===== APERCEPÇÃO ===== (in. Apperception; fr. Apperception; al. Apperzeption; it. Appercezioné). O [[lexico:s:significado|significado]] específico dessa [[lexico:p:palavra|palavra]] foi esclarecido pela primeira vez por [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] como [[lexico:c:consciencia|consciência]] das próprias percepções. Diz Leibniz: "A [[lexico:p:percepcao|percepção]] da [[lexico:l:luz|luz]] ou da cor, p. ex., de que temos apercepção é composta por muitas [[lexico:p:pequenas-percepcoes|pequenas percepções]] de que [[lexico:n:nao|não]] temos apercepção; um ruído que percebemos, mas ao qual não damos [[lexico:a:atencao|atenção]], torna-se aperceptível se sofrer um pequeno [[lexico:a:aumento|aumento]]" (Nouv. ess., II, 9,4). Enquanto as percepções pertencem também aos animais e às plantas, a apercepção é própria do [[lexico:h:homem|homem]] porquanto suas percepções são acompanhadas pela "[[lexico:p:potencia|potência]] de refletir". Todavia, quando ele é reduzido ao [[lexico:e:estado|Estado]] de letargia, a [[lexico:r:reflexao|reflexão]] e a apercepção cessam (Ibid., II, 9, 14). — No mesmo [[lexico:s:sentido|sentido]], [[lexico:w:wolff|Wolff]] definiu a apercepção como a [[lexico:a:atividade|atividade]] pela qual percebemo-nos a nós mesmos como sujeitos percipientes e, assim, nos distinguimos da [[lexico:c:coisa|coisa]] percebida (Log., § 13)- Ora, essa é, para [[lexico:k:kant|Kant]], a apercepção empírica, que deve [[lexico:s:ser|ser]] distinguida da apercepção pura. Com a primeira, "acompanho com a consciência cada uma das representações"; com a segunda, "componho-as todas, uma com a outra, e sou [[lexico:c:consciente|consciente]] da sua [[lexico:s:sintese|síntese]]". A apercepção pura ou "[[lexico:t:transcendental|transcendental]]" é o "[[lexico:e:eu|eu]] penso", que "deve poder acompanhar todas as minhas representações, pois de [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:m:modo|modo]] seria preciso imaginar em mim [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] que não pudesse ser pensada, o que significa que a [[lexico:r:representacao|representação]] seria [[lexico:i:impossivel|impossível]] ou, ao menos para mim, não existiria absolutamente" (Crít. R. Pura, Anal. dos [[lexico:c:conceitos|conceitos]], § 16). A [[lexico:c:caracteristica|característica]] fundamental da apercepção pura é a [[lexico:o:objetividade|objetividade]], ela é o [[lexico:f:fundamento|fundamento]] da [[lexico:c:constituicao|constituição]] unitária dos objetos e das [[lexico:r:relacoes|relações]] que estes têm entre si. De [[lexico:f:fato|fato]], a [[lexico:u:unidade|unidade]] de um [[lexico:o:objeto|objeto]] [[lexico:s:singular|singular]] e dos objetos entre si não é constituída pela [[lexico:r:relacao|relação]] subjetiva entre as representações, isto é, pela relação que as representações encontram na apercepção empírica (ou consciência [[lexico:i:intuitiva|intuitiva]]), mas pela relação objetiva cuja [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] é a apercepção pura ou consciência discursiva (reflexiva). Com [[lexico:e:efeito|efeito]], com base na apercepção empírica só se poderia dizer: "Cada vez que levanto um [[lexico:c:corpo|corpo]], sinto a [[lexico:i:impressao|impressão]] de [[lexico:p:peso|peso]]" e, assim, estabelecer uma relação puramente subjetiva, ainda que constante, entre o soerguimento de um corpo e a impressão de peso (isto é, entre duas representações). Isso não autorizaria a dizer objetivamente: "O corpo é pesado". Essa [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] pode ser enunciada só porque o vínculo entre o corpo e o peso é estabelecido objetivamente pela apercepção pura (Ibid., § 19). Nesse sentido, a apercepção pura é "o [[lexico:p:principio|princípio]] da unidade sintética", que condiciona todas as outras sínteses, isto é, todos os outros conhecimentos, porque [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] é, segundo Kant, uma síntese entre um [[lexico:d:dado|dado]] [[lexico:s:sensivel|sensível]] e uma [[lexico:f:forma|forma]] [[lexico:a:a-priori|a priori]]. A apercepção é o princípio originário do conhecimento na [[lexico:m:medida|medida]] em que é a [[lexico:c:condicao|condição]] do [[lexico:u:uso|uso]] [[lexico:e:empirico|empírico]] das [[lexico:c:categorias|categorias]]. Kant insistiu no [[lexico:c:carater|caráter]] puramente [[lexico:f:formal|formal]] da apercepção pura, entendendo que ela não é uma [[lexico:r:realidade|realidade]] psicológica ou de outra [[lexico:n:natureza|natureza]], mas uma possibilidade, a da unificação da [[lexico:e:experiencia|experiência]], considerada como "[[lexico:e:espontaneidade|espontaneidade]]" ou atividade subjetiva, isto é, da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] (ibid., § 25). Em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], ela é só "a consciência pura da atividade que constitui o [[lexico:p:pensamento|pensamento]]" (Antr., § 7). Da [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] da apercepção pura, em sentido realista, ou seja, do seu [[lexico:e:entendimento|entendimento]] não como condição ou [[lexico:p:possibilidade-do-conhecimento|possibilidade do conhecimento]], mas como atividade criadora do [[lexico:p:proprio|próprio]] conhecimento, [[lexico:f:fichte|Fichte]] inferiu a [[lexico:n:nocao|noção]] do eu como Auto-consciência absoluta, criadora do seu [[lexico:m:mundo|mundo]], com a qual se inicia o [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] romântico (v. idealismo; Eu). Em sentido psicológico-me-tafísico, o [[lexico:c:conceito|conceito]] de apercepção também foi entendido por [[lexico:m:maine-de-biran|Maine de Biran]], que chamou de "apercepção interna imediata" a consciência que o eu tem de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] como "[[lexico:c:causa|causa]] produtora" no [[lexico:a:ato|ato]] de distinguir-se do efeito sensível que a sua [[lexico:a:acao|ação]] determina (Œuvres inédites, ed. Naville, I, p. 9; III, pp. 409-410). Um novo conceito de apercepção foi dado por [[lexico:h:herbart|Herbart]] como fundamento para entender o [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] da [[lexico:v:vida|vida]] representativa. A apercepção foi entendida por Herbart como a relação entre massas diferentes de representações, que faz que uma [[lexico:m:massa|massa]] se aproprie da outra do mesmo modo como as novas percepções do sentido [[lexico:e:externo|externo]] são acolhidas e elaboradas pelas representações homogêneas mais antigas. [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] pelo qual uma massa representativa, chamada de apercipiente, acolhe e assimila em si uma ou mais representações homogêneas, chamadas de aperceptivas, é o fenômeno da apercepção, que Herbart identificou com o sentido interno (Psychol. als Wissenschaft, II, § 125). Essa noção foi muito usada em [[lexico:p:psicologia|psicologia]] e [[lexico:p:pedagogia|pedagogia]] no séc. XIX, sobretudo para esclarecer o fenômeno do aprendizado e para identificar as condições psicológicas que o facilitam. [[lexico:w:wundt|Wundt]] insistiu no caráter ativo da apercepção como o ato pelo qual um conteúdo [[lexico:p:psiquico|psíquico]] é levado à [[lexico:c:compreensao|compreensão]] mais clara e falou também de uma "psicologia da apercepção", que deveria contrapor-se à psicologia dominante, associacionista, precisamente pelo maior destaque dado à atividade diretiva e ordenadora da apercepção (Physiologische Psychologie, II, p. 454). Wundt falou também, em Psicologia dos povos, de uma "apercepção animadora" como de uma [[lexico:f:funcao|função]] psicológica específica, consistente em crer vivas todas as [[lexico:c:coisas|coisas]], função que estaria na base do [[lexico:m:mito|mito]] e, portanto, também da [[lexico:r:religiao|religião]] e da [[lexico:a:arte|arte]]. — Esse [[lexico:t:termo|termo]] caiu em desuso na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] contemporânea. Do latim ad e percipere, perceber. a) Na Psicologia: [[lexico:p:processo|processo]] pelo qual uma experiência é assimilada aos esquemas anteriormente adquiridos. b) Na [[lexico:e:epistemologia|epistemologia]]: [[lexico:a:apreensao|apreensão]] introspectiva ou refletiva da [[lexico:m:mente|mente]] sobre seus estados interiores. c) Termo introduzido por Leibnitz para distinguir a percepção, como representação das coisas exteriores, e apercepção, como refletindo os estados interiores. d) Para Kant, consciência do [[lexico:c:concreto|concreto]] [[lexico:a:atual|atual]], captando suas próprias mutações. e) Também empregado como sentido interior. Vide atenção. É o [[lexico:n:nome|nome]] dado à percepção atenta, à percepção acompanhada de consciência. [[lexico:d:descartes|Descartes]] escreveu que “é certo que não podemos querer outra coisa sem a aperceber pelo mesmo [[lexico:m:meio|meio]] que a queremos” (As Paixões da [[lexico:a:alma|alma]]). Leibniz distinguia entre percepção - que representa uma [[lexico:m:multidao|multidão]] na unidade ou na [[lexico:s:substancia|substância]] [[lexico:s:simples|simples]] - e apercepção, que equivale à consciência )[[lexico:m:monadologia|monadologia]]). Os cartesianos, alega Leibniz, só tiveram em conta as percepções de que há consciência, isto é, as apercepções. Mas há também percepções confusas e obscuras. Como as percepções de certas mónadas “em estado de aturdimento”. Há, pois, que distinguir entre percepção e apercepção, embora esta última, como acontece com a primeira, seja contínua com ela. Kant distinguiu entre apercepção empírica e apercepção pura ou transcendental. A primeira é própria do [[lexico:s:sujeito|sujeito]] que possui um sentido internos do fluxo das aparências. a segunda é a condição de qualquer consciência, incluindo a consciência empírica ([[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]]). A apercepção transcendental é a pura consciência original e inalterável; não é uma realidade propriamente dita, mas aquilo que torna [[lexico:p:possivel|possível]], para um sujeito, a realidade enquanto realidade. Os próprios conceitos a priori são possíveis mediante a [[lexico:r:referencia|referência]] das intuições à unidade da consciência transcendental, de modo que a unidade numérica desta apercepção é o fundamento a priori de todos os conceitos, tal como a [[lexico:d:diversidade|diversidade]] do [[lexico:e:espaco|espaço]], e o [[lexico:t:tempo|tempo]] é o fundamento a priori das intuições da [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]]. Por meio da [[lexico:u:unidade-transcendental|unidade transcendental]] da apercepção é possível, segundo Kant, a própria [[lexico:i:ideia|ideia]] do objeto em [[lexico:g:geral|geral]], a qual não fora todavia possível através das intuições do espaço e do tempo e das intuições introduzidas pelos conceitos puros do entendimento ou categorias. Acontece pois que a unidade transcendental da apercepção que se manifesta na apercepção transcendental constitui o fundamento [[lexico:u:ultimo|último]] do objeto enquanto objeto de conhecimento (não enquanto coisa em si). Portanto “a unidade da síntese, de [[lexico:a:acordo|acordo]] com conceitos empíricos, seria completamente fortuita se não se baseasse no fundamento transcendental da unidade”. Isto explica o sentido da Célebre [[lexico:f:frase|frase]] de Kant: “as condições a priori de uma experiência possível em geral são ao mesmo tempo as condições da possibilidade dos objetos da experiência”. Não se trata de defender que a unidade transcendental da apercepção, como síntese última e ao mesmo tempo fundamental, torne possíveis os objetos como tais; trata-se de defender que torna possíveis os objetos como objetos de conhecimento. Segundo Kant, a unidade e sintética da apercepção pressupõe uma síntese, que é a priori. A unidade sintética original da apercepção é, em última [[lexico:a:analise|análise]], o “eu penso” que acompanha todas as representações, pois “de contrário algo seria representado em mim que não poderia ser pensado, e isso equivale a dizer que a representação seria impossível, ou pelo menos, não seria [[lexico:n:nada|nada]] para mim”. A apercepção transcendental é, pois, o [[lexico:p:pensar|pensar]] o objeto, pensar distinto do conhecer e que fundamenta a possibilidade deste último.