===== ANTICRISTO ===== O anúncio da [[lexico:m:morte-de-deus|morte de Deus]] caminha lado a lado com a "maldição do cristianismo". É [[lexico:v:verdade|verdade]] que [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]] sente-se fascinado pela [[lexico:f:figura|figura]] de Cristo: "Cristo é o [[lexico:h:homem|homem]] mais nobre". Mas o cristianismo [[lexico:n:nao|não]] é Cristo. O cristianismo - lemos no Anticristo - é uma conjuração "contra a saúde, a [[lexico:b:beleza|beleza]], a [[lexico:c:constituicao|constituição]] bem-sucedida, a [[lexico:v:vontade|vontade]] de [[lexico:e:espirito|espírito]], a [[lexico:b:bondade|bondade]] da [[lexico:a:alma|alma]], contra a própria [[lexico:v:vida|vida]]". Eis a [[lexico:r:razao|razão]] pela qual é preciso a transmutação de todos os valores, dos valores que "dominaram até hoje". A [[lexico:m:morte|morte]] de [[lexico:d:deus|Deus]] é [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] cósmico, pelo qual os homens são responsáveis e que os liberta das cadeias daquele [[lexico:s:sobrenatural|sobrenatural]] que eles próprios haviam criado. Falando sobre os padres, Zaratustra afirma: "Dão-me [[lexico:p:pena|pena]] esses padres (...), para mim eles são prisioneiros murchos. Aquele que eles chamam de redentor os carregou de grilhões de falsos valores e loucas [[lexico:p:palavras|palavras]]! Ah, se alguém pudesse redimi-los do seu redentor!" Precisamente [[lexico:e:esse|esse]] é o [[lexico:o:objetivo|objetivo]] que Nietzsche quer alcançar com o Anticristo, que é uma "maldição do cristianismo". Para ele, um [[lexico:a:animal|animal]], uma [[lexico:e:especie|espécie]] ou um [[lexico:i:individuo|indivíduo]] épervertido "quando perde os seus instintos, quando escolhe e quando prefere o que lhe é nocivo". Mas, pergunta-se Nietzsche, o que fez o cristianismo senão defender tudo [[lexico:o:o-que-e|o que é]] nocivo ao homem? O cristianismo considerou [[lexico:p:pecado|pecado]] tudo o que é [[lexico:v:valor|valor]] e [[lexico:p:prazer|prazer]] na [[lexico:t:terra|Terra]]. Ele "tomou partido de tudo o que é fraco, abjeto e arruinado; fez um [[lexico:i:ideal|ideal]] da [[lexico:c:contradicao|contradição]] contra os instintos de conservação da vida forte; desgastou até a razão das naturezas intelectualmente mais fortes, ensinando a sentir os supremos valores da intelectualidade como pecaminosos, como fontes de [[lexico:d:desvio|desvio]], como tentações. O [[lexico:e:exemplo|exemplo]] mais censurável foi a ruína de [[lexico:p:pascal|Pascal]], que acreditava na [[lexico:c:corrupcao|corrupção]] de sua razão por [[lexico:c:causa|causa]] do [[lexico:p:pecado-original|pecado original]], quando fora apenas o cristianismo a corrompê-la!" Para Nietzsche, o cristianismo é a [[lexico:r:religiao|religião]] de [[lexico:c:compaixao|compaixão]]. "Mas se perde [[lexico:f:forca|força]] quando se tem a compaixão (...); a compaixão obstaculiza em bloco a [[lexico:l:lei|lei]] do [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]], que é a lei da [[lexico:s:selecao|seleção]]. Ela conserva o que está maduro para o declínio, opõe resistência em favor dos deserdados e dos condenados pela vida". A [[lexico:r:realidade|realidade]], diz ele, é que "a compaixão é a [[lexico:p:praxis|praxis]] do [[lexico:n:niilismo|niilismo]]" e que "[[lexico:n:nada|nada]] é mais malsão, em [[lexico:m:meio|meio]] à nossa malsã [[lexico:h:humanidade|humanidade]], do que a compaixão cristã". Nietzsche vislumbra no Deus cristão "a divindade dos doentes (...); um Deus degenerado a [[lexico:p:ponto|ponto]] de contradizer a vida, ao invés de [[lexico:s:ser|ser]] a sua [[lexico:t:transfiguracao|transfiguração]] e o seu [[lexico:e:eterno|eterno]] sim. Em Deus, está declarada inimizade à vida, à [[lexico:n:natureza|natureza]], à [[lexico:v:vontade-de-viver|vontade de viver]]! Deus, a [[lexico:f:formula|fórmula]] de toda [[lexico:c:calunia|calúnia]] do ‘aquém’ e de toda [[lexico:m:mentira|mentira]] do ‘[[lexico:a:alem|além]]’! Em Deus, está divinizado o nada, está consagrada a vontade do nada!" O [[lexico:b:budismo|budismo]] também é religião da [[lexico:d:decadencia|decadência]], mas Nietzsche o considera pelo menos "cem vezes mais realista do que o cristianismo": com [[lexico:e:efeito|efeito]], o budismo não [[lexico:l:luta|luta]] contra o pecado, mas sim contra a [[lexico:d:dor|dor]]. E, ademais, "um clima muito suave, uma grande [[lexico:t:tranquilidade|tranquilidade]] e liberalidade de [[lexico:c:costumes|costumes]], sem nenhum [[lexico:m:militarismo|militarismo]], são os pressupostos do budismo". Apesar de tudo isso, Nietzsche é tomado pela figura de Cristo ("Cristo é o homem mais nobre"; "o [[lexico:s:simbolo|símbolo]] da cruz é o símbolo mais [[lexico:s:sublime|sublime]] que jamais existiu") e faz [[lexico:d:distincao|distinção]] entre Jesus e o cristianismo ("o cristianismo é algo profundamente diferente do que o seu fundador quis e fez"). Cristo morreu para apontar [[lexico:c:como-se|como se]] deve [[lexico:v:viver|viver]]: "A prática da vida é o que ele deixou em herança aos homens: a sua [[lexico:a:atitude|atitude]] diante dos juízes, dos sicários, dos acusadores e de toda espécie de zombaria e calúnia, a sua atitude sobre a cruz (...). As palavras dirigidas ao ladrão sobre a cruz encerram em si [[lexico:t:todo|todo]] o Evangelho". Para ele, Cristo foi "espírito livre", mas com Cristo morreu o Evangelho: o Evangelho também ficou "suspenso na cruz", ou melhor, transformou-se em igreja, em cristianismo, isto é, em ódio e [[lexico:r:ressentimento|ressentimento]] contra tudo o que é nobre e aristocrático: "Paulo foi o maior dentre todos os apóstolos da vingança". Os cristão, do primeiro ao [[lexico:u:ultimo|último]] (que Nietzsche pensa em chegar a conhecer), "são por [[lexico:i:instinto|instinto]] [[lexico:p:profundo|profundo]] rebeldes contra tudo o que é privilegiado — vivem e combatem sempre por ‘direitos iguais’ ". No Novo Testamento, Nietzsche só encontra uma [[lexico:p:personagem|personagem]] digna de ser elogiada, Pôncio Pilatos, em [[lexico:v:virtude|virtude]] do seu [[lexico:s:sarcasmo|sarcasmo]] em [[lexico:r:relacao|relação]] à "verdade". Mais [[lexico:t:tarde|Tarde]], na [[lexico:h:historia|história]] da nossa [[lexico:c:civilizacao|civilização]], o [[lexico:r:renascimento|Renascimento]] tentou a transvalorização dos valores cristãos e procurou levar à vitória os valores aristocráticos, os nobres instintos terrenos. Feito papa, César Bórgia teria sido grande [[lexico:e:esperanca|esperança]] para a humanidade. Mas o que aconteceu? Aconteceu que "um monge alemão, [[lexico:l:lutero|Lutero]], veio a Roma. Trazendo dentro do peito todos os instintos de vingança de padre mal-sucedido, esse monge, em Roma, indignou-se contra o Renascimento (...). Lutero viu a corrupção do papado, quando se podia tocar com a mão justamente o contrário: na cadeira papal, não estava mais a antiga corrupção, opeccatum origínale, o cristianismo! Que boa é a vida! Que [[lexico:b:bom|Bom]] o triunfo da vida! Que bom o grande sim a tudo o que é elevado, [[lexico:b:belo|belo]] e temerário! (...) E Lutero restaurou novamente a Igreja (...) Ah, esses alemães, quanto nos custaram!" São dessa natureza, portanto, as razões que levam Nietzsche a condenar o cristianismo: "A Igreja cristã não deixou nada intacto em sua perversão: ela fez de cada valor um desvalor, de cada verdade uma mentira, de toda honestidade uma [[lexico:a:abjecao|abjeção]] da alma". A Igreja, "com o seu ideal clorídrico da ‘[[lexico:s:santidade|santidade]]’, vai bebendo até a última gota todo [[lexico:s:sangue|sangue]], todo [[lexico:a:amor|amor]] e toda esperança de vida". O além é a [[lexico:n:negacao|negação]] de toda realidade e a cruz é conjuração "contra a saúde, a beleza, a constituição bem-sucedida, a valentia de espírito, a bondade da alma, contra a própria vida". Assim, o que devemos nos augurar senão que este seja o último dia do cristianismo? E "a partir de hoje? A partir de hoje, transvalorização de todos os valores", responde Nietzsche.