===== APREENSÃO DA ESSÊNCIA ===== O [[lexico:o:objeto|objeto]] [[lexico:p:proprio|próprio]] da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] humana, que é a [[lexico:q:quididade|quididade]] da [[lexico:c:coisa|coisa]] [[lexico:s:sensivel|sensível]], deve corresponder aparentemente ao que é atingido imediatamente por esta [[lexico:f:faculdade|faculdade]]. [[lexico:t:todo|todo]] um conjunto de textos de [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] no-lo sugere. Lidos com [[lexico:i:ingenuidade|ingenuidade]], estes textos parecem atestar que a [[lexico:e:essencia|essência]] assim apreendida é, de um só golpe, desvendada a nossos olhos: "o [[lexico:i:intelecto|intelecto]] atinge a pura quididade da coisa sensível. . . " (De Veritate, q. 10, a. 6, ad 2 e In Boet. de Trinitate, q. 6, a. 3). Assim se compreenderá de pronto "o que seja o [[lexico:h:homem|homem]]" e "o que seja o boi". Tomadas absolutamente e sem alguma reserva, tais fórmulas parecem tão manifestamente contrárias à [[lexico:e:experiencia|experiência]] que é [[lexico:i:impossivel|impossível]] de se crer que o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] de Tomás de Aquino aqui se exprima de maneira comedida. [[lexico:q:quem|quem]] ousaria pretender que basta olhar em torno a si para captar, com um só olhar, a [[lexico:n:natureza|natureza]] profunda das [[lexico:c:coisas|coisas]]? De [[lexico:f:fato|fato]], em outras passagens. Tomás de Aquino [[lexico:f:fala|fala]] diferentemente: "as formas substanciais em si mesma nos são desconhecidas, mas se nos manifestam por seus acidentes próprios" (De Spirit. Creat., a. 11, ad 3) "porque as [[lexico:e:essencias|essências]] das coisas nos são desconhecidas . . . porque as diferenças essenciais nos são desconhecidas. . . " (De [[lexico:v:ver|ver]]. q. 4, a. 1, ad 8; e Cont. Gent. III, c. 91). Aparentemente estas fórmulas vão contra o que foi [[lexico:d:dito|dito]] acima. Tomás de Aquino, todavia, [[lexico:n:nao|não]] deve [[lexico:t:ter|ter]] visto aqui [[lexico:o:oposicao|oposição]] irredutível pois é em um mesmo artigo (De Spirit. Creat., a. 11, ad 3 e ad 7) que afirma simultaneamente: de um lado, que a inteligência em sua primeira [[lexico:o:operacao|operação]] capta a essência das coisas e, de [[lexico:o:outro|outro]], que as formas substanciais nos são desconhecidas. Convém, portanto, considerar mais de perto [[lexico:o:o-que-e|o que é]] efetivamente atingido na primeira [[lexico:a:apreensao|apreensão]] da inteligência humana. Uma doutrina [[lexico:b:bem|Bem]] demonstrada vai nos colocar no [[lexico:c:caminho|caminho]] da solução. O que é conhecido por nós, [[lexico:p:pergunta|pergunta]] o Doutor angélico, é o mais [[lexico:u:universal|universal]]? (Cf. Ia Pª, q. 85. a. 3) Conclui-se, no artigo citado, [[lexico:s:ser|ser]] efetivamente o mais universal o que primeiro é apreendido. Assim, não se capta primeiro as essências específicas, que correspondem a [[lexico:c:conceitos|conceitos]] mais particulares, mas os gêneros mais elevados: a [[lexico:n:nocao|noção]] de "[[lexico:a:animal|animal]]", por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], é anterior à noção de "homem", e o mesmo acontece em todos os casos semelhantes. Tomás de Aquino precisa, por outro lado, que este [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] mais [[lexico:g:geral|geral]] é também mais confuso. Se se vai até ao [[lexico:p:principio|princípio]] na aplicação desta doutrina, será preciso dizer que o que é captado, em primeiríssimo [[lexico:l:lugar|lugar]] nas coisas pela inteligência, é a essência sob seu [[lexico:a:aspecto|aspecto]] mais comum de ser, ou a [[lexico:i:ideia|ideia]] de [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] que existe. Atinge-se esta outra [[lexico:a:afirmacao|afirmação]], igualmente clássica no peripatetismo, que o ser é aquilo que é concebido em primeiro lugar, e aquilo em que as outras noções se esclarecem: "illud [[lexico:q:quod|quod]] primo intellectus concipit quasi notissimum et in [[lexico:q:quo|quo]] omnes conceptiones resolvit est [[lexico:e:ens|ens]]" (De Verit., q. 1, a. 1). Subentende-se que o ser, do qual se trata aqui, não é precisamente o [[lexico:s:ser-enquanto-ser|ser enquanto ser]], apreendido formalmente pelo metafísico, mas a noção mais comum e mais determinada de ser. O primeiro olhar do [[lexico:e:espirito|espírito]] [[lexico:h:humano|humano]] atinge as coisas confusamente como seres. A partir deste primeiro [[lexico:d:dado|dado]], a inteligência progride em duas direções principais: - primeiro, no [[lexico:s:sentido|sentido]] da [[lexico:d:determinacao|determinação]] da essência por diferenças específicas que a distinguirão segundo sua pertença hierarquizada em gêneros e espécies diversas; orienta-se então para a apreensão das naturezas particulares que se exprime, no [[lexico:f:fim|fim]], em uma [[lexico:d:definicao|definição]] última: o homem é um animal dotado de [[lexico:r:razao|razão]]; - ou, permanecendo no nível do ser, progride a inteligência no sentido das determinações mais [[lexico:u:universais|universais]] desta noção (propriedades [[lexico:t:transcendentais|transcendentais]], [[lexico:u:unidade|unidade]], [[lexico:v:verdade|verdade]], [[lexico:b:bondade|bondade]], por exemplo): elabora-se neste caso uma [[lexico:m:metafisica|metafísica]]. Em definitivo, no que nos concerne presentemente, é preciso afirmar que a [[lexico:a:apreensao-da-essencia|apreensão da essência]] das coisas pela inteligência é compreendida entre os dois extremos, isto é, entre o primeiro dado confuso do conhecimento intelectual e a definição da coisa, podendo a [[lexico:e:expressao|expressão]] "[[lexico:q:quidditas|quidditas]] sensibilis" ser aplicada ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] e proporcionalmente a um e a outro destes estados do conhecimento. No peripatetismo não se erra em proclamar que face a seu objeto próprio, ou em seu [[lexico:a:ato|ato]] [[lexico:s:simples|simples]], uma [[lexico:p:potencia|potência]] de conhecer não se pode enganar. Assim, em sua primeira apreensão da essência das coisas, o intelecto humano não pode errar, "circa quod est non potest falli" (cf. Ia Pª, q. 85, a. 6). Os esclarecimentos precedentes permitem ajustar esta [[lexico:f:formula|fórmula]] que pode prestar-se a equívocos. A [[lexico:p:primeira-operacao-do-espirito|primeira operação do espírito]], a "indivisibilium intelligentia", é com [[lexico:e:efeito|efeito]] infalível: o que captamos imediatamente é tal como captamos, mas só se trata aqui de uma apreensão confusa. A definição precisa, exprimindo adequadamente a essência da coisa, só virá no [[lexico:t:termo|termo]] de um [[lexico:t:trabalho|trabalho]] de [[lexico:a:analise|análise]] e de comparação extremamente [[lexico:c:complexo|complexo]] onde o [[lexico:e:erro|erro]] poderá [[lexico:a:aparecer|aparecer]]. Se, por exemplo, terminarmos por definir o homem como um "animal [[lexico:r:racional|racional]] alado", enganar-nos-erros. Indiretamente, pois, poderá o erro introduzir-se no [[lexico:c:conhecimento-da-essencia|conhecimento da essência]] das coisas. Aqui ainda a doutrina de Tomás de Aquino é menos simplista do que possa parecer em certos manuais.