===== ANTINOMIAS DA RAZÃO PURA ===== VIDE [[lexico:d:dialetica|dialética]] [[lexico:t:transcendental|transcendental]] Muito mais [[lexico:i:interessante|interessante]] é a [[lexico:d:discussao|discussão]] que [[lexico:k:kant|Kant]] consagra ao segundo grande [[lexico:p:problema|problema]] da [[lexico:m:metafisica|metafísica]]: o problema do [[lexico:u:universo|universo]]. O [[lexico:m:metodo|método]] de discussão nessa segunda [[lexico:p:parte|parte]] consiste naquilo que Kant chama [[lexico:a:antinomias-da-razao-pura|antinomias da razão pura]]. Quer dizer o seguinte: se nós adotamos o [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista dos metafísicos e consideramos o universo como uma [[lexico:c:coisa|coisa]] em si e tentamos predicar do universo propriedades metafísicas, deparamos com este surpreendente resultado: que do universo podemos predicar afirmações contraditórias, e, [[lexico:n:nao|não]] obstante serem contraditórias, as duas afirmações são igualmente demonstráveis, com igual [[lexico:f:forca|força]] probatória. Cada uma dessas contraposições de [[lexico:t:tese|tese]] e [[lexico:a:antitese|antítese]] igualmente probatórias acerca do Universo chama-as Kant [[lexico:a:antinomias|antinomias]]; e descobre na metafísica [[lexico:q:quatro|Quatro]] antinomias. A primeira [[lexico:a:antinomia|antinomia]] é aquela em que se contrapõe a tese e antítese seguinte: Tese: o universo tem um [[lexico:p:principio|princípio]] no [[lexico:t:tempo|tempo]] e limites no [[lexico:e:espaco|espaço]]. Antítese: o universo é [[lexico:i:infinito|infinito]] no tempo e no espaço. A segunda antinomia refere-se também esta vez à [[lexico:e:estrutura|estrutura]] do universo no espaço. A tese diz: tudo quanto existe no universo está [[lexico:c:composto|composto]] de [[lexico:e:elementos|elementos]] [[lexico:s:simples|simples]], indivisíveis. A antítese diz: aquilo que existe no universo não está composto de elementos simples, mas de elementos infinitamente divisíveis. Terceira antinomia. Nela diz Kant: o universo deve [[lexico:t:ter|ter]] tido uma [[lexico:c:causa|causa]] que não seja por sua vez causada. A antítese diz: o universo não pode ter uma causa que por sua vez não seja causada. A quarta e última antinomia é uma variedade da terceira. Na quarta Kant diz na tese: nem no universo nem fora dele pode haver um [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:n:necessario|necessário]]; e na antítese diz: no universo ou fora dele há de haver um ser que seja necessário. [[lexico:c:como-se|como se]] vê, é uma simples variante da anterior. Verificamos, pois, que, aceitando o ponto de vista metafísico acerca do universo, derivam-se estas antinomias. Colocamo-nos numa [[lexico:s:situacao|situação]] tal, que podemos, acerca do universo, emitir teses contraditórias e igualmente plausíveis aos olhos da pura [[lexico:r:razao|razão]]. Isto não pode ser. Tem que haver aqui uma falha, tem que haver aqui um [[lexico:e:erro|erro]]; e o erro consiste, segundo Kant, no seguinte. Nas duas primeiras antinomias, que Kant chama matemáticas, a falha, o erro consiste em que o tempo e o espaço foram tomados como [[lexico:c:coisas|coisas]] em si mesmas, em [[lexico:l:lugar|lugar]] de tomá-los como formas que nossa [[lexico:f:faculdade|faculdade]] de conhecer aplica ou imprime nos fenômenos. Claro está que, tomando o espaço e o tempo como coisas em si mesmas, encontraremos que o espaço tem que ter um princípio, um [[lexico:l:limite|limite]], e não tem que o ter; e que o tempo tem que ter um [[lexico:c:comeco|começo]] e o não ter ao mesmo tempo. Mas isso provém de que tomamos o espaço e o tempo como coisas em si mesmas, como realidades em si mesmas, independentes do [[lexico:a:ato|ato]] de conhecer. Coisa essa que não são. Por conseguinte, a solução das duas primeiras antinomias consiste em dizer que são falsas as teses e antíteses, porque se parte de um [[lexico:s:suposto|suposto]] contrário às leis e condições do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]. Nas duas últimas antinomias a solução para Kant é a contrária. As teses e as antíteses podem ser ambas verdadeiras. Por quê? Porque nas duas últimas antinomias as teses se tomam no [[lexico:s:sentido|sentido]] ajustado às leis do conhecimento, como quando se pede — com razão — que de [[lexico:t:todo|todo]] ser, de toda [[lexico:r:realidade|realidade]], exista uma causa que a determine, e que esta por sua vez tenha uma causa, e esta por sua vez tenha uma causa. Mas, ao contrário, as duas antíteses ultrapassam as condições de todo conhecimento [[lexico:p:possivel|possível]] e se referem às coisas "em si mesmas." Pois [[lexico:b:bem|Bem]]: suponhamos por um [[lexico:m:momento|momento]] que exista uma via para chegar às coisas metafísicas que não seja aquela do [[lexico:c:conhecimento-cientifico|conhecimento científico]]. Suponhamos que exista no [[lexico:c:campo|campo]] da [[lexico:c:consciencia|consciência]] humana uma [[lexico:a:atividade|atividade]] que não seja a atividade de conhecer, porém que possa conduzir-nos à [[lexico:a:apreensao|apreensão]] ou captação das coisas metafísicas. Então as teses e as antíteses serão perfeitamente compatíveis, porque — [[lexico:d:dito|dito]] na [[lexico:l:linguagem|linguagem]] abstrusa de Kant, que já vou [[lexico:e:explicar|explicar]] — as teses são válidas no [[lexico:m:mundo|mundo]] dos fenômenos, enquanto que as antíteses são válidas no mundo dos númenos (v. [[lexico:n:numeno|númeno]]). Que quer dizer Kant com isto? Quer dizer que se, com [[lexico:e:efeito|efeito]], se encontra uma via distinta da do conhecimento que nos conduza as coisas metafísicas, então as teses são válidas para a [[lexico:c:ciencia|ciência]] físico-matemática e as antíteses são válidas para esta atividade não cognoscitiva que nos tenha podido conduzir às realidades metafísicas.