===== ATO DE FÉ ===== A [[lexico:f:fe|fé]] pode [[lexico:s:ser|ser]] entendida como [[lexico:v:virtude|virtude]] e como [[lexico:a:ato|ato]]. Prescindimos neste [[lexico:e:estudo|estudo]] da fé como virtude, para nos limitar exclusivamente ao "[[lexico:a:ato-de-fe|ato de fé]]". Pois [[lexico:b:bem|Bem]]; o ato de fé é um ato [[lexico:c:complexo|complexo]]; quer dizer que consta de vários [[lexico:e:elementos|elementos]]. A [[lexico:a:analise|análise]] pode decompô-lo e fazer-nos descobrir que o ato de fé é [[lexico:c:composto|composto]] de elementos psíquicos, de elementos lógicos e de objetos reais. Por conseguinte, o ato de fé interessará, por sua complicada [[lexico:e:estrutura|estrutura]], a três ciências filosóficas: á [[lexico:p:psicologia|psicologia]], à [[lexico:l:logica|lógica]] e à [[lexico:o:ontologia|ontologia]] ([[lexico:t:teoria|teoria]] dos objetivos reais). Mas, de outra [[lexico:p:parte|parte]], os objetos que no ato de fé propriamente [[lexico:d:dito|dito]] apreendemos são objetos muito particulares; pertencem a uma especial [[lexico:m:modalidade|modalidade]] da [[lexico:r:realidade|realidade]], que pode ser chamada a realidade [[lexico:s:sobrenatural|sobrenatural]] ou realidade divina. Deste lado, pois, o ato de fé interessa também à [[lexico:c:ciencia|ciência]] da realidade sobrenatural ou divina, cujo [[lexico:n:nome|nome]] é [[lexico:t:teologia|teologia]]. São, pois [[lexico:q:quatro|Quatro]] facetas que o ato de fé apresenta, dando frente para quatro ciências distintas: a psicologia, a lógica, a ontologia e a teologia. Na [[lexico:u:unidade|unidade]] de sua [[lexico:e:essencia|essência]], o ato de fé apresenta, pois, problemas em grande [[lexico:n:numero|número]] de direções diversas. Pode estudá-lo o teólogo; e estuda-o de [[lexico:f:fato|fato]] como [[lexico:f:fundamento|fundamento]] primordial da [[lexico:d:disciplina|disciplina]] teológica, a qual é ciência, justa e precisamente porque o ato de fé é ato de [[lexico:c:conhecimento-objetivo|conhecimento objetivo]]. Pode também estudá-lo o psicólogo como ato [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] da [[lexico:a:alma|alma]]; e indagar se é ato de toda a alma ou de uma ou de várias [[lexico:f:faculdades-da-alma|faculdades da alma]] e se é ato de todas as almas ou de algumas tão-somente e de quais. Pode estudá-lo, outrossim, o [[lexico:l:logico|lógico]] para procurar o fundamento de validez que se deve conceder às afirmações da fé. Por [[lexico:u:ultimo|último]], pode considerá-lo o metafísico ou o ontólogo quanto à índole da realidade ou [[lexico:o:objetividade|objetividade]] sobre que incide. No estudo completo do ato de fé, teriam, pois, de colaborar amistosamente essas quatro ciências: a psicologia, a lógica, a ontologia e a teologia. As três primeiras pertencem ao conjunto de disciplinas que geralmente se chamam [[lexico:f:filosofia|Filosofia]]. O ato de fé oferece-nos, pois, um [[lexico:t:tema|tema]], no qual se verifica, de [[lexico:m:modo|modo]] [[lexico:e:exemplar|exemplar]], a antiga concepção da filosofia como ciência auxiliar ou [[lexico:p:propedeutica|propedêutica]] da teologia. Sem tantos eufemismos, diziam singelamente os antigos que a filosofia era a serva ou criada da teologia, [[lexico:a:ancilla-theologiae|ancilla theologiae]]. Mas, de uns três séculos para cá, a filosofia chamada [[lexico:m:moderna|moderna]] emancipou-se, por assim dizer e já [[lexico:n:nao|não]] quer servir à ciência de [[lexico:d:deus|Deus]]. Rebelou-se até mesmo contra a ciência de Deus e ataca-a na sua própria base, negando-lhe seu [[lexico:o:objeto|objeto]], pondo em interdição sua [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] e realidade objetivas. Por que a filosofia "moderna" julga inválido o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] de Deus? Por que nega a validez objetiva do ato de fé? Qual é o germe primordial dessa sua [[lexico:a:atitude|atitude]] negativa? Preparar a resposta a essas perguntas é o objeto primordial da presente lição. No ato de fé devemos distinguir antes de tudo o ato de uma parte e o objeto de outra. Como [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] [[lexico:p:psiquico|psíquico]], o ato de fé é [[lexico:i:intencional|intencional]]; quer dizer, refere-se a um objeto, recai sobre um objeto. Foi talvez a principal contribuição de [[lexico:b:brentano|Brentano]] à filosofia [[lexico:a:atual|atual]] esta caracterização do fenômeno psíquico como intencional; quer dizer, como ato subjetivo referido a um objeto ou que recai sobre um objeto. Uma [[lexico:c:coisa|coisa]] é o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] e outra o pensado pelo pensamento; uma coisa é volição e outra o desejado pela volição. [[lexico:t:todo|todo]] pensamento é pensamento de algo; toda [[lexico:s:sensacao|sensação]] é sensação de algo; todo [[lexico:d:desejo|desejo]], toda [[lexico:a:aspiracao|aspiração]], toda volição são desejos de algo, aspiração de algo, volição de algo. E este algo pensado, [[lexico:s:sentido|sentido]] ou pretendido, não pode ser confundido ou identificado com o ato subjetivo do pensá-lo, senti-lo, querê-lo. [[lexico:e:esse|esse]] algo é o objeto intencional do fenômeno psíquico ou, melhor dito, do ato. Com esta singela averiguação, já [[lexico:p:por-si|por si]] evidente, fica eliminado, a mil léguas do [[lexico:h:horizonte|horizonte]] intelectual, esse [[lexico:v:vago|vago]] e desconsertante "[[lexico:s:subjetivismo|subjetivismo]]" que amorosamente cultivaram, como ninho de benquistas confusões, muitos filósofos modernos. O ato e o objeto encontram-se, pois, um diante do [[lexico:o:outro|outro]]. O ato de fé recai sobre o objeto, e o recair sobre o objeto é para ele [[lexico:e:essencial|essencial]]. Se não há objeto sobre o qual incida o ato, não há também ato de fé. Podem ser, pois, duas as [[lexico:c:causas|causas]] que anulem ou aniquilem o ato de fé: ou que o ato fique sem objeto, ou que o objeto fique sem ato. Dito de outro modo: ou que queira o [[lexico:h:homem|homem]] verificar o ato de fé, mas não encontra objeto sobre o qual possa fazê-lo recair, ou que havendo objeto sobre o qual possa o ato recair, não queira o homem verificar o ato de fé. Assim, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]]: se ante um juiz se apresenta para depor uma testemunha, na qual, por qualquer [[lexico:r:razao|razão]], está disposto a crer o juiz, e esta testemunha não declara [[lexico:n:nada|nada]] [[lexico:c:concreto|concreto]], o juiz não pode verificar ato de fé porque não há [[lexico:m:materia|matéria]] sobre a qual recaia este ato. Inversamente, se ante o juiz se apresenta uma declaração terminante e concreta prestada por uma testemunha, na qual o juiz, por qualquer [[lexico:m:motivo|motivo]], não está disposto a crer, então o juiz não verifica o ato de fé, embora exista objeto sobre o qual pudesse recair este ato. Exige-se, pois, para que haja ato de fé a confluência do ato e do objeto. O ato, coloca-o o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] pensante. Em troca, o objeto encontra o sujeito diante de si — não o põe por [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]; pois se o pusesse por si mesmo não seria já o objeto, mas uma [[lexico:p:posicao|posição]] do sujeito, pertencente ao ato, não ao objeto do ato. Mas uma vez que confluem num mesmo [[lexico:p:ponto|ponto]] o ato do sujeito e a realidade do objeto; procedendo cada um de [[lexico:o:origem|origem]] oposta, [[lexico:c:como-se|como se]] abraçam e juntam para constituir o ato de fé? Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], abraçam-se e juntam-se desta maneira: que o ato consiste em assentir ao objeto. Assentir ao objeto é dizer sim ao objeto, afirmar o conteúdo do objeto. Mas isto não distinguiria o ato de fé de qualquer outro [[lexico:j:juizo|juízo]], porque em todo juízo encontramos sempre um ato de [[lexico:a:assentimento|assentimento]] a um conteúdo [[lexico:i:ideal|ideal]] proposto. Que [[lexico:d:diferenca|diferença]] há, pois, entre o ato de assentir ao objeto quando é juízo e quando é ato de fé? Há a seguinte diferença: que no assentimento do juízo a seu objeto, a [[lexico:c:causa|causa]] do assentimento se acha no [[lexico:c:carater|caráter]] de "evidente" que tem o objeto: enquanto que no ato de fé assentimos a um objeto que não tem esse caráter de [[lexico:e:evidencia|evidência]]. Por exemplo, no juízo: dois e dois são quatro, o [[lexico:a:ato-do-juizo|ato do juízo]] consiste no afirmá-lo: e o objeto do juízo consiste em "dois e dois são quatro". Mas se [[lexico:e:eu|eu]] afirmo, quer dizer, se verifico o ato, é porque o objeto: dois e dois são quatro, é evidente. Ao contrário, no ato de fé, o objeto não é evidente. Assim, por exemplo, se verifico o ato de fé consistente em acreditar que Deus é [[lexico:u:uno|uno]] em essência e trino em pessoas, afirmo, ou seja, verifico o ato; porém a [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] recai sobre um objeto — [[lexico:t:trindade|trindade]], unidade — que não é evidente. Mas logo perguntaremos: que é a evidência?