===== ATO ===== (gr. [[lexico:e:energeia|energeia]], entelekeia; lat. actus; in. Act; fr. Acte; al. Akte; it. Atto). [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:termo|termo]] tem dois significados: 1) de [[lexico:a:acao|ação]], no [[lexico:s:sentido|sentido]] restrito e específico desta [[lexico:p:palavra|palavra]], como [[lexico:o:operacao|operação]] que emana do [[lexico:h:homem|homem]] ou de um poder específico dele (v. ação, 2). Dizemos, com [[lexico:e:efeito|efeito]], "ato voluntário", "ato responsável" ou "ato do [[lexico:i:intelecto|intelecto]]", "ato [[lexico:m:moral|moral]]", etc.; mas [[lexico:n:nao|não]] dizemos "ato dos ácidos sobre os metais" ou "ato destrutivo do DDT", etc, usando, nesses casos, a palavra "ação"; 2) de [[lexico:r:realidade|realidade]] que se realizou ou se vai realizando, do [[lexico:s:ser|ser]] que alcançou ou está alcançando a sua [[lexico:f:forma|forma]] plena e final, em [[lexico:c:contraposicao|contraposição]] com [[lexico:o:o-que-e|o que é]] simplesmente potencial ou [[lexico:p:possivel|possível]]. No segundo sentido, essa palavra faz [[lexico:r:referencia|referência]] explícita à [[lexico:m:metafisica|metafísica]] de [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] e à sua [[lexico:d:distincao|distinção]] entre [[lexico:p:potencia|potência]] e ato. O ato é a própria [[lexico:e:existencia|existência]] do [[lexico:o:objeto|objeto]]: está para a potência "assim como construir está para [[lexico:s:saber|saber]] construir, como [[lexico:e:estar|estar]] acordado está para dormir, como olhar está para estar de olhos fechados podendo enxergar, e assim como o objeto extraído da [[lexico:m:materia|matéria]] e elaborado à [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] está para a matéria bruta e para o objeto ainda não acabado" (Met., IX, 6,1.048 a 37). Alguns ato são movimentos, outros são [[lexico:a:acoes|ações]]: são ações os movimentos que têm [[lexico:f:fim|fim]] em si mesmos, p. ex.: [[lexico:v:ver|ver]], entender ou [[lexico:p:pensar|pensar]], ao passo que aprender, caminhar, construir tem [[lexico:f:finalidade|finalidade]] fora de si mesmos, na [[lexico:c:coisa|coisa]] que se aprende, no [[lexico:p:ponto|ponto]] a que se quer chegar, no objeto que se constrói. A ação perfeita, que tem seu fim em si mesma é chamada por Aristóteles ato final ou [[lexico:e:entelequia|enteléquia]]. Enquanto o [[lexico:m:movimento|movimento]] é o [[lexico:p:processo|processo]] que leva gradualmente ao ato o que antes estava em potência, a enteléquia é o termo final ([[lexico:t:telos|telos]]) do movimento, a sua perfeita realização. Como tal é também a realização completa, portanto, a forma perfeita do que vem a ser, a [[lexico:e:especie|espécie]] e a [[lexico:s:substancia|substância]]. O ato precede a potência tanto em [[lexico:r:relacao|relação]] ao [[lexico:t:tempo|tempo]] quanto em relação à substância,’pois, embora a semente venha antes da planta, na realidade ela só pode provir de uma planta. Aquilo que no [[lexico:d:devir|devir]] é [[lexico:u:ultimo|último]] é, substancialmente, primeiro: a galinha é anterior ao ovo (Ibid., IX, 8, 1.049 b 10 ss.). Tais distinções dominaram por muitos séculos o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] ocidental e passaram a fazer [[lexico:p:parte|parte]] da [[lexico:l:linguagem|linguagem]] comum. [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] repropõe essas distinções com sua costumeira clareza a propósito da [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre ato e ação, dizendo: "O ato é duplo, isto é, primeiro e segundo. O ato primeiro é a forma e a integridade da coisa (forma et integritas rei); o ato segundo é a operação (operatio)" (S. Th., I, q. 48, a. 5; Contra Gent., II, 59). Em outros termos, toda realidade como tal é ato e, portanto, a ação também é ato; p. ex., uma operação da [[lexico:v:vontade|vontade]] ou do intelecto, embora não se trate, nesse caso, de um objeto existente. Na concepção aristotélica, a distinção entre matéria e ato determina a ordenação hierárquica de toda a realidade, que vai de um [[lexico:l:limite|limite]] inferior [[lexico:e:extremo|extremo]], que é a [[lexico:m:materia-prima|matéria-prima]], pura potencialidade indeterminada, até [[lexico:d:deus|Deus]], que é [[lexico:p:puro|puro]] ato, sem mescla de potencialidade. Deus é o [[lexico:p:primeiro-motor|primeiro motor]] imóvel dos céus; e, como o movimento dos céus é [[lexico:c:continuo|contínuo]], seu motor não só deve ser eternamente ativo, mas deve ser, por [[lexico:n:natureza|natureza]], [[lexico:a:atividade|atividade]], absolutamente desprovido de potência. E, como a potência é matéria, ele é também desprovido de matéria, [[lexico:a:ato-puro|ato puro]] (Met., XII, 6, 1.071 b 22). A [[lexico:n:nocao|noção]] de ato puro continuou sendo fundamental para a elaboração da [[lexico:i:ideia-de-deus|ideia de Deus]] no pensamento ocidental. A ela recorrem algumas modernas "filosofias do ato", como a de Gentile, que pretende realizar a rigorosa e total [[lexico:i:imanencia|imanência]] de toda a realidade no [[lexico:s:sujeito|sujeito]] pensante, isto é, no pensamento emato ([[lexico:t:teoria|teoria]] generale dello spirito come atto puro, 1916); ou a de Louis [[lexico:l:lavelle|Lavelle]] (L’Acte, 1937), na qual Deus é definido como ato participante e a existência do homem como ato participado. Ato (em grego: energeia) e potência são os [[lexico:e:elementos|elementos]] constitutivos do [[lexico:f:finito|finito]], mediante os quais, primeiramente Aristóteles, e, em seguida, a [[lexico:e:escolastica|escolástica]], explicam o devir. O ato, em [[lexico:o:oposicao|oposição]] à potência, designa a realidade desdobrada. Consoante se trate desta ou daquela espécie de devir ou do que. está por sobre o devir, o termo assume diversos significados. Na [[lexico:e:essencia|essência]] do ato encontra-se sempre uma certa [[lexico:a:abundancia|abundância]] ou [[lexico:r:riqueza|riqueza]], isto é, um conjunto de possibilidades capazes de se realizarem em maior ou menor escala; pense-se, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], na maior ou menor amplitude do saber. Se todas as possibilidades de um ato se realizam de maneira exaustiva, este será um ato [[lexico:i:ilimitado|ilimitado]], p. ex., a plenitude de uma [[lexico:c:ciencia|ciência]] não limitada por qualquer [[lexico:i:ignorancia|ignorância]]. Ao invés, um ato limitado compreende só uma parte de possibilidades, p. ex., o saber do homem, que é penetrado de muito não-saber. Temos que distinguir também entre o ato não puro (misto), que já em sua essência diz [[lexico:l:limitacao|limitação]], sendo, por isso, incapaz de realização ilimitada, e o ato puro ([[lexico:s:simples|simples]]), cuja essência não inclui limites e permite, por isso mesmo, uma realização ilimitada. Assim, o [[lexico:c:conhecimento-sensorial|conhecimento sensorial]] enquanto tal é essencialmente um saber impuro, mesclado de não-saber, visto que lhe é inacessível [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:s:supra-sensivel|supra-sensível]], pelo contrário, o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] intelectual é, em sua essência, puro, simples (não entra em composição com a ignorância), embora em sua realização humana seja afetado pela ignorância. O ato limitado é sempre um ato recebido, pois se limita sempre pela [[lexico:c:capacidade|capacidade]] receptiva de seu sujeito; p. ex., o saber no homem. Pelo contrário, sendo o ato puro isento de todo sujeito limitante e existindo, portanto, como ato subsistente ou não recebido, deve carecer de limite na total plenitude de sua essência: tal é o caso de Deus. Enquanto para Deus, em [[lexico:v:virtude|virtude]] de sua simplicidade, o ato [[lexico:u:unico|único]] do Ser puro, subsistente, significa a mais perfeita realidade em todos os aspectos, a realidade do finito é composta por diversos atos. O ato entitativo é a existência. A ele se contrapõe o ato [[lexico:f:formal|formal]] ou forma [[lexico:e:essencial|essencial]] que determina o "quê" ("[[lexico:q:quid|quid]]") e, no [[lexico:e:ente|ente]] corpóreo constitui, juntamente com a matéria, a essência. O núcleo [[lexico:s:substancial|substancial]] de uma coisa recebe o [[lexico:n:nome|nome]] de ato primeiro, em oposição a suas determinações acidentais, denominadas atos segundos. De [[lexico:m:modo|modo]] especial se chama ato primeiro a substância dotada de sua potência ativa, e ato segundo, a própria operação, p. ex., um ato da vontade. Quando um devir se realiza paulatinamente, as fases intermédias inacabadas designam-se como atos imperfeitos e o termo final como ato último ou [[lexico:p:perfeito|perfeito]]; pense-se, por exemplo, no [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] da criança até chegar a ser homem feito. — Lotz. Aristóteles introduziu na sua [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] os termos “ato” ou “[[lexico:a:atualidade|atualidade]]” e “potência” (energeia), como uma tentativa para [[lexico:e:explicar|explicar]] o movimento enquanto devir. O movimento como [[lexico:m:mudanca|mudança]] numa realidade necessita de três condições que parecem ser ao mesmo tempo “[[lexico:p:principio|princípio]]”: a matéria, a forma e a [[lexico:p:privacao|privação]]. Ora, a mudança seria [[lexico:i:ininteligivel|ininteligível]] se não houvesse no objeto que vai mudar uma potência para mudar. A sua mudança é, em rigor, a passagem de um [[lexico:e:estado|Estado]] de potência ou potencialidade a um estado de ato ou atualidade. Esta mudança é levada a cabo por [[lexico:m:meio|meio]] de uma [[lexico:c:causa|causa]] eficiente que pode ser “externa” (na [[lexico:a:arte|arte]]) ou “interna” (na própria natureza do objeto considerado). A mudança pode então definir-se assim: É o levar a cabo o que existe potencialmente ([[lexico:f:fisica|Física]]). Neste “levar a cabo”, o ser passa da potência de ser algo ao ato de o ser; a mudança é passagem da potência à atualidade. Não é fácil definir a noção aristotélica de “ato”. Pode dizer-se que o ato é a realidade do ser de tal modo que o ato é anterior à potência e que só pelo [[lexico:a:atual|atual]] se pode entender o potencial. Pode dizer-se também que o ato determina o ser. Sendo deste modo ao mesmo tempo a sua realidade própria e o seu princípio. Pode destacar-se o [[lexico:a:aspecto|aspecto]] formal ou o aspecto [[lexico:r:real|real]] do ato. Finalmente, pode dizer-se que o ato é “aquilo que faz ser aquilo que é”. Nenhuma das definições é suficiente. Aristóteles, que se apercebe desta dificuldade, apresenta com frequência a noção de ato e de potência por meio de exemplos, fiel à sua [[lexico:i:ideia|ideia]] de que “não há que tentar definir tudo, pois há que saber contentar-se com [[lexico:c:compreender|compreender]] a [[lexico:a:analogia|analogia]]”. Seja como for, como conceber o ser como ser que muda? [[lexico:p:platao|Platão]] afirmou que a mudança de um ser é a sombra do ser. Os Megáricos afirmam que só pode entender-se aquilo que existe atualmente: um [[lexico:d:dado|dado]] objeto, x, afirmavam eles, é ou p (isto é possui tal ou tal [[lexico:p:propriedade|propriedade]] ou está em tal ou tal estado), ou então não p (isto é, não possui tal ou tal propriedade ou não está em tal ou tal estado). Aristóteles rejeitou a doutrina de Platão, porque este fazia da mudança uma espécie de [[lexico:i:ilusao|ilusão]] ou [[lexico:a:aparencia|aparência]] do ser que não muda, e a doutrina dos megáricos porque não explicavam a mudança. Se, pois, há mudança, deve haver algo que tem uma propriedade ou esteja num estado e pode possuir outra propriedade ou passar a [[lexico:o:outro|outro]] estado. Quando isto acontece, a propriedade “posterior” ou o “último” estado constituem atos ou atualizações de uma potência prévia. Esta potência não é uma potência qualquer. Como diz Aristóteles (Física), o homem não é potencialmente uma vaca, mas uma criança é potencialmente um homem, pois de contrário continuaria a ser sempre uma criança. O homem é assim a atualidade da criança. a passagem daquilo que está em potência àquilo que é em ato requer certas condições: estar precisamente em potência de algo e não de outra coisa. [[lexico:a:alem|Além]] da criança e do homem há “algo” que não é nem criança nem homem, mas que virá a ser homem. Se só se admitisse o ser atual, [[lexico:n:nada|nada]] poderia converter-se em nada. Embora haja seres em potência e seres em ato, isso não significa que potência e ato sejam, eles mesmos, seres. Podemos defini-los como [[lexico:p:principios|princípios]] dos seres, ou “princípios complementares” dos seres. Estes princípios não existem, contudo separadamente, mas estão incorporados nas realidades. Aristóteles apercebe-se de que a sua teoria do ato não pode limitar-se ao exposto e de que pode entender-se o ato de várias maneiras. Para já, destas duas: 1. O ato é “o movimento relativamente à potência”, 2. O ato é “a substância formal relativamente a alguma matéria”. No primeiro caso, a noção de ato tem sobretudo aplicação na física; no segundo, tem aplicação na metafísica. [[lexico:c:como-se|como se]] a [[lexico:c:complicacao|complicação]] fosse ainda pouca, a noção de ato não se aplica do mesmo modo a todos os “atos”. Em certos casos, não se pode enunciar, de um ser, a sua acção e o [[lexico:f:fato|fato]] de a [[lexico:t:ter|ter]] realizado - aprender e ter aprendido, curar e ter curado. Noutros casos, pode enunciar-se simultaneamente o movimento e o resultado - como quando se diz que se pode ver e ter visto, pensar e ter pensado. “Destes diferentes processos - diz Aristóteles - há que chamar a uns movimentos e a outros ato, pois todo o movimento é imperfeito, como o emagrecimento, o [[lexico:e:estudo|estudo]], o andamento, a construção: são movimentos e movimentos imperfeitos. Com efeito, não se pode ao mesmo tempo andar e ter andado, acontecer e ter acontecido, receber o movimento e tê-lo recebido; também não é a mesma coisa mover e ter movido. Mas é a mesma coisa a que ao mesmo tempo vê e viu, pensa e pensou. A esse processo chamo-lhe ato, e ao outro, movimento” (Metafísica). Esta citação mostra que Aristóteles não se sente satisfeito com opor simplesmente o ato à potência e com examinar a noção de ato segundo o ponto de vista de uma [[lexico:e:explicacao|explicação]] da mudança dentro dos limites de uma “[[lexico:o:ontologia|ontologia]] física”. Parece que Aristóteles tem [[lexico:i:interesse|interesse]] em mostrar que há entes que estão constitutivamente mais “em ato” do que outros. Além disso, esses entes podem servir de modelos para tudo o que se diz que está em ato. Alguns autores neoplatônicos e cristãos inclinaram-se para uma ideia do ato como a perfeição [[lexico:d:dinamica|dinâmica]] de uma realidade. Um dos exemplos desse estar em ato é a intimidade [[lexico:p:pessoal|pessoal]]. Pode então conceber-se o ato como uma [[lexico:t:tensao|tensão]] pura, que não é movimento nem mudança porque constitui a [[lexico:f:fonte|fonte]] duradoura de todo o movimento e mudança. E se se alegar que isto não pode acontecer porque o sentido [[lexico:p:primario|primário]] das descrições aristotélicas de “ato” e “atualidade” o excluem, pode responder-se com [[lexico:p:plotino|Plotino]] que deve distinguir-se o sentido de “ato” consoante se aplique ao [[lexico:s:sensivel|sensível]] ou ao [[lexico:i:inteligivel|inteligível]]. No sensível, o ser em ato representa a [[lexico:u:uniao|união]] da forma e do ser em potência, de modo que aqui não pode haver nenhum [[lexico:e:equivoco|equívoco]]: o ato é a forma. No inteligível, em contrapartida, a atualidade é própria de todos os seres, de modo que sendo o ser em ato o [[lexico:p:proprio|próprio]] ato, a forma não é um mero ato, mas, antes, está em ato. As noções de ato e atualidade foram elaboradas com grande pormenor pelos escolásticos, a partir, principalmente, dos [[lexico:c:conceitos|conceitos]] aristotélicos, ampliados embora consideravelmente em três sentidos fundamentais. Primeiro, não confinando essas noções, como em Aristóteles, a processos naturais, mas usando-as para esclarecer o [[lexico:p:problema|problema]] da natureza de Deus como Ato puro. Segundo, pela tentativa de precisar o seu [[lexico:s:significado|significado]] até onde fosse possível. [[lexico:t:terceiro|terceiro]], por estabelecer distinções entre várias espécies de atos. Cabe destacar que, para S. Tomás e para muitos escolásticos, é [[lexico:n:necessario|necessário]] estabelecer uma distinção entre os termos [[lexico:a:ato-e-potencia|ato e potência]]. Ambos são [[lexico:r:relativos|relativos]], pois o que se diz que está em ato o está relativamente à potência, e o que está em potência o está relativamente ao ato. Mas enquanto a potência se define pelo ato, este não pode definir.-se pela potência, uma vez que a potência adquire o ser por meio do ato. a) Segundo Aristóteles, o ato é o princípio do [[lexico:a:agente|agente]], pois um agente o é tal, enquanto em ato. O ato, portanto, só se dá no que está em ato; este antecede ao que está em potência. O que está em ato é necessário ao que está em potência, pois é aquele o sustentáculo do que é potencial. Aquele naturalmente move (realiza uma [[lexico:m:mocao|moção]]). Tudo quanto está em ato ou é uma forma subsistente ou tem sua forma em outro. Todas as [[lexico:c:coisas|coisas]] podem ser divididas por ato e potência. b) Um [[lexico:e:enunciado|enunciado]] [[lexico:p:psicologico|psicológico]] dessa palavra diz que um ato é um movimento de um ser vivo, bastante rápido para ser perceptível como tal (excluindo, p. ex. o crescimento) e dirigido a um fim, que pode ser desejado voluntariamente pelo [[lexico:i:individuo|indivíduo]] (atos voluntários) ou não (atos [[lexico:r:reflexos|reflexos]], instintivos, automáticos). Mas, embora o ato não seja voluntário em sua causa, a aparência externa deve configurá-lo com analogia aos atos voluntários, para corresponder à concepção psicológica desse termo. c) Na [[lexico:e:etica|Ética]], chama-se ato um [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] que não se explica pelas meras leis físicas naturais, mas que é causado por um ser suscetível de qualificação moral. Esse ato não precisa necessariamente exteriorizar-se em um movimento perceptível; ao contrário, pode consistir exatamente em uma inibição de tal movimento, permanecendo o ato ético puramente [[lexico:i:intrinseco|intrínseco]]. d) No [[lexico:d:direito|direito]], ato é considerado uma [[lexico:d:determinacao|determinação]] voluntária, que tem um efeito [[lexico:e:exterior|exterior]]. Também se [[lexico:f:fala|fala]] em “ato de legislação” (um [[lexico:e:estatuto|estatuto]]), distinguindo-se: a) atos públicos, que visam regularizar um assunto de interesse [[lexico:g:geral|geral]] e que todos os sujeitos são obrigados a conhecer, e b) atos particulares, concernentes a interesses particulares e a [[lexico:r:respeito|respeito]] dos quais não se impõe, geralmente, ao [[lexico:p:publico|público]] conhecê-los. e) Na Metafísica, ato [[lexico:f:figura|figura]] como [[lexico:t:traducao|tradução]] do termo escolástico «actus», que por sua vez é a tradução dos termos aristotélicos (energeia e entelekheia). Aristóteles chama ato ao resultado do advento ao ser da potência, [[lexico:d:dynamis|dynamis]], da matéria, mas enquanto [[lexico:v:vir-a-ser|vir-a-ser]]. A mesma relação entre o possível e o real e entre a matéria e a forma, é a relação existente entre potência e ato. Mas a matéria está em uma relação estática com a forma. Enquanto uma coisa está em potência não é ato; quando em ato, não é mais potência. O ato não é, no entanto, a realização da potência, mas o fim da potência que se realiza. A realização da potência é a passagem desta para o ato, o que Aristóteles chama moção. (Vide potência e ação). Como o ato é uma espécie de moção, participa da tríplice [[lexico:m:modalidade|modalidade]] de cada moção, que sempre pode ser considerada como: a) uma moção possível (potencial), b) a moção no processo mesmo de realizar-se, e c) a moção realizada ou a nova realização, criada por meio dessa moção. Aristóteles serve-se, em geral, do termo energeia para significar a segunda modalidade, e de enteléquia (entelekheia), para a terceira. energeia também aparece como sinônimo daquelas [[lexico:p:palavras|palavras]] que significam o [[lexico:e:elemento|elemento]] da forma que tem especial relação com a modalidade primeira. Essa última [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] exige uma explicação: em que sentido um movimento possível (ou um ato possível) é relacionado com a forma? — Cada [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] reside em um ente já atualmente existente. Se em um ser há possibilidade de uma moção, então reside nele, já pré-formada, a forma dessa moção, porque as determinações ontológicas da própria natureza desse ente são também o [[lexico:f:fundamento|fundamento]] formal da natureza daquela moção. Assim a moção ou ato de um [[lexico:a:artista|artista]] ao confeccionar uma [[lexico:o:obra|obra]] de arte é pré-formada na natureza do artista, que, abstraindo-se ainda da [[lexico:p:particular|particular]] [[lexico:a:aptidao|aptidão]] artística, tem, pelo menos, que ser uma [[lexico:n:natureza-humana|natureza humana]], já que a mesma moção (atuação artística) não se devia esperar de uma pedra, porque a natureza de pedra não é capaz de abrigar a forma em que consiste essa aptidão de [[lexico:c:criar|criar]] obras artísticas. Daí resulta que a forma da moção se acha em íntima conexão com a natureza do movido, de [[lexico:s:sorte|sorte]] que todo elemento formal da própria moção ou ato já se acha predeterminado pela natureza ou qualquer organização adicional (conhecimento) do movido. Por isso, tendo cada moção ou ato o seu elemento formal, pré-formado naquele ente, que é capaz de efetuar a respectiva moção, é comum aplicar-se o termo ato a um ato possível. Há mais um elemento intermediário entre a mera possibilidade, potência de efetuar um ato, e a sua realização efetiva. Isto é o que Aristóteles chama de [[lexico:h:hexis|hexis]] (latim habitus). O [[lexico:h:habito|hábito]] é mais do que a mera possibilidade, porque ele já significa uma inclinação [[lexico:o:ontologica|ontológica]], (não [[lexico:t:tendencia|tendência]]), para certos atos e uma habilidade especial para efetuá-los. Assim a possibilidade de um ato [[lexico:a:artistico|artístico]], da [[lexico:c:criacao|criação]] de uma obra de arte, reside em princípio em cada homem, mas só o artista possui o hábito [[lexico:r:relativo|relativo]] a tal espécie de atos. O ponto de vista unificador, portanto, das três citadas modalidades de ato, aumentado ainda pelo [[lexico:c:conceito|conceito]] do «hábito». constitui o «elemento formal», a [[lexico:u:unidade|unidade]] de organização intrínseca, que faz [[lexico:a:aparecer|aparecer]] a mera possibilidade e o hábito como um ato incipiente, que se realiza no próprio processo da moção, e que, sendo realizado, não termina ainda, mas continua como uma petrificação do próprio processo e como um monumento de todos os fatores contribuintes que tomam parte nele. O estabelecimento dessa unidade entre as diversas modalidades do ato não tem qualquer [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:a:arbitrario|arbitrário]] ou forçado. Pois como o ato tende a um fim (enteléquia), o elemento formal unificador identifica-se com o próprio fim. A causa, que constitui o fim ao qual aspira a construção, contém em si mesma a construção. Tratando-se, porém, não como neste caso, de um fim exterior, mas de um ato, que é ele mesmo o seu próprio fim (distinção que faz Aristóteles para fazer jus a fenômenos como a [[lexico:v:visao|visão]] ou o pensamento), vale, não obstante, a mesma identificação entre forma e fim, visto que o intelecto se confunde com o material informante inteligível e o pensamento. O fim em si, não é outra coisa senão a informação do intelecto. b) Na [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] de [[lexico:h:husserl|Husserl]], não são os atos «[[lexico:a:atividades|atividades]] psíquicas, mas [[lexico:v:vivencias-intencionais|vivências intencionais]]:. Deve-se, portanto, excluir dele toda a ideia de atividade, com a qual o ato (Akt) distingue-se tanto da ação (Tat) como do actus no sentido [[lexico:c:classico|clássico]]. É um fato [[lexico:p:primitivo|primitivo]] o da inserção do [[lexico:e:eu|eu]] no [[lexico:m:mundo|mundo]]. E a [[lexico:c:consciencia|consciência]] do eu nos levaria a afirmar, à maneira de [[lexico:d:descartes|Descartes]], que penso, logo há ato. Mas não somos nós que damos o ser a esse ato, mas é esse ato que nos dá o ser. Todo ato se revela numa atividade. O ato é a essência da atividade. A atividade encontra um acabamento, enquanto o ato é um acabamento inacabado. Enquanto ato, os atos não diferem uns dos outros. Se a atividade tem um contrário na passividade, o ato não exige o contrário para afirmar-se. Ato é sempre ele. O [[lexico:e:existir|existir]] é uma hibridez de atividade e de passividade. Desta forma, o ato é um simbolizado por todas as espécies de atividades. Ato é, assim, eficacidade pura, revelado simbolicamente por todo fato que o desvela, o indica, o aponta, mas não o limita nem o acaba. O existir é um [[lexico:s:simbolo|símbolo]] do ato. Ato é a fonte suprema de todas as coisas. O ato é potensão, [[lexico:r:raiz|raiz]] e fonte da atividade e da passividade. É da passividade que surge o [[lexico:m:mal|mal]]. É a limitação fática, das tensões, que criam as limitações, a crisis momentânea, [[lexico:t:transeunte|transeunte]]. O ato produz o seu símbolo, a atividade. A idolatria está em considerar esse símbolo como tendo uma existência [[lexico:i:independente|independente]] e suficiente, quando é apenas uma [[lexico:m:modal|modal]]. O ato é, portanto, o sustentáculo e a [[lexico:s:subsistencia|subsistência]] de tudo. É o criador de tudo que passa, mas o ato permanece. O real é o ser em ato. O ser é o próprio ato. Está no ato e é pela operação do ato que se produz. O ato interior sustenta os seres. Ele, enquanto tal, exclui o tempo, pois este está na atividade e na passividade. Não é imóvel, mas é imutável. É [[lexico:m:movel|móvel]] e imóvel. É como a chama de que falava Buda, que é sempre ela sendo sempre outra. O entes prefixados são atos participados do ato que é o ser. O ato é [[lexico:i:identico|idêntico]] a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], mas sempre outro, porque nunca estagna, nunca pára, nunca deixa de ser eficacidade pura, por isso, cria. É o ato um [[lexico:m:misterio|mistério]] para a filosofia, e cabe à [[lexico:t:teologia|teologia]] nele penetrar. É fácil escamoteá-lo, mas é um ato ainda a escamoteação. Não podemos negá-lo nem quando o negamos. O que conhecemos é símbolo do ato. Este não tem determinação enquanto ato, como não a tem o ser. Assim, como não há rupturas no ser, não as há no ato. O ato puro é eficacidade pura, e como eficacidade pura, (como o compreendeu a filosofia escolástica), podemos acrescentar, ainda, que é criador, porque ser eficaz é criar, e é ser ser. O ato puro não tem limites porque limitá-lo seria sofrer a ação de outro, que seria, por sua vez, ato também, e, portanto, com ele, se identificaria. O ato, portanto, enquanto tal, é puro, eficacidade pura. E por ser tal, cria. O ser, como ato e eficacidade pura, realiza a sua potensão, e esta só se pode dar no ato de criar.