===== ANALOGIA DO SER ===== [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] adverte e sublinha esta especialíssima dificuldade do [[lexico:p:problema-do-ser|problema do ser]], e nos diz: o [[lexico:s:ser|ser]] é um [[lexico:t:termo|termo]] [[lexico:a:analogo|análogo]], quer dizer, nem [[lexico:u:univoco|unívoco]] nem [[lexico:e:equivoco|equívoco]]. "Unívocos" chamam os lógicos aos termos que designam sempre uma e a mesma [[lexico:c:coisa|coisa]]. São termos que, por assim dizer, [[lexico:n:nao|não]] têm [[lexico:p:perda|perda]]; significam sempre o mesmo e não há [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de enganar-se, conhecendo-se o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:s:significado|significado]] que possuem. A [[lexico:p:palavra|palavra]] "[[lexico:h:homem|homem]]", por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], é termo unívoco, que designa sempre o mesmo ser, o mesmo [[lexico:o:objeto|objeto]]. "Equívocos" chamam em troca, os lógicos aos termos ou [[lexico:c:conceitos|conceitos]] que têm duas ou mais [[lexico:s:significacoes|significações]] completamente diversas, quer dizer, que se referem a dois ou mais objetos totalmente distintos entre si e heterogêneos. A palavra "macaco", por exemplo, significa umas vezes o conhecido [[lexico:a:animal|animal]] e outras vezes o aparelho [[lexico:m:mecanico|mecânico]] que serve para levantar peças grandes e pesadas (o "macaco do carro"). Entre "macaco" no primeiro significado e "macaco" no segundo não existe a menor [[lexico:s:semelhanca|semelhança]], a menor [[lexico:r:relacao|relação]], e embora a palavra que designa essas duas [[lexico:c:coisas|coisas]] heterogêneas seja a mesma fonética e ortograficamente falando, há na [[lexico:r:realidade|realidade]] como que duas [[lexico:p:palavras|palavras]] e dois conceitos distintos. "Análogos" chamam, por [[lexico:u:ultimo|último]], os lógicos aos termos ou conceitos que designam — como os equívocos — objetos distintos, mas não inteiramente diferentes, antes em [[lexico:p:parte|parte]] semelhantes e em parte diferentes, ou seja termos cuja [[lexico:s:significacao|significação]] não varia senão em parte ao designar ora uns, ora outros objetos. A palavra "sano", em espanhol, não significa exatamente o mesmo dita do animal e dita do alimento, mas seu significado também não é inteiramente diferente; a "sanidad", em espanhol, de tal ou qual alimento não é objeto [[lexico:i:identico|idêntico]] à "sanidad" de tal ou qual animal, mas também não é objeto totalmente diverso. [[lexico:a:agora|agora]], sabendo já o que são termos unívocos, equívocos e análogos, perguntemo-nos com toda clareza: o ser é um termo unívoco, equívoco ou análogo? E a solução que radical e profundamente se der a este [[lexico:p:problema|problema]] representará uma [[lexico:a:atitude|atitude]] ou [[lexico:p:posicao|posição]] tão fundamental, tão central na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]], que necessariamente terá que imprimir cará [[lexico:t:ter|ter]] em [[lexico:t:todo|todo]] o resto do [[lexico:s:sistema-filosofico|sistema filosófico]], até nas suas menores e mais longínquas ramificações. A atitude ante este problema do ser definirá, pois, todo o [[lexico:p:pensamento|pensamento]], toda a [[lexico:p:personalidade|personalidade]], todo o [[lexico:e:estilo|estilo]] de um [[lexico:f:filosofo|filósofo]]. Com [[lexico:e:efeito|efeito]]: suponhamos que se adote a solução da [[lexico:u:univocidade|univocidade]] do ser. Que quererá dizer então isso de que o ser é unívoco? Quererá dizer — relembremos nossa [[lexico:d:definicao|definição]] do termo "unívoco" — que o ser é [[lexico:c:conceito|conceito]] que designa sempre um e o mesmo objeto; quererá dizer que não existe mais que um ser e que todos os distintos seres são distintos somente em [[lexico:a:aparencia|aparência]], mas na realidade idênticos; quererá dizer que todas as diversidades da realidade são redutíveis a um só e único ser. A [[lexico:c:consequencia|consequência]] imediata de tudo isto será o que costuma chamar-se [[lexico:m:monismo|monismo]] (do [[lexico:g:grego|grego]] monos = um, único), que poderá ser monismo materialista, ou monismo idealista, ou [[lexico:p:panteismo|panteísmo]]; em [[lexico:s:suma|suma]] a [[lexico:t:teoria|teoria]] filosófica segundo a qual os seres múltiplos e aparentemente distintos são no fundo e na [[lexico:v:verdade|verdade]] aspectos de um e mesmo ser idêntico. Mas suponhamos, pelo contrário, que se tome o conceito do ser como equívoco. Que quererá dizer então isto de que o ser é equívoco? Quererá dizer, segundo nossa definição, que o ser é conceito que designa objetos totalmente diversos uns dos outros; quererá dizer que o ser em cada caso tem uma significação completamente diferente daquela que tem noutro caso. Mas esta posição inicial aonde levará? Levará evidentemente a reconhecer na realidade a [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] variada de todos os seres; levará a distinguir positivamente todos os seres que há ou que existem, que são reais ou que são a realidade. Mas também levará diretamente ao cepticismo. Porque não havendo [[lexico:n:nada|nada]] de comum entre os diversos seres da realidade, fica abolida a [[lexico:p:possibilidade-do-conhecimento|possibilidade do conhecimento]], o qual sempre e necessariamente tem que recair — direta ou indiretamente — sobre o comum, o genérico, o idêntico de muitos seres. Com efeito, a [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]] nos mostra notórios exemplares de sistemas nos quais essas duas posições com suas principais consequências estão perfeitamente realizadas. Temos a atitude dos monistas, idealistas ou materialistas, que sustentam a univocidade do ser. São os românticos da filosofia, os que somente têm olhos para o comum e idêntico dos seres e não percebem, não reconhecem o diferencial e diverso. Na [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], por exemplo, [[lexico:p:parmenides|Parmênides]], [[lexico:d:democrito|Demócrito]], na Idade [[lexico:m:moderna|moderna]], os idealistas ou panteístas, [[lexico:d:descartes|Descartes]], Espinosa, [[lexico:k:kant|Kant]], [[lexico:h:hegel|Hegel]]. Diante dessa estirpe de pensadores românticos encontramos o grupinho reduzido daqueles que se aferram à [[lexico:e:equivocidade|equivocidade]] do ser; para estes a palavra ou conceito de "ser", sendo equívoca, refere-se, cada vez que se pronuncia, a algo totalmente distinto, e muda inteiramente de [[lexico:s:sentido|sentido]] cada vez que se emprega. Para estes principalmente não pode haver [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] da [[lexico:c:ciencia|ciência]] alguma. São estes na Antiguidade [[lexico:h:heraclito|Heráclito]], os cépticos (v. [[lexico:c:ceticismo|ceticismo]]); na Idade Moderna [[lexico:h:hume|Hume]], e em certo sentido o filósofo francês, tão respeitável por outras razões, [[lexico:b:bergson|Bergson]]. Já a filosofia antiga anterior a [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] percebera com plena clareza as dificuldades inexplicáveis em que se enreda o pensamento se adota a atitude monista e romântica ou a atitude céptica de um [[lexico:p:pluralismo|pluralismo]] [[lexico:i:irracional|irracional]]. O [[lexico:e:esforco|esforço]] para achar uma nova atitude foi na realidade o que gerou na [[lexico:g:grecia|Grécia]] o [[lexico:p:pensamento-filosofico|pensamento filosófico]] [[lexico:c:classico|clássico]]. Nem Parmênides, nem Heráclito, nem panteísmo, nem cepticismo. [[lexico:s:socrates|Sócrates]] inaugura um novo [[lexico:m:modo|modo]] de [[lexico:p:pensar|pensar]], que [[lexico:p:platao|Platão]] aperfeiçoa e que Aristóteles leva à sua mais alta [[lexico:f:forma|forma]]. O ser não é nem unívoco nem equívoco, é análogo. Que quer dizer, pois, [[lexico:a:analogia-do-ser|analogia do ser]]? Quer dizer que o ser tem distintas significações; porém que são distintas não inteiramente, mas só em parte. O ser, diz Aristóteles, se diz de muitas maneiras; existem diversas modalidades de ser, embora sob todas elas permaneça a [[lexico:u:unidade|unidade]] do ser enquanto tal. Esta unidade do ser, isso que há de comum entre todos os seres, não os torna um só ser até o [[lexico:p:ponto|ponto]] de tornar unívoco o [[lexico:c:conceito-de-ser|conceito de ser]]; mas também não torna cada um deles um objeto totalmente distinto dos demais até o ponto de estabelecer entre eles uma [[lexico:d:diferenca|diferença]] total que conduziria à [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] do conhecimento. Aristóteles fixou na Grécia as bases fundamentais de uma [[lexico:t:teoria-da-analogia|teoria da analogia]] do ser. Foi, porém, Tomás de Aquino [[lexico:q:quem|quem]] levou essa teoria à sua forma mais profunda e perfeita. Em Tomás de Aquino a [[lexico:n:nocao|noção]] de [[lexico:a:analogia|analogia]] do ser está elaborada com tanta profundidade e exatidão que ao cardeal Caietano, [[lexico:i:interprete|intérprete]] e comentador do Doutor Angélico, não resta outra [[lexico:t:tarefa|tarefa]] que a de reduzir a [[lexico:t:terminologia|terminologia]] ordenada, [[lexico:s:simples|simples]] e breve, a teoria que desde então circula por todos os manuais de filosofia. E nessa posição tão nítida e precisa se documenta de modo [[lexico:e:exemplar|exemplar]] o [[lexico:c:classicismo|classicismo]] de Tomás de Aquino. O primeiro dos [[lexico:c:caracteres|caracteres]] que enumerávamos de um escritor clássico, encontramo-lo em Tomás de Aquino levado a seu mais alto [[lexico:g:grau|grau]]. A realidade, para ele, não é nem uma única [[lexico:e:estrutura|estrutura]] ôntica nem uma infinita [[lexico:d:diversidade|diversidade]] de objetos incognoscíveis, mas um [[lexico:s:sistema|sistema]] de modos de ser, que permitem ao [[lexico:i:intelecto|intelecto]] chegar ao conhecimento do [[lexico:p:proprio|próprio]] individual na base do comum específico e genérico. O olhar de Tomás de Aquino, passando sobre o estritamente individual nas coisas, busca o [[lexico:t:tipico|típico]] e comum a grandes grupos de seres, mas sem perder-se, como o [[lexico:r:romantismo-filosofico|romantismo filosófico]], na infinita distância de uma [[lexico:i:intuicao|intuição]] idealista que põe uma [[lexico:i:identidade|identidade]] absoluta em [[lexico:l:lugar|lugar]] da diversidade ordenada e [[lexico:i:inteligivel|inteligível]]. É evidente, após o que dissemos a [[lexico:r:respeito|respeito]] de suas exigências internas, que a [[lexico:n:nocao-de-ser|noção de ser]] só pode ser uma noção analógica. Não é equívoca, pois não é uma simples palavra à qual não corresponderia nenhuma realidade profunda. Não é unívoca, pois não pode se diferenciar à maneira de um [[lexico:g:genero|gênero]]. Resta, pois, que seja analógica, isto é, que contenha, de maneira ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] diferenciada e unificada, as diversas modalidades do ser. Esta [[lexico:t:tese|tese]] se encontra do modo mais manifesto em Aristóteles, que parece ser o seu inventor. Retomada por Tomás de Aquino, foi sempre defendida na [[lexico:e:escola|escola]] tomista. Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, chocou-se contra a [[lexico:o:oposicao|oposição]] dos discípulos de Scoto. Este, sem chegar a dizer que o ser é um gênero, afirmou que o ser é uma noção unívoca, abstraindo portanto perfeitamente de seus inferiores, e apenas compreendendo-os em [[lexico:p:potencia|potência]]. Responde-se, de modo clássico, que se as modalidades do ser são exteriores à sua noção, não se vê o que elas possam significar, nem como elas podem vir a dividir o ser de outro modo que não o de verdadeiras diferenças específicas, o que nos conduz a fazer do ser um gênero, com todos os inconvenientes que isto comporta. A que [[lexico:t:tipo|tipo]] de analogia se liga a analogia do ser? A resposta a esta [[lexico:q:questao|questão]] não é [[lexico:p:possivel|possível]] sem colocar uma dificuldade; pois consta à [[lexico:r:reflexao|reflexão]] que a analogia do ser apresenta caracteres que convêm a cada um dos tipos de analogia distinguidos precedentemente. É claro, de início, que todos os modos do ser são [[lexico:f:formal|formal]] e intrinsecamente ser: esta folha de papel, sua cor, sua [[lexico:g:grandeza|grandeza]] são, efetivamente ser, e não somente por uma [[lexico:d:denominacao|denominação]] vinda do [[lexico:e:exterior|exterior]]. O ser é portanto, a este título, análogo de uma analogia de proporcionalidade. Mas, sob outros aspectos, parece ser tributário da analogia de [[lexico:a:atribuicao|atribuição]]. É mesmo desta maneira que Aristóteles no-lo apresenta; para ele, com efeito, há um primeiro analogado, a [[lexico:s:substancia|substância]], ao qual se reportam as outras modalidades do ser: "O ser, com efeito, se toma em múltiplas acepções, mas em cada acepção toda denominação se faz em relação a um [[lexico:p:principio|princípio]] único. Tais coisas são ditas seres porque são substância, tais outras porque são afecções da substância, tais outras porque são encaminhamentos para a substância, etc. . . " Se nos colocamos com Tomás de Aquino do ponto de vista [[lexico:s:superior|superior]] das [[lexico:r:relacoes|relações]] do ser criado com o [[lexico:s:ser-incriado|ser incriado]], aqui ainda encontramos a analogia de atribuição, o ser sendo [[lexico:d:dito|dito]] "per prius" de [[lexico:d:deus|Deus]] que é o ser [[lexico:p:por-si|por si]], e "per posterius" somente das criaturas, que são ser somente por [[lexico:p:participacao|participação]] e em dependência mesma do ser de Deus. Encontramo-nos aqui, como também para as outras noções [[lexico:t:transcendentais|transcendentais]], [[lexico:u:uno|uno]], [[lexico:v:vero|vero]], [[lexico:b:bem|Bem]], diante de um caso de analogia mista, onde parecem se conjugar a proporcionalidade e a atribuição. Se se admite, como é o nosso caso, que a analogia de proporcionalidade possui [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] de primeiro e de fundamental, pelo menos em relação a nós, dir-se-á, com João de Tomás de Aquino, que o ser é análogo de uma analogia de proporcionalidade incluindo virtualmente uma analogia de atribuição. O ser, segundo esta tese, apresentar-se-ia, de início, como uma noção menos determinada, na qual as modalidades do ser que experimentamos viriam se unificar de maneira proporcional; por [[lexico:e:explicacao|explicação]], a [[lexico:o:ordem|ordem]] profunda destas modalidades apareceria em seguida: em relação , substância, no [[lexico:p:plano|plano]] da [[lexico:c:causalidade|causalidade]] material; em relação ao ser por si, a Deus, no plano da causalidade [[lexico:t:transcendente|transcendente]] eficiente, final ou exemplar. A noção de ser, se já possui uma certa [[lexico:c:consistencia|consistência]] sem que haja [[lexico:r:referencia|referência]] explícita ao princípio do ser, a Deus, tem contudo todo o seu [[lexico:v:valor|valor]] apenas no [[lexico:m:momento|momento]] em que seus diversos modos vêm se ordenar em dependência deste. Desta concepção do ser resultam, para a [[lexico:m:metafisica|metafísica]], consequências extremamente importantes. Para melhor nos darmos conta, reagrupemos os resultados já obtidos. 1. A noção de ser é obtida ao termo de um esfôrço original de [[lexico:a:abstracao|abstração]] ou de [[lexico:s:separacao|separação]] da [[lexico:m:materia|matéria]] que se situa no nível do [[lexico:j:juizo|juízo]]. Esta abstração tem por efeito afastar o [[lexico:s:ser-enquanto-ser|ser enquanto ser]] não do [[lexico:r:real|real]] ou do existente -que, pelo contrário, torna-se o objeto mesmo do metafísico - mas das condições materiais da [[lexico:e:existencia|existência]], o que não é a mesma coisa. 2. Assim se encontra constituída uma noção, um conceito que, submetido a [[lexico:a:analise|análise]], revela ter um certo conteúdo onde se discernem os dois aspectos de uma [[lexico:e:essencia|essência]] que determina uma existência proporcionada; o ser é [[lexico:o:o-que-e|o que é]]. 3. este conceito possui a estrutura de uma noção analógica, isto é, abstrai imperfeitamente dos seus inferiores, os quais aí permanecem presentes de modo [[lexico:i:implicito|implícito]] ou confuso, e originariamente apenas possui um modo de unidade proporcional e, portanto, imperfeito. 4. Fundamentalmente, a analogia do ser é uma analogia de proporcionalidade, sendo todos os modos do ser, até suas últimas diferenças, ser; mas a multiplicidade destes modos é ordenada, isto é, relativa ao primeiro ser. Vista sob este [[lexico:a:aspecto|aspecto]], que a perfaz, a analogia do ser é uma analogia de atribuição. 5. Pelo [[lexico:f:fato|fato]] de ultrapassar todos os gêneros e de se encontrar implicada em todas as diferenciações dos seus modos, a noção de ser merece o qualificativo de [[lexico:t:transcendental|transcendental]] (no sentido escolástico da palavra). Quais são pois os caracteres da ciência que terá esta noção por objeto? A metafísica se apresenta de início com um [[lexico:c:carater|caráter]] ou uma [[lexico:o:orientacao|orientação]] realista bastante acentuada. Certamente, como em toda ciência, já o observamos, há um esfôrço de abstração; mas este esfôrço, ou melhor, este duplo esfôrço, não nos distanciou do existente como tal, nem mesmo dos seus modos: a noção de ser pretende significar o [[lexico:c:concreto|concreto]] e [[lexico:e:envolver|envolver]] atualmente, às custas de sua confusão, tudo o que existe efetivamente. A marcha para adiante, o [[lexico:p:progresso|progresso]] da metafísica não resultará tanto de uma análise abstrata de conceitos destacados da realidade, mas sim de uma inspeção direta desta própria realidade. A sistematização harmoniosa sob a qual se apresenta algumas vezes o conjunto das noções metafísicas não deverá nos fazer esquecer este contato primeiro e [[lexico:c:continuo|contínuo]] com a complexidade do [[lexico:d:dado|dado]] e de seus problemas. Se compararmos, deste ponto de vista, a metafísica de Tomás de Aquino e os grandes sistemas da [[lexico:h:historia|história]], não poderemos evitar ser surpreendidos por sua [[lexico:o:originalidade|originalidade]]. Tanto na antiguidade, com Platão, como em numerosos escolásticos a partir de Scoto e de Suarez, ou como nos modernos, de Descartes a Hegel, o ser é concebido geralmente como uma certa [[lexico:n:natureza|natureza]], como uma essência, praticamente isolada da existência, tratada como um dado [[lexico:a:abstrato|abstrato]]; a [[lexico:o:ontologia|ontologia]] tende então [[lexico:a:a-se|a se]] tornar uma pura construção conceitual afastada da realidade. Constitui-se o que se pode chamar de ontologias essencialistas. Ao passo que, com Tomás de Aquino, ainda que conservando do ser este aspecto de [[lexico:d:determinacao|determinação]] que corresponde à sua essência, nos referimos sempre à sua [[lexico:a:atualidade|atualidade]] última que é a sua existência concreta. Devido à sua unidade imperfeita e à [[lexico:r:riqueza|riqueza]] do seu conteúdo implícito, a noção de ser possui, em relação às noções científicas ordinárias, ao mesmo tempo, uma superioridade e uma inferioridade. Uma inferioridade, de início, que advém do fato de que o conceito [[lexico:a:analogico|analógico]] é um conceito confuso e inadequado, que portanto nos faz atingir cada realidade de um modo imperfeito, ao passo que, de per si, o conhecimento por gênero e por diferença específica é um conhecimento preciso e distinto; esta inadequação do conceito de ser, atingindo seu máximo, no conhecimento do ser transcendente de Deus, cujo modo próprio de [[lexico:e:existir|existir]] escapa ao nosso poder. Mas, por outro lado, em profundidade e em [[lexico:e:extensao|extensão]], a noção metafísica de ser, como as que lhe são semelhantes, dá ao [[lexico:e:espirito|espírito]] um [[lexico:i:instrumento|instrumento]] de uma outra envergadura que as [[lexico:i:ideias|ideias]] científicas ordinárias. Mesmo imperfeitamente, estas noções conseguem se elevar até o princípio primeiro de tudo, até Deus. A analogia, forma própria do pensamento metafísico, nos coloca de [[lexico:p:posse|posse]] de um [[lexico:m:metodo|método]] intelectual que permite constituir uma ciência teológica autêntica. Caberá ao teólogo precisar em que condições deverá utilizar este método; foi suficiente aqui ter assinalado, ao mesmo tempo, seus limites e sua verdadeira grandeza. Se voltarmos, do ponto de vista do método, à comparação precedente entre a metafísica de Tomás de Aquino e as grandes filosofias essencialistas da história, seremos igualmente conduzidos a assinalar diferenças de grande importância. Por uma inclinação [[lexico:n:natural|natural]], toda metafísica da essência tende a tomar a forma de um sistema rígido desenvolvendo-se por um [[lexico:m:metodo-dedutivo|método dedutivo]]. Certamente, todos os filósofos nomeados acima não realizaram efetivamente este [[lexico:s:sonho|sonho]]: Mas a [[lexico:d:dialetica|Dialética]] de Platão ou a [[lexico:m:matematica|Matemática]] [[lexico:u:universal|universal]] de Descartes não se encaminhavam neste sentido? E sobretudo com a [[lexico:e:etica|Ética]] de Espinosa e a [[lexico:e:enciclopedia|Enciclopédia]] de Hegel não passamos do sonho à realidade? Tudo deduzir racionalmente de um primeiro princípio! Tomás de Aquino jamais sonhou com tal coisa. Sua [[lexico:v:visao|visão]] do [[lexico:u:universo|universo]], sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], é ordenada e fortemente hierarquizada e a [[lexico:r:razao|razão]] preside à sua construção: mas com toda a flexibilidade da proporção analógica, com esta abertura sobre a diversidade do real que lhe permite tudo acolher e tudo colocar em seu lugar sem violentar a natureza de cada ser. Sapientis est ordinare. A verdadeira [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] metafísica é uma tarefa de ordem.