ter|ter]] uma [[lexico:i:identidade|identidade]] real na ordem da existência. Resta provar, e em cada caso, que há uma distinção real-metafísica e real-física. Estamos, então, no problema do paralelismo entre a ordem do ser e a ordem do conhecimento. Aceito [[lexico:e:esse|esse]] paralelismo, distingue-se realmente o que é distinto independentemente do conhecimento. Toda distinção lógica ou conceitual é aquela que apenas se realiza no [[lexico:p:plano|plano]] do conhecimento. «As essências metafísicas, enquanto supõem uma [[lexico:a:abstracao|Abstração]] do [[lexico:p:pensamento|pensamento]], dizem relação com o sujeito cognoscente, e sob esse [[lexico:p:ponto|ponto]] podem ser computadas como da ordem do conhecimento, por contraposição à ordem física de ser, cujos objetos não possuem o ser em tal ordem por [[lexico:m:meio|meio]] do pensamento. Por isso, a ordem do conhecimento não coincide exatamente com a ordem “lógica”, pois os objetos metafísicos não são ainda objetos “lógicos”. Ambos convém em não poder “[[lexico:e:existir|existir]]” em sua ordem, mas dependendo de um sujeito cognoscente. Mas, fora disso, as criações lógicas são de tal índole, quanto ao seu conteúdo, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], o [[lexico:c:conceito-universal|conceito universal]] como tal —, que não podem achar-se, nem sequer segundo sua [[lexico:q:quididade|quididade]]: , fora de um sujeito cognoscente: enquanto as essências metafísicas — por exemplo, [[lexico:h:homem|homem]], causa, e [[lexico:s:substancia|substância]] — podem achar-se, enquanto ao seu conteúdo, realizadas na ordem física. A [[lexico:c:consciencia|consciência]] metafísica, concebida como essência metafísica de um ser, converte-se no conceito essencial do mesmo, e, consequentemente, num [[lexico:e:ens|ens]] logicum. Em compensação, se se considera a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] puramente isolada, esta essência, considerada em absoluto — exemplo: homem — pertencerá à ordem metafísica e será um ens metaphysicum. E tal seguirá sendo, embora se considere a possibilidade de realização dessa essência. Se se acha de [[lexico:f:fato|fato]] realizada na ordem da existência, então será um ens physicum. Assim a mesma essência, segundo os diversos pontos de vista, pode pertencer a diversas ordens (Fuetscher). Não negam os escotistas a fundamental distinção real entre ato e potência, mas negam que seja apenas uma [[lexico:r:realidade|realidade]] «[[lexico:i:independente|independente]] do conhecimento». A [[lexico:c:ciencia|ciência]], para os metafísicos, est de universalibus. Ela estuda os objetos mediante a Abstração de sua [[lexico:i:individualidade|individualidade]] e os estuda na generalidade. Mas a ciência não os estuda em sua forma abstrata, mas enquanto à sua quididade. Consideram os metafísicos a ordem da essência por contraposição à ordem da existência. Os objetos da metafísica não subsistem antes da atividade cognoscitiva e com independência dela, mas pressupõem a Abstração da existência, como o mostra Fuetscher. Abstraímos as «essências;» das coisas que se apresentam ante nossa [[lexico:e:experiencia|experiência]] interna e externa, analisamo-las e comparamo-las com os diversos [[lexico:e:elementos|elementos]] singulares, formamos novas unidades, e chegamos, por este [[lexico:c:caminho|caminho]], às [[lexico:r:relacoes|relações]] e leis necessárias que reinam entre elas. Na relação entre o ato e a potência como sujeito cognoscente, a [[lexico:p:posicao|posição]] tomista é declarada platônica, por alguns escolásticos não tomistas. ? ... A [[lexico:i:imaterialidade|imaterialidade]] é a [[lexico:c:condicao|condição]] da [[lexico:i:inteligibilidade|inteligibilidade]]. O cognoscível é o imaterial, não o material. O que é actu cognoscível, deve [[lexico:e:estar|estar]] actu livre da [[lexico:m:materia|matéria]]. Em compensação, o que está actu na matéria não é cognoscível actu, mas só em potência, posto que pode ser despojado da matéria. Com esse [[lexico:f:fim|fim]], possui o homem uma [[lexico:f:faculdade|faculdade]] espiritual [[lexico:p:particular|particular]], o intellectus agens, cuja missão é despojar a forma da matéria, e fazê-la, desse modo, actu cognoscível. Muito [[lexico:b:bem|Bem]]: como a matéria é o principio da [[lexico:i:individuacao|individuação]], resulta daí que o [[lexico:s:singular|singular]], o [[lexico:i:individuo|indivíduo]], não é diretamente cognoscível, mas apenas a forma “abstraída” da matéria, o [[lexico:u:universal|universal]]. O singular conhece-se por [[lexico:r:referencia|referência]] à [[lexico:i:imagem|imagem]] [[lexico:s:sensivel|sensível]] da [[lexico:f:fantasia|fantasia]], imagem da qual o intellectus agens tomou a forma universal (Fuetscher). [[lexico:t:todo|todo]] cognoscível é reduzido a esquemas, através do [[lexico:p:processo|processo]] de [[lexico:a:assimilacao|assimilação]], portanto incluído no esquemático, no que é o conteúdo do conceito. Dessa forma, tudo quanto conhecemos são qualidades, notas, aspectos classificáveis em conceitos. Por mais que procuremos captar a [[lexico:s:singularidade|singularidade]] da unidade, ela nos escapa porque toda a nossa inteligibilidade está condicionada aos esquemas, que funcionam como generalizadores. No entanto, sabemos, sem ter uma [[lexico:i:inteleccao|intelecção]] (dentro da atividade da intelectualidade), que há essa unicidade, mas sabemos confuse, confusamente (fundida com. . . outros aspectos). O [[lexico:e:existencialista|existencialista]], que a afirma, desespera de obtê-la, porque sempre encontrará véus que a ocultam. O [[lexico:u:unico|único]] é inapreensível e incomunicável, afirma. Mas que apreensibilidade e que comunicabilidade queria ele? Uma apreensibilidade e comunicabilidade intelectuais só as podemos ter através de conceitos e por conceitos, portanto generalidades. Querem [[lexico:a:apreender|apreender]] a unicidade, através dos sentidos, pela [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]]? [[lexico:i:impossivel|Impossível]] por que esses estarão condicionados aos esquemas sensório-motrizes e pelas estruturas já formadas por nós, através da experiência, e toda [[lexico:a:apreensao|apreensão]] estará condicionada ao [[lexico:d:dinamismo|dinamismo]] da [[lexico:a:adaptacao|adaptação]] psíquica. Os fundamentos platônicos do [[lexico:t:tomismo|tomismo]] têm uma base, e esta está esquematicamente fundada na intelectualidade e no sensório-motriz (sensibilidade). A cognoscibilidade está, portanto, jungida ao geral, ao imaterial, à forma, que se atualiza no singular, sem se tornar singularizada, isto é, em franca [[lexico:o:oposicao|oposição]] a este. A materialidade da singularidade é inapreensível. E para o tomismo, a forma unida com a materialidade não é actu cognoscível, mas só em potência. Terá, portanto, que despojar-se primeiramente da matéria, «desmaterializar-se» para ser actu intelligibilis.