===== APARÊNCIA ===== a) [[lexico:a:aspecto|aspecto]] de uma [[lexico:c:coisa|coisa]] como ela se oferece, p. ex. um [[lexico:h:homem|homem]] de boa aparência). b) Aparência externa, como oposta à verdadeira [[lexico:r:realidade|realidade]]. (Salvar as aparências). c) Aparência que tem [[lexico:f:fundamento|fundamento]] [[lexico:r:real|real]], mas apenas parcial, que, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, opõe-se, simultaneamente, à realidade. (Uma pintura que parece relevo). d) Aparência como sinônimo de [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]]. [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:s:semelhante|semelhante]] à acepção c, mas com [[lexico:u:uso|uso]] filosófico especial, particularmente definido por [[lexico:k:kant|Kant]] como sendo a [[lexico:a:apresentacao|apresentação]] de um [[lexico:o:objeto|objeto]], enquanto considerado diferente da «coisa em si» (Vide Fenômeno). [[lexico:n:nota|nota]]: Etimologicamente. a [[lexico:p:palavra|palavra]] vem do latim «parere», chegar à [[lexico:p:presenca|presença]], [[lexico:a:aparecer|aparecer]] (e com o segundo sentido de obedecer), o que originariamente nenhuma [[lexico:o:oposicao|oposição]] implica à realidade. Só depois da [[lexico:e:experiencia|experiência]] [[lexico:u:universal|universal]] de que as [[lexico:c:coisas|coisas]], quando examinadas minuciosamente nas «aparências» sucessivas, provam-se diferentes «na realidade» do que pareciam à primeira vista, o [[lexico:t:termo|termo]] adotou este sentido pejorativo, opondo-se à realidade e à [[lexico:v:verdade|verdade]]. É, de um [[lexico:m:modo|modo]] [[lexico:g:geral|geral]], o aspecto que uma coisa oferece, diferente, e até em oposição, do seu [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]]. Mas o aspecto da coisa pode ser também a sua verdade e a [[lexico:e:evidencia|evidência]] dela; o [[lexico:a:aparente|aparente]] revela assim a verdade da coisa, porque supõe que por detrás dessa aparência [[lexico:n:nao|não]] há um ser verdadeiro que se serve dela para se ocultar; na maioria dos casos, o vocábulo “aparência” alude ao aspecto ocultador do ser verdadeiro; a aparência tem então um sentido [[lexico:a:analogo|análogo]] ao de fenômeno e pode apresentar, como este, três aspectos diferentes: o de verdade da coisa, enquanto esta se identifica com o aspecto que apresenta; o de ocultação dessa verdade, e o de [[lexico:c:caminho|caminho]] para chegar a ela. No primeiro caso, diz-se que a coisa não é senão o conjunto das suas aparências ou aspectos; no segundo, que é algo situado para [[lexico:a:alem|além]] da aparência, a qual deve ser atravessada para alcançar a [[lexico:e:essencia|essência]] do ser; no [[lexico:t:terceiro|terceiro]], que só mediante a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] do aspecto ou aspectos que uma coisa oferece podemos [[lexico:s:saber|saber]] o que verdadeiramente ela é. Daí que nem sempre seja [[lexico:p:possivel|possível]] confundir a aparência com uma falsa realidade; a sua [[lexico:s:significacao|significação]] mais geralmente aceite é a de realidade aparente, isto é, usando uma [[lexico:e:expressao|expressão]] paradoxal, a de aparência verdadeira, aspecto que encobre e simultaneamente permite descobrir a verdade de um ser. Em rigor, os diferentes graus e [[lexico:s:significacoes|significações]] da aparência podem entender-se consoante o [[lexico:p:plano|plano]] procurado: no plano [[lexico:v:vulgar|vulgar]], a aparência - sempre que seja, [[lexico:c:como-se|como se]] apontou, verdadeira - é suficiente; no plano d a [[lexico:r:reflexao|reflexão]] e do saber, a aparência é antes aquilo que aponta a direção em que se encontra o ser verdadeiro e [[lexico:u:ultimo|último]] da coisa, pois, como diz [[lexico:h:husserl|Husserl]], “para uma [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] da verdadeira realidade, é absolutamente indispensável a fenomenologia da fútil aparência” ([[lexico:i:ideias|ideias]]); no plano metafísico, a aparência é o caminho que pode conduzir ao [[lexico:s:sentido-do-ser|sentido do ser]] examinado, isto é, à [[lexico:d:descoberta|descoberta]] do [[lexico:l:lugar|lugar]] especial deste ser dentro da [[lexico:t:totalidade|totalidade]]. Kant discutiu muitas vezes a [[lexico:n:nocao|noção]] de aparência na [[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]]. “Aparência, escreveu ele, é o [[lexico:n:nome|nome]] [[lexico:d:dado|dado]] ao objeto não determinado de uma [[lexico:i:intuicao|intuição]] empírica”. Pode distinguir-se entre a [[lexico:m:materia|matéria]] e a [[lexico:f:forma|forma]] da aparência; a primeira é aquilo que na aparência corresponde à [[lexico:s:sensacao|sensação]]; a forma é aquilo que determina a [[lexico:d:diversidade|diversidade]] das aparências, quando se dispõem numa [[lexico:o:ordem|ordem]] segundo certas [[lexico:r:relacoes|relações]]. As aparências opõem-se às coisas em si. É certo que “as aparências não são apenas representações de coisas cujo ser em si é desconhecido”, o que parece indicar por um [[lexico:m:momento|momento]] (embora seja esta a doutrina de [[lexico:l:leibniz|Leibniz]], que Kant rejeita) que as aparências são aparências de realidades transcendentes. Mas as aparências são, na verdade, unicamente aquilo a que se aplicam as formas [[lexico:a:a-priori|a priori]] da [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]], primeiro, e depois, mediante novas sínteses, os [[lexico:c:conceitos|conceitos]] do [[lexico:e:entendimento|entendimento]]. As aparências não são distintas das suas apreensões, pois, “se as aparências fossem coisas em si, e visto que podemos referir-nos unicamente às nossas representações, nunca poderíamos deixar estabelecido, à base da [[lexico:s:sucessao|sucessão]] das representações, de que modo pode ligar-se no objeto a sua diversidade”. Os conceitos do entendimento são “(ilegitimamente) usados de modo [[lexico:t:transcendental|transcendental]] (no sentido “[[lexico:c:classico|clássico]]” de “transcendental”) nas coisas em geral e em si, mas são (legitimamente) aplicadas de modo [[lexico:e:empirico|empírico]] só às aparências, ou aos objetos da experiência possível. Quando são pensadas como objetos de [[lexico:a:acordo|acordo]] com a [[lexico:u:unidade|unidade]] das [[lexico:c:categorias|categorias]], as aparências recebem o nome de “fenômenos”. Kant chamou à sua doutrina, segundo a qual as aparências são consideradas apenas como representações e não como coisas em si, [[lexico:i:idealismo-transcendental|idealismo transcendental]], ao contrário do [[lexico:r:realismo|realismo]] transcendental e do [[lexico:i:idealismo-empirico|idealismo empírico]], que interpretam as aparências externas como coisas em si. A [[lexico:t:teoria|teoria]] da aparência como uma forma de ser não é admitida por todos os filósofos. Para alguns, não tem sentido perguntar se uma realidade é verdadeira ou falsa, autêntica ou aparente, pois a realidade é [[lexico:o:o-que-e|o que é]], e isso de tal modo que a verdade é precisamente a conformidade da realidade com a aparência, ou, por outras [[lexico:p:palavras|palavras]], a maneira de a realidade se manifestar a si mesma. Os fenomenólogos negam também o conflito entre o ser e o parecer, pois para eles o ser revela-se nas apresentações das aparências, de modo que o fenômeno pode ser estudado como tal enquanto “absolutamente indicativo de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]”. (gr. phainomenon; lat. apparentia; in. Appearance; fr. Apparence; al. Erscheinung; it. Apparenza). Na [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]], [[lexico:e:esse|esse]] termo teve dois significados diametralmente opostos. 1) ocultação da realidade; 2) [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] ou [[lexico:r:revelacao|revelação]] da realidade. Conforme o (1) [[lexico:s:significado|significado]], a aparência vela ou obscurece a realidade das coisas, de tal modo que esta só pode ser conhecida quando se transpõe a aparência e se prescinde dela. Pelo (2) significado, a aparência é o que manifesta ou revela a realidade, de tal modo que esta encontra na aparência a sua verdade, a sua revelação. Com base no (1) significado, conhecer significa libertar-se das aparência; pelo (2) significado, conhecer significa confiar na aparência, deixá-la aparecer. No primeiro caso, a [[lexico:r:relacao|relação]] entre aparência e verdade é de [[lexico:c:contradicao|contradição]] e oposição; no segundo, é de [[lexico:s:semelhanca|semelhança]] ou [[lexico:i:identidade|identidade]]. Essas duas concepções de aparência intricaram-se de várias formas na [[lexico:h:historia|história]] da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] ocidental. De um lado, esta nasceu do [[lexico:e:esforco|esforço]] de atingir saber mais sólido transpondo os limites das aparência, isto é, das opiniões, dos sentidos, das crenças populares ou míticas. De outro, procurou, com igual constância, [[lexico:t:ter|ter]] em conta a aparência ("salvar os fenômenos"), reconhecendo assim que nela se manifesta, em alguma [[lexico:m:medida|medida]], a própria realidade. O contraste entre aparência e realidade foi estabelecido pela primeira vez, de modo nítido e incisivo, por [[lexico:p:parmenides|Parmênides]] de Eleia, que contrapôs "a via da verdade e da [[lexico:p:persuasao|persuasão]]", que tem por objeto o ser, a sua unidade, inevitabilidade e [[lexico:n:necessidade|necessidade]], à "via da [[lexico:o:opiniao|opinião]]", que tem por objeto o [[lexico:n:nao-ser|não-ser]], isto é, o [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:s:sensivel|sensível]] no seu [[lexico:d:devir|devir]]. Mas o mundo da opinião e o mundo da aparência coincidem, segundo Parmênides: "Também isto aprenderás: como, verossimilmente, são as coisas aparentes para [[lexico:q:quem|quem]] as examine em tudo e por tudo" (Fr. 1, 31, Diels). A mesma coincidência entre aparência e opinião, opinião e sensação, é pressuposta por [[lexico:p:platao|Platão]], que interpreta o [[lexico:p:principio|princípio]] expresso por [[lexico:p:protagoras|Protágoras]], da homo-mensura, como se significasse "tal como as coisas aparecem para mim, tais são para mim" e, portanto, como se identificasse [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] e sensação (Teet., 152 a). Por outro lado, o mundo da opinião é, segundo a [[lexico:r:republica|República]], o mundo sensível dividido nos seus dois segmentos de sombras e imagens refletidas e de coisas e seres vivos (Rep., VI, 510). Segundo Platão, desse mundo das aparência sensíveis só se pode ter conhecimento [[lexico:v:verossimil|verossímil]] ou [[lexico:p:provavel|provável]], dada a sua [[lexico:n:natureza|natureza]] incerta e fugaz: conhecimento que não difere em [[lexico:g:grau|grau]], mas em [[lexico:q:qualidade|qualidade]], do [[lexico:c:conhecimento-cientifico|conhecimento científico]] ou [[lexico:r:racional|racional]] que tem por objeto o ser (Tim., 29). O mesmo Platão, porém, afirmando que o objeto da opinião está para o objeto do conhecimento como a [[lexico:i:imagem|imagem]] está para o [[lexico:m:modelo|modelo]] (Rep., VI, 510 a), admitiu uma relação de semelhança ou de [[lexico:c:correspondencia|correspondência]] entre aparência e realidade. Mas o passo decisivo foi dado por [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], que reconheceu a neutralidade da aparência sensível; esta, tanto como sensação quanto como imagem, pode ser tão verdadeira quanto falsa. Certamente erram os que consideram verdade tudo o que aparece, pois deveriam admitir também a realidade dos sonhos; e, quanto ao [[lexico:f:futuro|futuro]], não poderiam estabelecer nenhuma [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre a opinião do perito (p. ex., do médico que faz um prognóstico) e a opinião do ignorante (Met., IV, 5,1.010 b 1 ss.). A aparência não contém, portanto, nenhuma [[lexico:g:garantia|garantia]] de verdade e só o [[lexico:j:juizo|juízo]] intelectual a [[lexico:r:respeito|respeito]] dela pode certificá-la ou refutá-la. Mas, por outro lado, ela é o [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida da própria [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] científica que, como demonstra o que os matemáticos fazem em relação às aparência astronômicas, deve partir das aparência físicas e, portanto, da [[lexico:o:observacao|observação]] das coisas vivas e das suas partes para passar depois à consideração das razões e das [[lexico:c:causas|causas]] (Depart. an., I, 1, 639 b 7). Em outros termos, a aparência é o ponto de partida para a busca da verdade, que, porém, só é reconhecida em sua necessidade mediante o Uso dos [[lexico:p:principios|princípios]] do [[lexico:i:intelecto|intelecto]]. No último período da [[lexico:f:filosofia-grega|filosofia grega]], a noção de aparência torna-se proeminente. De um lado, os céticos fazem da aparência o [[lexico:c:criterio|critério]] da verdade e da [[lexico:c:conduta|conduta]], julgando [[lexico:i:impossivel|impossível]] passar além dela e julgar sobre ela ([[lexico:s:sexto-empirico|Sexto Empírico]], Pirr. hyp., I, 21-24; II, 18-21). Do outro lado, os neoplatônicos são levados a considerar [[lexico:t:todo|todo]] o mundo sensível como aparência, isto é, manifestação do mundo [[lexico:i:inteligivel|inteligível]], e este último como aparência ou [[lexico:i:imagem-de-deus|imagem de Deus]]: [[lexico:p:pensamento|pensamento]] que será herdado por [[lexico:s:scotus-erigena|Scotus Erigena]]: "Tudo o que se entende e se sente [[lexico:n:nada|nada]] mais é do que a aparição do aparente, a manifestação do [[lexico:o:oculto|oculto]]" (De divis. nat., III, 4). Desse ponto de vista, "o mundo é uma [[lexico:t:teofania|teofania]], toda [[lexico:o:obra|obra]] da [[lexico:c:criacao|criação]] manifesta a essência de [[lexico:d:deus|Deus]], que, portanto, se torna aparente e visível nela e por ela" (ibid., I, 10; V, 23). Acompanhando essas duas vias encontra-se o que se poderia chamar de revalorização da aparência no mundo [[lexico:m:moderno|moderno]]. Seguindo a primeira, está o que se poderia chamar de revalorização empirista. Já na [[lexico:e:escolastica|Escolástica]] do séc. XIV, Pedro Aureolo, partindo da [[lexico:n:negacao|negação]] de qualquer realidade universal e no intuito de eliminar a [[lexico:s:species|species]] como intermediária do conhecimento intelectual, afirmava que "as próprias coisas são vistas pela [[lexico:m:mente|mente]] e o que se vê não é uma forma especular qualquer, mas a própria coisa no seu ser-que-aparece (esse apparens) e este ser aparente é o que chamamos do [[lexico:c:conceito|conceito]] ou [[lexico:r:representacao|representação]] objetiva" (In Sent., I, d. 9, a. l). A [[lexico:d:distincao|distinção]] entre o sentido e o intelecto não depende, portanto, da natureza do objeto apreendido, mas do modo de [[lexico:a:apreender|apreender]]. Ao sentido e à [[lexico:i:imaginacao|imaginação]] as coisas aparecem sob as condições da [[lexico:q:quantidade|quantidade]], ao passo que o intelecto abstrai do que é [[lexico:q:quantitativo|quantitativo]] e material (ibid., I, d. 35, a. 1). Mas é só no mundo moderno, a partir do séc. XVII, que a filosofia reconhece explicitamente o [[lexico:c:carater|caráter]] real da aparência [[lexico:h:hobbes|Hobbes]] talvez seja o primeiro a reconhecer isso de maneira [[lexico:b:bem|Bem]] clara. "De todos os fenômenos que nos circundam", diz ele, "o mais maravilhoso é justamente o aparecer. É certo que entre os corpos naturais alguns possuem em si os exemplares de todas as coisas e outros, de nenhuma. Consequentemente, se os fenômenos são os princípios para conhecer as outras coisas, é preciso dizer que a sensação é o princípio para conhecer os próprios princípios e que dela deriva toda a [[lexico:c:ciencia|ciência]]. Para indagar as causas da sensação não se pode, portanto, partir de outro fenômeno que não seja a própria sensação" (De corp., 25, § 1). Assim, Hobbes identifica aparência real com sensação e assume-a como ponto de partida para a [[lexico:i:indagacao|indagação]] das coisas não criadas pelo homem (assim como as definições são o ponto de partida para a indagação das coisas criadas pelo homem, isto é, dos entes matemáticos e políticos). Com essas palavras, Hobbes formulava o fundamento do [[lexico:e:empirismo|empirismo]] moderno. Ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] em que ressaltava o caráter [[lexico:r:relativo|relativo]] e [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] das aparência sensíveis, assumiu-as como [[lexico:u:unico|único]] fundamento do conhecimento [[lexico:h:humano|humano]]. [[lexico:l:locke|Locke]] observa que, se os nossos sentidos fossem modificados e se tornassem mais rápidos e agudos, a aparência das coisas mudaria completamente; mas então ela se tornaria incompatível com o nosso ser ou pelo menos com as necessidades da nossa [[lexico:v:vida|vida]] (Ensaio, II, 23, 12). "aparência sensíveis" são as ideias de que [[lexico:f:fala|fala]] [[lexico:b:berkeley|Berkeley]] (Principies, 33) e as impressões de que fala [[lexico:h:hume|Hume]] (Treatise, II, 5). "Fenômenos ou [[lexico:a:aparicoes|aparições]]" são, segundo Leibniz, todos os dados de que dispõe o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] pensante; a distinção entre aparência reais e aparência ilusórias só é feita considerando-se, de um lado, a [[lexico:v:vivacidade|vivacidade]], a [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] e a [[lexico:c:coerencia|coerência]] das próprias aparência, e, de outro, a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de predizer os fenômenos futuros a partir dos fenômenos passados e presentes (Op., ed. Erdmann, pp. 443-444). Com isso, a aparência perdeu o caráter enganoso e abre-se o caminho da distinção kantiana entre a aparência (Erscheinung) e a [[lexico:i:ilusao|ilusão]] (Schein). As aparência são os fenômenos como objetos da [[lexico:i:intuicao-sensivel|intuição sensível]] e, em geral, da experiência; os fenômenos são realidade, aliás as únicas realidades que o homem pode conhecer e de que pode [[lexico:f:falar|falar]]. "[[lexico:e:eu|eu]] não digo", afirma Kant, "que os corpos parecem simplesmente seres externos ou que minha [[lexico:a:alma|alma]] parece simplesmente dada na minha [[lexico:a:autoconsciencia|autoconsciência]], quando afirmo que as qualidades do [[lexico:e:espaco|espaço]] e do tempo — segundo as quais, como [[lexico:c:condicao|condição]] da sua [[lexico:e:existencia|existência]], coloco aqueles e esta — estão no meu modo de intuir e não nesses objetos. Seria um [[lexico:e:erro|erro]] meu se transformasse em mera ilusão (Schein) aquilo que devo considerar como fenômeno" (Crít. R. Pura, [[lexico:e:estetica-transcendental|Estética transcendental]], Observações ger., 3). A [[lexico:a:afirmacao|afirmação]]: "Os sentidos representam para nós os objetos como aparecem, o intelecto como são" é interpretada por Kant no sentido de que o intelecto representa os objetos na conexão universal dos fenômenos (o que não significa que eles sejam independentes da relação com a experiência possível e, portanto, das "aparência sensíveis") (ibid., Anal. dos princ., cap. III). Por isso, a aparência fenomênica tem esse nome para ressaltar as suas conexões com as condições subjetivas do conhecer e para distingui-la do [[lexico:h:hipotetico|hipotético]] conhecimento numênico, de tal forma que se possa estabelecer com clareza os seus limites (v. fenômeno). Por outro lado, a própria negação do caráter ilusório da aparência foi utilizada, na [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]], para reafirmar o caráter [[lexico:a:absoluto|absoluto]] do conhecimento humano. Assim, [[lexico:h:hegel|Hegel]] vê na aparência fenomênica a própria essência. aparência e essência não se opõem, mas se identificam: a aparência é a essência que existe na sua imediação. "Aparecer", diz ele, "é a [[lexico:d:determinacao|determinação]] por [[lexico:m:meio|meio]] da qual a essência não é ser, mas essência; e o aparecer desenvolvido é o fenômeno. A essência não está, portanto, atrás ou além do fenômeno; mas, justamente porque a essência é o que existe, a existência é o fenômeno" (Enc., § 131). É verdade que, como determinação "imediata", a aparência está destinada, segundo Hegel, a ser absorvida ou superada por outras determinações, refletidas ou mediatas, no [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] dialético da [[lexico:i:ideia|ideia]] absoluta; mas também é verdade que toda a doutrina de Hegel é sustentada pelo pensamento de que não há realidade tão recôndita que, de algum modo, deixe de manifestar-se e aparecer. Na filosofia contemporânea, esse ponto de vista teve a melhor expressão na obra de [[lexico:h:heidegger|Heidegger]]. "Como significado da expressão ‘fenômeno’ deve-se estabelecer o seguinte: o que se manifesta em si mesmo, o revelado... Definimos esse manifestar-se como aparecer (Scheinen). Também em [[lexico:g:grego|grego]] a expressão [[lexico:p:phainomenon|phainomenon]] tem esse significado: o que tem o aspecto de aparente, aparência ... Só porque [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]], em [[lexico:v:virtude|virtude]] do seu sentido, pretende em geral manifestar-se, isto é, ser fenômeno, é possível que ela se manifeste como algo que não é, que tenha o aspecto de... Reservamos para o termo ‘fenômeno’ o significado [[lexico:p:positivo|positivo]] e original de ‘phainomenon’ e distinguimos fenômeno da aparência, considerando esta última como uma modificação [[lexico:p:particular|particular]] de fenômeno" (Sein und Zeit, § 7 A). Isto, porém, não quer dizer que a filosofia contemporânea tenha identificado ser com aparência Antes, propôs de outra forma o [[lexico:p:problema|problema]] de sua relação, passando a considerar essa relação de modo [[lexico:o:objetivo|objetivo]] ou [[lexico:o:ontologico|ontológico]], isto é, sem [[lexico:r:referencia|referência]] a qualquer subjetivação idealista. Não é por [[lexico:a:acaso|acaso]] que a última obra importante em que se debateu de forma tradicional o problema da relação entre aparência e realidade pertence a um idealista: F. H. Bradley (Aparência e realidade, 1893). Sobretudo por [[lexico:i:influencia|influência]] da colocação fenomenológica (v. fenomenologia), a consideração da relação entre aparecer e ser deixou completamente de ser feita, tanto no que se refere ao [[lexico:d:dualismo|dualismo]] entre esses dois termos quanto no que se refere aos outros dualismos com que em geral era interpretada, como entre sensação e pensamento, entre [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]] e [[lexico:o:objetividade|objetividade]], etc. A relação toda é feita no plano objetivo das experiências diferentes ou dos graus diferentes de experiências. Um [[lexico:f:filosofo|filósofo]] que baseie suas construções num [[lexico:g:grupo|grupo]] de experiências ou em dado [[lexico:t:tipo|tipo]] de realidade, privilegiando-o e considerando-o fundamental, é levado a julgar menos reais ou significantes, e de certo modo simplesmente "aparentes", as outras formas de experiência ou os outros tipos de realidade. P. ex., quem privilegia a experiência interior ou [[lexico:c:consciencia|consciência]] é levado a considerar menos significante ou, de certo modo, só "aparente" a experiência externa ou sensível, e vice-versa. Mas em todo caso, mesmo o que se declara aparente é admitido como aparência de alguma coisa e, por isso, dotada, já como aparência, de um grau ou medida de realidade. De modo que a relação entre realidade e aparência vem a configurar-se como relação entre realidade e imagem, ou realidade e [[lexico:s:simbolo|símbolo]] e, em todo caso, entre dois graus ou determinações objetivas.