===== ATEÍSMO ===== (gr. atheotes; lat. atheismus; in. Atbeism; fr. Athéisme; al. Atheismus; it. Ateismó). É, em [[lexico:g:geral:start|geral]], a [[lexico:n:negacao:start|negação]] da [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]] de [[lexico:d:deus:start|Deus]]. O [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] da [[lexico:e:existencia-de-deus:start|existência de Deus]] pode [[lexico:s:ser:start|ser]] acompanhado pelo ateísmo se [[lexico:n:nao:start|não]] incluir também o reconhecimento da causalidade específica de Deus. A primeira [[lexico:a:analise:start|análise]] do ateísmo que a [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]] recorda é a de [[lexico:p:platao:start|Platão]], no X livro das Leis. Platão considera três formas de ateísmo: 1) negação da divindade; 2) [[lexico:c:crenca:start|crença]] de que a divindade existe, mas que não cuida das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] humanas; 3) crença de que a divindade pode tornar-se propícia com doações e oferendas. A primeira [[lexico:f:forma:start|forma]] é o [[lexico:m:materialismo:start|materialismo]], que defende que a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] precede a [[lexico:a:alma:start|alma]], isto é, que a [[lexico:m:materia:start|matéria]] "dura e mole, pesada e leve" precede "a [[lexico:o:opiniao:start|opinião]], a [[lexico:p:previsao:start|previsão]], o [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]], a [[lexico:a:arte:start|arte]] e a [[lexico:l:lei:start|lei]]". [[lexico:e:esse:start|esse]] é o [[lexico:e:erro:start|erro]] de todos os filósofos da natureza que consideram a água, o [[lexico:a:ar:start|ar]] e o [[lexico:f:fogo:start|fogo]] como [[lexico:p:principios:start|princípios]] da coisas e os chamam "natureza" por entenderem que são a [[lexico:o:origem:start|origem]] delas (Leis, X, 891 c, 892 b). Para refutar o materialismo só resta demonstrar que a alma precede a natureza; e Platão demonstra que o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:m:movimento:start|movimento]] dos corpos celestes pressupõe um [[lexico:p:primeiro-motor:start|primeiro motor]] imaterial (v. [[lexico:p:provas-de-deus:start|provas de Deus]]). A segunda forma de ateísmo, que consiste em julgar que a divindade não se ocupa das coisas humanas, é refutada por Platão com o [[lexico:a:argumento:start|argumento]] de que isso equivaleria a admitir que a divindade é preguiçosa e indolente, e a considerá-la inferior ao mortal mais comum, que sempre quer aperfeiçoar a sua [[lexico:o:obra:start|obra]], por menor que seja. Enfim, a maior [[lexico:a:aberracao:start|aberração]] é a dos maus que creem poder tornar a divindade propícia com donativos e oferendas. Esses põem a divindade no mesmo nível dos cães que, amansados com presentes, permitem que os rebanhos sejam roubados, e abaixo dos homens comuns, que não traem a [[lexico:j:justica:start|justiça]] aceitando presentes ilicitamente oferecidos. Platão é tão severo com essa última forma de ateísmo que, para evitá-la, desejaria impedir qualquer forma de [[lexico:s:sacrificio:start|sacrifício]] [[lexico:p:privado:start|privado]] e admitir só os realizados em altares públicos e com [[lexico:r:ritual:start|ritual]] estabelecido (Leis, X, 909 d). A análise de Platão equivale a dizer que a única forma de ateísmo filosófico é ó materialismo naturalista, para o qual o [[lexico:c:corpo:start|corpo]] precede a alma; as outras formas são mais preconceitos vulgares do que crenças filosóficas (embora a primeira delas, o indiferentismo dos [[lexico:d:deuses:start|deuses]], viesse a ser adotada pelos epicuristas). Um olhar para o curso posterior da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] ocidental mostra que, ao lado do materialismo, podem ser considerados como formas de ateísmo filosófico o [[lexico:c:ceticismo:start|ceticismo]], o [[lexico:p:pessimismo:start|pessimismo]] e o [[lexico:p:panteismo:start|panteísmo]]. 1) Na Idade [[lexico:m:moderna:start|moderna]], a coincidência entre materialismo e ateísmo foi afirmada por [[lexico:b:berkeley:start|Berkeley]], que, precisamente por [[lexico:f:forca:start|força]] dessa coincidência, foi induzido a sustentar a irrealidade da matéria (v. [[lexico:i:imaterialismo:start|imaterialismo]]). Se se admitir que a matéria é [[lexico:r:real:start|real]], a [[lexico:e:existencia:start|existência]] de Deus será inútil, porque a própria matéria vem a ser a [[lexico:c:causa:start|causa]] de todas as coisas e das [[lexico:i:ideias:start|ideias]] que estão em nós. A existência da matéria é o principal [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] do ateísmo, do [[lexico:f:fatalismo:start|fatalismo]] e da própria idolatria (Princ. of Hum. Knowledge, §§ 92-94). Efetivamente se poderia dizer que um dos fundamentos do ateísmo é a causalidade da matéria e não a sua [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. O materialismo setecentista de La Mettrie e de [[lexico:h:holbach:start|Holbach]], assim como o oitocentista de L. Buchner, Ernst Heckel e Félix Le Dantec, tem esse fundamento. Deus é eliminado como [[lexico:p:principio:start|princípio]] causal de [[lexico:e:explicacao:start|explicação]], porque se admite a matéria como tal. 2) A segunda forma de ateísmo filosófico é a cé-tica, cuja primeira [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] se encontra no neo-acadêmico Carnéades de Cirene (214-129 a.C). Este não só demonstra a debilidade das provas aduzidas sobre a existência da divindade, como também mostra as dificuldades inerentes ao [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de divindade. P. ex., diz Carnéades: "Se os deuses existem, são vivos; se vivos, sentem... Se sentem, recebem [[lexico:p:prazer:start|prazer]] ou [[lexico:d:dor:start|dor]]. E se recebem dor, são passíveis de perturbação e de mudanças para pior; logo são [[lexico:m:mortais:start|mortais]]" ([[lexico:s:sexto-empirico:start|Sexto Empírico]], Adv. math., IX, 139-140). [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista [[lexico:a:analogo:start|análogo]] é o elaborado na Idade Moderna por [[lexico:h:hume:start|Hume]], em [[lexico:d:dialogos:start|Diálogos]] sobre a [[lexico:r:religiao:start|religião]] [[lexico:n:natural:start|natural]]. Hume julga [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] uma [[lexico:p:prova:start|prova]] apriorida existência de Deus, já que a existência é sempre matéria de [[lexico:f:fato:start|fato]]. Quanto às provas [[lexico:a:a-posteriori:start|a posteriori]], ele rejeita a [[lexico:v:validade:start|validade]] das provas cosmológicas, considerando ilegítimo perguntar-se a causa de um conjunto de indivíduos. "Se se mostra a causa de cada [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] em um conjunto que compreende vinte indivíduos, é [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]] perguntar depois a causa de [[lexico:t:todo:start|todo]] o conjunto, que já foi dada com as [[lexico:c:causas:start|causas]] particulares. Isto quer dizer que não tem [[lexico:s:sentido:start|sentido]] perguntar a causa do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] na sua [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]]. [[lexico:v:valor:start|valor]] maior tem a [[lexico:p:prova-fisico-teologica:start|prova físico-teológica]], mas esta pode permitir somente remontar a uma causa proporcional ao [[lexico:e:efeito:start|efeito]]; e, como o efeito, isto é, o mundo, é imperfeito e [[lexico:f:finito:start|finito]], a causa deveria ser igualmente imperfeita e finita. Mas se a divindade for considerada imperfeita e finita, não há [[lexico:m:motivo:start|motivo]] para considerá-la única. Se uma [[lexico:c:cidade:start|cidade]] pode ser construída por muitos homens, por que o [[lexico:u:universo:start|universo]] não poderia [[lexico:t:ter:start|ter]] sido criado por muitas divindades ou demônios"? ( Works, II, 1827, p. 413). Por [[lexico:f:fim:start|fim]], a [[lexico:d:disputa:start|disputa]] entre [[lexico:t:teismo:start|teísmo]] e ateísmo torna-se uma [[lexico:q:questao:start|questão]] de [[lexico:p:palavras:start|palavras]]: "O teísta admite que a [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] original é muito diferente da [[lexico:r:razao:start|razão]] humana. O ateu admite que o princípio original da [[lexico:o:ordem:start|ordem]] tem alguma [[lexico:a:analogia:start|analogia]] remota com a própria razão. Quereis então, senhores, ficar discutindo o [[lexico:g:grau:start|grau]] de analogia e entrar numa controvérsia que não admite [[lexico:s:significado:start|significado]] preciso nem, portanto, qualquer conclusão?" (Ibid., 535.) Esse [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de ceticismo, porém, não é uma forma de ateísmo professado como muitas vezes ocorre com o materialismo: tende, [[lexico:c:como-se:start|como se]] vê, a eliminar a dramaticidade da polêmica sobre o ateísmo e a demonstrar que, afinal, ela é insignificante. 3) A terceira forma de ateísmo é o panteísmo. Também aqui não se trata de um ateísmo professado, mas da acusação frequentemente feita aos que identificam Deus com o mundo. Durante muito [[lexico:t:tempo:start|tempo]], [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]] foi acusado de ateísmo por ter [[lexico:d:dito:start|dito]] Deus sive natura, na [[lexico:v:verdade:start|verdade]], como notava [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], dever-se-ia [[lexico:f:falar:start|falar]], com mais exatidão, de [[lexico:a:acosmismo:start|acosmismo]]. [[lexico:f:fichte:start|Fichte]] também foi acusado de ateísmo em [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] de um artigo publicado em 1798 no Jornal Filosófico delena, "Do fundamento da nossa crença no [[lexico:g:governo:start|governo]] [[lexico:d:divino:start|divino]] do mundo", no qual se identificava Deus com a ordem [[lexico:m:moral:start|moral]] do mundo. Por causa da polêmica que se seguiu a esse artigo, Fichte foi obrigado a demitir-se da Universidade de Iena. Fichte, como Spinoza, rejeitava a acusação de ateísmo; e como quer que se julgue a questão, é certo que panteísmo não é ateísmo professado. 4) ateísmo professado, em algumas de suas formas, é o pessimismo. A [[lexico:d:desordem:start|desordem]], o [[lexico:m:mal:start|mal]], a infelicidade do mundo são, segundo [[lexico:s:schopenhauer:start|Schopenhauer]], obstáculos insuperáveis tanto para a [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] do Deus [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]], como quer o teísmo, quanto para a identificação do mundo com Deus, feita pelo panteísmo (Selected Essays, trad. in. Belfort-Bax, p. 71). O teísmo e o panteísmo pressupõem o [[lexico:o:otimismo:start|otimismo]] que não só é desmentido pelo fatos, pois vivemos no pior dos [[lexico:m:mundos:start|mundos]] possíveis, mas é também pernicioso, porque não faz mais do que atar os homens à impiedosa e cruel [[lexico:v:vontade-de-viver:start|vontade de viver]] (Die Welt, II, cap. 46). Na filosofia contemporânea, a doutrina de [[lexico:s:sartre:start|Sartre]] representa um ateísmo pessimista atualizado pelas novas diretrizes da [[lexico:e:especulacao:start|especulação]]. O fundamento desse pessimismo não são o mal ou a dor como tais, mas a [[lexico:a:ambiguidade:start|ambiguidade]] radical, a incerteza da existência humana lançada no mundo e dependente só da sua [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] absoluta, que a condena ao fracasso. Segundo Sartre, não há Deus, mas há o ser que projeta ser Deus, isto é, o [[lexico:h:homem:start|homem]]: [[lexico:p:projeto:start|projeto]] que é, ao mesmo tempo, [[lexico:a:ato:start|ato]] de liberdade humana e [[lexico:d:destino:start|destino]] que a condena à falência. (L’être et le néant, pp. 653 ss.) Doutrina ou [[lexico:a:atitude:start|atitude]] que consiste na negação de toda [[lexico:r:representacao:start|representação]] de um Deus pessoal e vivo. — Neste sentido restrito, o [[lexico:d:deismo:start|deísmo]], que [[lexico:r:recusa:start|recusa]] qualquer representação de Deus, é um ateísmo, como também o panteísmo, que identifica Deus com a natureza (Spinoza); tal é o sentido do ateísmo na [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] clássica. Hoje, a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de ateísmo tem muito maior [[lexico:e:extensao:start|extensão]]: designa a doutrina ou a atitude que consiste em negar a existência de Deus, qualquer que ele seja. Esta negação nem sempre é explícita; há pessoas, diz [[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]], que jamais se preocuparam com a existência ou a não-existência de Deus, seu primeiro e [[lexico:u:unico:start|único]] cuidado sendo [[lexico:r:relativo:start|relativo]] aos assuntos humanos, à [[lexico:s:situacao:start|situação]] e à destinação do homem. [[lexico:f:feuerbach:start|Feuerbach]] e [[lexico:m:marx:start|Marx]] é que fizeram a moderna [[lexico:t:teoria:start|teoria]] do ateísmo: toda crença em Deus constitui uma "[[lexico:a:alienacao:start|alienação]]", uma evasão diante da realidade, diante do [[lexico:p:problema:start|problema]] fundamental, que não é o da existência de Deus, mas o do [[lexico:f:futuro:start|futuro]] do homem. Quando Marx dizia que " a religião é o ópio dos povos", queria dizer que o operário, estando alienado em seu [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] e vivendo sem [[lexico:e:esperanca:start|esperança]] de algum dia atingir uma [[lexico:c:condicao:start|condição]] melhor neste mundo, deixa-se acalentar pela [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de um "[[lexico:o:outro:start|outro]] mundo" melhor, no qual teria seu justo [[lexico:l:lugar:start|lugar]], enquanto que, para Marx, sua [[lexico:s:salvacao:start|salvação]] encontra-se aqui embaixo: a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] revolucionária deve substituir a consciência religiosa, e a ideia de uma [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] do mundo e dos homens deve dominá-lo: ele deve [[lexico:c:compreender:start|compreender]] que o [[lexico:c:ceu:start|céu]] não se encontre "[[lexico:a:alem:start|além]]", mas que, ao contrário, compete aos homens realizá-lo sobre a [[lexico:t:terra:start|Terra]], fazendo reinar a justiça [[lexico:s:social:start|social]] e uma [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com a moral. Em [[lexico:s:suma:start|suma]], o ateísmo não exclui a [[lexico:v:virtudes:start|virtudes]] morais próprias ao [[lexico:h:humanismo:start|humanismo]]; recusa somente a intervenção de uma [[lexico:p:providencia:start|Providência]] divina nos assuntos do mundo e conta apenas com a [[lexico:c:coragem:start|coragem]], o trabalho e a [[lexico:v:vontade:start|vontade]] dos homens. (V. Deus.) (Do grego, a, privativo — theos, Deus). Convém distinguir entre 1) um [[lexico:e:estado:start|Estado]] de ateísmo ([[lexico:p:psicologico:start|psicológico]] e sociológico), 2) a doutrina do ateísmo e 3) a [[lexico:c:conduta:start|conduta]] prática, que mais ou menos se apoia nessa doutrina. a) O primeiro tópico versa sobre a questão já expressamente tratada por Heródoto: se há povos ou tribos que não praticam um [[lexico:c:culto:start|culto]] ou veneração aos deuses ou a um deus. Essa questão é geralmente respondida de maneira negativa. Mas seja, como for, este ateísmo [[lexico:h:hipotetico:start|hipotético]] só pode ter o sentido de um estado ingênuo, e não reflexivo quanto à existência da divindade. b) A doutrina do ateísmo pode definir-se só verbalmente como a negação da existência de Deus. A [[lexico:s:significacao:start|significação]] filosófica, porém, das teorias, que se colocam sob este título, varia conforme os diversos modos como os termos de Deus e de existência são concebidos. O que para um é uma afirmação de divindade, é ateísmo para outro. c) Mas o ateísmo declarado aplica-se, quase sempre, ao materialismo; e o panteísta, por seu lado, protesta quando lhe chamam de ateísta. O ateísmo, em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao [[lexico:p:pensamento-filosofico:start|pensamento filosófico]] como tal, é caracterizado por Francis [[lexico:b:bacon:start|Bacon]] da seguinte forma: «é certo e comprovado pela [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], que pequenos goles na filosofia talvez conduzam ao ateísmo, porém sorvos mais profundos mostram o [[lexico:c:caminho:start|caminho]] da religião». — O ateísmo foi caracterizado, não em seu conteúdo doutrinai (aliás muito diversificado), mas em seus preâmbulos psicológicos, como a doutrina dos que não sentem o [[lexico:i:impulso:start|impulso]] de remontar à senda da causalidade. e que são pouco familiares com as explicações regressivas. A mesma circunstância parece visar [[lexico:p:pascal:start|Pascal]], quando diz que «o ateísmo é [[lexico:s:sinal:start|sinal]] de força de [[lexico:e:espirito:start|espírito]], mas somente até certo grau». Se se oferece o ateísmo, assim, psicologicamente condicionado, já damos [[lexico:m:meio:start|meio]] passo para compreendê-lo, como uma conduta prática, a atitude dos que vivem, como se Deus não existisse, evidentemente [[lexico:v:visada:start|visada]] por [[lexico:b:bossuet:start|Bossuet]]: «Há um ateísmo recôndito em todos os corações, que se estende sobre todas as [[lexico:a:acoes:start|ações]]: [[lexico:n:nada:start|nada]] se espera de Deus». Os dois aspectos do ateísmo, o [[lexico:t:teoretico:start|teorético]] e o [[lexico:p:pratico:start|prático]], na [[lexico:v:vida:start|vida]], tendem a penetrar-se mutuamente. Na teoria, há tendências mais assinaláveis a separá-los. Assim, pela «[[lexico:c:critica-da-razao-pura:start|crítica da razão pura]]», [[lexico:k:kant:start|Kant]] chega, não à negação [[lexico:f:formal:start|formal]] da existência de Deus, mas à declaração da invalidez de todas as provas que jamais foram alegadas como [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] da existência de Deus, e à proclamação da incompetência peremptória da razão [[lexico:t:teoretica:start|teorética]] a estabelecer tais provas. Por outro lado, a [[lexico:r:razao-pratica:start|razão prática]], que regula a conduta humana, exige, com todo o rigor, a [[lexico:i:ideia-de-deus:start|ideia de Deus]], e não só como ideia, mas como um [[lexico:p:postulado:start|postulado]] indispensável daquela. Aqui, em Kant, Deus aparece como o que não se pode provar, mas em todo caso deve [[lexico:e:existir:start|existir]]. Desde que Nikolai [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]] desenvolveu a sua «[[lexico:e:etica:start|Ética]]», também se manifesta o ponto de vista oposto: um «ateísmo postulativo», que admite que talvez haja um [[lexico:m:modo:start|modo]] de provar teoreticamente algo a favor de Deus, seja essa magnitude [[lexico:r:racional:start|racional]] ou [[lexico:i:irracional:start|irracional]], teísta ou panteísta, porém essa demonstração não tem nenhum valor. Para ele, a razão prática exige a não existência de Deus, pois, para a vida humana, a sua existência é extremamente indesejável, e isto não por [[lexico:m:motivos:start|motivos]] libertinistas, mas em [[lexico:n:nome:start|nome]] da moral. Não deve existir um Deus que sirva ao homem de [[lexico:e:estudo:start|estudo]] para justificar a sua [[lexico:f:falta:start|falta]] de [[lexico:r:responsabilidade:start|responsabilidade]], que sirva de [[lexico:s:sancao:start|sanção]] para uma «missão» que o homem atribui a si próprio ou que, em suma, dê um «sentido» à existência humana. Só em um mundo de necessidades mecânicas há lugar para um ser moral livre; em um mundo criado por uma divindade, segundo um [[lexico:p:plano:start|plano]], o homem fica anulado como [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] moral. Termina por afirmar que o comodismo de atribuir a um Deus a «providência» é [[lexico:a:amoral:start|amoral]]. As suas afirmativas revelam um modo muito incompleto de conceber a Deus, estranho, sob vários aspectos, se considerarmos o que sobre tal [[lexico:t:tema:start|tema]] especularam as maiores cerebrações da Filosofia. Vide Deus. Do [[lexico:g:grego:start|grego]], atheos, sem Deus, negação de Deus. O ateísmo já foi classificado em dogmático, que consiste na negação categórica da existência de Deus, em cético, quando põe em questão a [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] humana de descobrir e demonstrar essa existência, e critico, quando contesta a validade das [[lexico:p:provas-da-existencia-de-deus:start|provas da existência de Deus]]. Em certo sentido, enquanto negam o Deus pessoal e criador, é [[lexico:p:possivel:start|possível]] falar em religiões ateias ou ateístas. No [[lexico:b:budismo:start|budismo]] originário, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], conservam-se os deuses védico-bramânicos, concebidos, no entanto, não como seres eternos e criadores, mas sujeitos ao [[lexico:v:vir-a-ser:start|vir-a-ser]], superando-se o [[lexico:p:politeismo:start|politeísmo]] em uma concepção do divino entendido como [[lexico:m:misterio:start|mistério]], que transcende qualquer [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] conceituai. No sentido corrente da [[lexico:e:expressao:start|expressão]], encontram-se sistemas filosóficos ateus na índia. O samkhya, [[lexico:d:designado:start|designado]] como anisvara, ou nirisvara, quer dizer sem levara, que significa o ser supremo e pessoal, "ateu", portanto. Poderiam mencionar-se, ainda, o [[lexico:m:mimansa:start|mimansa]], e o [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de Lokayata ou Carvaka. Na China, o [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] Yang Chu professou um materialismo ateu que se assemelha ao Carvaka. No judaísmo antigo é possível encontrar traços de incredulidade e de ateísmo, Salmos, X, 4; XIV, I, Jeremias, V, 2-12. As religiões positivas sempre condenaram, por ateísmo, as representações de Deus que não coincidiam com as suas. Do ponto de vista pagão, ateus eram os judeus e os cristãos que se recusavam à prestação do culto. Para os judeus e cristãos, em contrapartida, ateus eram os pagãos adeptos de religiões politeístas. O politeísmo grego, sem dogmas e sem [[lexico:t:teologia:start|teologia]], era mais prático do que especulativo. Alguns filósofos gregos negaram a existência dos deuses, outros apenas a sua divindade, deixando-os [[lexico:s:subsistir:start|subsistir]] como homens, ou como demônios, ou nos [[lexico:e:elementos:start|elementos]], os astros, o que correspondia, de certo modo, a uma [[lexico:s:superacao:start|superação]] do ateísmo, pois, mesmo como demônios, os deuses podiam ainda ser [[lexico:o:objeto:start|objeto]] de culto. Entre os principais representantes do ateísmo na [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] clássica devem ser mencionados [[lexico:h:heraclito:start|Heráclito]], [[lexico:d:democrito:start|Demócrito]], [[lexico:e:epicuro:start|Epicuro]] e Lucrécio. Segundo Heráclito de Éfeso (540 a. C.) o fogo, um fogo eternamente vivo, é a [[lexico:s:substancia:start|substância]] primordial e única, da qual todas as coisas procedem e à qual todas retornam, e o mundo, o mesmo para todos os seres, não foi criado por nenhum deus nem por nenhum homem. Redutível a um só princípio, de natureza material, embora sutil e de todas a mais incorpórea, o mundo, [[lexico:e:eterno:start|eterno]] e incriado, exclui, tanto em sua origem quanto em sua composição, a interferência de qualquer [[lexico:e:ente:start|ente]] [[lexico:s:superior:start|superior]] ou Deus. De acordo com Demócrito de Abdera (460 a. C), a realidade se compõe de átomos e do [[lexico:v:vazio:start|vazio]]. Indivisíveis, insecáveis, em [[lexico:n:numero:start|número]] [[lexico:i:infinito:start|infinito]], os átomos distinguem-se pela forma, pela ordem e pela [[lexico:p:posicao:start|posição]]. Tais diferenças são quantitativas e geométricas, e os movimentos que unem os átomos ou os separam são puramente mecânicos. Os átomos e o vazio, [[lexico:b:bem:start|Bem]] como o movimento, são eternos; sempre existiram, e suas combinações, em número infinito, dão origem à [[lexico:f:formacao:start|formação]] dos diversos mundos. A [[lexico:l:logica:start|lógica]], que nos proporciona o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] da verdade, e a [[lexico:f:fisica:start|física]], que nos revela a composição material da realidade, fundam a moral, que nos deve proporcionar a [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]], libertando-nos do temor dos deuses. Discípulo de Demócrito, Epicuro de Samos (341-270), dividia a filosofia em canônica, ou lógica, em física e em ética. A lógica nos permite distinguir a "opinião" ou "[[lexico:s:suposicao:start|suposição]]", que pode ser verdadeira ou falsa, do que Epicuro chama de "[[lexico:a:antecipacao:start|antecipação]]", ou ideia geral, sempre verdadeira. Utilizando a lógica, a física nos revela a [[lexico:c:constituicao:start|constituição]] íntima do real, o princípio de que se compõe a natureza. Segundo Epicuro, nada vem do nada, e o universo se constitui de corpos e do [[lexico:e:espaco:start|espaço]] vazio, únicas [[lexico:s:substancias:start|substâncias]] reais. Os átomos, indivisíveis, estão em permanente movimento, e de seu encontro resultam as diversas combinações que dão origem às coisas. Só há uma substância incorpórea, o vazio, e a alma humana não passa de um corpo sutil, [[lexico:c:composto:start|composto]] também de átomos, e [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] a um [[lexico:s:sopro:start|sopro]], dotado de certo calor. Procurando proporcionar aos homens a [[lexico:t:tranquilidade:start|tranquilidade]], Epicuro se propõe libertá-los do temor dos deuses e do temor da [[lexico:m:morte:start|morte]]. Os deuses não criaram o mundo e dele não se ocupam, não havendo por que temê-los. Quanto à morte, se a dissolução do corpo acarreta a dissolução da alma, não há também por que temê-la, pois enquanto estamos vivos a morte não existe e, quando a morte ocorre, não somos mais. Senhores de nossa conduta, não temos por que temer a [[lexico:f:fatalidade:start|fatalidade]], e, afastado o temor dos deuses, da morte e da Fatalidade, a alma conquista a [[lexico:a:ataraxia:start|ataraxia]], em que consiste a felicidade. Para Epicuro, o ateísmo, além de [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a constituição do mundo, é a condição da felicidade humana. Lucrécio (98-55 a. C), inspirando-se na física de Epicuro, escreveu um poema famoso, em seis cantos, De rerum natura (Sobre a natureza), no qual, indo além do [[lexico:m:mestre:start|mestre]], ataca, com veemência, o culto dos deuses e a própria religião, em seus princípios e em seu espírito, mostrando que os deuses eram inúteis, em relação ao sistema materialista, tal como o concebeu Epicuro e, antes dele, Demócrito. [[lexico:p:poeta:start|poeta]] dotado de [[lexico:e:espirito-cientifico:start|espírito científico]], Lucrécio pressentiu algumas ideias modernas, tais como o movimento [[lexico:u:universal:start|universal]], a indestrutibilidade da matéria, a [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] dos mundos, o [[lexico:e:evolucionismo:start|evolucionismo]], a [[lexico:s:selecao:start|seleção]] natural, a [[lexico:h:hereditariedade:start|hereditariedade]] e o [[lexico:p:progresso:start|progresso]] [[lexico:h:humano:start|humano]]. Os [[lexico:a:apologistas:start|apologistas]] cristãos adotaram as teses da filosofia helenístico-romana que negava os deuses como deuses e os admitia como demônios, com a [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] de que, para os pagãos politeístas, havia demônios bons e maus, e, para os judeus e cristãos, os demônios só poderiam ser maus. Elaborada pelos hebreus e pela [[lexico:f:filosofia-helenistica:start|filosofia helenística]], e adotada pela [[lexico:a:apologetica:start|apologética]] cristã, a [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] demonística dos pagãos atravessou a Idade Média e o [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]], aplicando-se aos deuses das religiões antigas. Já na idade moderna, procurando [[lexico:s:superar:start|superar]] o [[lexico:d:dualismo:start|dualismo]] cartesiano, que dividia a substância em [[lexico:r:res-cogitans:start|res cogitans]] ([[lexico:c:coisa:start|coisa]] pensante) e res extensa (coisa extensa) Spinoza (1632-1677), definindo a substância como [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] em si e [[lexico:p:por-si:start|por si]], reduz todas as substâncias a uma só, Deus ou a Natureza (Deus sive natura), que inclui infinitos atributos, dos quais só conhecemos dois, o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] e a extensão. A Natureza, ou Deus, pode ser a [[lexico:n:natura-naturans:start|natura naturans]], criadora, e natura naturata, criada. Os demais seres que não são substâncias, Spinoza os chama de modos, pois não existem por si mesmos. O homem, que é um modo da substância, é determinado por sua [[lexico:e:essencia:start|essência]] ou natureza, e a liberdade não passa da consciência da [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]]. Identificando Deus com a natureza, o panteísmo spinozista é, na realidade, um ateísmo, e assim foi entendido, ainda em vida do filósofo, cuja doutrina foi objeto de várias condenações das autoridades eclesiásticas. O ateísmo da [[lexico:e:enciclopedia:start|Enciclopédia]], ou do [[lexico:i:iluminismo:start|Iluminismo]], que é a [[lexico:i:ideologia:start|ideologia]] da [[lexico:r:revolucao:start|Revolução]] Francesa, é representado, de modo especial, por [[lexico:d:diderot:start|Diderot]], [[lexico:h:helvetius:start|Helvetius]], d’Holbach, [[lexico:v:voltaire:start|Voltaire]] e La Mettrie. Helvetius (1715-1771), por exemplo, ataca os fanáticos religiosos, que "compreendem que devem cegar os povos a fim de subjugá-los", e d’Holbach (1723-1789) empreende a denúncia [[lexico:s:sistematica:start|sistemática]] da religião e do Estado. Ambos procuram mostrar que a religião consiste em [[lexico:c:criar:start|criar]] um [[lexico:r:reino:start|reino]] de seres imaginários, um mundo [[lexico:i:irreal:start|irreal]] que substitui o mundo [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]]. A religião, além disso, diz d’Holbach, é um excelente instrumentum regni, a serviço daqueles que se acham no poder uma ideologia que consagra os privilégios e os interesses das classes [[lexico:d:dominantes:start|dominantes]] e os apresenta como se fossem expressão da vontade e da razão divinas. A religião é a arte de embriagar os homens com o [[lexico:e:entusiasmo:start|entusiasmo]], a fim de impedi-los de ocupar-se com os males que lhes são impostos por aqueles que os governam. Com o auxílio dos poderes invisíveis com que os ameaçam, os obrigam a sofrer em [[lexico:s:silencio:start|silêncio]] as misérias que lhes são impostas pelos poderes visíveis, fazendo-os acreditar que, se consentirem em ser infelizes neste mundo, serão mais felizes em outro. Immanuel Kant (1724-1804) é um representante do que se poderia chamar de "ateísmo crítico", isto é, da posição que contesta a validade das provas da existência de Deus. Na [[lexico:c:critica:start|Crítica]] da [[lexico:r:razao-pura:start|Razão Pura]], Kant demonstra que os [[lexico:j:juizos-sinteticos-a-priori:start|juízos sintéticos a priori]], característicos do [[lexico:c:conhecimento-cientifico:start|conhecimento científico]], são impossíveis na [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]], pois a "coisa em si", Deus, alma, mundo, liberdade, etc, não nos é dada em experiência alguma. A razão forma esses [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] sintetizando além da experiência, fazendo a [[lexico:s:sintese:start|síntese]] das sínteses, porque aspira ao [[lexico:i:incondicionado:start|incondicionado]], ao [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]. Nas famosas "[[lexico:a:antinomias:start|antinomias]]", Kant mostra que a razão pura prova indiferentemente a [[lexico:f:finitude:start|finitude]] e a infinitude do mundo, a liberdade e o [[lexico:d:determinismo:start|determinismo]], a existência e a inexistência de Deus. Embora pretendesse destruir a razão para substituí-la pela [[lexico:f:fe:start|fé]], Kant, na realidade, fornece armas poderosas ao ateísmo, tornando Deus objeto de uma fé puramente irracional, de uma crença que não pode justificar-se. A filosofia de Hegel (1770-1831) comporta, de certo modo, uma interpretação semelhante, pois, invalidando as provas da existência de Deus e tornando-o interior, ou [[lexico:i:imanente:start|imanente]], à natureza, que seria sua [[lexico:e:exteriorizacao:start|exteriorização]] no espaço, e à [[lexico:h:historia:start|história]], sua [[lexico:o:objetivacao:start|objetivação]] no tempo, nega a [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]] divina, identificando Deus com o homem, ou o homem com Deus. O Deus hegeliano, que se produz e toma consciência de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] ao longo da história, a rigor, é o próprio homem, no qual o espírito absoluto, na forma da filosofia, e não da religião, alcança a perfeita [[lexico:i:igualdade:start|igualdade]] ou coincidência consigo mesmo. [[lexico:i:imanentismo:start|imanentismo]] radical, que faz da história a [[lexico:i:instancia:start|instância]] última de toda [[lexico:r:revelacao:start|revelação]], o [[lexico:h:hegelianismo:start|hegelianismo]], apesar do [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] do sistema, pode ser considerado uma forma de panteísmo e de ateísmo crítico. Após a morte de Hegel, o debate filosófico se concentra no [[lexico:p:problema-de-deus:start|problema de Deus]], a propósito do qual se produz a cisão entre a [[lexico:d:direita-hegeliana:start|direita hegeliana]], espiritualista e conservadora, e a esquerda, materialista e revolucionária. Ludwig Feuerbach (1804-1872), principal representante da [[lexico:e:esquerda-hegeliana:start|esquerda hegeliana]], denuncia na [[lexico:a:antropologia:start|antropologia]] o segredo da teologia. Ao falar de Deus, na realidade o homem [[lexico:f:fala:start|fala]] de si mesmo, alienando sua essência tomada como objeto. A metafísica, por sua vez, não passa de uma teologia laicizada. A crítica da religião, ou da alienação religiosa, implica, assim, a critica da filosofia, que, colocando a essência do homem, o pensamento, fora do próprio homem, o aliena e despoja de sua essência ou [[lexico:a:atividade:start|atividade]], em proveito de uma realidade ilusória. Deus não passa de um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] [[lexico:f:fantastico:start|fantástico]], [[lexico:p:puro:start|puro]] [[lexico:p:produto:start|produto]] da [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]] humana. O homem despoja o mundo de seu conteúdo, diz Feuerbach, e transfere esse conteúdo para Deus. O homem pobre possui um Deus rico, e afirma de Deus o que nega de si mesmo. A religião se converte em um "vampiro da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]], que se alimenta de sua substância, de sua [[lexico:c:carne:start|carne]] e de seu [[lexico:s:sangue:start|sangue]]". Na Essência do Cristianismo, diz Feuerbach que o [[lexico:m:momento:start|momento]] decisivo da história será aquele em que o homem tomar consciência de que seu único Deus é o próprio homem. O ateísmo de Feuerbach é particularmente importante como momento de transição entre o hegelianismo e o [[lexico:m:marxismo:start|marxismo]]. Na Contribuição à crítica da Filosofia do [[lexico:d:direito:start|direito]] de Hegel, Karl Marx (1818-1883) afirma que a crítica da religião é a condição primeira de toda critica e que seu fundamento é a [[lexico:v:verificacao:start|verificação]] de que é o homem que faz a religião e não a religião que faz o homem. Para Marx, a religião é a consciência e o [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] do homem que, ou ainda não se encontrou, ou já tornou a perder-se. Consciência errada do mundo que, por sua vez, é um mundo [[lexico:f:falso:start|falso]], a religião, nas palavras de Marx, é a teoria geral desse mundo, seu compêndio enciclopédico, sua lógica em forma popular, seu ponto de [[lexico:h:honra:start|honra]] espiritual, seu entusiasmo, sua sanção moral, seu complemento solene, sua razão geral de consolação e [[lexico:j:justificacao:start|justificação]]. É a realização fantástica da essência humana, porque a essência humana não tem realidade verdadeira. A [[lexico:l:luta:start|luta]] contra a religião, diz Marx, é a luta contra este mundo, do qual a religião é o aroma espiritual. A miséria religiosa é a expressão da miséria real, o protesto contra essa miséria. É o [[lexico:s:suspiro:start|suspiro]] da criatura oprimida pela infelicidade, a alma de um mundo sem [[lexico:c:coracao:start|coração]], o espírito de uma [[lexico:e:epoca:start|época]] sem espírito. A religião é o ópio do [[lexico:p:povo:start|povo]]. A verdadeira felicidade do povo exige que a religião seja suprimida enquanto felicidade ilusória do povo, e a missão da história, após desvanecer-se a vida futura da verdade, é estabelecer a verdade da vida presente. A crítica do céu, diz Marx, transforma-se, assim, em crítica da terra, a crítica da religião em critica do direito, e a crítica da teologia em crítica da [[lexico:p:politica:start|política]]. Comentando a Essência do Cristianismo, de Ludwig Feuerbach, Friedrich [[lexico:e:engels:start|Engels]] (1820-1895) diz que a natureza existe independentemente de qualquer filosofia, e é a base sobre a qual crescem os homens, produtos da natureza. Fora da natureza e dos homens não há coisa alguma, e os seres superiores, criados por nossa imaginação religiosa, não passam do [[lexico:r:reflexo:start|reflexo]] fantástico do nosso próprio ser. Por intermédio de Wagner e de Schopenhauer, Friedrich Nietzsche (1844-1900) também sofreu a [[lexico:i:influencia:start|influência]] de Feuerbach. Nas últimas notas que redigiu antes de morrer, encontra-se uma explicação da crença em Deus que muito se assemelha à de Feuerbach. Nietzsche, porém, não formula o problema de Deus em termos especulativos, mas em termos existenciais. O homem, diz o autor do Zaratustra, procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e macular este mundo; na realidade, apreende apenas o nada, e desse nada faz um "Deus" ou uma "Verdade", chamados a julgar e a condenar esta existência. Na [[lexico:v:vontade-de-poder:start|Vontade de Poder]], Nietzsche diz que o ateísmo não era nele um resultado, ou um [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] de sua vida, mas uma "coisa instintiva", tendo imaginado, em certo momento, uma organização das forças ateias. Em uma [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] [[lexico:e:existencial:start|existencial]], Nietzsche não afirma propriamente a inexistência, mas a [[lexico:m:morte-de-deus:start|morte de Deus]], assassinado pelos próprios homens. Esse acontecimento prodigioso ainda está em caminho, em marcha, não chegou ainda aos ouvidos dos homens e, no entanto, é como se, no [[lexico:h:horizonte:start|horizonte]] terrestre, o [[lexico:s:sol:start|sol]] se houvesse apagado para sempre. O que o mundo possuía de mais [[lexico:s:sagrado:start|sagrado]] e de mais poderoso sangrou nas [[lexico:m:maos:start|mãos]] dos homens, e a [[lexico:g:grandeza:start|grandeza]] desse ato os ultrapassa. Não deverão os homens tornar-se deuses, [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] Nietzsche, para serem dignos de tal façanha? A morte de Deus prenuncia o [[lexico:n:niilismo:start|niilismo]], impondo à filosofia a transmutação de todos os valores, que deverá preparar o advento do [[lexico:s:super-homem:start|super-homem]]. Para Augusto [[lexico:c:comte:start|Comte]] (1798-1857) a humanidade, ao longo da história, passa por três estados: o teológico, ou [[lexico:r:religioso:start|religioso]], em que tudo se explica por intermédio dos deuses e forças sobrenaturais; o metafísico ou [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]], crítico ou de transição, em que as coisas se explicam por meio de entidades abstratas, inerentes [[lexico:a:as-proprias-coisas:start|às próprias coisas]], tais como causa, substância, etc, e no qual Deus é substituído pela Natureza ([[lexico:s:spinozismo:start|spinozismo]]), e finalmente o estado [[lexico:p:positivo:start|positivo]], ou definitivo, em que os homens renunciam ao conhecimento das causas e se atêm ao [[lexico:d:dado:start|dado]], à [[lexico:o:observacao:start|observação]] dos fatos e à determinação das leis que regem seu [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]]. Compreendendo que só se destrói aquilo que se substitui, Comte fundou uma nova religião cujo deus é o "[[lexico:g:grande-ser:start|Grande Ser]]", a Humanidade. Religião terrena, confinada nos limites da história, a religião positivista, apesar das analogias que apresenta com o catolicismo, é uma forma de ateísmo em que a teologia é substituída pela [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] e Deus pelo próprio homem. No âmbito da [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]], Sigmund [[lexico:f:freud:start|Freud]] (1856-1939) é um dos mais ilustres representantes do ateísmo [[lexico:m:moderno:start|moderno]]. De seu ponto de vista, todas as instituições e normas culturais têm uma origem puramente humana. A religião nos diria a verdade histórica, deformada e mascarada, no entanto, ao passo que a ciência, ou a explicação racional a desmente. Segundo Freud, a religião é a neurose obsessional e universal da humanidade. Como a da criança, deriva do [[lexico:c:complexo-de-edipo:start|complexo de Édipo]], das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] do pai com o [[lexico:f:filho:start|filho]]. Desse ponto de vista, o criador da [[lexico:p:psicanalise:start|psicanálise]] prevê que o [[lexico:a:abandono:start|abandono]] da religião ocorrerá com a fatal inexorabilidade de um [[lexico:p:processo:start|processo]] de crescimento, e que a humanidade se encontra, hoje em dia, precisamente nessa fase da [[lexico:e:evolucao:start|evolução]]. Retirando do além suas esperanças, diz Freud, e concentrando na vida terrena todas as suas energias liberadas, o homem chegará a tornar a vida suportável a todos, e a [[lexico:c:civilizacao:start|civilização]] ninguém mais esmagará. Poderá dizer então, com o poeta Heine, "abandonamos o céu aos [[lexico:a:anjos:start|anjos]] e aos pássaros". Representam o ateísmo filosófico em nosso tempo Martin [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] e Jean-Paul Sartre. Sob o [[lexico:s:signo:start|signo]] dos gregos e de Nietzsche, Heidegger compreendeu que uma filosofia elaborada na base da negação de Deus continua presa ao problema teológico. A [[lexico:v:violencia:start|violência]] da negação se converte em Nietzsche, por exemplo, em afirmação, e um pensamento ateu deve ser elaborado sem [[lexico:r:referencia:start|referência]] alguma à ideia de Deus. A filosofia só poderá emancipar-se da teologia quando conseguir formular os problemas filosóficos excluindo totalmente o recurso à [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] teísta, isto é, fazendo compreender que não há um [[lexico:p:problema-filosofico:start|problema filosófico]] da existência de Deus. Definindo o homem pela [[lexico:t:temporalidade:start|temporalidade]], como ser-para-a-morte, cuja existência autêntica consiste precisamente em tomar consciência da própria finitude, pois o homem é posto ou jogado no mundo para morrer, Heidegger elimina, implicitamente, a ideia de Deus da filosofia, negando-a pela indiferença, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que, para compreender o homem e o mundo, não a leva em consideração. Jean-Paul Sartre, no ensaio intitulado O [[lexico:e:existencialismo:start|existencialismo]] é um humanismo, declara que há duas espécies de existencialismo: os cristãos, como [[lexico:g:gabriel-marcel:start|Gabriel Marcel]] e [[lexico:j:jaspers:start|Jaspers]], e os ateus, como Heidegger e ele próprio. Criticando o ateísmo dos filósofos que suprimiram a ideia de Deus mas conservaram a ideia de que a essência precede a existência, Sartre observa que o existencialismo ateu é mais coerente, ao afirmar que, se Deus não existe, não existe (em Deus) a ideia prévia ou a essência do homem, havendo ao menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, isto é, a realidade humana. O homem existe inicialmente, e se define em seguida. Se não pode ser desde logo definido, diz Sartre, é porque, ao existir, não é coisa alguma, e será o que fizer de si mesmo. Assim, não há [[lexico:n:natureza-humana:start|natureza humana]], porque não há Deus para concebê-la. O existencialismo, diz Sartre, não passa de um [[lexico:e:esforco:start|esforço]] para tirar todas as consequências de uma posição ateísta coerente. Não é um ateísmo porque se extenue em provar que Deus não existe, pois mesmo que Deus existisse, sua existência não modificaria coisa alguma. O problema, diz Sartre, não é o da existência de Deus; é preciso que o homem se reencontre a si mesmo, e se convença de que nada pode salvá-lo dele próprio, mesmo uma demonstração válida da existência de Deus. Segundo alguns filósofos e homens de ciência, o problema do ateísmo não se apresentaria, na [[lexico:a:atualidade:start|atualidade]], em termos teóricos, mas em termos práticos. Deixando de ser tema de controvérsia, teológica ou filosófica, seria o postulado da ciência e da [[lexico:t:tecnologia:start|tecnologia]], e a lógica, ou o sentido [[lexico:i:implicito:start|implícito]], de um mundo prometeico, que, excluindo qualquer transcendência divina, procura edificar-se em benefício do homem, utilizando apenas as forças e os recursos humanos. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}