===== ALIENAÇÃO ===== gr. allotriosis; correlato da doutrina estoica da auto-aceitação, [[lexico:o:oikeiosis|oikeiosis]] [[lexico:p:privacao|Privação]] de um [[lexico:d:direito|direito]] ou de uma [[lexico:q:qualidade|qualidade]]. — A alienação mental [[lexico:n:nao|não]] tem mais, atualmente, [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:p:psicologico|psicológico]], mas [[lexico:s:social|social]]. Designa a privação do sentido social, a [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] de se levar uma [[lexico:v:vida|vida]] [[lexico:n:normal|normal]]. A vida [[lexico:a:anormal|anormal]] pode [[lexico:s:ser|ser]] a do [[lexico:g:genio|gênio]] ou simplesmente a do estrangeiro que chega à nossa [[lexico:s:sociedade|sociedade]] (o lat. alienus significa simplesmente "[[lexico:o:outro|outro]], estrangeiro"). O [[lexico:t:termo|termo]] alienado no sentido clínico, ao designar um "louco", evoca apenas seu [[lexico:c:carater|caráter]] de "estrangeiro" em [[lexico:r:relacao|relação]] à [[lexico:n:normalidade|normalidade]] e aos hábitos sociais que nos são peculiares. A alienação operária, sobre a qual insistiu o [[lexico:m:marxismo|marxismo]], designa simplesmente o falo de o trabalhador não ser proprietário do [[lexico:p:produto|produto]] de seu [[lexico:t:trabalho|trabalho]]: o proletário é alienado porque é tratado como uma [[lexico:c:coisa|coisa]], como [[lexico:i:instrumento|instrumento]] de trabalho, e não está "interessado" pessoalmente num trabalho cujo produto e cujo benefício lhe escapam. (lat. alienatio, de alienare: transferir para outrem; alucinar, perturbar) 1. [[lexico:e:estado|Estado]] do [[lexico:i:individuo|indivíduo]] que não mais se pertence, que não detém o controle de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] ou que se vê [[lexico:p:privado|privado]] de seus direitos fundamentais, passando a ser considerado uma coisa. 2. Em [[lexico:h:hegel|Hegel]], [[lexico:a:acao|ação]] de se tornar outrem, seja se considerando como coisa, seja se tornando estrangeiro a si mesmo. 3. [[lexico:s:situacao|Situação]] [[lexico:e:economica|econômica]] de dependência do proletário relativamente ao capitalista, na qual o operário vende sua [[lexico:f:forca|força]] de trabalho como [[lexico:m:mercadoria|mercadoria]], tornando-se [[lexico:e:escravo|escravo]] ([[lexico:m:marx|Marx]]). Para Marx, a [[lexico:p:propriedade-privada|propriedade privada]], com a [[lexico:d:divisao-do-trabalho|divisão do trabalho]] que institui, pretende permitir ao [[lexico:h:homem|homem]] satis-fazer suas necessidades; na [[lexico:r:realidade|realidade]], ao separá-lo de seu trabalho e ao privá-lo do produto de seu trabalho, ela o leva a perder a sua [[lexico:e:essencia|essência]], projetando-a em outrem, em [[lexico:d:deus|Deus]]. A [[lexico:p:perda|perda]] da essência humana atinge o conjunto do [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:h:humano|humano]]. As alienações religiosas, políticas etc. são geradas pela alienação econômica. De [[lexico:m:modo|modo]] [[lexico:p:particular|particular]], a alienação [[lexico:p:politica|política]] é exercida pelo Estado, instrumento da [[lexico:c:classe|classe]] dominante que submete os trabalhadores a seus interesses. A alienação religiosa é aquela que impede o homem de reconhecer em si mesmo sua [[lexico:h:humanidade|humanidade]], pois ele a projeta para fora de si, num ser que se define por tudo aquilo que o indivíduo não possui: Deus; ela revela e esconde a essência do homem, transportando-a alhures, no mundo invertido da divindade ([[lexico:f:feuerbach|Feuerbach]]). 4. Os termos "alienado" e "alienação" ingressam no vocabulário filosófico graças a Hegel e a Marx. Se, em Hegel, a alienação designa o [[lexico:f:fato|fato]] de um ser, a cada etapa de seu [[lexico:d:devir|devir]], [[lexico:a:aparecer|aparecer]] como outro distinto do que era antes, em Marx, ela significa a "despossessão", segui-da da [[lexico:i:ideia|ideia]] de [[lexico:e:escravidao|escravidão]]. Assim, quando dizemos hoje que o trabalho é um instrumento de alienação na [[lexico:e:economia|economia]] capitalista, estamos reconhecendo que o operário é despossuído do fruto de seu trabalho. [[lexico:v:ver|ver]] [[lexico:f:fetichismo|fetichismo]]; [[lexico:r:reificacao|reificação]]. 5. Hoje em dia, podemos [[lexico:f:falar|falar]] de outra [[lexico:f:forma|forma]] de alienação: não se trata apenas de uma alienação do homem na [[lexico:t:tecnica|técnica]] ou pela técnica, nem tampouco somente da alienação do [[lexico:e:eu|eu]] (como acredita Marx), mas de uma alienação em relação ao [[lexico:p:proprio|próprio]] mundo: o homem não somente se perde em sua produção, mas perde seu próprio mundo. que é ocultado, esterilizado, banalizado e desencantado pela técnica, com tudo o que implica de [[lexico:s:sentimento|sentimento]] de [[lexico:a:absurdo|absurdo]], de privação de [[lexico:n:norma|norma]], de isolamento de si, de [[lexico:f:falta|falta]] de [[lexico:c:comunicacao|comunicação]] etc. (in. Alienation; fr. Alienation; al. Entfremdung; it. Alienazioné). [[lexico:e:esse|esse]] termo, que na [[lexico:l:linguagem|linguagem]] comum significa perda de [[lexico:p:posse|posse]], de um [[lexico:a:afeto|afeto]] ou dos poderes mentais, foi empregado pelos filósofos com certos significados específicos. 1. Na Idade Média, às vezes foi usado para indicar um [[lexico:g:grau|grau]] de ascensão [[lexico:m:mistica|mística]] em direção a Deus. Assim, Ricardo de S. Vítor considera a alienação como o [[lexico:t:terceiro|terceiro]] grau da elevação da [[lexico:m:mente|mente]] a Deus (depois da dilatação e do sublevação) e considera que ela consiste no [[lexico:a:abandono|abandono]] da lembrança de todas as [[lexico:c:coisas|coisas]] finitas e na [[lexico:t:transfiguracao|transfiguração]] da mente em um estado que não tem [[lexico:n:nada|nada]] mais de humano (De gratia contemplationis, V, 2). Nesse sentido, a alienação não é senão o [[lexico:e:extase|êxtase]]. 2. Esse termo foi empregado por [[lexico:r:rousseau|Rousseau]] para indicar a cessão dos direitos naturais à [[lexico:c:comunidade|comunidade]], efetuada com o [[lexico:c:contrato-social|Contrato Social]]. "As cláusulas deste contrato reduzem-se a uma só: a alienação total de cada associado, com todos os seus direitos, a toda a comunidade" (Contrato social, I, 6). 3. Hegel empregou o termo para indicar o alhear-se a [[lexico:c:consciencia|consciência]] de si mesma, pelo qual ela se considera como uma coisa. Este alhear-se é uma fase do [[lexico:p:processo|processo]] que vai da consciência à [[lexico:a:autoconsciencia|autoconsciência]]. "A alienação da auto-consciência", diz Hegel, "coloca, ela mesma, a coisalidade, pelo que essa alienação tem [[lexico:s:significado|significado]] não só [[lexico:n:negativo|negativo]], mas também [[lexico:p:positivo|positivo]], e isto não só para nós ou em si, mas também para a própria autoconsciência. Para esta, o negativo do [[lexico:o:objeto|objeto]] ou a auto-subtração deste [[lexico:u:ultimo|último]] tem significado positivo, isto é, ela mesma; de fato, nessa alienação ela coloca-se a si mesma como objeto ou, por força da inscindível [[lexico:u:unidade|unidade]] do ser-para-si, coloca o objeto como si mesma, enquanto, por outro lado, nesse [[lexico:a:ato|ato]] está contido o outro [[lexico:m:momento|momento]] do qual ela tirou e retomou em si mesma essa alienação e [[lexico:o:objetividade|objetividade]], estando, portanto, no seu ser outra coisa como tal, junto a si mesma. Este é o [[lexico:m:movimento|movimento]] da consciência que nesse movimento é a [[lexico:t:totalidade|totalidade]] dos próprios momentos" (Phänomen. des Geistes, VIII, 1). Esse [[lexico:c:conceito|conceito]] puramente especulativo foi retomado por Marx nos seus textos juvenis, para descrever a situação do operário no [[lexico:r:regime|regime]] capitalista. Segundo Marx, Hegel cometeu o [[lexico:e:erro|erro]] de confundir [[lexico:o:objetivacao|objetivação]], que é o processo pelo qual o homem se coisifica, isto é, exprime-se ou exterioriza-se na [[lexico:n:natureza|natureza]] através do trabalho, com a alienação, que é o processo pelo qual o homem se torna alheio a si, a [[lexico:p:ponto|ponto]] de não se reconhecer. Enquanto a objetivação não é um [[lexico:m:mal|mal]] ou uma condenação, por ser o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:c:caminho|caminho]] pelo qual o homem pode realizar a sua unidade com a natureza, a alienação é o dano ou a condenação maior da sociedade capitalista. A [[lexico:p:propriedade|propriedade]] privada produz a alienação do operário tanto porque cinde a relação deste com o produto do seu trabalho (que pertence ao capitalista), quanto porque o trabalho permanece [[lexico:e:exterior|exterior]] ao operário, não pertence à sua [[lexico:p:personalidade|personalidade]], "logo, no seu trabalho, ele não se afirma, mas se nega, não se sente satisfeito, mas infeliz... E somente fora do trabalho sente-se junto de si mesmo, e sente-se fora de si no trabalho". Na sociedade capitalista, o trabalho não é voluntário, mas obrigatório, pois não é satisfação de uma [[lexico:n:necessidade|necessidade]], mas só um [[lexico:m:meio|meio]] de satisfazer outras necessidades. "O trabalho exterior, o trabalho em que o homem se aliena, é um trabalho de [[lexico:s:sacrificio|sacrifício]] de si mesmo, de mortificação" (Manuscritos econômico-filosóficos, 1844, I, 22). Esse [[lexico:u:uso|uso]] do termo tornou-se corrente na [[lexico:c:cultura|cultura]] contemporânea, não só na [[lexico:d:descricao|descrição]] do trabalho operário em certas fases da sociedade capitalista, mas também a propósito da relação entre o homem e as coisas na era tecnológica, já que parece que o predomínio da técnica "aliena o homem de si mesmo" no sentido de que tende a fazer dele a engrenagem de uma [[lexico:m:maquina|máquina]] (v. técnica). Também sob esse ponto de vista [[lexico:s:sartre|Sartre]] retornou ao conceito hegeliano da alienação, entendida como "um caráter constante da objetivação, seja ela qual for": onde se entende por "objetivação" qualquer relação do homem com as coisas e com os outros homens (Critique de la raison dialectique, 1960, p. 285). [[lexico:m:marcuse|Marcuse]], por sua vez, considerou a alienação como a [[lexico:c:caracteristica|característica]] do homem e da sociedade "numa só [[lexico:d:dimensao|dimensão]]", ou seja, como a situação na qual não se distingue o [[lexico:d:dever|dever]] ser do sere, por isso, o.[[lexico:p:pensamento|pensamento]] negativo, ou a força [[lexico:c:critica|crítica]] da [[lexico:r:razao|Razão]], é esquecida ou calada pela força onipresente da [[lexico:e:estrutura|estrutura]] tecnológica da sociedade (One Dimensional [[lexico:m:man|Man]], 1964, p. 12). Na linguagem filosófico-política hoje corrente, esse termo tem os significados mais díspares, dependendo da variedade dos [[lexico:c:caracteres|caracteres]] nos quais se insiste para a [[lexico:d:definicao|definição]] do homem. Se o homem é razão autocontemplativa (como pensava Hegel), toda relação sua com um objeto qualquer é alienação Se o homem é um ser [[lexico:n:natural|natural]] e social (como pensava Marx), alienação é refugiar-se na [[lexico:c:contemplacao|contemplação]]. Se o homem é [[lexico:i:instinto|instinto]] e [[lexico:v:vontade-de-viver|vontade de viver]], alienação é qualquer [[lexico:r:repressao|repressão]] ou [[lexico:d:diminuicao|diminuição]] desse instinto e dessa [[lexico:v:vontade|vontade]]; se o homem é [[lexico:r:racionalidade|racionalidade]] operante ou ativa, alienação é entregar-se ao instinto. Se o homem é razão (entendida de qualquer modo), alienação é refugiar-se na [[lexico:f:fantasia|fantasia]]; mas, se é essencialmente [[lexico:i:imaginacao|imaginação]] e fantasia, alienação é qualquer [[lexico:d:disciplina|disciplina]] [[lexico:r:racional|racional]]. Enfim, se o indivíduo humano é uma totalidade auto-suficiente e completa, alienação é qualquer [[lexico:r:regra|regra]] ou norma imposta, de qualquer modo, à sua [[lexico:e:expressao|expressão]]. A [[lexico:e:equivocidade|equivocidade]] do conceito de alienação depende da [[lexico:p:problematicidade|problematicidade]] da [[lexico:n:nocao|noção]] de homem.