===== ANTINOMIAS KANTIANAS ===== (in. Kantian antinomies; fr. Antinomies kantiennes; al. Kants Antinomien; it. Antinomie kantiané). A [[lexico:p:palavra|palavra]] [[lexico:a:antinomias|antinomias]] significa propriamente "conflito de leis" (Quintiliano, Inst. or., VII, 7, 1), mas foi estendida por [[lexico:k:kant|Kant]] para indicar o conflito em que a [[lexico:r:razao|razão]] se encontra consigo mesma em [[lexico:v:virtude|virtude]] dos seus próprios procedimentos. Kant falou das antinomias no [[lexico:c:campo|campo]] da cosmologia [[lexico:r:racional|racional]], isto é, da doutrina que tem por [[lexico:o:objeto|objeto]] a [[lexico:i:ideia|ideia]] do [[lexico:m:mundo|mundo]]. Esta ideia, como todas da [[lexico:r:razao-pura|razão pura]] (v. ideia), nasce da tentativa — ilegítima, segundo Kant — de aplicar as [[lexico:c:categorias|categorias]] a si mesmas, isto é, do [[lexico:u:uso|uso]] reflexivo àas categorias. A ideia do mundo é, de [[lexico:f:fato|fato]], a "[[lexico:u:unidade|unidade]] incondicionada das condições objetivas da [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] dos objetos em [[lexico:g:geral|geral]]". As "condições objetivas, etc." são as categorias e os [[lexico:p:principios|princípios]] delas derivados; e a unidade é ainda uma [[lexico:c:categoria|categoria]]. As antinomias que surgem desse [[lexico:m:modo|modo]] são, segundo Kant, naturais ou inevitáveis; naturais porque a ideia de mundo que lhes dá [[lexico:o:origem|origem]], embora desprovida de [[lexico:v:validade|validade]] empírica e, portanto, cognoscitiva, é formada pela razão com um procedimento [[lexico:n:natural|natural]] que consiste em aplicar às categorias as próprias categorias, que só deveriam [[lexico:s:ser|ser]] aplicadas aos fenômenos; inevitáveis porque, uma vez formada a ideia de mundo como a [[lexico:t:totalidade|totalidade]] absoluta, incondicionada, de todos os fenômenos e das suas condições, [[lexico:n:nao|não]] se pode absolutamente evitar chegar a proposições contraditórias. Kant enumera [[lexico:q:quatro|Quatro]] antinomias que correspondem aos quatro grupos de categorias: segundo a [[lexico:q:qualidade|qualidade]], a [[lexico:q:quantidade|quantidade]], a [[lexico:r:relacao|relação]] e a [[lexico:m:modalidade|modalidade]]. São elas: 1) [[lexico:a:antinomia|antinomia]]. [[lexico:t:tese|tese]]. o mundo tem um início no [[lexico:t:tempo|tempo]] e no [[lexico:e:espaco|espaço]], está fechado dentro de limites. [[lexico:a:antitese|Antítese]], o mundo não tem nem início no tempo nem [[lexico:l:limite|limite]] no espaço, mas é [[lexico:i:infinito|infinito]] tanto no tempo quanto no espaço. 2) Antinomia. Tese. toda [[lexico:s:substancia|substância]] composta consta de partes [[lexico:s:simples|simples]] e [[lexico:n:nada|nada]] existe [[lexico:a:alem|além]] do simples ou do que resulta [[lexico:c:composto|composto]] do simples. Antítese, não existe no mundo [[lexico:c:coisa|coisa]] alguma composta de [[lexico:p:parte|parte]] simples e não existe em [[lexico:l:lugar|lugar]] algum nada de simples. 3) Antinomia. Tese. a [[lexico:c:causalidade|causalidade]] segundo leis da [[lexico:n:natureza|natureza]] não é a única causalidade pela qual possam ser explicados os fenômenos do mundo. É [[lexico:n:necessario|necessário]] admitir, para a [[lexico:e:explicacao|explicação]] destes, também uma causalidade da [[lexico:l:liberdade|liberdade]]. Antítese, não há nenhuma liberdade, mas tudo no mundo acontece unicamente segundo as leis da natureza. 4) Antinomia. Tese. no mundo há [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] que, como sua parte ou como sua [[lexico:c:causa|causa]], é um ser absolutamente necessário. Antítese: em nenhum lugar existe um ser absolutamente necessário, nem no mundo nem fora do mundo, como sua causa. Tanto a tese quanto a antítese de cada uma dessas antinomias é demonstrável com argumentos logicamente irrepreensíveis: entre uma e outra é, pois, [[lexico:i:impossivel|impossível]] decidir. O conflito, portanto, permanece e demonstra a ilegitimidade da [[lexico:n:nocao|noção]] que lhes deu origem, isto é, da ideia de mundo. Esta, estando além de toda [[lexico:e:experiencia|experiência]] [[lexico:p:possivel|possível]], permanece [[lexico:i:incognoscivel|incognoscível]] e não pode fornecer nenhum [[lexico:c:criterio|critério]] capaz de decidir por uma ou por outra das teses em conflito. A ilegitimidade da noção de mundo é evidenciada pelo fato de a tese das antinomias apresentar um [[lexico:c:conceito|conceito]] dele demasiado pequeno para o [[lexico:i:intelecto|intelecto]], ao passo que a antítese apresenta um conceito demasiado grande para o mesmo intelecto. Assim, se o mundo teve [[lexico:p:principio|princípio]], regredindo-se empiricamente na [[lexico:s:serie|série]] dos tempos, seria preciso chegar a um [[lexico:m:momento|momento]] em que [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:r:regresso|regresso]] se detém; [[lexico:o:o-que-e|o que é]] um conceito de mundo demasiado pequeno para o intelecto. Se, ao contrário, o mundo não teve princípio, o regresso na série do tempo nunca pode esgotar a [[lexico:e:eternidade|Eternidade]]; o que é um conceito demasiado grande para o intelecto. O mesmo se diga para a [[lexico:f:finitude|finitude]] ou a infinitude espacial, para a [[lexico:d:divisibilidade|divisibilidade]] ou a indivisibilidade, etc. Em [[lexico:t:todo|todo]] caso, chega-se a uma noção do mundo que: ou restringe em limites estreitos a possibilidade de o intelecto ir de um [[lexico:t:termo|termo]] a [[lexico:o:outro|outro]] na série dos eventos, ou estende esses limites a tal [[lexico:p:ponto|ponto]] que torna insignificante essa mesma possibilidade. Logo, a solução da antinomias só pode consistir em não assumir a ideia do mundo como [[lexico:r:realidade|realidade]], mas como uma [[lexico:r:regra|regra]] que leva o intelecto a regredir na série dos fenômenos sem nunca poder parar em algo [[lexico:i:incondicionado|incondicionado]] ([[lexico:c:critica|Crítica]] R. Pura, Antinomias, seção 8). A essas [[lexico:a:antinomias-da-razao-pura|antinomias da razão pura]] Kant acrescentou uma antinomias da [[lexico:r:razao-pratica|razão prática]] (Crít. R. Prática, I, livro II, cap. II, § 1), que consiste no conflito criado pelo conceito de [[lexico:s:sumo-bem|sumo bem]]: "Ou o [[lexico:d:desejo|desejo]] da [[lexico:f:felicidade|felicidade]] deve ser a causa [[lexico:m:mobil|móbil]] para o máximo de virtude ou o máximo de virtude deve ser a causa eficiente da felicidade"; e uma antinomias do [[lexico:j:juizo|juízo]] [[lexico:t:teleologico|teleológico]] (Crít. do Juízo, § 70), que é formada pela tese: "Toda produção das [[lexico:c:coisas|coisas]] materiais é possível segundo leis puramente mecânicas", pela antítese: "Alguns produtos da natureza não são possíveis segundo leis puramente mecânicas". [[lexico:h:hegel|Hegel]] interpretava as [[lexico:a:antinomias-kantianas|antinomias kantianas]] [[lexico:c:como-se|como se]] Kant tivesse querido retirar a [[lexico:c:contradicao|contradição]] do mundo em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] e atribuí-la à razão. E acrescentava: "É sentir ternura demais pelo mundo querer afastar dele a contradição e transportá-la para o [[lexico:e:espirito|espírito]], para a razão, deixando-a aí, sem solução. Na [[lexico:v:verdade|verdade]], é o espírito que tem [[lexico:f:forca|força]] suficiente para suportar a contradição, mas é também o espírito que lhe dá solução" (Wiss. der Logik, I, seção II, cap. II, C, [[lexico:n:nota|nota]] 2). Na realidade, o [[lexico:m:metodo|método]] dialético (v. [[lexico:d:dialetica|dialética]]), que é o método [[lexico:p:proprio|próprio]] da razão, segundo Hegel, procede exatamente passando da tese à antítese, e, portanto, exige sempre a contradição; mas é uma contradição que sempre se resolve na [[lexico:s:sintese|síntese]], por isso nunca é uma antinomia. As antinomias kantianas foram discutidas e interpretadas de várias maneiras, mas não deram origem a estudos aprofundados sobre a sua [[lexico:c:consistencia|consistência]] [[lexico:l:logica|lógica]]. Entre os próprios neokantianos, nem todos reconheceram sua validade; [[lexico:r:renouvier|Renouvier]], p. ex., aceitava sem reservas as teses e rejeitava as antíteses, reconhecendo assim a finitude do mundo no espaço e no tempo (Essais de critique générale, I, p. 282). No entanto, o resultado alcançado pela [[lexico:d:discussao|discussão]] kantiana das antinomias é importante. Consiste em [[lexico:t:ter|ter]] posto de lado a ideia tradicional do mundo como totalidade absoluta e em ter ensinado o uso crítico do conceito de mundo.