===== ANÁLISE EXISTENCIAL DA COMUNICAÇÃO ===== Na complexidade de nossos relacionamentos com o [[lexico:o:outro|outro]], a [[lexico:c:comunicacao|comunicação]] se apresenta como uma das estruturas constituintes fundamentais. Aqui [[lexico:n:nao|não]] procuraremos definir o que seja a "comunicação", mas sim tentaremos mostrá-la através dos problemas que habitualmente ligamos ao [[lexico:t:termo|termo]]. Desta [[lexico:f:forma|forma]] pretende-se revelar algumas das constituições fundamentais de nossa [[lexico:e:existencia|existência]]. O [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida é a [[lexico:a:analise|análise]] heideggeriana. [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] mostra como o [[lexico:s:ser-no-mundo|ser-no-mundo]] é essencialmente um ser-com (v. [[lexico:s:solipsismo|solipsismo]]). Desde que nós existimos, existimos dentro de um [[lexico:m:mundo|mundo]]. Isto significa: existencialmente, não tem [[lexico:s:sentido|sentido]] falar-se do "[[lexico:h:homem|homem]]" "isolado", ou tentarmos a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] do "mundo" como algo [[lexico:i:independente|independente]] de nós (embora em certas disciplinas tanto um isolamento quanto o outro possam [[lexico:s:ser|ser]] feitos). Existencialmente, o "[[lexico:e:eu|eu]]" e o "mundo" são entidades que participam, irredutivelmente conjugadas, de um mesmo [[lexico:t:todo|todo]] fundamental; mais especificamente, somos o ser que se descobre, [[lexico:f:facticio|factício]], atirado dentro de um mundo, ora indiferente, ora maravilhoso, ora [[lexico:a:absurdo|absurdo]]. A [[lexico:f:facticidade|facticidade]] se origina em nossa [[lexico:f:finitude|finitude]]; estamos, existencialmente, sempre localizados em certo ponto do [[lexico:e:espaco|espaço]], e nos vemos neste local através de toda uma [[lexico:h:historicidade|historicidade]] nossa que "explica" de que forma, no [[lexico:t:tempo|tempo]], atingimos este local de [[lexico:a:agora|agora]]. Somos finitos no espaço e no tempo, e esta finitude se revela como uma polarização, como uma afirmativa do centro da existência em nós, ou seja, no local onde nos situamos agora. Em [[lexico:c:consequencia|consequência]] desta polarização [[lexico:e:existencial|existencial]], o espaço e o tempo vão ser quotidianamente compreendidos em [[lexico:r:relacao|relação]] à nossa [[lexico:s:situacao|situação]] existencial. A casa da tia "está a vinte metros daqui"; a formatura a que aspiro "será em cinco anos". No entanto, existe uma maneira — se [[lexico:b:bem|Bem]] que insegura e falha — de transcendermos esta [[lexico:l:localizacao|localização]] radical. É através da [[lexico:l:linguagem|linguagem]]. A linguagem traz a mim a [[lexico:p:presenca|presença]] de todas as regiões do espaço, e de todas as épocas do passado e do [[lexico:f:futuro|futuro]]. E simultaneamente à linguagem compreenderemos o [[lexico:p:problema|problema]] da comunicação. A linguagem como "[[lexico:r:revelacao|revelação]]". Para Heidegger, a linguagem é uma das manifestações da compreensão (Verstehen), ou seja, da nossa [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de encontrar no mundo o "sentido". O sentido se revela no [[lexico:f:fato|fato]] de podermos "conhecer" a [[lexico:u:utilidade|utilidade]] do martelo ou da caneta, de podermos "[[lexico:c:compreender|compreender]]" as [[lexico:c:coisas|coisas]] à nossa volta, sabendo-lhes o [[lexico:u:uso|uso]] "[[lexico:a:apropriado|apropriado]]". Este [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] "prévio", existencialmente [[lexico:a:a-priori|a priori]] do "sentido" utilitário das coisas que participam em nosso mundo, fará com que Heidegger nos caracterize como a [[lexico:t:totalidade|totalidade]] dos possíveis a nós abertos. Especificamente, como [[lexico:m:modo|modo]] de [[lexico:a:apresentacao|apresentação]] desta abertura, existe a [[lexico:p:proposicao|proposição]]. Heidegger retoma de [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] o [[lexico:c:conceito|conceito]] do lagos (da linguagem, da [[lexico:r:razao|razão]] que se pode verbalizar) como [[lexico:a:apophansis|apophansis]], como elucidação ou mostração. "Reafirmamos o sentido originário de [[lexico:l:logos|Logos]] como apophansis: deixar [[lexico:v:ver|ver]] o [[lexico:e:ente|ente]] como ele é em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]. Na proposição ‘o martelo é muito pesado’, não se mostrou à vista nenhum "sentido", mas sim um ente como ele é em sua disponibilidade . E também mesmo se este ente não está no [[lexico:m:momento|momento]] à mão ou à vista, o que se mostra na proposição é o [[lexico:p:proprio|próprio]] ente, e não uma [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:i:imagem|imagem]], um "[[lexico:p:puro|puro]] imaginado" ou um [[lexico:f:fundamento|fundamento]] [[lexico:p:psiquico|psíquico]] da proposição". Heidegger evita o corte entre um "[[lexico:s:sujeito|sujeito]]" e um "[[lexico:o:objeto|objeto]]" recusando-se a compreender o sentido de uma proposição como uma "imagem mental". Muito pelo contrário: a proposição nem sequer se refere ao mundo;" ela o elucida, retira-lhe do [[lexico:e:esquecimento|esquecimento]] ou do desconhecido uma sua possibilidade. Postular-se o sentido da proposição através das imagens mentais implicará, eventualmente, na conclusão (existencialmente) falsa de que toda comunicação é [[lexico:i:impossivel|impossível]], por serem "privadas" e "pessoais" as imagens psíquicas de nossa [[lexico:f:fantasia|fantasia]]. Heidegger encontra a linguagem como algo fundamentalmente ligado à "[[lexico:e:exterioridade|exterioridade]]", ao mundo; como algo inter-pessoal, e revelador do [[lexico:l:lugar|lugar]] e do tempo onde temos nossa existência. Como a [[lexico:v:visao|visão]] da linguagem sendo uma possibilidade "comum" e "[[lexico:e:exterior|exterior]]" é essencialmente importante para o prosseguimento da presente análise, faremos um excurso que mostra de que modo, existencialmente, uma [[lexico:t:teoria|teoria]] das ciências matemáticas poderia ser desenvolvida. Costuma-se compreender a [[lexico:m:matematica|matemática]] vagamente a "[[lexico:c:ciencia|ciência]] do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] puro", ou, de maneira mais precisa, a "ciência do funcionamento sem inibições dos circuitos cerebrais". A matemática seria então uma [[lexico:e:especie|espécie]] de teoria sem objeto definido cuja única [[lexico:r:restricao|restrição]] estaria nas restrições biológico-estruturais dos neurônios do cérebro. [[lexico:a:alem|Além]] da circularidade implícita a esta compreensão da matemática (a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] dos neurônios é formalizada pela [[lexico:a:algebra|álgebra]] de Boole ou por teorias dos circuitos lineares — ou seja, por teorias matemáticas), ela se torna incompreensível em seu papel nas outras ciências naturais, — pois como poderia uma ciência cujo objeto é "[[lexico:i:ideal|ideal]]" se "aplicar" ao "mundo [[lexico:c:concreto|concreto]]"? Tenta-se [[lexico:s:superar|superar]] tal dificuldades explicando-se a [[lexico:f:fisica|física]], por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], como "ciência dos modelos abstraídos da [[lexico:r:realidade|realidade]]". O [[lexico:r:referente|referente]] da física seria, consequentemente) um "ideal" ou uma [[lexico:r:reducao|redução]] psicológica da "realidade" inacessível. E surge o problema do "corte" entre o sujeito e o objeto. No entanto, se a matemática — enquanto linguagem [[lexico:a:apofantica|apofântica]] — puder ser reintegrada ao mundo, as dificuldades desaparecerão. A [[lexico:e:escola|escola]] intuicionista da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] matemática tenta compreender esta ciência como a ciência de certos objetos perceptuais, ou seja, de certos objetos que existem no mundo; mais claramente, a matemática pode ser vista como a física da [[lexico:i:intuicao|intuição]] imediata. A física, por sua vez é a matemática dos níveis da realidade de que são "abertos" instrumentalmente. Na [[lexico:m:mecanica|mecânica]] introduzimos a [[lexico:n:nocao|noção]] de "[[lexico:m:massa|massa]]", que é uma ‘[[lexico:e:experiencia|experiência]]’ revelada pela balança; no eletro-magnetismo, as noções de carga elétrica, [[lexico:c:campo|campo]] magnético, e análogas — todas reveladas por uma instrumentalização de certa [[lexico:r:regiao|região]] das coisas. A matemática, enquanto linguagem, esclarece a abertura destas diversas regiões do mundo. Sirva este exemplo para que sintamos a [[lexico:f:forca|força]] de uma compreensão existencial nas mais diversas regiões da linguagem. A linguagem como "comunicação". Heidegger caracteriza a linguagem como o que mostra as coisas "como elas são". No entanto, ao considerar a linguagem quotidiana, Heidegger nela aponta um dos "modos de decaimento" do [[lexico:d:dasein|Dasein]]. Em vez de "abrir" a realidade, a linguagem quotidiana oculta-a, esconde-a numa [[lexico:a:ambiguidade|ambiguidade]] em que dúvidas sobre o sentido do que está sendo [[lexico:d:dito|dito]] são "postas entre [[lexico:p:parenteses|parênteses]]", desde que a linguagem quotidiana é "compreendida por todo mundo". Ao "todo mundo" (que Heidegger chama o "[[lexico:i:impessoal|impessoal]]", das [[lexico:m:man|Man]]) referir-se-ão todos os sentidos de todas as coisas e gestos que utilizamos ou realizamos quotidianamente: um [[lexico:g:grupo|grupo]] de "intelectuais" conversa usando uma sofisticada linguagem sobre "[[lexico:f:fenomeno|fenômeno]]", "estrutura", "[[lexico:e:essencia|essência]]", "[[lexico:m:modo-de-producao|modo de produção]]", e "esclarece" inúmeros problemas da realidade e do mundo usando esta sofisticada linguagem. Mas o sentido de termos como os por eles [[lexico:e:empregados|empregados]] nunca é esclarecido, ambiguamente permanecem como o "vocabulário comum" e "já sabido por todos". [[lexico:c:cientistas|cientistas]] manipulam álgebras e equações no [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] de um [[lexico:f:formalismo|formalismo]] para "[[lexico:e:explicar|explicar]]" alguns fenômenos; no entanto, é raro surgir alguém que, como [[lexico:e:einstein|Einstein]], procura [[lexico:p:pensar|pensar]] a [[lexico:r:respeito|respeito]] de [[lexico:i:ideias|ideias]] "conhecidas por todo mundo" tais quais as noções de tempo e espaço. A esta ocultação quotidiana que a linguagem realiza, Heidegger chama tagarelice (das Gerede). A maior [[lexico:p:parte|parte]] da comunicação quotidiana se faz com o uso da linguagem "tagarela". Neste sen-uao, a comunicação é rigorosamente total, no quotidiano. A linguagem como desvelamento do "outro". No entanto, a [[lexico:p:pergunta|pergunta]] sobre a comunicação deseja compreender se é [[lexico:p:possivel|possível]] o emprego da; linguagem como linguagem apofântica, reveladora, aproximadora do "outro". Referindo-se a Wilhelm von [[lexico:h:humboldt|Humboldt]], Heidegger mostra a [[lexico:c:correspondencia|correspondência]] entre os [[lexico:p:pronomes|pronomes]] pessoais e os advérbios de lugar; ao "eu" se liga o "aqui"; ao "tu" o "ali", e ao "ele" o "lá". Esta relação — que em muitas linguagens se acha gramaticalmente determinada — se funda na mesma espacialização da existência que nos fez reconhecer a nós mesmos como uma "[[lexico:p:polaridade|polaridade]]" dentro do mundo. Os advérbios correspondentes aos pronomes mostram a [[lexico:s:separacao|separação]] que há entre nós e os outros; em consequência, ontologicamente existe uma "distância" insuperável entre eu e os outros. Mas esclareçamos a [[lexico:n:natureza|natureza]] desta distância. Quando estou conversando com duas pessoas, e uma delas vai embora, a conversa sofre um corte, uma suspensão. Na mesa do bar, quando fico cara a cara com alguém, depois de um longo "papo" "entre nós três", o reatar da conversa exige um certo [[lexico:e:esforco|esforço]], uma [[lexico:m:mudanca|mudança]] de [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]]. Digo: "mas como é mesmo que eu estava dizendo?", ou faço algum comentário que me permita "reajustar" a ligação momentaneamente perdida. Por que? Porque quando eu sou-para-os-outros, quando sou para uma [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]] de interlocutores, sou-o de maneira diversa do que sou para um [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:i:interlocutor|interlocutor]]. A conversa a dois é mais íntima, mais próxima; mais "[[lexico:p:pessoal|pessoal]]". O interlocutor plural é um ente [[lexico:a:abstrato|abstrato]]; se, no [[lexico:m:meio|meio]] de um grupo, [[lexico:c:comeco|começo]] uma [[lexico:d:discussao|discussão]] [[lexico:p:particular|particular]] com alguém em especial, "me esqueço" dos outros à nossa volta. A conversa pessoal só pode se estabelecer quando há este esquecimento dos "outros". Minha relação com o "você" é radicalmente diversa da minha relação com os "vocês". E o desvelamento do outro só se pode dar na relação eu-tu. A "[[lexico:p:persona|persona]]" ou o "espaço pessoal. Por que? Compreendamos a persona, a máscara que utilizamos em nossas [[lexico:r:relacoes|relações]] "com todo mundo". O que esconde nossa roupa? Ela oculta "nossas vergonhas". O que são as "vergonhas"? São o que "não se mostra em [[lexico:p:publico|público]]". [[lexico:q:quem|quem]] é o público? São os outros — a pluralidade o todo-mundo. O que difere em nossa relação com os outros e com o outro é que a persona funciona como intermediária do que somos para os outros. Vestindo-nos com a persona, somos-para-os-outros, isto é, nossa existência passa a ser regulada pela impessoalidade dos outros que se comunicam conosco — mas que antes de tudo nos observam, aos limitam e quase nos ameaçam (a "desmoralização" é o rompimento da persona, o que, na relação interpessoal, deve ser evitado a todo custo). A persona constitui, em linguagem psicoanalítica, o [[lexico:s:superego|superego]], ou, na [[lexico:t:terminologia|terminologia]] dos analistas existenciais, o "modo de comunicação". Com certo veneno, pode-se mostrar como há uma [[lexico:l:logica|lógica]] e [[lexico:r:racionalidade|racionalidade]] no superego que inexiste na [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] autêntica do eu. Ora, [[lexico:o:o-que-e|o que é]] a relação com o "você"? É a "relação íntima" — onde a qualificação do [[lexico:a:ato|ato]] sexual sobretudo mostra o despojamento de todas as máscaras desejável em tal momento. Ou seja: a relação apofântica ao "tu" se processa sem o intermédio da persona. Melhor dizendo: os limites fenomenológicos da persona se encontram mais além do tu; a exterioridade pública está fora de minha ligação à [[lexico:p:pessoa|pessoa]] amiga e querida. O que significa: embora haja, irredutivelmente, uma distância entre eu e você, esta distância pretende permitir que você se manifeste com a mesma [[lexico:a:autonomia|autonomia]] existencial que tenho eu, de modo a garantir a autenticidade de nossa ligação, evitado que tanto você me absorva quanto que eu te absorva. Patologia da relação eu-você. São duas as formas mais importantes da patologia existencial da comunicação. Ambas, no entanto, se caracterizam por reduzirem o relacionamento ao "tu" a um relacionamento ao "vocês" impessoal. No primeiro exemplo, temos o caso do embusteiro — como, na novela muito recente, o ‘Beto Rockefeller’ — que nunca pode permitir um relacionamento eu-você porque a [[lexico:f:funcao|função]] da persona como mediadora entre o "vocês" e o "você" não se viu realizada. A persona, no caso, se transforma num espaço da [[lexico:c:culpa|culpa]], num espaço de vergonhas escondidas, cuja [[lexico:e:exposicao|exposição]] pública provocaria uma séria ameaça à [[lexico:p:personalidade|personalidade]], ao "eu". A persona deve servir como um selecionador que individualiza os "vocês" indefinidos e escolhe aquele que será o "tu"; ela indica um [[lexico:c:caminho|caminho]] de fora, do que é público, para dentro, para o íntimo. Utilizando-a de modo diverso, caímos num [[lexico:e:estado|Estado]] neurótico . Que é o segundo modo da patologia existencial da comunicação: a "estranheza" das muitas pessoas com que me relaciono diariamente em minha [[lexico:v:vida|vida]] profissional. A [[lexico:m:multidao|multidão]] de estranhos [[lexico:i:indiferentes|indiferentes]] — e praticamente só os reconheço como "semelhantes" quando vejo o horror de um atropelamento na rua — entre si é um fenômeno evidentemente [[lexico:p:patologico|patológico]]. Mas, na [[lexico:v:verdade|verdade]], para considerar esta [[lexico:a:alienacao|alienação]] contemporânea não precisamos da sofisticação de uma análise existencial: basta que reconheçamos como a [[lexico:t:terra|Terra]] é finita, e como os seus recursos são esgotáveis. Há gente demais no mundo. (v. [[lexico:a:ambiente|ambiente]], ciência, [[lexico:m:modelo|modelo]], [[lexico:a:analitica-do-objeto|analítica do objeto]], teoria).