===== APEL ===== Observações de Gadamer sobre Apel A [[lexico:r:realidade|realidade]] fundamental capaz de mediar essas distâncias é a [[lexico:l:linguagem|linguagem]]. Nela o [[lexico:i:interprete|intérprete]] (ou tradutor!) traz novamente à [[lexico:f:fala|fala]] o que compreendeu. Teólogos e poetólogos chegam a [[lexico:f:falar|falar]] inclusive de acontecimentos de linguagem. Em certo [[lexico:s:sentido|sentido]], a [[lexico:h:hermeneutica|hermenêutica]] aproxima-se com isso, por seu [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:c:caminho|caminho]], da [[lexico:f:filosofia-analitica|filosofia analítica]], provinda da [[lexico:c:critica|crítica]] [[lexico:m:metafisica|metafísica]] do [[lexico:n:neopositivismo|neopositivismo]]. Desde que essa [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] já [[lexico:n:nao|não]] se atém a resolver de uma vez por todas o "[[lexico:f:feitico|feitiço]] da linguagem", mediante a [[lexico:a:analise|análise]] dos modos de falar e trazendo todos os enunciados ao padrão da [[lexico:u:univocidade|univocidade]] com a ajuda de linguagens simbólicas artificiais, ela tampouco pode evitar defrontar-se com o funcionar da linguagem nos jogos de linguagem, como mostraram as [[lexico:i:investigacoes-filosoficas|Investigações filosóficas]] de [[lexico:w:wittgenstein|Wittgenstein]]. K.O. **APEL** assinalou com [[lexico:r:razao|razão]] que o [[lexico:c:conceito|conceito]] de "[[lexico:j:jogo|jogo]] de linguagem" só permite descrever, de [[lexico:m:modo|modo]] [[lexico:d:descontinuo|descontínuo]], a continuidade da [[lexico:t:tradicao|tradição]]. À [[lexico:m:medida|medida]] que a hermenêutica supera a [[lexico:i:ingenuidade|ingenuidade]] positivista presente no conceito do [[lexico:d:dado|dado]] (Gegebenes), através da [[lexico:r:reflexao|reflexão]] sobre os condicionamentos da [[lexico:c:compreensao|compreensão]] (compreensão prévia, [[lexico:p:prioridade|prioridade]] da [[lexico:p:pergunta|pergunta]], [[lexico:h:historia|história]] da [[lexico:m:motivacao|motivação]] de cada [[lexico:e:enunciado|enunciado]]), ela faz também uma crítica da reflexão metodológica positivista. Até que [[lexico:p:ponto|ponto]] ela segue o [[lexico:e:esquema|esquema]] da [[lexico:t:teoria|teoria]] [[lexico:t:transcendental|transcendental]] (K.O. **APEL**) ou antes a [[lexico:d:dialetica|dialética]] histórica (J. Habermas) é um assunto controverso. [[lexico:v:verdade|verdade]] E [[lexico:m:metodo|MÉTODO]] II PRELIMINARES 8. K.O. **APEL**, em [[lexico:t:todo|todo]] caso, faz essa crítica porque não compreendeu [[lexico:d:direito|direito]] o que tem em [[lexico:m:mente|mente]] a hermenêutica filosófica quando fala de aplicação. A análise que faço da [[lexico:e:experiencia|experiência]] hermenêutica tem como [[lexico:o:objeto|objeto]] a [[lexico:p:praxis|praxis]] exitosa das [[lexico:c:ciencias-hermeneuticas|ciências hermenêuticas]], na qual certamente não está atuando nenhuma "aplicação [[lexico:c:consciente|consciente]]" que pudesse favorecer uma [[lexico:c:corrupcao|corrupção]] ideológica do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]. Essa análise deveria [[lexico:s:ser|ser]] levada realmente a sério. [[lexico:e:esse|esse]] mal-entendido já fora objeto de [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] de [[lexico:b:betti|Betti]]. Aqui está em jogo sem [[lexico:d:duvida|dúvida]] uma obscuridade no conceito de [[lexico:c:consciencia|consciência]] de aplicação. É absolutamente [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]], como constata **APEL**, que frente à auto-evidência objetivista das ciências compreensivas e face à práxis vital da compreensão, a consciência de aplicação apresenta-se como uma exigência hermenêutica. Assim, uma hermenêutica filosófica, no [[lexico:e:estilo|estilo]] que procurei desenvolver, torna-se "normativa", no sentido de que busca substituir uma má filosofia por outra melhor. Mas não propaga uma nova práxis e não há indícios que afirmem que a práxis hermenêutica se guie concretamente por uma consciência e [[lexico:t:tendencia|tendência]] de aplicação, e isso inclusive no sentido de uma legitimação consciente de uma tradição vigente. VERDADE E MÉTODO II OUTROS 19. Mas na medida em que essa hermenêutica, a partir da teoria, destrói essas deformações práticas procedentes da teoria, ocorre sem dúvida um [[lexico:e:efeito|efeito]] retroativo de uma falsa autocompreensão sobre o procedimento [[lexico:p:pratico|prático]] e também o efeito retroativo inverso de uma autocompreensão adequada. Mas a [[lexico:t:tarefa|tarefa]] da reflexão da história dos efeitos não é buscar atualização e "aplicação", mas antes descobrir e impedir todas as ingerências atualizantes na compreensão da tradição, não apenas pela [[lexico:d:disciplina|disciplina]] [[lexico:f:formal|formal]] da [[lexico:m:metodologia|metodologia]] científica, mas pela reflexão concreta sobre o conteúdo. **APEL** expressa exatamente o que penso quando diz: "pertence ao âmbito dos deveres de um método de [[lexico:i:interpretacao|interpretação]], com consciência de sua aplicação, [[lexico:t:ter|ter]] de dificultar em certas circunstâncias sua aplicação ao presente no [[lexico:i:interesse|interesse]] de um [[lexico:e:entendimento|entendimento]] não limitado" (141). Ousaria ir mais longe, e em [[lexico:l:lugar|lugar]] de "em certas circunstâncias", dizer "em todas as circunstâncias"; só que não considero esse [[lexico:p:principio|princípio]] como a [[lexico:c:consequencia|consequência]] da consciência de aplicação, mas como a realização do verdadeiro [[lexico:d:dever|dever]] da cientificidade, que muitas vezes parece-me ferido onde os preconceitos ideológicos continuam atuando como pano de fundo, como uma vis a tergo. Isso porque um [[lexico:s:senso|senso]] metodológico de falsa exatidão não quer verificá-los. Nesse ponto, vejo com **APEL** (32) um perigo de [[lexico:r:real|real]] corrupção ideológica. Não saberia dizer se esse perigo atinge, como diz **APEL** (35), também aquelas ciências hermenêuticas do [[lexico:e:espirito|espírito]] que ele chama de "[[lexico:e:existencialistas|existencialistas]]", uma vez que não sei o que ele tem em mente. Mas certamente o perigo não atinge aquelas ciências nas quais se orienta a reflexão hermenêutica, nem atinge essa reflexão. É só nesse caso que a reflexão hermenêutica pode tornar-se "prática". Ela torna suspeita toda [[lexico:i:ideologia|ideologia]], à medida que evidencia seus preconceitos. VERDADE E MÉTODO II OUTROS 19. Também temos de nos proteger contra a [[lexico:v:vontade|vontade]] de [[lexico:c:compreender|compreender]] esse [[lexico:t:tipo|tipo]] de [[lexico:m:movimento|movimento]] hermenêutico da [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] baseados no [[lexico:m:modelo|modelo]] do [[lexico:p:progresso|progresso]] [[lexico:i:imediato|imediato]]. **APEL** enriqueceu muito a [[lexico:d:discussao|discussão]] sobre o [[lexico:e:estado|Estado]] do [[lexico:p:problema|problema]] hermenêutico pela sua aproximação com [[lexico:p:peirce|Peirce]] e Royce, elaborando a [[lexico:r:relacao|relação]] prática em toda compreensão de sentido. Ele tem razão em reivindicar para isso a [[lexico:i:ideia|ideia]] de uma [[lexico:c:comunidade|comunidade]] de interpretação ilimitada. Sem dúvida, só essa é capaz de legitimar a pretensão de verdade nos esforços de entendimento. E no entanto tenho lá minhas dúvidas se é correto conjugar a legitimação da mesma com a ideia de progresso. A variedade das possibilidades de interpretação que se experimentam não exclui que essas se neutralizem mutuamente. Também o [[lexico:f:fato|fato]] de que no curso dessa práxis interpretativa surjam antíteses dialéticas não representa nenhuma [[lexico:g:garantia|garantia]] para a aproximação a sínteses mais verdadeiras. Nesses âmbitos das ciências históricas devemos [[lexico:v:ver|ver]] o "resultado" do [[lexico:p:processo|processo]] interpretativo não tanto no progresso, que sempre se dá em aspectos parciais, mas antes num desempenho contrário ao declínio e à [[lexico:d:decadencia|decadência]] do [[lexico:s:saber|saber]]: a revitalização da linguagem e a recuperação do sentido atribuído a alguém através da tradição. Isso representa um [[lexico:r:relativismo|relativismo]] perigoso apenas a partir do parâmetro de um saber [[lexico:a:absoluto|absoluto]], que não é o nosso. VERDADE E MÉTODO II OUTROS 19. O [[lexico:d:discurso|discurso]] sobre a aplicação consciente é suficientemente desorientador também em outros âmbitos. Continuo perplexo diante do fato de que no caso do diretor de teatro ou do músico **APEL** fale de atualização no sentido de uma aplicação consciente, [[lexico:c:como-se|como se]] nesse caso o que guia o conjunto da interpretação não fosse uma ligação à [[lexico:o:obra|obra]] que deve ser reanimada. Na verdade, consideramos ser uma interpretação a execução de uma [[lexico:r:representacao|representação]] cênica ou uma [[lexico:r:reproducao|reprodução]] musical justo porque a própria obra é enunciada em seu verdadeiro conteúdo. Mas, ao contrário, quando nos pedem uma tosca tendência atualizadora e uma alusão clara ao presente na produção reprodutiva, temos razão em considerá-las inadequadas. Parece-me que a [[lexico:i:imagem|imagem]] do intérprete, que representa o modelo de fato para as tarefas hermenêuticas, será subinterpretada se esquecermos que o intérprete não pode traduzir, mas deve [[lexico:r:representar|representar]] a [[lexico:p:parte|parte]] que ele compreendeu diante da outra parte, em seu idioma (dela). Nesse caso, parece-me ser decisivo um conceito objetivista de sentido e de [[lexico:t:transparencia|transparência]] de sentido que não corresponde à [[lexico:c:coisa|coisa]] em [[lexico:q:questao|questão]]. VERDADE E MÉTODO II OUTROS 19. A experiência hermenêutica carrega uma [[lexico:t:tensao|tensão]] não só desde o surgimento da [[lexico:c:ciencia|ciência]] [[lexico:m:moderna|moderna]], mas desde que se pleiteou um [[lexico:q:questionamento|questionamento]] hermenêutico: uma tensão que jamais se resolve. Desse modo, ela não se deixa enquadrar sob o esquema de um autoconhecimento na [[lexico:a:alteridade|alteridade]], no qual o sentido seria sempre apreendido e transmitido plenamente. Esse conceito idealista do sentido do compreender não me parece desorientar apenas **APEL**, mas a maioria de meus críticos. [[lexico:e:eu|eu]] próprio admito que uma hermenêutica filosófica reduzida a [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] necessita de complemento crítico. Procurei demonstrar isso na crítica aos seguidores hegelianos do século XIX, Droysen e [[lexico:d:dilthey|Dilthey]]. Mas o [[lexico:i:impulso|impulso]] da hermenêutica não foi sempre "compreender" pela interpretação o estranho, a vontade inescrutável dos [[lexico:d:deuses|deuses]], a [[lexico:m:mensagem|mensagem]] de [[lexico:s:salvacao|salvação]] ou as obras dos clássicos. Tampouco isso significa sempre uma inferioridade constitutiva daquele que compreende frente àquele que fala ou que dá a entender? VERDADE E MÉTODO II OUTROS 19. Ora, essa [[lexico:d:determinacao|determinação]] originária da hermenêutica ganhou mais [[lexico:d:definicao|definição]] quando a modernidade rompeu com a tradição, surgindo um [[lexico:i:ideal|ideal]] de conhecimento completamente diverso, baseado na exatidão. Mas o [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] fundamental para se estabelecerem as tarefas da hermenêutica, que não se queria ver corretamente e que eu procurei recuperar, foi desde sempre a apropriação de um sentido [[lexico:s:superior|superior]]. Nesse sentido, [[lexico:n:nada|nada]] tem de original quando em minha [[lexico:i:investigacao|investigação]] reivindico a [[lexico:p:produtividade|produtividade]] hermenêutica da distância [[lexico:t:temporal|temporal]], ressaltando de modo [[lexico:e:essencial|essencial]] a [[lexico:f:finitude|finitude]] e inconclusividade de todo compreender e de toda reflexão da história dos efeitos. Isso nada mais é que a liberação da verdadeira [[lexico:t:tematica|temática]] hermenêutica. Ela encontra sua real legitimação na experiência da história. O que nada tem a ver com a transparência de sentido. A "[[lexico:h:historiografia|historiografia]]" precisa desviar-se constantemente da diluição humanista. A experiência da história não é a experiência do sentido, do [[lexico:p:plano|plano]] e da razão. E foi só sob o olhar perenizante da filosofia do saber absoluto que se pôde pretender conceber a razão na história. Assim, a experiência da história reconduz a tarefa da hermenêutica, de fato, ao seu verdadeiro lugar. Ela precisa decifrar sempre de novo os fragmentos de sentido da história, que se limitam e se quebram na escura [[lexico:c:contingencia|contingência]] dos fatos e sobretudo no crepúsculo onde se encontra mergulhado o [[lexico:f:futuro|futuro]] para toda consciência presente. Também a "concepção prévia da plenitude", própria da [[lexico:e:estrutura|estrutura]] da compreensão, chama-se enfaticamente assim porque a superioridade daquilo que deve ser compreendido não pode ser esgotada por nenhuma interpretação. Assim ficamos surpresos que em **APEL**, em Habermas e com uma importante modificação em Giegel, a reflexão hermenêutica precise elevar-se a uma plena transparência idealista de sentido, pela [[lexico:l:luz|luz]] brilhante de uma ciência explicativa. Isso se encontra na [[lexico:f:funcao|função]] paradigmática que esses autores atribuem à [[lexico:p:psicanalise|psicanálise]]. VERDADE E MÉTODO II OUTROS 19. Com isso retornamos ao [[lexico:t:tema|tema]] da legitimidade da [[lexico:t:transposicao|transposição]] da reflexão emancipatória da psicanálise ao âmbito do [[lexico:s:social|social]]. Se a história é uma contingência inescrutável que desautoriza todo aquele que ousar conhecê-la de antemão e predizê-la, ou se esse fato representa apenas um ainda-não, que já não teria [[lexico:v:valor|valor]] para uma [[lexico:h:humanidade|humanidade]] tornada [[lexico:r:racional|racional]], isso tudo depende da [[lexico:v:validade|validade]] que possuem os conhecimentos da psicanálise. De certo, não é por [[lexico:a:acaso|acaso]] que essa ciência ganhou [[lexico:a:atencao|atenção]] especial na discussão sobre a hermenêutica. A explicitação de **APEL**, Habermas e Giegel oferecem um rico ensinamento a [[lexico:r:respeito|respeito]]. Mas será que sua contribuição antropológica está formulada corretamente? Quando **APEL** afirma, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], que o ser da [[lexico:n:natureza|natureza]] estaria totalmente superado num controle consciente dos impulsos, esse ideal depende da legitimidade dessa transposição. VERDADE E MÉTODO II OUTROS 19. Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, quando Habermas fala de "hermenêutica profunda", devo acrescentar minhas próprias teses quando vejo que a [[lexico:r:reducao|redução]] da hermenêutica à "tradição cultural" e o ideal da transparência de sentido, que se faz valer nesse âmbito, são diluídos pela ideologia. O meu ponto mais [[lexico:c:caracteristico|característico]] é que a compreensão de sentido não pode ser reduzida à [[lexico:m:mens|mens]] auctoris nem à mens actoris. Em todo caso, isso não significa que a compreensão culmine no esclarecimento de [[lexico:m:motivos|motivos]] inconscientes. A compreensão deve, antes, extrair suas linhas de sentido sempre ultrapassando o [[lexico:h:horizonte|horizonte]] limitado do [[lexico:i:individuo|indivíduo]], para que a tradição histórica se torne eloquente. Como acentuou corretamente **APEL**, a [[lexico:d:dimensao|dimensão]] hermenêutica de sentido está referida ao [[lexico:d:dialogo|diálogo]] [[lexico:i:infinito|infinito]] de uma comunidade ideal de interpretação. Em Verdade e métodou procurei demonstrar que a teoria do re-enactement de Collingwood é irrealizável, e correspondentemente sou obrigado a considerar as interpretações de obras literárias de autores ou a interpretação da [[lexico:a:acao|ação]] histórica de autores a partir da [[lexico:p:psicologia|psicologia]] profunda como uma confusão de jogos de linguagem que beira ao ridículo. VERDADE E MÉTODO II OUTROS 19. O acirramento da tensão entre verdade e método guiava-se em meus trabalhos por um sentido [[lexico:p:polemico|polêmico]]. Como reconhece o próprio [[lexico:d:descartes|Descartes]], isso acaba fazendo parte de um processo especial de endireitar uma coisa que estava torta, a qual deve ser dobrada na direção contrária. E a coisa estava realmente torta, não tanto a metodologia das ciências, mas sua [[lexico:a:autoconsciencia|autoconsciência]] reflexiva. Parece-me que a historiografia e a hermenêutica pós-hegelianas que tematizei demonstram isso suficientemente. Quando, segundo as pressuposições de E. Betti, se teme que a minha reflexão hermenêutica pudesse representar um [[lexico:d:desvio|desvio]] da [[lexico:o:objetividade|objetividade]] científica, isso não passa de um mal-entendido ingênuo. Nessa questão tanto **APEL**, quanto Habermas e os representantes da "[[lexico:r:racionalidade|racionalidade]] crítica" parecem acometidos da mesma cegueira. Todos eles desconhecem a [[lexico:i:intencao|intenção]] reflexiva de minhas análises e consequentemente o sentido da aplicação, que tentei apresentar como um [[lexico:m:momento|momento]] estrutural de todo compreender. Eles estão tão obcecados e presos pelo metodologismo da [[lexico:t:teoria-da-ciencia|Teoria da Ciência]] que só conseguem ver regras e sua aplicação. Não percebem que a reflexão sobre a práxis não é [[lexico:t:tecnica|técnica]]. VERDADE E MÉTODO II ANEXOS 29. Nesse ponto, o conceito de sentido defendido pela filosofia idealista da [[lexico:i:identidade|identidade]] foi funesto. Ele reduziu a competência da reflexão hermenêutica à chamada "tradição cultural", seguindo a linha de [[lexico:v:vico|Vico]] que só considerava compreensível para os homens o que era feito por estes. A reflexão hermenêutica, que representa o ponto central de toda minha investigação, tenta mostrar justamente que esse conceito da compreensão de sentido é errôneo, e nessa [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] tive de restringir também a famosa determinação de Vico. Parece-me que tanto **APEL** quanto Habermas fincam pé nesse sentido idealístico do compreender o sentido, que nada tem a ver com o ductus de minha análise. Não foi por acaso que orientei a minha investigação pela experiência da [[lexico:a:arte|arte]], cujo "sentido" não pode ser esgotado pela compreensão conceitual. O fato de eu ter desenvolvido o questionamento de uma hermenêutica filosófica [[lexico:u:universal|universal]], tomando como ponto de partida a crítica à consciência [[lexico:e:estetica|estética]] e refletindo sobre a arte — e não partindo imediatamente do âmbito das chamadas [[lexico:c:ciencias-do-espirito|ciências do espírito]] — não significa, de modo algum, um arrefecimento diante da exigência de método na ciência. Significa antes uma primeira medição do alcance que possui a questão hermenêutica e que não busca primeiramente designar certas ciências como hermenêuticas, mas trazer à luz uma dimensão que precede a todo [[lexico:u:uso|uso]] do método na ciência. E por isso que a experiência da arte tornou-se importante em muitos aspectos. O que significa essa superioridade temporal que a arte reivindica como conteúdo de nossa consciência estética formativa? Surge então uma dúvida: Será que essa consciência estética que a "arte" tem em mente — como ocorre com o próprio conceito de "arte", elevado ao [[lexico:c:carater|caráter]] pseudo-religioso — não representa uma [[lexico:d:diminuicao|diminuição]] de nossa experiência da obra de arte, tal como a consciência histórica e o [[lexico:h:historicismo|historicismo]] são uma diminuição da experiência histórica? E igualmente intempestiva? VERDADE E MÉTODO II ANEXOS 29. Mas a "[[lexico:f:filosofia-pratica|filosofia prática]]" significa algo mais que um [[lexico:s:simples|simples]] modelo metodológico para as ciências "hermenêuticas". Torna-se também seu [[lexico:f:fundamento|fundamento]] real. A peculiaridade metodológica da filosofia prática não passa da consequência [[lexico:n:natural|natural]] extraída da "racionalidade prática" elaborada por [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] em sua especificidade conceitual. Não é [[lexico:p:possivel|possível]] compreender sua estrutura a partir do conceito de ciência moderna. Mesmo a fluidificação dialética que [[lexico:h:hegel|Hegel]] deu aos [[lexico:c:conceitos|conceitos]] tradicionais, e que renovou muitas verdades da "filosofia prática", corre o [[lexico:r:risco|risco]] de induzir a um novo [[lexico:d:dogmatismo|dogmatismo]] velado da reflexão. O conceito de reflexão subjacente na crítica da ideologia implica com efeito um conceito [[lexico:a:abstrato|abstrato]] de discurso livre que perde de vista as verdadeiras condições da práxis humana. Eu tive que recusar essa ideia como uma [[lexico:e:extrapolacao|extrapolação]] ilegítima da [[lexico:s:situacao|situação]] terapêutica da psicanálise. No terreno da [[lexico:r:razao-pratica|razão prática]], não há [[lexico:a:analogia|analogia]] para o analista "consciente" que dirige a produção reflexiva do analisando. Na questão da reflexão, a [[lexico:d:distincao|distinção]] de [[lexico:b:brentano|Brentano]], inspirada em Aristóteles, entre [[lexico:i:interioridade|interioridade]] reflexiva e reflexão objetivante, me parece superior ao [[lexico:l:legado|legado]] do [[lexico:i:idealismo-alemao|idealismo alemão]]. A meu ver, isso se aplica também ao [[lexico:p:postulado|postulado]] da reflexão transcendental que **APEL** e outros aplicam à hermenêutica. Isso aparece perfeitamente documentado no difundido volume Hermeneutik und Ideologiekritik (Suhrkamp). VERDADE E MÉTODO II ANEXOS 30.