===== AMOR DE SI ===== É a estima de si [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:b:bem|Bem]] como a [[lexico:v:vontade|vontade]] daí resultante e o [[lexico:a:apetite|apetite]] do [[lexico:b:bem-estar|bem-estar]] [[lexico:p:pessoal|pessoal]]. É o [[lexico:i:instinto|instinto]] de auto-conservação peculiar a [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:s:ser|ser]] vivo, enquanto manifestado pelo [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] e pela vontade. O [[lexico:a:amor-de-si|amor de si]] combate tudo quanto, em seu entender, diminui ou aniquila a [[lexico:e:existencia|existência]] própria, e reclama tudo o que a mantém e estimula. O [[lexico:a:amor|amor]] de si, radicado no instinto de auto-conservação, tem como [[lexico:f:fim|fim]] [[lexico:i:imediato|imediato]] o [[lexico:i:individuo|indivíduo]], servindo apenas mediatamente a conservação da [[lexico:e:especie|espécie]]. — O amor ordenado de si é uma [[lexico:o:obrigacao|obrigação]] [[lexico:m:moral|moral]], porque o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] e mais [[lexico:p:profundo|profundo]] [[lexico:f:fundamento|fundamento]] da auto-estimação reside no [[lexico:f:fato|fato]] de o [[lexico:h:homem|homem]] ser [[lexico:i:imagem-de-deus|imagem de Deus]], [[lexico:i:imagem|imagem]] que lhe cabe, mediante sua [[lexico:a:atividade|atividade]], aperfeiçoar no [[lexico:g:grau|grau]] mais elevado [[lexico:p:possivel|possível]]. O amor de si, enquanto vontade do bem próprio, é ordenado quando, em conformidade com a correspondente [[lexico:s:serie|série]] de valores, aspira aos [[lexico:b:bens|bens]] adequados à [[lexico:e:essencia|essência]] do homem e, com essa [[lexico:a:aspiracao|aspiração]], em [[lexico:n:nada|nada]] prejudica os direitos do [[lexico:p:proximo|próximo]]. — O amor de si devidamente ordenado nunca pode [[lexico:e:estar|estar]] em [[lexico:c:contradicao|contradição]] com o verdadeiro bem dos semelhantes; pelo contrário, é-lhe [[lexico:n:necessario|necessário]]. No que tange aos bens morais e intelectuais, de [[lexico:m:modo|modo]] [[lexico:g:geral|geral]] [[lexico:n:nao|não]] é possível a exclusão de um por [[lexico:p:parte|parte]] do [[lexico:o:outro|outro]]. Se, no que respeita aos bens materiais, forem observadas as leis da [[lexico:j:justica|justiça]] em todos os seus aspectos, será possível a cada qual procurar aquilo de que necessita. Se todos cogitarem em se aperfeiçoar de [[lexico:a:acordo|acordo]] com os requisitos de seu ser, ficará assegurada a [[lexico:o:ordem|ordem]] e o bem da [[lexico:c:comunidade|comunidade]]. — O amor de si é desordenado, sempre que antepõe os bens inferiores aos superiores, e quando, reclamando indevidamente tudo para si, lesa os direitos do próximo. Em tal caso, degenera em [[lexico:e:egoismo|egoísmo]]. — Atenta contra o [[lexico:d:dever|dever]] moral do amor de si [[lexico:q:quem|quem]] provoca dano em seu [[lexico:c:corpo|corpo]] ou em sua [[lexico:v:vida|vida]] (p. ex., por [[lexico:m:meio|meio]] de auto-mutilação ou do [[lexico:s:suicidio|suicídio]]) ou nos bens intelectuais e morais, e quem por desídia deixa de se esforçar por obter seu próprio [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] e [[lexico:p:perfeicao|perfeição]]. — (VIDE amor). Kleinhappl (gr. philautia; in. Self-love; fr. Amourdesoi; al. Eigenliebe; it. Amor di se). Esta [[lexico:e:expressao|expressão]] não deve ser confundida nem com "[[lexico:a:amor-proprio|amor próprio]]", que significa vaidade, ou, no melhor dos casos, [[lexico:s:sentido|sentido]] de altivez ou de [[lexico:o:orgulho|orgulho]], nem com egoísmo. [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] distinguiu a filáucia, que é uma [[lexico:v:virtude|virtude]], do egoísmo [[lexico:v:vulgar|vulgar]] de quem ama a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], querendo atribuir-se a maior parte dos lucros, dos prazeres e das honras. "O filaucioso", disse ele, "é sobretudo aquele que se apropria do [[lexico:b:belo|belo]] e do bem, faz deles seus senhores e obedece-lhes em tudo" (Et. Nic, IX, 8,1.168 a, 28). Em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], quem ama á si mesmo no verdadeiro sentido não pretende a parte maior do [[lexico:p:prazer|prazer]], das honras ou do lucro, mas a parte maior do bem e do belo, isto é, o exercício da virtude. Em sentido [[lexico:a:analogo|análogo]], [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] afirma que o homem ama a si mesmo quando ama a sua [[lexico:n:natureza|natureza]] espiritual, não a corpórea, e que em tal sentido deve amar a si mesmo depois de [[lexico:d:deus|Deus]], mas antes de qualquer outro ser; de modo que, por ex., não pode tolerar incorrer em [[lexico:p:pecado|pecado]] para livrar o próximo do pecado (S. Th., II, II, q. 26, a. 4). Na Idade [[lexico:m:moderna|moderna]], [[lexico:m:malebranche|Malebranche]] (em Première lettre au R. P. Lamié) retomou a [[lexico:d:distincao|distinção]] entre amor próprio e amor considerando o primeiro como [[lexico:f:fonte|fonte]] de todos os desregramentos humanos e o segundo, ao contrário, como o [[lexico:p:principio|princípio]] de todos os esforços para o cumprimento do dever. Essa distinção foi retomada por Vauvenargues (De l’esprit humain, 24): "Com o amor de si mesmo pode-se procurar a própria [[lexico:f:felicidade|felicidade]] fora de si. Pode-se amar qualquer [[lexico:c:coisa|coisa]] fora de si mais do que a própria existência e não se é o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:o:objeto|objeto]] para si mesmo. O amor próprio, ao contrário, subordina tudo às próprias comodidades e ao próprio bem-estar, e tem em si mesmo o único objeto e o único fim; de modo que, enquanto as emoções que vêm do amor nos dão às [[lexico:c:coisas|coisas]], o amor próprio quer que as coisas se deem a nós e faz de si mesmo o centro de tudo". [[lexico:k:kant|Kant]], mesmo considerando o amor de si uma espécie de egoísmo (entendido, porém, no sentido mais geral de [[lexico:d:desejo|desejo]] da felicidade), distinguia-o como [[lexico:b:benevolencia|benevolência]] para consigo (ou filáucia) levada ao [[lexico:e:extremo|extremo]] pela complacência para consigo (ou arrogantia) e considerava-o suscetível de harmonizar-se com a [[lexico:l:lei-moral|lei moral]] e tornar-se "amor [[lexico:r:racional|racional]] de si" (Crít. R. Prática, livro I, cap. III, A129). As análises de [[lexico:s:scheler|Scheler]] insistiram no [[lexico:c:carater|caráter]] não-egoístico do amor de si: "Amor orientado para os valores e, por seu intermédio, para os objetos portadores deles, sem preocupar-se em [[lexico:s:saber|saber]] a quem pertencem esses valores, se a ‘mim’ ou a ‘outros’ ". (Sympathie, II, cap. 1, § 1)