===== ARISTIPO ===== Aristipo nasceu em Cirene, [[lexico:c:cidade|cidade]] fundada por colonos gregos nas costas da [[lexico:a:africa|África]], vivendo das últimas décadas do século V à primeira metade do século TV a.C. Viajou para Atenas a [[lexico:f:fim|fim]] de aprender com [[lexico:s:socrates|Sócrates]]. Mas a [[lexico:v:vida|vida]] agitada e rica que havia levado em Cirene e os hábitos contraídos antes de encontrar Sócrates condicionaram a sua aceitação da [[lexico:m:mensagem|mensagem]] socrática. Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], fixou-se nele a [[lexico:c:conviccao|convicção]] de que o [[lexico:b:bem-estar|bem-estar]] [[lexico:f:fisico|físico]] seria o [[lexico:b:bem-supremo|bem supremo]], a [[lexico:p:ponto|ponto]] de ele chegar a considerar o [[lexico:p:prazer|prazer]] como o principal movente da vida, como veremos. Já vimos que Sócrates [[lexico:n:nao|não]] condenou o prazer como [[lexico:m:mal|mal]] (como iria fazer [[lexico:a:antistenes|Antístenes]]), mas, em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], também não o considerou como um [[lexico:b:bem|Bem]]: só a [[lexico:c:ciencia|ciência]] e a [[lexico:v:virtude|virtude]] o eram, embora o prazer também pudesse [[lexico:s:ser|ser]] um bem, desde que convenientemente inserido em uma vida sustentada pelo [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]. Aristipo, porém, rompendo inteiramente o equilíbrio da [[lexico:p:posicao|posição]] socrática, afirmou que o prazer é sempre um bem, qualquer que seja a [[lexico:f:fonte|fonte]] de onde derive. Em [[lexico:s:suma|suma]], Aristipo foi um [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] hedonista, em claro contraste com o [[lexico:v:verbo|verbo]] [[lexico:s:socratico|socrático]]. Em segundo lugar, também pelas mesmas razões, Aristipo assumiu em [[lexico:r:relacao|relação]] ao dinheiro posicionamento que, para um socrático, era absolutamente abusado: com [[lexico:e:efeito|efeito]], ele chegou a fazer-se pagar suas lições, exatamente como faziam os [[lexico:s:sofistas|sofistas]], a ponto de os antigos chamarem-no sem [[lexico:d:duvida|dúvida]] de "[[lexico:s:sofista|sofista]]" (para os antigos, como já dissemos, os sofistas, com efeito, eram, aqueles que ministravam seus ensinamentos contra pagamento). Diógenes Laércio nos relata que Aristipo "foi o primeiro dos socráticos a pretender uma recompensa em dinheiro’’, tendo chegado mesmo a tentar enviar dinheiro para Sócrates, com o resultado que qualquer um pode muito bem imaginar. Com base nos testemunhos que chegaram até nós, é difícil, para não dizer [[lexico:i:impossivel|impossível]], distinguir o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] de Aristipo do de seus sucessores imediatos. Sua filha Areta recebeu em Cirene a herança espiritual paterna e a passou ao [[lexico:f:filho|filho]], a [[lexico:q:quem|quem]] deu o mesmo [[lexico:n:nome|nome]] do avô (o qual, assim, passou a ser denominado Aristipo, o Jovem). É [[lexico:p:provavel|provável]] que o núcleo [[lexico:e:essencial|essencial]] da doutrina cirenaica tenha sido fixado justamente pela [[lexico:t:triade|tríade]] Aristipo-Areta-Aristipo, o Jovem. Posteriormente, a [[lexico:e:escola|escola]] dividiu-se em diversas correntes de escasso relevo, das quais falaremos adiante. Aqui, trataremos apenas das doutrinas que podem, com [[lexico:v:verossimilhanca|verossimilhança]], remontar ao [[lexico:c:cirenaismo|cirenaísmo]] original. Os cirenaicos rejeitaram as pesquisas físicas e consideraram como supérflua a própria [[lexico:m:matematica|matemática]], que [[lexico:n:nada|nada]] têm a [[lexico:v:ver|ver]] com o bem e a [[lexico:f:felicidade|felicidade]]. Reduziram ao essencial as indagações lógicas. Eles eram fenomenistas, reduzindo o conhecimento das [[lexico:c:coisas|coisas]] a "sensações", que entendiam como "estados subjetivos" incomunicáveis intersubjetivamente. Os nomes comuns são convenções, pois, na [[lexico:r:realidade|realidade]], expressam as sensações que cada [[lexico:s:sujeito|sujeito]] experimenta, as quais, como sabemos, não são confrontáveis com as dos outros. Consequentemente, pode-se [[lexico:c:compreender|compreender]] a radical [[lexico:v:visao|visão]] hedonista própria dos cirenaicos. Para eles, a felicidade está no prazer colhido e desfrutado no [[lexico:m:momento|momento]]. O prazer é explicado como uma [[lexico:e:especie|espécie]] de "[[lexico:m:movimento|movimento]] leve" e a [[lexico:d:dor|dor]] como um "movimento violento". A [[lexico:a:ausencia|ausência]] de prazer ou de dor, ou seja, a [[lexico:f:falta|falta]] de movimento leve ou violento, é o [[lexico:e:extase|êxtase]], "[[lexico:s:semelhante|semelhante]] à [[lexico:s:situacao|situação]] de quem dorme" e, portanto, não é agradável nem dolorosa. O prazer físico, assim como a [[lexico:d:dor-fisica|dor física]], é [[lexico:s:superior|superior]] ao [[lexico:p:psiquico|psíquico]], tanto é [[lexico:v:verdade|verdade]] que os maus são punidos com dores físicas. No entanto, os cirenaicos afirmam que o [[lexico:h:homem|homem]] deve dominar os prazeres e não se deixar dominar por eles. Em comparação com certas posições sofísticas, só há de socrático nos cirenaicos o [[lexico:p:principio|princípio]] do [[lexico:a:autodominio|autodomínio]], transformado de domínio sobre a vida do [[lexico:i:instinto|instinto]] e sobre o [[lexico:d:desejo|desejo]] do prazer em autodomínio no prazer. Não é o prazer que é torpe, mas sim o ser vítima dele; não é o satisfazer as paixões que é mal, mas sim, no satisfazê-las, deixar-se [[lexico:e:envolver|envolver]] por elas; não é o gozo que deve ser condenado, mas sim [[lexico:t:todo|todo]] excesso que nele se insinue. Para os cirenaicos, a própria virtude socrática torna-se, não um fim, mas um [[lexico:m:meio|meio]] e [[lexico:i:instrumento|instrumento]] de prazer, reduzindo-se apenas àquele autodomínio no prazer de que já falamos. Um ponto ainda merece ser destacado, ou seja, a posição de [[lexico:r:ruptura|ruptura]] assumida por Aristipo em relação ao [[lexico:e:ethos|ethos]] da [[lexico:p:polis|polis]]. Segundo a concepção tradicional, na [[lexico:s:sociedade|sociedade]] há quem comanda e quem é comandado. Consequentemente, construía-se o [[lexico:d:discurso|discurso]] educativo [[lexico:c:como-se|como se]] não houvesse nenhuma outra [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] senão a de formar pessoas aptas a comandar ou a obedecer. Aristipo, ao contrário, proclama a [[lexico:e:existencia|existência]] de uma terceira possibilidade: a de não fechar-se de [[lexico:m:modo|modo]] algum em uma cidade, tornando-se "forasteiro em toda [[lexico:p:parte|parte]]" e vivendo as consequências disso. As sucessivas afirmações dos cirenaicos em [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:c:cosmopolita|cosmopolita]] inserem-se exatamente nessas premissas, que, na verdade, são mais negativas do que positivas, porque a ruptura dos esquemas da polis ocorre por razões egoístas e de [[lexico:u:utilitarismo|utilitarismo]] hedonístico, ou seja, porque uma [[lexico:p:participacao|participação]] na vida pública não permite gozar plenamente a vida. A posição de Aristipo e dos cirenaicos não podia [[lexico:e:estar|estar]] em mais estridente contraste com a posição de Sócrates, que colocou o seu filosofar a serviço da cidade e morreu para permanecer fiel ao ethos da polis.