===== ANGÚSTIA ===== O medo [[lexico:i:indeterminado|indeterminado]]. — Distingue-se do medo, que é sempre medo "de um [[lexico:o:objeto|objeto]]"; a angústia [[lexico:n:nao|não]] se refere a nenhum objeto [[lexico:p:particular|particular]], donde seu [[lexico:c:carater|caráter]] global e mais profundamente inquietante: é [[lexico:t:todo|todo]] o psiquismo do [[lexico:i:individuo|indivíduo]] que está abalado. A própria angústia da [[lexico:m:morte|morte]] é extremamente vaga e não é acompanhada de qualquer [[lexico:r:representacao|representação]] precisa, mas simplesmente de um [[lexico:s:sentimento|sentimento]] de [[lexico:q:queda|Queda]] e de "dissolução" de todas as nossas representações ([[lexico:h:hegel|Hegel]]). A [[lexico:p:palavra|palavra]] angústia adquiriu na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] [[lexico:e:existencialista|existencialista]] o [[lexico:s:sentido|sentido]] de "inquietação [[lexico:m:metafisica|metafísica]]" experimentada através dos tormentos individuais do [[lexico:h:homem|homem]]. Ela lhe revelaria a irracionalidade de sua [[lexico:s:situacao|situação]], o [[lexico:a:absurdo|absurdo]] de sua [[lexico:v:vida|vida]] (V. [[lexico:k:kierkegaard|Kierkegaard]], [[lexico:s:sartre|Sartre]].) (in. Dread; fr. Angoisse; al. Angst; it. Angoscià). No seu [[lexico:s:significado|significado]] filosófico, isto é, como [[lexico:a:atitude|atitude]] do homem em face de sua situação no [[lexico:m:mundo|mundo]], [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:termo|termo]] foi introduzido por Kierkegaard em [[lexico:c:conceito|conceito]] de angústia (1844). A [[lexico:r:raiz|raiz]] da angústia é a [[lexico:e:existencia|existência]] como [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] (v. existência). Ao contrário do temor e de outros estados análogos, que sempre se referem a algo determinado, a angústia não se refere a [[lexico:n:nada|nada]] preciso: é o sentimento [[lexico:p:puro|puro]] da possibilidade. O homem no mundo vive de possibilidade, já que a possibilidade é a [[lexico:d:dimensao|dimensão]] do [[lexico:f:futuro|futuro]] e o homem vive continuamente debruçado sobre o futuro. Mas as possibilidades que se apresentam ao homem não têm nenhuma [[lexico:g:garantia|garantia]] de realização. Só por piedosa [[lexico:i:ilusao|ilusão]] elas se lhe apresentam como possibilidades agradáveis, felizes ou vitoriosas: na [[lexico:r:realidade|realidade]], como possibilidades humanas, não oferecem garantia alguma e ocultam sempre a [[lexico:a:alternativa|alternativa]] [[lexico:i:imanente|imanente]] do insucesso, do fracasso e da morte. "No [[lexico:p:possivel|possível]] tudo é possível", diz Kierkegaard, o que quer dizer que uma possibilidade favorável não tem maior segurança do que a possibilidade mais desastrosa e horrível. Logo, o homem que se dá conta disso, reconhece a inutilidade da habilidade e diante de si só tem dois caminhos: o [[lexico:s:suicidio|suicídio]] ou a [[lexico:f:fe|fé]], isto é, o recurso a "Aquele a [[lexico:q:quem|quem]] tudo é possível". A angústia é, segundo Kierkegaard, [[lexico:p:parte|parte]] [[lexico:e:essencial|essencial]] da espiritualidade própria do homem, de [[lexico:s:sorte|sorte]] que, se o homem fosse [[lexico:a:anjo|anjo]] ou [[lexico:a:animal|animal]], não conheceria a angústia: e, como [[lexico:e:efeito|efeito]], logra mascará-la ou escondê-la o homem cuja espiritualidade é demasiado débil. Enquanto [[lexico:r:reflexao|reflexão]] sobre a própria [[lexico:c:condicao-humana|condição humana]], a espiritualidade do homem está ligada à angústia, isto é, ao sentimento da ameaça imanente em toda possibilidade humana como tal. — Na filosofia contemporânea, [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] centrou na angústia a sua [[lexico:a:analise|análise]] [[lexico:e:existencial|existencial]] (v. [[lexico:e:emocao|emoção]]). A angústia é a situação afetiva fundamental, "que pode manter aberta a contínua e radical ameaça que vem do [[lexico:s:ser|ser]] mais [[lexico:p:proprio|próprio]] e isolado do homem": isto é, a ameaça da morte. Na angústia, o homem "sente-se em [[lexico:p:presenca|presença]] do nada, da [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] possível da sua existência". Nesse sentido, a angústia constitui essencialmente o que Heidegger chama de "o ser para a morte", isto é, a aceitação da morte como "a possibilidade absolutamente própria, incondicional e insuperável do homem" (Sein und Zeit, § 53). Mas nem por isso a angústia é o medo da morte ou dos perigos que podem provocá-la. Diz Heidegger: "O medo tem assento no [[lexico:e:ente|ente]] de que se cuida dentro do mundo. A angústia, porém, brota do próprio [[lexico:s:ser-ai|Ser-aí]]. O medo chega repentino do intra-mundano. A angústia ergue-se do [[lexico:s:ser-no-mundo|ser-no-mundo]] enquanto lançado ser-para-a-morte" (ibid., § 68 b). A angústia não é nem mesmo o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] da morte ou a espera e a preparação da morte. [[lexico:v:viver|viver]] para a morte, angustiar-se, significa [[lexico:c:compreender|compreender]] a impossibilidade da existência enquanto tal. E compreender tal impossibilidade significa compreender que todas as possibilidades da existência, consistentes em antecipações ou projetos que pretendem transcender a realidade de [[lexico:f:fato|fato]], só fazem reincidir na realidade de fato. Por isso, o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] significado da angústia é o [[lexico:d:destino|destino]], isto é, a [[lexico:e:escolha|escolha]] da situação de fato como herança de que não se pode fugir e o [[lexico:r:reconhecimento|reconhecimento]] da impossibilidade ou nulidade de qualquer outra escolha que não a aceitação da situação em que já se está. Em outros termos, a angústia como [[lexico:c:compreensao|compreensão]] existencial possibilita ao homem transformar a [[lexico:n:necessidade|necessidade]] em [[lexico:v:virtude|virtude]]: aceitar como um [[lexico:a:ato|ato]] de escolha a situação de fato, que é o seu destino e que, sem a angústia, procuraria inutilmente transcender. A coincidência de necessidade de [[lexico:l:liberdade|liberdade]] parece, assim, ser o significado da angústia heideggeriana (ibid, § 74). Nesse sentido, Heidegger diz que a angústia "liberta o homem das possibilidades nulas e torna-o livre para as autênticas" (Ibid., § 68 b). Todavia, não foi só a filosofia existencialista que considerou a angústia como [[lexico:r:revelacao|revelação]] [[lexico:e:emocional|emocional]] da situação humana no mundo. Uma rica [[lexico:l:literatura|literatura]] psicológica esclareceu o caráter onipresente da angústia, que é diferente do medo, do temor e de outros estados emocionais de caráter episódico que se referem a situações particulares. A angústia parece, ao contrário, um ingrediente constante da. situação humana do mundo, seja qual for a [[lexico:e:explicacao|explicação]] dada à sua [[lexico:o:origem|origem]]. [[lexico:f:freud|Freud]] inicialmente fê-la remontar ao ato do nascimento, isto é, ao ato "em que se acham reunidas todas as sensações penosas, todas as tendências e as sensações corpóreas, cujo conjunto se tornou o [[lexico:p:prototipo|protótipo]] do efeito produzido por um perigo grave" (Einführung in die Psychoanalyse, 1917, III, 25; trad. fr., p. 424). Em seguida, mais genericamente, considerou a angústia como a "[[lexico:r:reacao|reação]] do [[lexico:e:ego|ego]] ao perigo", ou melhor, "à própria [[lexico:e:essencia|essência]] do perigo"; essa situação é também definida por Freud como "uma situação de impotência". Diz Freud: "Estou na [[lexico:e:expectativa|expectativa]] de que se verifique uma situação de impotência; ou então a situação presente me lembra um [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] traumático já [[lexico:v:vivido|vivido]]. Assim, antecipo esse trauma, comporto-me [[lexico:c:como-se|como se]] já estivesse aqui, enquanto houver [[lexico:t:tempo|tempo]] para afastá-lo. Portanto, a angústia é, de um lado, expectativa do trauma e, de [[lexico:o:outro|outro]], uma [[lexico:r:repeticao|repetição]] atenuada deste" (Hemmung, Symptom und Angst, 1926, cap. XI, B; trad. it., p. 106). Por outro lado, o [[lexico:e:estudo|estudo]] das pessoas nas quais a angústia se manifesta nas formas mais acentuadas (p. ex., nas que sofreram lesões cerebrais) levou alguns [[lexico:c:cientistas|cientistas]] (p. ex., Goldstein, Der Aufbau des Organismus, 1934) a definir a angústia como "a impossibilidade de pôr-se em [[lexico:r:relacao|relação]] com o mundo" e de "realizar uma [[lexico:t:tarefa|tarefa]] correspondente à essência do [[lexico:o:organismo|organismo]]", considerando-a assim como o caso-limite das "reações de [[lexico:c:catastrofe|catástrofe]]" que acompanham o conflito do organismo com o mundo.