===== ANTI-INTELECTUALISMO ===== O [[lexico:i:intelecto|intelecto]], isto é, aquilo que pensa e portanto duvida, tem sido exagerado inclusive por aqueles que nele perderam a [[lexico:f:fe|fé]]. Embora muitos tenham ultimamente compreendido o [[lexico:c:carater|caráter]] puramente [[lexico:f:formal|formal]] do intelecto (como, aliás, o compreenderam já os empiristas dos séculos XVII e XVIII), essa [[lexico:c:compreensao|compreensão]] nunca se tornou [[lexico:p:parte|parte]] da [[lexico:v:vivencia|vivência]] autêntica desses pensadores. Nunca, conforme creio, tem sido apreciada e sorvida vivencialmente a esterilidade do intelecto. Nunca, [[lexico:b:bem|Bem]] entendido, por pensadores, isto é, pelo [[lexico:p:proprio|próprio]] intelecto. O desprezo fácil e barato do intelecto, nutrido pelos sentimentais, pelos místicos primitivos e por aqueles que põem sua fé nos sentidos, [[lexico:n:nada|nada]] tem a [[lexico:v:ver|ver]] com a vivência aqui descrita. É a vivência intelectual da futilidade do intelecto. [[lexico:n:nao|Não]] é, portanto, um [[lexico:a:abandono|abandono]] do intelecto, mas pode [[lexico:s:ser|ser]], muito pelo contrário, a [[lexico:s:superacao|superação]] do intelecto [[lexico:p:por-si|por si]] próprio. O [[lexico:a:anti-intelectualismo|anti-intelectualismo]] de grande parte da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] [[lexico:a:atual|atual]] é um [[lexico:e:erro|erro]] e um perigo. É um erro porque confunde a fé no intelecto (abandonada acertadamente), com o enquadramento do intelecto numa fé em uma [[lexico:r:realidade|realidade]] nova a ser encontrada. E é um perigo porque propaga e aprofunda o [[lexico:n:niilismo|niilismo]] que pretende combater. A vivência intelectual da esterilidade do intelecto, vivência essa que este livro se propõe a elaborar, torna o anti-intelectualismo uma [[lexico:a:atitude|atitude]] superada. Aquele que experimentou autenticamente em seu intelecto a futilidade do intelecto, nunca mais será anti-intelectual. Pelo contrário, essa vivência intelectual produzirá nele uma atitude positiva para com o intelecto, [[lexico:a:agora|agora]] intelectualmente superado. Está numa [[lexico:s:situacao|situação]] comparável àquela que surge após o desencanto com uma grande [[lexico:s:soma|soma]] de dinheiro. O acumular da soma era acompanhado de uma fé no poder salvador do dinheiro. A [[lexico:p:posse|posse]] do dinheiro dissipou essa fé. Não surgiu ainda uma fé nova para substituir a perdida. Entretanto o dinheiro está disponível para servir a essa nova fé, se e quando encontrada. O anti-intelectualismo é [[lexico:p:prova|prova]] da persistência de restos de fé no intelecto, e é superado com o desaparecimento desses restos. A vivência da esterilidade do intelecto torna experimentáveis, embora não compreensíveis, os fundamentos dos quais o intelecto brotou e continua brotando. Fundamentos extraintelectuais, que o são por [[lexico:d:definicao|definição]], não são alcançáveis intelectualmente. Não podem ser, portanto, autenticamente incluídos na [[lexico:d:disciplina|disciplina]] da filosofia, que é uma disciplina intelectual. A tentativa de filosofar a [[lexico:r:respeito|respeito]] desses fundamentos é mais um erro de muita filosofia da [[lexico:a:atualidade|atualidade]]. Entretanto justamente na sua eliminação do [[lexico:c:campo|campo]] da filosofia reside a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de sua inclusão num campo mais [[lexico:a:apropriado|apropriado]]. [FlusserDuvida:20-22]