===== ARGUMENTO ONTOLÓGICO ===== Desde [[lexico:k:kant|Kant]], assim se denomina uma [[lexico:p:prova|prova]] da [[lexico:e:existencia-de-deus|existência de Deus]] ([[lexico:p:provas-da-existencia-de-deus|provas da existência de Deus]]), primeiramente apresentada por S. Anselmo de Cantuária, a qual, sem quaisquer outras pressuposições, procura demonstrar a [[lexico:e:existencia|existência]] de [[lexico:d:deus|Deus]], baseando-se exclusivamente no [[lexico:c:conceito|conceito]] do mesmo Deus. S. Anselmo toma como [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida o conceito do [[lexico:s:ser|ser]] absolutamente maior, acima do qual nenhum [[lexico:o:outro|outro]] pode haver, e conclui que, do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] que existe só no [[lexico:p:pensamento|pensamento]], assim também o ser maior que se pode [[lexico:p:pensar|pensar]] deve igualmente [[lexico:e:existir|existir]] na [[lexico:r:realidade|realidade]], porque, de contrário, [[lexico:n:nao|não]] seria o ser maior que se pode pensar. Quando um seu contemporâneo (Gaunilão) lhe objeta que, por essa [[lexico:f:forma|forma]], poderia igualmente concluir-se a existência da maior ilha [[lexico:p:possivel|possível]], e Kant observa que cem táleres reais não têm mais do que aquilo que se pensa no conceito de cem táleres possíveis, nenhum dos dois toca no ponto decisivo da [[lexico:q:questao|questão]], a [[lexico:s:saber|saber]]: que o ser absolutamente maior (o [[lexico:i:infinito|infinito]]) se comporta, relativamente à existência, de maneira essencialmente diversa do [[lexico:e:ente|ente]] [[lexico:f:finito|finito]]. S. Anselmo tem [[lexico:r:razao|razão]], quando diz que Deus, como absolutamente maior e insuperavelmente [[lexico:p:perfeito|perfeito]] no ser, não pode por forma alguma ser pensado sem que o concebamos como necessariamente existente. Todavia, com isso não fica elucidado se ao conceito de absolutamente maior corresponde uma realidade objetiva ou uma [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]]. Para tal não basta, como pensava [[lexico:l:leibniz|Leibniz]], a mera possibilidade de pensá-lo sem [[lexico:c:contradicao|contradição]]. Por isso, S. [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] e muitos escolásticos (não todos) não admitiram o [[lexico:a:argumento-ontologico|argumento ontológico]]. Pelo contrário, este encontrou sempre acolhida no [[lexico:r:racionalismo|racionalismo]] ([[lexico:d:descartes|Descartes]], Leibniz, [[lexico:w:wolff|Wolff]]), o qual aceitava, sem mais, a [[lexico:o:ordem|ordem]] dos [[lexico:c:conceitos|conceitos]] como ordem [[lexico:o:ontologica|ontológica]]. Kant impugnou justamente o [[lexico:a:argumento|argumento]]. Não obstante, é inexata a sua [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] de que todas as provas da existência de Deus têm como [[lexico:p:pressuposicao|pressuposição]] [[lexico:l:logica|lógica]] a [[lexico:v:validade|validade]] de [[lexico:d:dito|dito]] argumento e que, portanto, caducam com ele. Porque, se a existência (ou possibilidade [[lexico:r:real|real]]) do ser absolutamente maior consta por outra via, p. ex., mediante um [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] fundamentado no [[lexico:p:principio-de-causalidade|princípio de causalidade]], fica também justificado o raciocínio que conclui a interna [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de sua existência. — [[lexico:b:brugger|Brugger]]. Mas convirá muito a nosso propósito não permanecer neste [[lexico:p:plano|plano]] de teses gerais. Vamos descer a algumas aplicações diretas do [[lexico:e:espirito|espírito]] [[lexico:c:classico|clássico]] na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] de Tomás de Aquino. Desde já vamos vê-lo manter-se na perfeita [[lexico:m:medida|medida]] e mesura clássica ao ocupar-se do [[lexico:p:problema|problema]] fundamental de Deus. Tomás de Aquino aborda [[lexico:e:esse|esse]] problema com uma [[lexico:c:coragem|coragem]], que não tiveram seus antecessores, nem talvez seus sucessores, em toda a [[lexico:h:historia|história]] do pensamento [[lexico:m:moderno|moderno]]. A coragem, a audácia intelectual — quando convém — é também um traço [[lexico:c:caracteristico|característico]] do espírito clássico em filosofia. Tomás de Aquino levanta corajosamente o [[lexico:p:problema-de-deus|problema de Deus]] desde as primeiras passagens da Summa Theologica. E verifica que, no seu [[lexico:t:tempo|tempo]] e até desde muito antes de seu tempo, existe nas mentes dos filósofos e nos livros de filosofia uma [[lexico:t:tese|tese]] segundo a qual nós conhecemos a Deus imediatamente. Que significa isto de conhecer algo imediatamente? A [[lexico:p:palavra|palavra]] "[[lexico:i:imediato|imediato]]" tem em filosofia um [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:e:exato|exato]]. Não ê uma palavra vaga. Significa rigorosamente [[lexico:a:ausencia|ausência]] de [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:m:meio|meio]] ou intermediário entre [[lexico:q:quem|quem]] conhece e o conhecido. [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] imediato é, pois, o conhecimento intuitivo; por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], conhecimento no qual entre o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] cognoscente e a [[lexico:c:coisa|coisa]] conhecida não se interpõe o veículo ou meio de nenhum conceito [[lexico:g:geral|geral]], de nenhuma [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] discursiva, de nenhum [[lexico:p:processo|processo]] de prova ou de [[lexico:d:descoberta|descoberta]]. Pois [[lexico:b:bem|Bem]]; repito que Tomás de Aquino se defronta com uma [[lexico:o:opiniao|opinião]] bastante difundida no seu tempo e segundo a qual a Deus se conhece imediatamente. O argumento de [[lexico:s:santo|santo]] Anselmo é um [[lexico:b:bom|Bom]] exemplo dessa opinião. Consiste em partir da [[lexico:i:ideia-de-deus|ideia de Deus]], que [[lexico:e:eu|eu]] — cada um de nós — tenho dentro de mim. Esse Deus em que [[lexico:a:agora|agora]] penso, penso-o como um ser infinito, quer dizer, tão grande que não pode haver maior. Pois bem; esse ser por mim pensado tem que existir necessariamente, diz Santo Anselmo, porque é evidente que [[lexico:e:estar|estar]] na realidade e na [[lexico:i:ideia|ideia]] é mais do que estar somente na ideia; logo Deus existente na realidade é mais que Deus não existente ou existente somente na ideia. Este argumento que desde Santo Anselmo vem ressurgindo por toda a [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]], toma-o em conta Tomás de Aquino e o [[lexico:c:critica|Crítica]] acerbamente, demonstrando sua invalidade. Por que carece de [[lexico:f:forca|força]] probatória o argumento de Santo Anselmo? Tomás de Aquino coloca imediatamente o dedo na chaga. Carece de torça probatória porque supõe que o ser ideia e o ser existência são seres iguais, de idêntica [[lexico:e:estrutura|estrutura]]; quantidades, em [[lexico:s:suma|suma]], que podem somar-se ou subtrair-se sem dificuldades. Mas somente as quantidades homogêneas podem somar-se ou subtrair-se-O argumento supõe, pois que a ideia de Deus e Deus realmente existente são quantidades homogêneas, adicionáveis. Pois bem; nessa [[lexico:s:suposicao|suposição]] encontra-se — germinalmente — a [[lexico:h:hipotese|hipótese]] primordial de que todo ser é igual a todo ser, quer dizer, a hipótese romântica da [[lexico:u:univocidade|univocidade]] do ser. Mas esta hipótese é falsa e conduz ao [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] e ao [[lexico:p:panteismo|panteísmo]]. Supõe que nossas [[lexico:i:ideias|ideias]] e as [[lexico:c:coisas-reais|coisas reais]] correspondentes às nossas ideias são seres de idêntica estrutura ôntica, e, portanto, permutáveis. Porém isto é — repitamo-lo — o [[lexico:e:erro|erro]] fundamental do [[lexico:r:romantismo-filosofico|romantismo filosófico]]. Na realidade, uma coisa é a ideia e outra, perfeitamente distinta, a existência do [[lexico:o:objeto|objeto]] da ideia; uma coisa é aquilo que algo é e outra coisa é que esse algo exista. Eu posso dizer, por exemplo, aquilo que Rocinante é, embora Rocinante nem exista nem tenha existido. Confundir uma ideia com a existência do objeto correspondente a essa ideia, supõe naquele que faz isso a [[lexico:c:conviccao|convicção]] de que entre a ideia e a coisa há perfeita [[lexico:h:homogeneidade|homogeneidade]] de ser, de que o ser é [[lexico:u:univoco|unívoco]]. O idealismo é precisamente um modo romântico de filosofar, que identifica o ser da ideia com o ser da realidade existente e nega toda e qualquer [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre as estruturas primordiais do ser. Exemplo [[lexico:t:tipico|típico]] de [[lexico:c:classicismo|classicismo]] em filosofia é esta [[lexico:a:atitude|atitude]] de Tomás de Aquino diante do argumento de Santo Anselmo. Mas o espírito clássico do Doutor Angélico chega ainda a mais alto nível quando, inclinando-se sobre o argumento anselmiano, que acaba de refutar, esquadrinha aquilo que ainda pode haver nele de [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] e aproveitável. O [[lexico:p:profundo|profundo]] [[lexico:r:respeito|respeito]] de Tomás de Aquino à realidade — espiritual, [[lexico:i:ideal|ideal]] ou material —, aos mínimos e mais leves matizes da realidade, é tão diligente, que tudo quanto é, inclusive as ideias falsas, têm para ele um sentido. De algum ponto de vista, sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], pensa Tomás de Aquino, terá que ser aproveitável o argumento de Santo Anselmo. Algum ângulo visual haverá, sem dúvida, visto do qual o argumento de Santo Anselmo mostre alguma parcela de [[lexico:v:verdade|verdade]]. Não existe [[lexico:o:ocorrencia|ocorrência]] ou pensamento [[lexico:h:humano|humano]] que, em algum sentido, não seja verdadeiro. Tomás de Aquino é [[lexico:e:ecletico|eclético]], justamente porque seu filosofar é clássico. Urge reabilitar o [[lexico:e:ecletismo|ecletismo]], do qual se burlam, com [[lexico:g:graca|graça]] demasiado fácil, os românticos da filosofia, cegos para as infinitas variantes e nuanças do real. Tem que se reabilitar o ecletismo pela [[lexico:s:simples|simples]] razão de que a própria realidade é eclética. Se o argumento de Santo Anselmo é mau para estabelecer a existência de Deus, em compensação, é excelente e muito verdadeiro para estabelecer a [[lexico:n:natureza|natureza]] de Deus. Se já sabemos por alguma outra via que Deus existe e queremos conhecer sua natureza, então o argumento de Santo Anselmo nos ajuda poderosamente nisto. Porque então nos permite dizer de Deus que nele a [[lexico:e:essencia|essência]] e a existência se confundem, que seu ser consiste perfeitamente em existir, ou seja, que a existência em Deus não necessita uma [[lexico:c:causa|causa]] própria e peculiar distinta da essência mesma de Deus. Eis como Tomás de Aquino, com admirável espírito de clássica [[lexico:p:ponderacao|ponderação]] e ecletismo, sabe aproveitar e incorporar tudo aquilo que há de bom e verdadeiro mesmo nas teses errôneas.